Capítulo 2 – O sabor do pecado

As cores do firmamento tendiam cada vez mais para o cinza-chumbo, prenúncio do temporal que se avizinhava. Mesmo entre os bruxos, a iminência de tempo chuvoso era bem-vinda, pois a longa estiagem na região de Londres resultou numa redução brusca da umidade e, conseqüentemente, na diminuição de seus famosos nevoeiros: sempre uma presença tradicional no mundo bruxo.

Nebulosos também eram os pensamentos de Ginny, que foi arrancada destes pela presença de sua companheira de Holyhead Harpies. Mal a amiga chegou e já foi logo dizendo que havia visto o "jovem Malfoy" num pub ali próximo, e emendou ressaltando a informação de que o conhecido playboy, após ter passado por diversos noivados, resolveu finalmente se casar.

— Ele é maravilhoso! – disse ela eufórica. – O casamento será dentro de três meses, pelo que li nas colunas sociais d'O Profeta Diário.

— É do Draco que você está falando? – indagou Ginny, duvidando que pudesse existir outro "jovem Malfoy".

— Você o conhece? Uau! Acho ele um gato! – a outra não se continha.

Ginny contou que ambos estudaram na mesma época em Hogwarts, e achou exagerado o assédio que a garota demonstrava por uma pessoa, ao seu ver, tão comum. Mas, não negou que o seu interesse foi atraído pela interessante informação de que suas noivas anteriores eram todas ruivas.

— Você teria boas chances com ele, Ginny! – provocou-lhe a amiga.

— Eu estaria completamente louca se desse ouvidos para o que você está me dizendo! – respondeu-lhe altiva. – Esquece que sou muito bem casada?

— E onde fica o pecado? – ela insistiu – Nas antigas gravuras, Eva é representada com longos cabelos vermelhos: o cabelo ruivo tem relação com o pecado, assim como as antigas letras escarlates que marcavam as adúlteras – e a jogadora ainda completou – Louca você diz? Pois eu cometeria qualquer loucura para estar com ele!

Enquanto percorriam as lojas da região atrás de ofertas tentadoras, a conversa enveredou por gestos e atitudes incomuns que uma ou outra lembrou terem sido realizadas por amantes empenhados em demonstrar seus sentimentos.

— A estória de que mais gosto é aquela em que o bruxo se deixou morder por um vampiro somente para viver a eternidade ao lado de sua amada, que também era vampira – citou a amiga da ruiva. – Acho que uma pessoa que corre um risco enorme apenas para ficar com outra não merece ser desprezada por esta – a garota observou, analisando atentamente a reação de Ginny. – Alguém já fez alguma coisa heróica por você?

— Bem, – segredou meio sem jeito – no meu primeiro ano em Hogwarts, o Harry matou um Basilisco para me salvar da Câmara Secreta.

— É mesmo? E ele fez isso quando namoravam? Foi para provar o que ele sentia por você?

— Não! Acho que ele teria feito o mesmo fosse quem fosse que estivesse na minha situação. Até mesmo se fosse o Draco... – respondeu com o olhar perdido.

Aquele assunto atiçou mais ainda os sentimentos conturbados de Ginny e, em determinado momento, ela mal ouvia as palavras da companheira, sendo enlevada pela imaginação que alçou vôo. Idealizava quais dos atos mais insanos alguém poderia fazer apenas para ficar algum tempo com ela e, por mais que tentasse evitar, o rosto deste amante misterioso tomava cada vez mais a feição de Draco.

Como seria interessante e, ao mesmo tempo, excitante uma pessoa que sempre a desprezou e à sua família cometer um ato fora das convenções apenas para estar junto dela. Sim, sua acompanhante tinha razão ao dizer que um gesto deste mereceria ser recompensado generosamente.

Mas, porque era justamente a imagem dele, após tantos anos de distância, a povoar sua imaginação? Teria alguma relação com o fato de que ele era atraído por ruivas? Ou seria por sempre ter representado o oposto a tudo o que ela procurava em alguém? Mas é verdade que os opostos se atraem, ao menos no que diz o dito popular!

Ginny apenas balançou a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos malucos e se concentrar nas compras que deveria fazer.

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Draco havia se retirado rapidamente do bar após o inusitado encontro com Trelawney. As suas palavras o haviam perturbado profundamente. Não que ele acreditasse naquelas bobagens, mas a imagem que lhe foi revelada na taça de vinho o deixou intrigado. Seria realmente um desejo oculto pela jovem Weasley que o levou a procurar aquilo que desejava em meio às herdeiras do rutilismo?

Impossível! Aquela bruxa era uma charlatã, não restava a menor dúvida, mas... qual o interesse dela em ludibriá-lo? E aquelas palavras que ela havia dito numa voz estranha, seria realmente um sinal de vidência ou algum tipo de profecia?

Mas, justo a traidorazinha do sangue? A imagem daqueles olhos o fitando no líquido mágico se fixou em sua mente, e ele percebeu que havia algum sentido em tudo aquilo afinal: ele nunca havia pensado em Ginny como o fazia agora, embora ainda a contragosto.

A chuva se iniciou em borbotões fortes, mas Draco mal percebeu a precipitação: um calor estranho consumia suas entranhas desde o contato com Trelawney. Ele suava exageradamente, e chegou a abrir os botões de sua camisa até a metade do peito, procurando algum alívio. Ansiava há tempos por um quê desconhecido a si próprio e, sem saber explicar direito, sentia que o momento de resolver o impasse interior que o consumia há tempos estava por chegar, embora ainda não pudesse saber de que forma.

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As duas jogadoras de Quadribol já haviam percorrido todas as lojas interessantes quando a chuva começou. Ginny despediu-se da amiga e correu em direção à loja de logros de seus irmãos, pois combinou de almoçar com eles. Contornou rapidamente a esquina que a levaria de volta ao Beco Diagonal com a cabeça abaixada, tentando evitar o golpe das gotas de chuva que caiam. Foi quando se chocou contra um corpo que vinha em sentido contrário e que, instintivamente, a amparou em seus braços.

Seus lábios e nariz tocaram a pele extremamente branca que se oferecia pela brecha da camisa. Em uma fração de segundo ela aspirou o odor que emanava daquele corpo: era um aroma que jamais sentiu, mas que parecia extremamente familiar e lhe entorpeceu os sentidos; pôde sentir o gosto que se impregnou em sua boca, e desejou poder saboreá-lo. Os braços que a envolviam eram firmes, mas delicados ao mesmo tempo e, naquele instante mágico, ela almejou continuar enlaçada por eles indefinidamente.

Ela sentiu aquele peito sedutor começar a arfar, enquanto as mãos trêmulas que cingiam sua cintura a apertavam levemente. Quem seria aquele que lhe despertou tantas sensações de desejo com um simples contato? Seu receio de levantar os olhos e deparar com a imagem que habitava sua mente até a pouco lhe causava medo. Não! Não poderia ser ele!

Ela desencostou o rosto daquele que a amparava, aspirando mais uma vez e profundamente o cheiro que exalava, o que lhe causou uma leve tontura. Levantou os olhos lentamente, tentada a correr a língua pelos lábios e sentir mais intensamente aquele gosto que invadia sua boca, mas se conteve mordendo compulsivamente o lábio inferior. No momento em que se deparou com os olhos acinzentados que ela tanto temeu encontrar, não viu a costumeira expressão de desprezo que sempre havia nas feições de Draco Malfoy quando estudaram juntos em Hogwarts. Havia algo diferente, havia um brilho novo e não era só o desejo que ela estava habituada a sorver nos olhares dos outros homens: ela sentiu que a passagem para a alma dele estava aberta, e havia um pedido mudo em seus olhos para que ela a invadisse.

Ambos sentiram o corpo estremecer levemente, o coração bater em descompasso, a respiração se alterar e tornar-se mais acelerada, forçando em pequenos intervalos o peito de um contra o outro.

Ele inalou o perfume natural que emanava daqueles cabelos chamejantes que haviam tocado em seu rosto, e desejou prender a respiração para poder retê-lo pelo maior tempo possível. Sua mente viajou até poucos momentos atrás e ouviu novamente as estranhas palavras que tanto o abalaram como se elas estivessem sendo ditas naquele momento:

"... e aquilo pelo que você anseia e que habita seu inconsciente será atirado contra você".

Ginny afastou-se lenta e delicadamente do corpo do outro, tentando ainda identificar qual era o sentimento que se ocultava por trás daqueles olhos quase sempre frios e distantes. A palavra que percorreu seu interior nos últimos instantes brotou naturalmente de sua boca:

— Malfoy...

— Weasley! Não olha por onde anda? – disse ele, recompondo-se e assumindo uma expressão de desdém. Sim, ali estava novamente o altivo, intocável e verdadeiro Draco Malfoy.

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A chuva se intensificou e prosseguiu noite adentro. Ginny retornou para casa toda molhada e, apesar da insistência de Kreacher para que ela se banhasse e colocasse roupas secas, preferiu se sentar no chão à frente da lareira acesa da sala, onde seu corpo secou naturalmente. Quando Harry chegou, ela ainda segurava à mão a caneca de chocolate quente que o elfo lhe preparou, e que ainda estava intacta, já completamente fria.

— Você está bem? – perguntou-lhe o marido preocupado, após o breve relato que o serviçal da casa lhe prestou enquanto ainda avançava pelo corredor de entrada.

— Harry! – ela se atirou em seu pescoço tão logo ele se ajoelhou sobre a confortável pele de animal onde ela se aninhava.

— O que aconteceu? Você está...

— Não diga nada! – ela o interrompeu com um apaixonado beijo. – Apenas me ame... eu preciso de você!

E entregou-se aos seus braços e carinhos. Harry estranhou a libido incomum da esposa, mas achou melhor não questioná-la: ainda se sentia culpado por tê-la deixado sozinha em casa em seu primeiro dia após o término da temporada de Quadribol. E tê-la em seus braços e possuí-la sempre foi um ato inquestionável, apesar se ser a primeira vez que o faziam no tapete da sala.

Ginny não estava apenas ávida pelo amor de Harry. Ela queria realmente se certificar de que era a ele que o seu coração pertencia, e pôde constatar feliz que isso era a mais pura verdade. Mas, seu corpo ainda desejava algo mais, e logo ela se viu comparando o cheiro e o gosto do marido àquele que provara por um instante tão breve naquela mesma tarde. Fechou os olhos enquanto passava as mãos por entre os cabelos do amado, que repousava sobre o seu peito e, quando imaginou que estes possuíam o dourado do Sol, seu corpo respondeu prontamente com uma onda de prazer tão forte e intensa como há muito não sentia.

Era o doce sabor do proibido a lhe alimentar os sentidos... e como era bom! Ela foi mais além, imaginando que aquela pele mais alva que a sua própria é que a roçava e que aquelas mãos trêmulas que a prenderam pela cintura há algum tempo é que deslizavam pelas partes mais íntimas de seu corpo. E, a cada um de seus devaneios, era brindada com o sumo deleite, premiando suas fantasias com o mais prazeroso dos prêmios.

Após viajar intensamente nas asas da delícia suprema, ela repousou sobre o peito do marido o rosto quente e ardendo pela vergonha de seus pensamentos, e acabou adormecendo ali mesmo: estava esgotada.

Na manhã seguinte, a bruxinha acordou em sua cama e lembrou-se vagamente de Harry a ter carregado pela escadaria até o quarto. Tateou com a mão à procura de um corpo ao seu lado e sentiu o contato físico de seu marido. Ela se inclinou sobre ele e o beijou docemente, num misto de carinho, agradecimento e pedido de perdão simultâneos. Ele abriu os olhos e lhe retribuiu a carícia, dizendo num tom malicioso:

— Foi incrível ontem... mal parecia você mesma. Mas... por que isso agora? – ele disse com um sorriso. – Cansou-se da nossa cama?

— É que, às vezes, tenho vontade de fazer alguma coisa diferente... você não? – ela perguntou, olhando no fundo dos olhos dele.

— Desde que seja com você... – ele brincou.

— Estranho você dizer isto – ela falou, distante –, pois estava pensando justamente nisto ontem. Nós tivemos a sorte de nos encontrarmos cedo. Apesar de termos namorado com outras pessoas, não foi nada sério... Você não sente falta de ... ter tido esta intimidade que temos hoje... com outra pessoa?

— Não! – respondeu resoluto – Pra mim, a minha ruivinha é mais que o suficiente, mas... e você? Gostaria de ter... ou melhor, ter tido... outra pessoa? – ele perguntou de forma um tanto hesitante.

— Hã? C-claro que n-não... m-mas... que b-bobagem! – ela respondeu ruborizada e sem o encarar.

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