CAPÍTULO DOIS:

Vestimos nossas roupas rapidamente antes que escurecesse. Quando passamos alguns metros do lago enxergo uma espécie de barreira. Estico o braço para a esquerda, impedindo que Peeta prosseguisse, com o propósito de parar e olhar melhor aquele estranho fenômeno. Então percebo que, mesmo parados, a parede gigante desliza em nossa direção. Lembra os campos de força dos Jogos, é tão extensa que nem mesmo eu consigo achar o término, tem o aspecto lilás meio transparente, e mesmo passando pelas árvores nada acontece. Nada de estranho pelo menos. Arregalo os olhos e me dou conta não do 'quê' aquilo está atrás, mas sim de 'quem': eu e Peeta. Pego sua mão e corro na direção oposta em que estávamos indo, voltando ao lago e a casa.

- Katniss, o que é aquilo? – Ouço-o gritar, o som que a parede faz é muito alto, como uma ventania.

- Eu não sei, apenas corra! – Grito de volta. Não sei o que fazer, não sei como agir, só sei que devemos correr o mais depressa possível. A perna de Peeta não permite que eu dê o meu máximo, limitando muito nossa corrida contra o tempo, literalmente, afinal a coisa está cada vez mais próxima e numa velocidade absurda.

Quando vejo que não temos mais escapatória, simplesmente paro. Peeta me olha assustado procurando uma resposta. Puxo uma flecha da aljava, encaixando-a no arco e mirando em qualquer lugar que acerte a parede, e quando elas se chocam e a flecha atravessa a barreira, simplesmente perde a força e cai no chão.

- Acho que podemos atravessar – Falo aos berros. Talvez, se não tenha afetado a flecha, não nos afetará. Peeta agarra minha mão e olha para mim do mesmo jeito que olha quando diz que me ama. Posso ler seu olhar. Então olha novamente para a coisa, que está a metros de nós. Fecho os olhos e sinto uma espécie de 'onda plasmática' passar. Um impacto muito forte, empurrando bruscamente a mim e Peeta. Sinto uma dor excruciante na cabeça, acho que bati em alguma árvore, então tudo começa a escurecer e percebo que estou perdendo a consciência.

Não sei quanto tempo se passa, perco completamente os sentidos. Mas começo a ouvir uma voz ao longe, alguém gritando o nome de uma pessoa, dizendo que irá retornar, acho que é isso... ou a batida na cabeça está me pregando peças. Estou voltando ao consciente, e ouço novamente a mesma voz.

- Jesus retornará, Jesus retornará! – Minha cabeça dói muito, faço um esforço imenso para levar a mão até ela e um esforço maior ainda para abrir os olhos. Um homem, de barba grande e branca, roupas sujas, surradas e rasgadas é a primeira coisa que consigo distinguir. Será que me trouxeram para a praça do distrito doze?

Peeta está jogado ao meu lado. Coloco a mão em seu ombro, balançando-o devagar para que ele acorde. Ele recém está abrindo os olhos. Olho a nossa volta. Há uma rua asfaltada onde passam muitos carros. Aparentemente estamos numa calçada. Começamos a levantar, muitas pessoas estão esbarrando em nós. Reparo como a maioria delas estão bem vestidas.

- Será que estamos na capital? – Pergunto a Peeta sem tirar os olhos do local.

- Mesmo estando bem arrumadas, as pessoas estão 'normais' demais para serem da capital. – Peeta está coberto de razão. Sem perucas extravagantes e nem maquiagens que mais parece um arco-íris.

Ainda muito distraída com tudo isso, acabo esbarrando bruscamente em alguém que passa com pressa. Um homem alto, que se abaixa para juntar sua maleta com muitos papéis.

- Droga, droga... Estou muito atrasado, e mais essa ainda. – ajoelho-me para ajudá-lo, e é quando percebo que conheço aquele rapaz bonito e elegantemente vestido com um terno. Mas não pode ser. E antes que eu possa dizer alguma coisa, Peeta intervém.

- Gale? Porque você está vestido assim? – Seu tom era preocupado e receoso, mas eu tinha as mesmas dúvidas. Gale olha para Peeta, reconhecendo-o e depois olha de volta pra mim.

- Katniss! Onde você esteve? Sua mãe estava preocupada com você! E por que está andando com 'ele'? – Seu tom de voz mudou quando se referiu a Peeta, como se ele fosse um perigo ou algo assim.

- Peeta e eu somos... – evito antes de continuar – bons amigos, você sabe disso. - Sinto o olhar de Peeta sem mesmo olhar para ele, o olhar de quem está chateado pela definição que dei a nós. – Minha mãe? Onde ela está? Onde estamos?

- Droga! É muito tarde e tenho uma reunião muito importante. – Ele me pega pelo braço, me puxando enquanto caminha rápido. Olho para trás e vejo Peeta, levanto a mão em um sinal para que ele venha junto. Ele revira os olhos e corre atrás de nós.

- Katniss, nós estamos em Nova Iorque e sua mãe está uma fera por ter deixado a pestinha da sua irmã sozinha em casa. – Definitivamente não estou entendendo por que Gale está agindo assim. Paramos em frente a um prédio imenso, ele me segurou com as duas mãos, uma em cada braço meu, olhou em meus olhos e começou a falar alguma coisa em relação a uma reunião importante e que eu e Peeta devemos esperá-lo aqui fora por no máximo uma hora.

- Eu não sei o que é essa tal de "Nova Iorque" Katniss, mas temos que dar o fora daqui logo. – Vociferou Peeta, estamos sentados em um banco ao lado do prédio, aguardando Gale.

Peeta estava com razão. Mas antes que tentássemos sair dali expliquei a ele que eu deveria ir atrás de Prim e minha mãe, e que pelo visto somente Gale poderia me levar até elas nesse momento. Só nos resta esperar pelo seu retorno. O avistamos vindo em nossa direção com pressa. Ele nos conduziu até uma espécie de garagem com automóveis. Aqueles eram automóveis antigos, porém bonitos. Gale apertou uma espécie de chave que fez com que um carro luxuoso apitasse e destravasse as portas.

- Esse carro é seu? – Pergunto surpresa. Eu não entendo sobre automóveis, na realidade o único que eu via antes de ir a capital era só o do prefeito.

- Claro! Já esqueceu as milhares de vezes que andamos juntos nele? – 'Não, você não tem um carro e eu nunca saí nele com você', essa era a resposta que eu deveria ter dado, mas preferi olhar para Peeta e dizer "Isso não é verdade" movendo apenas os lábios sem que o som saísse. Acho que ele não acreditou em mim só pelo modo como bateu a porta quando entramos no veículo. Gale dirigia rápido, com astúcia e destreza, hora ou outra ele metia a mão no volante, o que fazia que o carro emitisse um ruído incomodo.

As expressões no rosto de Peeta olhando sobre a janela me lembra da primeira vez em que chegamos à capital de trem: Deslumbrado. Não só ele, era impossível não ficar boquiaberto com tamanha grandeza, uma cidade linda, cheia de luzes e pessoas bonitas – Bem diferente da extravagante Capital. Definitivamente não estávamos na capital, e em nenhum distrito. Aposto que Snow está por trás disso, enquanto estamos desacordados eles brincam com nossos cérebros implantando esse sonho maluco – mesmo parecendo tudo muito real. Onde poderíamos estar então? Para Gale era tudo tão normal, porque somente Peeta e eu lembrávamos de Panem? Certificarei-me que minha mãe e Prim estejam bem e assim que encontrá-las vamos todos fugir para qualquer lugar, já que esse me cheira a armadilha. Não poderia esperar menos de Snow, já que me odeia tanto.

Agora estava anoitecendo, acho que entre o grande congestionamento e essa confusão toda acabei pegando no sono. Sinto uma mão balançar-me.

- Katniss, acorda! – Abro os olhos, visão meio embaçada, mas voltando ao normal. Gale estava perto demais, fazendo com que eu me assustasse. Finalmente chegamos. Peeta e eu descemos do carro em frente ao prédio.

- Onde estamos? – Pergunto confusa.

- Na sua casa Katniss. – Responde Gale. Fico surpresa olhando o prédio imenso, com muitos andares, algumas luzes. Nem todos estavam iluminados.

- Como eu poderia morar nesse prédio imenso? – Digo surpresa enquanto olho para cima examinando o prédio boquiaberto.

- Não seja boba Katniss. Esta me deixando preocupado já. Você mora no 12° andar, apartamento 124! Tem certeza de que está bem? – Ele me olha preocupado por entre a janela do carro, continuava ao volante.

- Estou sim. Obrigado pela carona. – Digo a ele mentindo. Gale apenas concorda com um balançar de cabeça e vai embora. Eu não estou bem, estou confusa, com fome e talvez medo, medo do que possa encontrar na minha 'casa'. Espero que Prim e minha mãe estejam bem.