Avassaladores
II Capítulo
***
— Ikki? Ikki é você? — ele não conseguia enxergar nada, tudo era escuro, muito escuro e frio... um frio glacial.
— Shaka! Shaka, meu amor, onde você está? — ouviu a voz de Ikki, mas estava tão distante e ele não conseguia se mover. Estava preso, paralisado por alguma força e de repente, algo envolveu seu corpo...
Uma força aterradora começou a esmagar-lhe os ossos, ele lutava e brigava para se libertar... mas estava fraco, muito fraco... A voz de Ikki se tornava cada vez mais distante e então... A morte...
***
— Ei, acorde, eu tenho que sair... — Fênix chamou o amante enquanto beijava-lhe o ombro que o lençol desnudava e afagava-lhe os cabelos com carinho.
Shaka acordou sobressaltado e assustou-se com a penumbra do quarto. Segurou o braço de Ikki que permanecia sentado na cama o encarando confuso.
— O que foi, loiro? Não quer que eu vá?
— Tive um sonho horrível... — ele abraçou as costas do leonino — Sonhei que estava preso, era muito escuro e você me procurava... Você me chamava, mas não conseguia me achar; eu ouvia você, mas não podia responder, era o Hades...
O indiano não conseguiu evitar as lágrimas; aquele sonho lhe levou dolorosas lembranças. Ikki ficou estático, estarrecido, pois, nunca vira lágrimas ou rompantes sentimentais da parte dele. Virou-se por instinto e o abraçou, enquanto o escutava soluçar. Aquilo era tão raro, que, muitas vezes, ele o acusou de insensível; o indiano era a imagem da calma e controle.
— Ei, loiro, calma, foi só um sonho, o que há com você? — perguntou sem jeito. Em todos os anos de relacionamento, nunca presenciara o homem mais próximo de Deus chorar; aquilo o desconsertava; o que acontecia com o sempre tranqüilo e sábio Shaka de Virgem?
— Desculpe-me... — ele pediu envergonhado se afastando do moreno — Estou sendo um idiota...
— Shaka, isso tudo é só por causa do sonho ou algo mais? — seus olhos escuros examinaram o rosto do indiano a procura de algum sinal, mas não enxergou nada além de uma tristeza resignada.
— Ikki... eu... — Hesitou. Sempre hesitava quando a questão eram seus sentimentos. Não sabia mais como pensar e nem como agir com o amante. Sua cabeça nunca esteve tão confusa.
O leonino continuava olhando-o com expressão preocupada.
— Abrace-me Ikki...— pediu e se entregou ao pranto, voltando para os braços do cavaleiro de bronze e apertando-o com mais força.
— Claro que sim, loiro, calma, estou aqui... — disse sentindo a angústia que se apossava do indiano. Não queria que ele percebesse mais aquele sonho também o perturbava e mexia com lembranças dolorosas demais. Ficaram um bom tempo apenas abraçados; Ikki somente ouvindo os soluços de Shaka sem nada dizer. Até que um murmúrio o retirou daquele universo.
— Eu te amo...
Aquelas palavras gelaram o leonino. Aquelas palavras que já foram tudo que almejara ouvir; as palavras antes tão frequentes e que agora eram proibidas. Tudo mudara, o passado se foi; sabia que era só dor o que o amor levava e havia coisas que o indiano não conhecia e não poderia saber jamais...
Ele não podia amá-lo, não podia de forma alguma... Prometeu a si mesmo que não o deixaria se arrastar para o abismo que era Ikki de Fênix; sim, ele era o abismo em que o indiano se afundava; um desvio; um passo em falso; um erro. Não deixaria, não o perderia e, por isso mesmo, precisava esconder todo o amor que sentia por ele.
Afastou-se tão abruptamente que Shaka acabou caindo na cama.
— Ikki...? — o encarou sem entender, começando a limpar as lágrimas. A torrente emocional foi mais forte que ele e agora estava envergonhado, pela primeira vez se sentindo fraco, pela primeira vez precisando de apoio.
Ikki o olhava, tentando disfarçar a vontade de abraçá-lo. Os temperantes e sábios olhos azuis estavam pela primeira vez, apavorados, precisando de apoio e ele não poderia dar. Seus olhos marejaram e ele crispou o rosto para que aquilo parecesse raiva; precisava que parecesse raiva...
"Zeus! Permita que ele veja raiva em meus olhos!" gritou intimamente, desviando o olhar para longe do loiro, ajoelhado na cama.
— Nunca mais repita isso, Shaka! — gritou visivelmente perturbado e o indiano ficou confuso sem saber o que tinha feito de tão errado.
— Ikki, eu...
— Você prometeu não falar mais essas coisas! Sabe muito bem que eu não aceito isso, não aceito e não quero que me diga ou eu nunca mais apareço aqui! Lembra do que combinamos? Lembra? Você jurou que... que não diria mais isso!
O virginiano baixou a cabeça, incapaz de deter as lágrimas, se sentindo fraco e humilhado; apenas sussurrou:
— Sim, eu prometi...me desculpe...
— Nunca mais repita isso...! — o rosto de Ikki tremia e ele se esforçava para continuar sendo grosseiro, porque cada lágrima que descia pelo rosto do loiro, era uma agulha se cravando em seu coração e destroçava sua alma.
— Acho melhor você ir agora... — sussurrou Shaka, tentou ser frio mais sua fraca voz traiu toda a dor e mágoa que sentia.
Ikki sentiu o coração doer. Sabia que o magoava, sempre magoava e achava aquilo necessário; era necessário que Shaka o esquecesse, era necessário que ele matasse aquele amor. Embora, não conseguisse manter-se longe dele por muito tempo, por mais que tentasse, sempre acabava voltando, maldita fraqueza!
Não disse nada, deu-lhe as costas e fugiu. Apoiou-se numa das colunas que cercavam a escadaria das doze casas e escondeu o rosto entre as mãos para abafar um soluço. Não poderia nunca demonstrar seu amor e, como o amava! Já estavam naquela história há um ano, sem que tivesse coragem de confessar o que sentia, lutando para manter-se distante e mantê-lo distante, mesmo que isso o matasse lentamente, mesmo que isso esfacelasse seu coração como agora.
"Ah, Shaka eu tenho tanto medo... tanto do medo do que sinto por você e de vê-lo partir... eu tenho tanto medo de fazê-lo sofrer mais do que já faço com minhas palavras e atitudes rudes. Eu preciso ter forças para deixá-lo. Eu preciso deixá-lo ser feliz agora que você pode..."
Desceu as escadarias apressado; iria para a vila, beberia a noite inteira e tentaria esquecer aqueles olhos tristes que tanto amava, precisava deixá-lo sozinho, talvez, precisasse deixar de voltar. Precisava partir para sempre.
***
Shaka lavou o rosto para livrar-se das lágrimas e da sensação de derrota que sentia. Por que teve que dizer aquilo? Por que se humilhar mais, por alguém que não o queria?
Sentou-se na cama tentando compreender como aquilo aconteceu; como deixou-se sobrepujar por aquele sentimento intenso, perturbador e não correspondido.
— Ikki... — sussurrou pra si e sentiu o cosmo que se aproximava. Continuou estático enquanto Mu se aproximava da sua cama.
O ariano que vestia a sua armadura ajoelhou-se próximo ao loiro que estava vestido num roupão azul.
— Oi... — sorriu Mu com carinho — Vejo que ele já passou por aqui... É sempre assim, basta que ele chegue para que encontre seu rosto coberto de lágrimas...
— O que posso fazer, Mu? É mais forte que eu... — confessou baixando a cabeça — Embora eu tenha plena consciência de que não deveria ser... Zeus! Não deveria ser mesmo...
O ariano sentou-se na cama ao lado do loiro e puxou o amigo para que descansasse a cabeça em seu peito.
— Chore, Shaka, chorar faz bem e você sabe que pode confiar em mim...
— Estou cansado, Mu, muito cansado... preciso descansar...
O ariano engoliu em seco.
— Shaka, o que você acha de sairmos um pouco?
Virgem ergueu a cabeça para mirar os olhos verdes do amigo.
— Sair? Para onde?
— Agora podemos sair do santuário, sabe que temos essa liberdade. Podemos, de vez em quando, fingir que somos normais.
O loiro balançou a cabeça e se afastou dele.
— Mu, tudo que eu fizer me lembrará do Ikki, porque isso que você chama de vida normal, eu só conheci com ele...
— Então, está na hora de ter outras lembranças.
— Eu não sei...
— Precisa tentar.
O indiano assentiu com a cabeça, aceitando. Quem sabe aquilo não melhorasse seu humor? Com certeza quando retornasse ele já teria partido do santuário, pois, era sempre o que acontecia após as discussões dos dois. Precisava esquecê-lo, precisava livra-se daquele sentimento. Estava realmente cansado do garoto problemático que só o magoava e; ainda assim, sabia que a culpa era sua, por se abrir e se entregar tão profundamente aos seus sentimentos.
— Tudo bem...
— Então eu comunicarei a Athena e volto aqui, esteja pronto, certo?
— Mu afagou os cabelos do amigo e depois lhe beijou a testa.
— Certo, vou me trocar... — assentiu Shaka sem nenhum ânimo, o sonho, as palavras, Ikki; tudo rolando em sua cabeça.
"Zeus, o que aconteceu há um ano atrás?"
***
O bar com música ao vivo era agradável e os dois cavaleiros conversavam tranquilamente. A crise já havia passado e Shaka se sentia mais tranqüilo; Mu era um bom companheiro e era sempre interessante as conversas que tinham, eram amigos e ainda assim, vez por outra, amantes. Mas, a palavra amigo estava sempre em primeiro lugar na relação dos dois, mesmo porque, o amigo também possuía uma complicada relação.
— Sente-se melhor? — perguntou Mu
— Um pouco, estou mais calmo... — suspirou — Sabe o mais estranho em tudo isso, meu amigo? Eu sei que ele me ama, eu posso sentir...
— Ah, Shaka, será que você não está se enganando, querendo acreditar nisso?
— Já me fiz a mesma indagação, Mu... — disse calmamente, provando o suco de fruta — Eu conheço minha alma demais para cometer um erro tão simplório, não acha?
— Tens razão...
— Mas, eu não consigo entender o medo dele, tudo aconteceu depois que voltamos da morte, o que será que aconteceu ao Ikki enquanto eu dormia?
Mu franziu a testa quase unindo os dois pontos que tinha em cima dos olhos.
— Lembro-me que na época que Athena nos trouxe de volta; você demorou a acordar mais que os outros, a deusa não sabia por que, ficamos preocupados. Lembro-me que ele não saiu de perto de sua cama e que estava muito abatido e ainda mais arredio, calado como nunca. E foi a partir daí que notei aquele olhar desesperado que ele deixa transparecer de vez em quando...
— Queria entender... — murmurou o indiano pensativo e Mu segurou-lhe a mão.
— Vamos parar de falar do Ikki um pouco? Que tal esquecermos um pouco nossos fantasmas?
Ele fez um carinho no rosto do loiro que se inclinou sobre a mesa, para ficar mais próximo dele. Sorriu:
— Ah, Mu, o que faria sem você, meu amigo?
— Talvez, se elevasse mais, eu só o aconselho a fazer coisa errada... – riu o ariano e Shaka também, mas seu sorriso se desfez e seu rosto ficou pálido de repente.
Áries se virou instintivamente para onde o amigo olhava e encontrou os olhos furiosos de Ikki, fixo nele. Ele estava parado na entrada do bar e parecia incerto se entrava ou não. Shaka percebeu mesmo a distância que ele havia bebido e não fora pouco e fitou Mu, com uma súplica no olhar.
O tibetano sorriu e balançou a cabeça:
— Voltarei sozinho para o santuário, é isso?
— Mu... eu não sei o que dizer... — sussurrou envergonhado, mas sendo incapaz de resistir. Desceu os degraus que o levava até a rua, vendo Ikki se afastar a passos rápidos e entrar numa rua escura.
— Ikki! — chamou e correu até ele.
Ikki se apoiou numa parede, exausto e infeliz, queimando de ciúmes e com vontade de explodir Mu e sua maldita mão que estavam em cima de Shaka. E o pior de tudo, o virginiano o seguira, deixara o namorado para segui-lo, demonstrando claramente o que sentia. Pôs a mão na boca para abafar um soluço enquanto as lágrimas molhavam seu rosto. Deveria estar muito bêbado para agir daquela forma.
— Ikki! — ele parou a sua frente, olhando os olhos marejados do garoto e sentindo toda a sua dor. Aquilo doía seu peito também, e deixava seus pensamentos ainda mais embaralhados.
— Shaka, por favor, volte para o Mu! — pediu o coração palpitando e doendo como nunca — Eu estou cansado, estou bêbado... eu sou indigno de você!
O indiano sorriu e o abraçou. Ele tentou resistir o máximo que pode, estava fragilizado e isso aumentava e muito a necessidade que tinha dele. Afundou as mãos nos cabelos sedosos e escondeu o rosto em seu ombro, beijando-lhe a pele protegida pela fina bata azul que Shaka vestia.
— Ikki, eu não posso deixá-lo nesse estado. — falou o indiano — Gostaria, mas não consigo...
— Ah, Shaka... eu quero tanto você... — suas palavras foram um lamento desesperado, e suas mãos passeavam sôfregas pelo corpo do cavaleiro de virgem. Seus lábios acharam os dele para um beijo voraz, as línguas se tragando; o loiro podia sentir o gosto ácido do uísque que ele consumira e talvez outra coisa, mas sua mente não conseguia raciocinar direito, aliás, tudo era envolvido naquela bruma azulada quando estava próximo dele...
— Ikki! — Soltou uma exclamação de surpresa ao sentir as mãos dele invadirem sua calça e cueca e se cravarem em suas nádegas; tentou afastá-lo, mas com uma das mãos o leonino o segurou fortemente pela cintura, enquanto a outra permanecia em sua bunda.
— Eu preciso de você, Shaka... preciso agora... por favor...
Seus olhos se encontraram e o moreno deslizou os lábios pelo pescoço branco do virginiano. Shaka suspirou entre o desejo e o dever, então, deixou-se levar por aquele mar de sensações e sentimentos que era Ikki de Fênix...
Fizeram amor naquele beco escuro; avassaladores, desesperados, apaixonados. Mãos, bocas, pernas, dedos... Tudo, um único ser, um único instante. Loucura, tesão...
Depois, escorregaram ofegantes até o chão, Shaka entre as pernas do moreno e ele segurando-lhe a cintura e apoiando a cabeça em suas costas.
— Ikki... não me peça mais isso, seria uma vergonha que dois cavaleiros fossem presos por atentado violento ao pudor...
— Shaka... — ele começou e sua voz estava tão triste que o indiano engoliu em seco.
— Já sei, você vai embora, não é? Eu já lhe disse várias vezes, que o amor é uma dádiva e não uma prisão, pode ir quando quiser e...
— Não é nada disso! Porra! Você sempre acha que sabe o que eu penso e o que sinto! Merda de loiro arrogante! — explodiu o leonino e Shaka engoliu novamente, fechando os olhos, resignado.
— Então o que seria? — perguntou ajeitando a roupa, subindo a calça e abotoando a camisa, já esperando por algo que não suportasse ouvir.
— Eu não quero mais, vê-lo com o Mu; não quero mais que ele toque em você, não quero que nem mesmo vocês respirem o mesmo ar!
— Hum... exigências... — ironizou o louro — E o que eu ganho em troca de satisfazer seus caprichos, Ikki de Fênix? Mais seis meses de distância e uma visitinha a Asgard?
Ikki deixou escapar um suspiro triste; se ao menos pudesse fazê-lo entender que todos os amantes que possuía, eram tentativas frustradas de esquecê-lo; mas não, ele não poderia dizer isso, se dissesse, Shaka tentaria descobrir por que ele queria isso, se o amava... não, precisava esconder, omitir e preservá-lo, se preservar.
— Loiro, você sabe que não posso ficar, mas... — outro suspiro — Eu não suporto vê-los juntos, eu enlouqueço de ciúmes... Ah, Shaka, por Zeus! Ao menos quando eu estiver aqui, se mantenha longe desse cara!
— Eu não consigo entendê-lo, Ikki de Fênix...
— Não tente, nem eu mesmo me entendo... a única coisa que sei é que quero você...
Shaka balançou a cabeça e sorriu com ironia.
— Você me quer? — perguntou — Me quer, Ikki? A questão pra você é só essa?
— Shaka...
— Chega disso! Estou cansado, parece que o que você quer mesmo é me enlouquecer! — disse irritado — Eu não consigo entender por que tudo mudou, Ikki! Por que de uma hora pra outra, você decidiu que me magoar é sua melhor diversão!
— Zeus! Não é isso... — sua voz saiu mais fraca do que queria e o leonino tentou engolir a angústia que sentia.
— Não é? — Shaka suspirou e se virou para olhá-lo — Me diz quando você deixou de me amar? Quando eu deixei de ser quem era pra você?!
— Shaka, eu nunca... — resignou-se, não podia, não devia...
— Por Buddha! — o loiro riu — Não é possível que eu seja tão bom de cama assim, Fênix! Se quer só sexo, sei que isso não é problema pra você...
Não terminou a frase, porque o moreno puxou-lhe o rosto, segurando-lhe entra as mãos e o olhou de forma tão desesperada que o coração do indiano doeu; ele viu tanta dor e tanto desespero em seus olhos, que emudeceu.
— Ah, Shaka... estou sempre tirando sua paz, não é? Sempre atrapalhando sua vida... – as lágrimas umedeceram os olhos escuros de Ikki, tornando-os quase negros.
— Ikki, por quê? Por Buddha! Por mais que eu me aprofunde na obtenção da sabedoria, por mais que eu consiga entender a alma do mundo, a sua pra mim, ainda é uma incógnita...
— Eu queria ter forças para ir embora pra sempre, deixá-lo em paz, mas... eu não consigo... sou fraco, loiro, fraco demais...
Shaka ficou estático, não reconhecia o homem a sua frente; o sempre seguro, forte, arrogante e presunçoso cavaleiro de Fênix.
Sem saber que reação e rumo tomar, Shaka fugiu de seus braços, ergueu-se e partiria sem nada dizer, mas foi puxado de volta, caindo sentado no colo do moreno que o apertou fortemente pela cintura.
— Me perdoe...
— Tenho que voltar ao Santuário...
— Pra cama do Mu? Ele o espera?
Sua voz não demonstrava raiva, mas muita dor e mágoa e mais uma vez ele se censurou por ser tão transparente; sim, nunca conseguia esconder seus sentimentos de Shaka, por isso, tinha que magoá-lo, porque tinha certeza que o indiano sabia do seu amor e só a mágoa poderia evitar que ele investigasse os motivos e quisesse permanecer ao seu lado.
— Preciso ir... — foi a única coisa que ele falou ao erguer-se e afastar-se pelo corredor estreito e escuro.
— Loiro...
— Acho mesmo que deve ir embora, Fênix, para sempre... — ele disse sem se virar, continuando o seu caminho.
Ikki permaneceu no chão, observando ele se afastar, uma fina chuva começou a cair levando frio às ruas quentes de Atenas, mas ele permanecia no mesmo lugar pedindo para que a noite o engolisse ou o tornasse mais forte.
***
Já Shaka, voltou para o santuário, totalmente confuso; precisava meditar, não agüentava mais aquela angústia, aquela dor desnecessária, sim, desnecessária porque ambos se queriam e muito; contudo, não forçaria nada, era daquela forma que Ikki queria; desejo e não amor, o que importava se ele queria mais? Não deveria se importar, relacionamentos e romances eram um complemento em sua vida, não a prioridade, a sua prioridade ele conhecia bem, e embora o coração doesse, o virginiano não era homem de ficar chorando pelos cantos. Sim, às vezes, não resistia e chorava, ele era humano e amar pode ser cruel, e ele amava Ikki; e ele sentia falta da época em que tudo era perfeito entre os dois; e ele precisava saber o porquê de tudo ter mudado tão repentinamente e sem explicação. Precisava de respostas, mas o leonino nunca esteve disposto a dar-las. Sua cabeça já havia procurado saber por que, já havia chorado, pedido, exigido, usado a força, tudo que podia, mas Ikki parecia um sepulcro onde imperava o silêncio. Então chegou o momento da conformidade, ele preferiu aceitar o que não poderia ser mudado, embora desde então o sofrimento tenha sido parte constante da sua vida.
Entrou no templo de Áries e encontrou o amigo na penumbra, olhando tristemente pela janela.
— Shaka... pensei que dessa vez, alguma coisa mudaria... — disse com tristeza.
O loiro nada respondeu, ajoelhou-se ao lado da cadeira do tibetano e seus olhos se encontraram, ele então pousou a cabeça nas pernas de Mu, que sorriu e afagou-lhe os cabelos.
Shaka fechou os olhos num suspiro.
— Preciso de carinho, amigo...
— Todos precisam... — disse continuando o afago.
***
Ikki voltou para o santuário já era dia. Decidira partir para algum lugar que o mantivesse bem longe de Shaka, que o fizesse resistir a ele. Sabia que não cumprira o que prometeu, sabia que se afundava mais e mais. Afundava-se naquela paixão enlouquecida. Era fraco, ele não entendia, não podia... Zeus! Shaka poderia pagar o preço da sua fraqueza... sua traição...
Sua cabeça começou a doer mais forte e ele cambaleou, subindo as escadas e chegando ao primeiro templo, onde Mu restaurava uma armadura.
- Bom dia, Fênix... – o tibetano disse calmamente.
- Bom dia, eu preciso passar...
- Ele não está em casa. Saiu cedo, deve estar andando pelo santuário.
Ikki assentiu com a cabeça, não estava com o mínimo de vontade de conversar, muito menos com ele, o responsável por todo o ciúme que o dominava. Subiu para o templo de virgem; precisava dormir, dormir era a única forma de esquecer a dor, toda a dor que sentia por magoar a pessoa que amava, a pessoa que abrira mão de seus mais altos valores, de suas crenças mais profundas por amor a ele.
Jogou-se na cama, a cama dele... ainda possuía seu cheiro, seu perfume de lavanda e sândalo... Abraçou-se ao travesseiro, deixando que as lágrimas banhassem-lhe a alma machucada. Desabou num choro convulsivo...
Quando Shaka retornou ao seu templo, encontrou-o vazio, mas sua cama ainda estava quente e seu travesseiro molhado por lágrimas. Sabia que ele havia partido mais uma vez. Ele nunca deixava pistas, mas seu coração sempre sabia quando ele estava perto ou longe.
"Bem, cavaleiro de virgem, você terá mais alguns meses de pranto e saudade, prepare-se..."
Pensou resignado e resolveu meditar para acalmar sua alma.
Continua...
N/A: Durante muito tempo eu pensei se deveria ou não escrever a cena da "rua escura", simplesmente porque, a julguei OOC, pois, nunca imaginei o Shaka e o Ikki fazendo algo assim (O Ikki pelo menos não com o Shaka que em minha opinião ele não só ama, venera e respeita ao extremo, XD!). Contudo, insistir nela para dar uma mostra do grau da paixão, como diz o título "Avassaladora" que eles sentem e não me arrependi. Esse capítulo foi mais uma continuação do outro, apesar de seguir um ritmo não tão "belo" quanto o primeiro.
Sim, sei que os outros dois casais ainda não apareceram, mas não demoro a descrever o drama de ambos também. Como disse, essa fic será bem... lenta... como gosto! XD!
Ah, gente, não fiquem com vontade de matar meu frango flambado, hehehehe. Ah, eu disse uma vez num disclaimer o seguinte: "Saint Seiya não me pertence, porque se me pertencesse, o Mu nunca, mas nunca mesmo, tocaria num fio de cabelo do Shaka!" e olha o que eu fiz nessa fic, vocês juram que eu fiz???? Eles são amigos e amantes??? Puts! GENTE, NUNCA DIGA NUNCA KKKKK. Mas, a verdade é que nos últimos tempos, comecei a simpatizar mais com o carneiro, fazer o quê? Culpa de Amamiya Fã e da Ane L. Morton Hehehehe (coradíssima).
Certo, no próximo capítulo, narrarei como as histórias começaram, mas, ainda não revelarei o que levou ao fim de caso.
Beijos a todos que estão acompanhando em especial os que deixaram um review de incentivo.
Liliuapolonio, Mefram_Maru, Luanna Tsuki, Arcueid, medeia, Hinamori, sasulove, Danieru, Gabby_nanashi, Amaterasu Sonne, Ephemerom, K. Langley, Kojican, Amamiya fã.
Valeu mesmo pelos reviews de incentivo. Aos que gostam do casal, há outra fic recentemente postada por mim, "Atados pelo destino" essa é pra quem gosta de algo mais Canon, pois, trás muitas referências do anime e do mangá. (tá aí a merchandising XD!)
Abraços a todos!
Sion Neblina
