CAPÍTULO I

— Quietinha, Anna! Lembre-se, só podemos cantar em casa e não durante a apresentação do balé! — Bella Swan advertiu a filha de seis anos de idade, sentada em seu colo, cantarolando a letra de A Valsa das Flores.

Era uma vesperal de sábado e a apresentação do Quebra-Nozes, de Tchaikovsky, pelo Corpo de Balé de St. Louis, estava sendo dirigida ao público infantil. Mesmo assim, Bella notou que a maioria da platéia era composta por adultos e estes se aborreciam com o barulho das crianças.

— Desculpe, mamãe. Mas quando o príncipe vai aparecer? — Anna quis saber, e sua voz melodiosa soou mais alto que o normal.

Incomodada com a conversa, uma roliça senhora de meia-idade, sentada na poltrona ao lado, olhou para mãe e filha com expressão reprovadora.

Antes de ser novamente advertida, Anna colocou o dedo indicador sobre os próprios lábios, depois sorriu daquela jeito especial: um misto paradoxal de inocência e traquinagem. O coração de Bella Swan pulsou, emocionado, ao ritmo do amor maternal.

Na penumbra do teatro, Bella observou o brilho de empolgação nos olhos verdes da filha. Embora faltasse apenas oito dias para o Natal, a única coisa que interessava a pequenina Anna, desde que soubera da apresentação do Balé, era o grande dia em que veria, pessoalmente, o belo príncipe do Quebra-Nozes.

Por algum motivo inexplicável, a menina tinha desenvolvido interesse especial pelo príncipe do conto mágico. Agora, por exemplo, segurava um livro de história junto ao corpo, aberto exatamente na página onde havia uma ilustração do príncipe Marzipã.

Bella sorriu levemente, ao pensar que o velho livro, trazido da Rússia há muitos anos, acompanhava sua filha onde quer que ela fosse.

Embora o texto fosse em russo e Anna não entendesse uma palavra do que estava escrito, a partir do instante em que divisara o belo príncipe, retratado com grandes olhos verdes, cabelos negros e vestindo uniforme de gala, a menina notara a semelhança entre a ilustração e suas próprias feições.

No entanto, o que mais aborrecia Bella era o fato de Anna ter atribuído ao príncipe do Quebra-Nozes todas as qualidades do pai que ela nunca chegou a conhecer.

"O pior é que Edward realmente se parece com um príncipe!", ponderou Bella, recordando-se do homem que, há quase sete anos, a levara às raias da paixão, enlouquecendo-a a tal ponto que a fizera esquecer-se do resto do mundo. Não era fácil esquecer Edward Cullen! E Anna era a imagem em miniatura de seu belo e charmoso pai russo...

— Olhe, mamãe!

A voz melodiosa da menina chamou sua atenção para os dançarinos-cossacos, marchando como verdadeiros soldados sob uma cascata de neve artificial.

Deslumbrada com o belo cenário, Bella sorriu levemente para a filha, que, empolgada, colocou-se em pé.

Mais uma vez Anna abstraiu-se e, fascinada, passou a cantarolar a melodia que aprendera com o disquinho de músicas clássicas, ganho no Natal anterior.

— Silêncio! — repreendeu-a a gorda senhora de meia-idade na poltrona ao lado.

Envergonhada, Bella puxou a filha para junto de si c cochichou em seu ouvido:

— Não deve cantar, Anna, por favor! Está incomodando as outras pessoas. Se fizer isto de novo iremos para casa!

— Oh, não, mamãe! — exclamou a menina, com lágrimas nos olhos. — Eu ainda nem vi o príncipe! Prometo ser boazinha!

— Você sempre promete, mas acaba esquecendo.

— Desta vez não esquecerei! — Anna garantiu. Suas mãozinhas seguraram o queixo da mãe, forçando-a a encará-la a fim de provar que estava falando a verdade.

— Está bem, mas então terá de ficar em meu colo, combinado?

— Combinado! — Envolvendo a mãe com um abraço, Anna beijou-lhe a face esquerda antes de se ajeitar no colo para assistir ao espetáculo.

Durante longo tempo, Anna cumpriu o prometido e teve comportamento exemplar. No entanto, assim que a música tornou-se mais alta e retumbante, e um novo grupo de dançarinos entrou em cena, ela não se conteve.

— E o príncipe Marzipã, mamãe, veja! — emitiu um gritinho extasiado, e apontou para o dançarino que conduzia a marcha dos soldados.

Bella deu um sorriso encorajador para a filha ao perceber que, felizmente, as outras crianças também se levantavam e expressavam prazer e interesse pelo herói da história.

"Pelo menos assim ninguém poderá reclamar de Anna!", tranqüilizou-se, ao observar a expressão embevecida que pairava no rostinho delicado, enquanto a menina acompanhava a luta do príncipe Marzipã contra o rei Rato, e depois a grande vitória de seu herói.

No momento em que o dançarino que representava o príncipe deixou o palco, Anna voltou a se acomodar no colo de Bella.

— Mamãe, preciso ir naquele lugar... — sussurrou, tapando a boca com a mãozinha em forma de concha.

Bella não pôde deixar de sorrir. Ensinara a garota que sempre que precisasse ir ao toalete, pedisse com discrição. Agora, a sua maneira, Anna tentava seguir o conselho da mãe.

Segurando sua mãozinha, conduziu a filha para o toalete feminino, próximo a entrada principal do teatro.

Anna ainda falava do príncipe Marzipã, quando voltaram a emergir no saguão, poucos minutos mais tarde.

— Será que posso ver o príncipe depois do espetáculo, mamãe? — indagou a garota, e seus imensos olhos verdes brilharam diante da perspectiva.

— Acho que não, querida — Bella respondeu em tom carinhoso.

— Mas a senhora Beezley disse que eu poderia!

— Bem, não é tão fácil assim, filha! — afirmou ela, desejando que Anna não levasse tão ao pé da letra as palavras de sua professora.

— Nossa linda filha parece estar muito interessada no espetáculo! — soou uma voz profunda e máscula, junto às costas de Bella.

Ela franziu o cenho, rezando para que tal comentário fosse endereçado a outra pessoa.

— Será que já se esqueceu do tempo que passou em São Petersburgo, mayah labof? — insistiu a voz de barítono, denunciando cinismo e incredulidade.

Bella sentiu o coração disparar, ao reconhecer as palavras russas, cujo significado era "minha querida".

"Edward!", pensou, lembrando-se de imediato de um homem moreno e viril, de olhos tão verdes e sagazes quanto os de Anna... "Não, não pode ser!"

Em estado de choque, arregalou os olhos e, embora fosse uma tarde particularmente fria, começou a suar copiosamente. Estava nervosa, apavorada, perplexa, e muito, muito mais...

Como Edward Cullen poderia estar ali, em um teatro no centro de St. Louis, quando tinha certeza de que ele ocupava um cargo de confiança no governo russo, há milhares e milhares de quilômetros dos Estados Unidos!

"Oh, Deus, o que faço agora!", Bella se perguntou, sem ousar encarar o homem com quem há sete anos havia feito amor e concebido a pequena e encantadora Anna.

Alguém já afirmou que um século passa num segundo quando se começa a pensar, Bella sentiu na carne que o provérbio era mais que verdadeiro.

Antes que ela ou o próprio Edward tomassem qualquer atitude, recordou-se de como tinha se apaixonado perdidamente pelo belo e másculo agente da KGB (polícia política e agência de contra-espionagem da ex-URSS) e das longas e maravilhosas noites de amor numa cabana perdida nos bosques da Rússia.

"Como Edward sabe a respeito de Anna!", interrogou a si mesma, voltando se, em camara lenta, para se defrontar com o rosto de traços angulosos.

— Sei de tudo Bella — Edward sussurrou, parecendo ler os pensamentos dela. — Agora que estou aqui, acho que podemos contar a verdade a Anna.

O inglês de Edward era perfeito. Quem o ouvisse falar acreditaria piamente que se tratava de um genuíno cidadão americano.

— Nem pense em fugir Bella! — advertiu-a, ao perceber o brilho apreensivo nos olhos castanho-dourados da mulher.

Em pânico, Bella só conseguia supor que se Edward Cullen se dera ao trabalho de vir de tão longe apenas para conhecer a filha, então fatalmente faria de tudo para roubar-lhe Anna e levá-la para a terra das estepes e pradarias.

Num ímpeto, Bella agarrou as mãos da garota e, girando nos calcanhares, puxou-a em direção à porta de saída.

— O que está acontecendo, mamãe! Por que está correndo assim! — perguntou a menina, assustada com a cena que se desenrolava diante de seus olhos inocentes.

— Depois eu explico, Anna, querida — Bella sussurrou, sem parar nem mesmo para observar se estava sendo seguida.

— Bella? Anna? — gritou a voz de barítono.

Diante do chamado imperioso, a garota soltou-se da mãe e encarou Edward, que já estava há poucos metros delas.

— Quem é você? — perguntou Anna, perserutando-o com curiosidade indisfarçável.

Sem escolha, Bella parou e esperou pela filha. Involuntariamente, fixou o olhar nos olhos verdes de Edward, de repente, era como se ainda tivesse vinte e três anos de idade e sentisse seu corpo tremer diante da visão do russo musculoso e sensual.

— Sou alguém que ama muito você e sua mãe — Anna ouviu-o o dizer em tom pausado.

— Verdade! — Anna questionou, franzindo ò cenho, intrigada com a resposta. Embora tivesse apenas seis anos de idade, era uma criança esperta e podia perceber o inusitado da situação.

A poucos centímetros de pai e filha, Bella os observava com o coração disparado. E agora, o que estaria por vir? Será que tudo aquilo estava realmente acontecendo ou seria apenas um terrível pesadelo!

— Sim, amo.

— Qual é seu nome? — a garota quis saber.

— Edward Cullen.

— K...Edwardsta, o que!

Ele sorriu, parecendo divertido.

— Bem, sua mãe sempre me chamou de Edward. Acho que é porque fica mais fácil para os americanos pronunciarem — explicou, piscando com charme.

Anna sorriu levemente. Bella notou que a filha começava a se encantar por Edward.

— É um nome russo, como o seu — ele prosseguiu, acariciando as bochechas rosadas da menina.

— Quer dizer que meu nome também é russo! — Anna estava deliciada com a novidade.

— Claro! — garantiu Edward, pronunciando o nome de Anna como faziam os moscovitas.

— Pare com isso! — grunhiu Bella, incapaz de manter-se calada por mais tempo. — Não tente influenciar minha filha dessa maneira!

— Nossa filha! — ele a corrigiu, abaixando-se para nivelar sua altura descomunal com a da garota.

— Sabe, mamãe disse que meu pai mora na Rússia, por isto não pode vir me visitar — confidenciou Anna, começando a ficar desconfiada de que algo acontecia a seu redor.

— Anna! — Bella a repreendeu.

— Sua mãe está errada, Anochkal — Edward replicou, utilizando o nome da filha na forma diminutiva russa.

— Você se parece com o príncipe Marzipã! — Anna exclamou. Seus olhos verdes se estreitaram num misto de surpresa e deleite.

Bella sentiu um calafrio ao perceber o entusiasmo da filha. Com o coração apertado, reconheceu que Anna sucumbira ao irresistível charme de Edward Cullen.

— Veja, mamãe, ele se parece com o príncipe Marzipã! — Anna repetiu, abrindo o livro na página onde havia uma ilustração de seu herói.

Bella permaneceu calada, não sabendo qual o melhor comentário a fazer diante das circunstâncias.

Alheio ao transtorno que causava, Edward alisou os anéis de cabelos negros que caíam sobre a pequenina orelha de Anna, pouco antes de apontar para o livro de história que a menina trazia nas mãos.

— Sabe que fui eu quem presenteou sua mãe com este livro, quando ela esteve na Rússia pela primeira vez, doze anos atrás?

Sufocando um gemido, Bella sentiu que o mundo começava a desmoronar sob seus pés.

— Foi você quem deu o livro do Quebra-Nozes para mamãe! — perguntou a menina, ao mesmo tempo intrigada e ansiosa.

— Sim! As aventuras de Clara e seu boneco quebra-nozes tambem eram a minha história favorita quando criança. Mas isto não é de se admirar, afinal, somos pai e filha, é natural que tenhamos gostos semelhantes.

"Oh, não, e agora!", Bella perguntou-se, ao mesmo tempo em que engolia em seco, esperando pela resposta de Anna.

Como em uma reprise de um filme antigo, ela recordou o momento em que Edward a surpreendera admirando o livro na Casa dos livros, em Moscou, e também do suspiro desanimado que dera ao saber que o preço era alto demais e que não poderia comprá-lo. Fora uma enorme surpresa descobri-lo em sua mala ao retornar aos Estados Unidos.

— Por que você deu o Quebra-Nozes para mamãe? — Anna perguntou, como Bella sempre quisera fazer.

— Bem, sua mãe estava triste com a morte do pai, e eu a vi admirando o livro na semana anterior, então, resolvi colocar a história de Clara e o boneco Quebra-Nozes em sua bagagem, na esperança de confortá-la pela dor e também para que jamais se esquecesse de mim.

"Mentiroso!", gritou Bella interiormente, ao perceber que Edward estava imprimindo uma nota de romantismo ao ocorrido. Na verdade, o que acontecera não tivera nada de romântico, muito pelo contrário!

Bella, junto com mais vinte adolescentes americanos, visitava a Rússia para aprimorar seus conhecimentos do idioma nativo. Com a inocência e impulsividade típica de um garota de dezessete anos, ela presenteara uma jovem russa com seu jeans, camiseta e óculos escuros. Aquele simples gesto de camaradagem, num país onde todos eram chamados de "camaradas", acabou se transformando em pesadelo.

Menos de vinte e quatro horas mais tarde, algemada por oficiais da KGB, Bella foi presa e acusada de incitar os jovens russos a uma revolta contra o governo comunista.

Durante a semana em que ficou confinada numa prisão especial da KGB, um dos guardas a informou de que seu pai havia falecido, mas ela não seria libertada para participar dos funerais. Desesperada, Bella gritou, esperneou, solicitando que o agente que acompanhara os americanos nas visitas oficiais pudesse vê-la.

Para sua surpresa, Edward, na época o agente encarregado dos jovens americanos em visita à Rússia, não demorou nem vinte minutos para aparecer.

Depois de dizer a ela que deveria ser mais cautelosa e responsável com as leis de um país estranho, Edward Cullen ordenou que se preparasse para partir.

Aquela foi a primeira vez que se sentiu atraída pelo belo oficial russo, curiosamente, ele parecia estar sempre por perto durante o mês em que passara em Moscou.

Como tinha prometido, em menos de uma hora Edward a colocou dentro de um Lada e a conduziu em direção ao aeroporto.

No instante em que o avião decolou, Bella sentiu tristeza ao pensar que nunca mais veria o agente russo. O fato fez com que experimentasse uma desconcertante sensação de perda.

Contudo, o bom senso a levou a esconder suas emoções. Naquele momento, precisava a aprender a conviver com a inesperada morte do pai.

Três dias após seu regresso aos Estados Unidos encontrou o livro do Quebra-Nozes em meio a sua bagagem. Percebeu que aquele gesto só podia ter partido do oficial Cullen, a única pessoa que a vira admirando o livro na Casa do Livro de Moscou.

O primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi de um dia poder agradecer. Foi o que realmente acabou acontecendo, pois voltou à Rússia seis anos depois, como professora americana contratada para ensinar inglês a jovens oficiais da KGB.

— Você é mesmo meu pai? — a voz melodiosa de Anna trouxe de volta a realidade.

Respirando fundo, Bella preparou-se para o inevitável momento da verdade.

— Sim, eu sou seu pai — Edward assegurou, em tom solene. Veja como somos parecidos: seus olhos são verdes como os meus e o nariz levemente arrebitado — ele acariciou as faces enrubescidas, e a menina sorriu. — Ah, mas agora estou notando que você sorri do mesmo jeito que a mamãe!

Anna olhou para a mãe, a fim de certificar-se do que estava sendo dito.

Num gesto rápido, Edward retirou um envelope do bolso do sobretudo.

— Dê uma olhada nestas fotos! — ele exclamou, entregando um pequeno álbum à garota. — Aqui somos sua mãe e eu tomando sorvete em uma lanchonete russa — explicou, tocando no canto da boca de Anna. — Quando vocês sorriem seus lábios se curvam da mesma maneira.

Anna observou a fotografia em preto-e-branco, e todo seu encantamento diante da novidade transparecia em seus lindos olhos verdes.

Por um instante, Bella foi acometida por um louco desejo de gritar para que Edward as deixassem em paz. Contudo, seu apurado bom senso a preveniu de que tal atitude só serviria para assustar Anna, e não para afastar Edward. Afinal, pelo que conhecia do oficial Cullen, ele não era do tipo que desistia de seus objetivos.

— Veja, mamãe! — Anna exclamou, pegando as fotos e mostrando-as para Bella. — É você!

— Sim, e aqui têm mais algumas — disse Edward, tirando outras fotos do bolso. — Estas são da segunda visita de sua mãe à Rússia, estamos bem defronte ao hotel em São Petersburgo, onde sua mãe e os outros professores americanos ficavam hospedados.

Edward não podia apresentar provas mais contundentes diante da filha, e Bella sentiu que a filha já não duvidava mais do parentesco.

— Olhe esta! — continuava a voz de barítono, que agora exibia um tom aveludado. — E um retrato de sua mãe no aeroporto, quando ela se preparava para deixar a Rússia. Implorei para que se casasse comigo. Nada adiantou.

Edward enlaçava Anna pelos ombros e, quase sem perceber, a menina também havia passado os braços pequeninos em torno do pescoço másculo.

Observando a cena, Bella sentiu como se um corte profundo fora aberto em seu peito e dilacerado algum órgão vital.

— Por que fez isso, mamãe! — Anna quis saber voltando-se para ela com expressão chorosa. — Por que deixou meu pai sozinho na Rússia!

"Oh, Deus, como posso contar a verdade para minha filha?", mordeu o lábio, lutando contra o tumulto de suas emoções, ao mesmo tempo em que lançava um olhar ameaçador em direção a Edward.

— Bem, eu precisava voltar para os Estados Unidos, querida — respondeu, forçando uma naturalidade que estava longe de sentir. — Este é meu país e havia responsabilidades a minha espera. Além do mais, tinha aulas para dar, palestras e meus alunos já estavam sem professora há mais de seis meses.

— Você é professora? —- interrogou a menina, franzindo o cenho.

— Não sou mais, querida. Mas era professora na época em que regressei da Rússia.

— Igualzinho a senhora Beezley? — Anna estava encantada diante da perspectiva de a mãe ser igual a sua tão admirada professora primária.

— Mais ou menos. Na verdade, eu não ensinava crianças pequeninas como a senhora Beezley faz, mas sim adolescentes do curso colegial.

Bella não podia nem queria dizer à filha que era professora de russo e inglês, e quando soubera que estava grávida desistira de qualquer vínculo que a fizesse lembrar do oficial da KGB, pai da criança que crescia em seu ventre.

Por esse motivo, conseguira um emprego como secretária em uma grande empresa de revendas de cairos importados, criando a filha sem lhe contar nada sobre seu passado.

Todos os seus livros de russo e material de trabalho estavam trançados no quartinho de despejo do apartamento, o único remanescente dessa época terrível era o que narrava a história de Clara e o boneco quebra-nozes, justamente porque a pequena Anna o encontrara em seu armário antes que pudesse escondê-lo.

— Isso é verdade, papai?

Diante da pergunta inocente, Bella engoliu em seco, sabendo que o que mais temera estava acontecendo: não só Anna aceitara, sem reservas, Edward como pai, como também questionava a veracidade das palavras dela.

Quanta ironia! Uma mãe dedica-se de corpo e alma à criação e educação de uma filha de seis anos, depois chega um homem, cuja única contribuição foi apenas biológica, e angaria a devoção e confiança desta mesma criança!

— Sim, Anochka! Sua mãe é uma excelente professora de russo e inglês. Foi por isso que ela regressou à Rússia. Seu trabalho era ensinar os oficiais da KGB a falar inglês.

— Você também foi aluno da mamãe? — quis saber a menina, cada vez mais curiosa.

Edward sorriu.

— Não, eu já falava bem inglês nessa época. Sou alguns anos mais velho que sua mãe.

Bella não pôde mais se conter.

— Anna, pergunte a seu pai por que ele não veio para os Estados Unidos comigo? — sabia que a voz soara em falsete e que seu rosto exibia um rubor acentuado. No entanto, não podia impedir que as atitudes evidenciassem o tumulto de suas emoções.

— Ora, mas eu vim para os Estados Unidos! Estou aqui, não estou! — Edward respondeu, antes que Anna pudesse abrir os pequeninos lábios rosados. — Sabe, filha, antes de deixar meu país precisava fazer muitas coisas, tinha responsabilidades para cumprir. Mas sempre soube a seu respeito, Anochka. Sempre a amei, mesmo quando estava distante!

"Cretino, mentiroso!", Bella gritou interiormente.

— E agora, filha, agora que estamos juntos vou ficar com você para sempre! — Edward prometeu, num tom que parecia denotar forte emoção. — Teremos um Natal em família, eu prometo!

"É claro que está fingindo!", Bella pensou, enquanto o observava pelo canto dos olhos. "Afinal, é um agente treinado para convencer e disfarçar suas reais intenções!".

— Pode dormir em meu quarto, papai — Anna declarou, usando a simplicidade típica das crianças para solucionar um impasse que havia mantido seus pais separados durante anos a fio.

— Gostei da idéia... — Edward murmurou, acariciando os cachinhos negros da filha. — Sabe, mudei para os Estados Unidos da América porque desejava morar com você e sua mãe. Quero muito que sejamos uma família bonita e unida. Por falar nisso, será que posso ir para casa em seu carro? Não vim com o meu ao balé.

— Claro! — Anna garantiu entusiasmada. — Temos um "Toyoda" vermelho e...

— Não seria um Toyota? — Edward a corrigiu sorrindo.

— É este nome mesmo, papai. Nós podemos ir no banco de trás, enquanto mamãe dirige você lê a história do príncipe Marzipã.

— Para mim está perfeito!

"Mas não para mim!", Bella pensou, irritada consigo mesma ao permitir que a situação fugisse a seu controle.

— Moramos num apartamento não muito longe daqui — Anna continuou a tagarelar com simplicidade.

— E mesmo! Você gosta de onde mora, Anochka? — ele pegou a filha no colo e a beijou na testa.

— Sim, mas queria ter um cachorro. Pena que o síndico não deixa!

— Ora, então tenho certeza de que vai ficar feliz com Thor e Gandy — sussurrou Edward, pondo a filha no chão.

— Gandy e Thor! Quem são eles? — a menina quis saber, pegando o casaco que Bella lhe estendia.

— São meus cachorros, dois pastores alemães — Edward explicou, antes de ajudar Anna a vestir o casaco. — Thor está ansioso para conhecer minha filhinha, sabia? Disse a ele que vocês serão amigos e poderão brincar juntos todos os dias.

Bella assistia à cena em silêncio, apertando as mãos nervosamente. Fazia enorme esforço para não explodir e provocar uma discussão que poderia deixar Anna assustada. Edward Cullen estava indo longe demais. Como podia fazer promessas que jamais seriam cumpridas!

— Vamos, mamãe! — a menina a puxou pelo braço, e, naquele momento, as portas do teatro foram abertas e a multidão começou a se espalhar pelo saguão, deixando claro que apresentação do Corpo de Balé de St. Louis havia terminado.

— Está bem — Bella respondeu, sabendo que não lhe restava outra alternativa. Era melhor falar com Edward longe de Anna, para que a menina não ficasse traumatizada.

— Posso carregá-la até o carro, Anochka? — ouviu-o pedir, enquanto vestia o casaco de feltro vermelho.

— Sim, mas o que este tal de "noska" quer dizer? — Anna interrogou, enlaçando o pescoço do pai, conforme saíam para o ar frio do entardecer de dezembro.

— Significa meu querido bebê. E um diminutivo para seu nome, na Rússia, todos os pais chamam suas filhinhas dessa maneira carinhosa.

— Não sou bebê, papai, sou uma menininha! — Anna sorriu. — Você é tão engraçado!

— E você é adorável, minha querida Anochka! — Edward declarou, abraçando a filha com tanta força que parecia não querer mais soltá-la.

Bella engoliu em seco, sentindo como se uma nascente houvesse sido aberta em seu coração e de lá jorrasse o sangue e a dor de uma mãe consciente de que está prestes a perder a única filha.

Sabia que Edward era irresistível... Ou seria melhor dizer: inesquecível!

Um tremor involuntário percorreu todo seu corpo. Bella não teve coragem de responder à pergunta que acabara de fazer a si mesma.

Ola pessoas!

Aqui estou eu de novo...

A muito tempo tenho vontade de fazer uma nova adaptação, por isso trago essa historia para vocês...

Mas que fique bem claro, essa história não é minha e os personagens são da tia Steph.

Espero que gostem dela assim como eu o faço

Abraços!

Hithi...