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Uma Pedagogia Cósmica

Pois foi na cozinha de Hélène que comecei, pela primeira vez, a preparar o alimento que verdadeiramente me nutria... foi onde comecei a criar o cardápio da minha Felicidade e da minha Paz.

Cozinha complicada... prato complexo... afinal, vivi desnutrida por 19 anos, só comendo porcaria... mas uma hora isso cansa tanto... que você cria coragem de realmente aprender a cozinhar uma iguaria que te dê gosto, que te dê sabor e que te preencha de aroma de Vida.

E era assim que, justamente na cozinha dela, Hélène e eu tínhamos nossos altos papos.

Ela era pedagoga aposentada, sabia?

Doutorado em Educação pela National University... espiei o ano do diploma... 1962, pode?!

Putz, 1962... acho que nem minha vó Rachel tinha nascido ainda! Por isso eu nunca perguntei a idade de Hélène... isso me dava medo!

Afinal... a velhinha era criança quando a terra dela, a França, foi invadida pelas tropas alemãs de Hitler... a família dela, judia em meio àquele horror todo, tentou fugir pra Suíça mas não conseguiu... foi quando o bisavô de Álex, Aleximander Berr, um jovem que trabalhava naquela época com Serviços de Inteligência no Sul da França, acabou encontrando-a perdida próxima à fronteira com a Suíça... da sua base de operações na Suíça, Aleximander a trouxe escondida para seu lar, Happy Harbor, e a adotou... foi esse mesmo carinha que construiu, lá em 1942, esse Casarão, o Solar dos Berr: o lugar onde eu trabalho hoje...

Que coisa... Hélène tava na França ocupada pelos nazistas em 1940?!

Putz! Isso faz tempo pra caramba!

Afinal, até onde eu sei, o último combatente da Segunda Guerra Mundial, um inglês meio pirado de Liverpool, já tinha batido as botas faz tempos...

E Hélène ainda tava por aí?! Como é que pode?!

Pois é!

Por isso tinha horas que Hélène realmente me dava medo! Afinal, você já pensou... e se um dia eu lhe perguntasse "quantos anos você tem, Hélène?" e ela assim me respondesse: "Todos!"?

Ai, que medo!

Porque também a velhinha andava mega retinha... nada de andar curvada, não!

Lembrava até aquele porte histórico da falecida Rainha Mãe, esposa de George VI e mãe da Rainha Elizabeth II lá da Antiga Inglaterra do distante século XX... não, nem a Rainha Mãe e nem Hélène andavam curvadas, mas sempre andavam tão retinhas... como se tivessem engolido uma bengala!

E as rugas? Hélène tinha menos rugas que muita "mocinha" de 60 anos, pode?! Qual era o segredo dela, heim? Será que ela, secretamente, dormia de noite mergulhada em formol?

Ai, que medo!

Melhor mesmo eu nem saber a idade dela!

Pois é...

Então... Hélène foi professora e também pesquisadora, uma doutora em Educação...

O incrível é que ela nunca tirou o pé do mundo real... tinha sempre um pé na National University, um lugarzinho que eu chamo de "A Ilha da Fantasia©", e outro pé no mundo real: uma escola de Educação Infantil no extremo sul de Happy Harbor.

O nome?

Escola de Educação Infantil Michael Major... um lugarzinho que eu chamo de Mordor©! Que Sauron© nos acuda!

Isso mesmo! Porque fui um dia com ela visitar aquela sua antiga escola... que biboca! Aquilo lá nem era o lugar onde o Diabo perdeu as botas, mas sim aonde Judas já tinha perdido as meias!

Que buraco!

E enquanto eu olhava pra aquele lugar, completamente estarrecida, Hélène me dizia:

"A National University constrói seus palácios de pensamentos sobre miragens e se apaixona pelo que constrói, aprisionando-se, sem sequer perceber, em sua própria construção.

Mas este local sempre foi o meu campo de teste, Selene.

Era aqui onde eu usava a Luz da Verdade, através da Navalha da Funcionalidade, para distinguir e cortar, dentre o reino barulhento de pensamentos da National University, o que era miragem e o que era real."

Que coisa...

Eu, como bolsista da National University, fiquei até sem palavras quando ouvi aquilo...

Porque assim é Hélène... uma mulher incrível... sobrevivente de uma família exterminada na Segunda Guerra... imigrante... pesquisadora... e professora!

Eu disse... professora?!

Pois é... quem diria que eu, logo eu, iria fazer amizade logo com uma... uma... professora?! Blargh!

Mas aconteceu!

Mistérios da Vida...

E foi assim que ela me disse certa vez, exatamente naquela cozinha, com aquele seu olhar sapeca e irrequieto, que estava se inspirando para desenvolver uma nova Pedagogia...

Papo de professora, né!?

Mas quando eu ouvi esse papinho de "uma nova Pedagogia", pensei de cara:

"Putz, mais uma? O mundo já tá cheio dessas porcarias: pedagogia disso, pedagogia daquilo... Pra que mais uma? Só pra ficar entupindo vitrine?"

Sim, vitrine! Porque parece que tinha uma pra cada moda que bombava em cada estação... tipo... numa estação, todos vestem azul... na outra "azul tá off! Agora use e abuse de amarelo colante!"

Arfff!

Pois é: Pedagogia é um troço fashion...

Por isso nem dei muita bola quando ela puxou esse papo... Odeio a New York fashion week!

Lógico! Por isso eu ia fazer aquela minha cara de "Aham, legal!", fingindo estar atenta... mas na real deixando ela ficar falando sozinha, enquanto eu pensaria em algo bem mais interessante... tipo...

Tipo... as botas que Leilene tava usando ontem!

Ficaram sexy, admito... que coisa: preciso dar um up nas minhas, sabe?

Não, eu não curto moda! Isso é só pra mim me manter atualizada pra não perder mercado pra concorrência, ué! Afinal... o cliente que Leilene e eu disputávamos era o mesmo...

Hummm... e por falar em cliente... será que Álex preferia loira... essa falsificação feminina melada e sem graça? Ou preferia morena... o verdadeiro produto, a criação da mais alta qualidade, a legítima beleza feminina de Happy Harbor?

Hei, não me julgue! Saber a preferência do consumidor é fundamental no mercado tão competitivo dos dias atuais, ué?!

E era nisso tudo em que a minha cabeça tava!

Enquanto isso, Hélène falava e falava...

E eu só:

"Aham...", "Aham!"...

Porém, quando Hélène disse que pensava numa Pedagogia nutritiva, de sabor doce, uma que realmente alimentasse as pessoas... sei lá... quando ela falou em "doces"...

Ah, tá bom, Hélène... como eu tô sempre com desejos por doces, vamos ver o que você tem pra me dizer antes que eu fique definitivamente em meu clássico "Selene modo educada: on":

"Aham... aham... que interessante!"

Por isso dei alguns minutos de crédito pra ela falar... aliás, fui bem mais generosa do que a Tchau, a Escuro, a Morta e a PIM, as minhas cruéis operadoras de celular... tempos dark side© na telefonia de Happy Harbor: aqui, O Império Contra-ataca©...

Então, vamos lá, Hélène: aproveita bem porque essa promoção de créditos é por tempo limitado!

E não é que ela aproveitou mesmo?!

E enquanto fazíamos massa pra biscoitos, pode?

Hélène me contou que essa ideia de uma nova Pedagogia surgiu depois de um curso que ela fez com um defunto mega legal.

Eu falei "defunto"?!

Pois é: eu não disse que a velhinha era médium?

Afinal, foi ela quem me ensinou a projetar-me... foi ela quem me ensinou Viagem Astral... ela era craque nisso. E foi com ela que Selene começou a viajar...

Viagens de Selene...

E numa das suas projeções astrais, Hélène foi a uma universidade do astral onde assistiu um curso desse Espírito de Luz.

Hélène me contou que o carinha, quando tava reencarnado, foi um pedagogo reformador. Mas não desses carinhas que se acham espertos sendo um otários materialistas... não! O carinha foi um pedagogo que sabia que as pessoas são muito mais do que um amontoado de ligações químicas que se acabam com o tempo...

Fiquei hiper curiosa pra saber quem esse carinha foi quando ele tava vestindo um look físico enquanto dava uma tour aqui pela Terra, mas Hélène fez que nem ouviu a minha curiosidade...

Ouvidos de mercador.

Que saco!

Fora isso... nosso papo ia rolando legal na cozinha.

Hélène sempre dizia que os pontos fracos de uma Pedagogia eram dois... o primeiro era a concepção de Ser Humano... e o segundo era como aplicar na prática essa concepção...

Pra ela, era a má educação quem criava esse monte de problemas que se tem por aqui, na Terra... uma má educação que desnutria as pessoas... e, desnutridas, ficavam doentes e problemáticas... doentes que apinhavam os sistemas de saúde e problemáticos que sobrecarregavam o sistema social e carcerário que, no final das contas, também não tinham a menor ideia de como lidar com seus doentes, seus problemáticos e seus trambiqueiros... fazia-se só "o que dava, como dava"...

E os problemas e crises, assim, se multiplicavam... pior que vírus, trojan e spyware... mega pior que trolagem na web...

Hélène realmente acreditava que a solução era educação.

Mas a solução jamais seria essa educação capenga, cega, surda e coxa que se tem hoje por aqui, na Terra...

Faltava a Educação Profunda.

Uma Educação Profunda na Terra!

"Aprender vivendo. Viver aprendendo. Ensinar vivendo. Viver ensinando. Uma educação imersa e sentida no tecido da própria Vida!" dizia ela.

Eu?

Quieta, ouvindo atenta.

Foi quando ela falou do erro de Piaget, do engano de Vigotsky, do equívoco de Steiner e de todos os outros cabeções que já pesquisaram sobre a Ciência da Aprendizagem.

O erro colossal na concepção deles de Ser Humano, erro cometido seja por materialistas seja por espiritualistas:

"O Ser Humano é uma estrutura viva, seja material ou espiritual, em interação com uma estrutura social, uma estrutura viva que deve chegar à Perfeição através de ummodelo ideal padronizado, através de um caminho que serve para todos".

- Isso é uma visão muito pobre e pequena do que somos! "Padronização" e "um caminho pasteurizado" jamais funcionarão para a grandiosidade humana que nos foi reservada, Selene!

Eu?

Continuava atenta.

- O Ser Humano, Selene, é um Ser Cósmico!

Hummm... Ser Cósmico... isso me soou interessante... muito interessante!

De certo eu fiz aquela minha cara de "wow, me manda mais porque eu curti esse download!"... só pode...

Porque a velhinha começou a se empolgar!

Foi então que ela fechou seus olhos e pareceu querer recitar de memória uma coisa mega profunda... algo que senti que não vinha da cabeça dela... parecia que emanava, sim, do coração dela, como se ele tivesse sido tocado por algo luminoso, brilhante...

Seria essa coisa capaz de tocar o meu coração também?

Chamaria a minha atenção?

Sei lá...

Apenas sorri pra ela um sorriso sincero, tentando estimulá-la a falar.

E com seus olhos suavemente fechados, ela falou como se estivesse embalada pela recitação de uma poesia:

"O Ser Cósmico mora em você

Esqueça sua personalidade

E sinta-se aquele verdadeiro alguém

Que vive entre as estrelas...

Sinta-se aquele verdadeiro alguém

Que senta na beirada de baixo da galáxia

Sem precisar mais de baixo ou em cima

Nem de esquerda ou direita

Sem precisar mais de um nome

Mas que apenas sente

O indescritível prazer da conexão...

A sensação de voltar para Casa!"

Quando ouvi isso...

Conexão...

Voltar para Casa...

Sei lá... me aconteceu algo esquisito...

Foi como... como se esses versos tocassem diretamente na minha paixão por asas e pela noite...

Como se tocassem em tudo o que me retirava da simples condição de uma ovelha subjugada... e que me elevava a imensidão de uma Vida alada entre as estrelas...

E, sentindo isso, aconteceu algo em meu peito... algo inesperado...

Parecia um carinho... sim, parecia que algo havia tocado meu peito com carinho...

Um toque... cálido... meigo...

Que incrível: algo ainda conseguia me tocar?

Algo ainda tinha a capacidade de dançar ao redor das placas de aço de minha armadura negra e... tocar carinhosamente em minha pele?

Tocar-me onde mais me protejo: no meu peito?

Pois é... meu peito não tava mentindo... ele realmente havia sido tocado...

E sei lá porque, um sorriso bobo que eu geralmente evitava, resolveu fazer morada no meu rosto...

Seria um sorriso de... paz?!

Me senti tão... bem?!

Sim, eu me senti bem!

Desarmei-me completamente naquele momento.

Finalmente fiquei receptiva, verdadeiramente, ao que Hélène queria dividir comigo.

- Por isso eu sinto, Selene... e sinto profundamente... que em menos de vinte anos tudo será muito diferente neste planeta... e será inesperado...

Ouvia-a, atenta.

- E, nesse mundo diferente, Selene, precisamos de uma educação diferente... uma Educação Profunda que possa ser operacionalizada o mais breve possível nas redes de ensino... possivelmente começando por iniciativas particulares informais, como foi em todas as revoluções educacionais da história da humanidade, para depois tornar-se uma educação formalizada e oficial via governamental, através de Secretarias de Educação e Ministérios...

Sorri para ela. Um sorriso misto de descrença e de esperança...

Na real: muito mais de descrença!

Afinal, foi ela falar em "governo" e "oficial" para que todas as minhas memórias de meus protestos de rua me viessem à tona...

Tempos agitados esses em Happy Harbor...

- Selene, entendo sua descrença nesses tempos de desesperança... mas eu já vivi muito... e sei que as coisas podem mudar...

Putz!

Ela lê mentes, é?!

Senti uma vergonha naquele momento...

Afinal... quem era eu pra jogar areia nos sonhos de uma velhinha?

Pois... se ela sobreviveu ao nazismo... e, como imigrante, sobreviveu à toda essa mediocridade social de Happy Harbor sem jamais se tornar amarga, como eu me tornei em apenas 19 anos... então devia ter uma coisa muito especial nela que eu não tinha...

E eu senti que devia dar atenção agora a essa coisa especial, ouvindo-a.

- Friedrich Fröbel, Selene... conhece Fröbel?

- O carinha que inventou o kindergarten, o "jardim de infância"?

Pois é... eu sabia alguma coisa dos cabeções da História da Pedagogia...

Hei, isso não surpreende você, né?

Ora, eu sou uma nerd, esqueceu?!

Toda nerd é uma caixinha de surpresinhas...

Hélène?

Ao meu comentário, ela assim respondeu:

- Sim, ele mesmo! Antes dele, ninguém dava a menor atenção ou valor à educação de crianças pequenas... tratavam-nas como adultos em miniatura... quem mais pensaria em pegar aquelas crianças, colocá-las em salas com mesas e cadeiras adaptadas à sua altura, brinquedos pedagógicos, e assim buscar comunicar-se com elas para que todo o potencial delas viesse à luz?

- Acho que ninguém...

- Sim, ninguém. Fröbel começou sozinho! Como discípulo de Johann Pestalozzi, enfrentou toda a espécie de resistências. Faliu. Ele se foi. O tempo passou. E duzentos anos depois de Fröbel, você consegue imaginar algum governo deste planeta que não tenha a rede de Educação Infantil que ele criou?

Aquilo me soou como um soco bem na cara da minha descrença...

Sim, Hélène era assim!

Ela não se perturbava com as tempestades e desafios do momento... desprezava tudo o que nutria o monstro da descrença no Bem e que fortalecia a fé no Mal...

Ela sequer dava bola para as tormentas passageiras. Hélène olhava, isso sim, para os grandes movimentos climáticos que levavam as pessoas sempre a um lugar melhor.

Ela não se perturbava com as chuvas e enchentes... ela olhava para as monções e sabia que os desertos secos iriam novamente verdejar quando o nível das águas baixasse...

Assim era Hélène!

E, com a minha descrença finalmente calada, estimulei-a com o meu olhar para que prosseguisse.

- Nenhuma educação decente e ética pode ser feita sem uma Pedagogia, Selene, seja uma educação experimental em uma escola-piloto solitária, seja uma educação em larga escala através das redes de ensino. E é aqui que inicia o desafio...

O desafio começa por não se menosprezar os avanços históricos que os antigos pensadores nos legaram... e nem mesmo idolatrá-los.

O desafio se inicia em um caminho do meio: valorizar os seus avanços e identificar os seus erros.

Seria algo semelhante ao que se busca hoje na Medicina com a proposta do físico quântico Amit Goswami: ao invés de descartar-se pura e simplesmente todo o saber da cirurgia médica materialista, buscar-se dialogar com esse antigo saber...

Um diálogo realizado justamente para tornar as Ciências Cirúrgicas mais humanas e mais eficientes através de um novo e amplo paradigma, aproveitando-se delas todos os elementos possíveis, abrindo-se assim, com uma visão integrativa, novas possibilidades.

Com a educação, Selene, se daria a mesma coisa!

Resmunguei, mega honesta:

- Eu não tenho mais saco pra dialogar, Hélène... falar com cretinos materialistas cansa!

Ela?

Sorriu!

- Isso porque você quer convencê-los, Selene.

- E você, não quer?

- Não...

Fiz uma careta:

- Então o que você quer, pô?

- Ah, Selene, quero apenas dialogar, no sentido de traçar uma ponte entre o que já existe e entre um paradigma novo que represento.

Não desejo convencer. Desejo apenas mostrar o que estou trazendo.

E assim, quem quiser terá o sagrado direito da escolha entre o velho paradigma educacional e este novo.

Não estou aqui para convencer, Selene, derrotando opiniões... estou aqui para deixar opções de escolha!

É isso o que este planeta mais precisa agora: de opções de escolha!

Isso me soou meio liberal...

Liberal até demais...

Meu negócio geralmente é xingar cretinos...

Não, eu não sou liberal com cretinos! Sou conservadora!

Mas... talvez a velhinha esteja certa...

Quem sabe eu não estou me sentindo tão cansada justamente porque eu resolvi brigar com os cretinos ao invés de fazer como Hélène, que os deixa livres para escolherem o que quiserem?

Vai saber...

Afinal, ela fala de diálogo... mas não no sentido de "debate" e "enfrentamento"... ela fala em diálogo no sentido de "ponte" e de "escolha".

O que será que ela teria mais a falar sobre "diálogo"?

- Selene, um diálogo como ponte e oportunidade de novas escolhas seria fundamental...

Fundamental ao menos em um período de transição entre a atual Civilização Materialista, essa em que ainda vivemos e tentamos nela sobreviver, essa Civilização que está esgotada e esgotando o planeta, e a vindoura Civilização do Espírito, aquela para a qual fomos verdadeiramente feitas.

Através desse diálogo, nesta difícil fase de transição entre uma Civilização e outra, conseguiríamos assentar mais facilmente aqui, na Terra, uma abordagem Cósmica com uma menor resistência e inércia da Civilização Materialista hoje dominante.

E assim teríamos duas Civilizações e uma escolha. Uma escolha que hoje não existe... eis a Beleza que defendo pelo diálogo, Selene: o sagrado e abençoado direito de escolher!"

Hummm...

Direito de escolher...

Isso que Hélène disse é realmente tentador!

Afinal, eu nasci num planeta que não me deu direito de escolher porcaria nenhuma...

Bem, na realidade me dava sim uma escolha.

Esta:

"Ou você pertence à nossa Civilização Materialista predatória, sempre em guerra com a própria Terra, ou você pertence à nossa Civilização Materialista predatória, sempre em guerra com a própria Terra!"

Quanta escolha...

Assim sendo, continuei prestando atenção em Hélène:

- Selene, em minha busca por deixar uma escolha, construindo uma ponte através do diálogo, começo por ampliar os conceitos dos materialistas, como por exemplo, Leo Vigotsky e os Pós-modernos.

O erro dos Pós-modernos foi perder-se no relativismo culturalista, negando a possibilidade de existir um Universal Humano Flexível que uniria as pessoas. Porém a valorização da diferença que estes pensadores trouxeram é preciosíssima!

Já o erro de Vigotsky foi seu estreitamento materialista. Porém a sua concepção de Zonas de Desenvolvimento Real, Proximal e Potencial são perfeitamente funcionais! Você já ouviu falar nessas zonas, Selene?

Dei um sorrisinho sacana:

- Bom...

E comecei a falar, dum jeito que eu adorava fazer lá no pub do Antony, na National University, quando aquelas gurias frescas do curso de Pedagogia sentavam perto de mim...

Sei lá: só o odor da voz delas já me irritava...

Então eu falava algo assim, como um dicionário eletrônico zumbi, com uma voz fria, mega monótona, tipo aquela voz de orientadora pedagógica mal paga de escola pública noturna de Happy Harbor:

- Zona de Conhecimento Real: aquela cujos conhecimentos o educando já domina plenamente. Frase-chave: "Estou fazendo tudo o que sei, professora!";

Zona de Desenvolvimento Proximal: gama de conhecimentos que o educando ainda não domina mas que, através de interações e convivência social com alguém que já os dominem, podem ser aprendidos. Frase-chave: "Você pode melhorar, guria!";

Zona de Desenvolvimento Potencial: região que conteria conhecimentos os quais o educando ainda não conseguiria atingir mesmo com intervenções, interações e vivências sociais com quem dominasse tais saberes. Frase-chave: "Desiste, pirralha!"

Pois é... eu falo isso no pub, perto das futuras pedagogas...

Sabe... eu não faço a menor ideia do porquê das gurias que cursam Pedagogia na National University me odiarem tanto!

Vai saber! Tem cada guria implicante por aí...

Hélène, quando ouviu isso?

Ela riu!

Como é que pode?!

- Sim, é isso mesmo Selene! E se ampliássemos o conceito de Ser Humano para um Ser Cósmico, imagine o quanto poderíamos ampliar a Zona de Desenvolvimento Proximal? O quanto poderíamos aumentar o "você pode melhorar, guria!" e diminuir o "desiste, pirralha!"?

Hummm...

Isso soou interessante!

- Mas para isso, Selene, precisamos encarar o desenvolvimento não como um caminho único, mas como múltiplos caminhos. Ou seja, não uma situação em que você retira a criança das Trevas para levá-la até uma luz padronizada...

- Como assim?

- Selene, sempre que você ouvir a palavra "padronização" para seres humanos, você estará ouvindo um perigosíssimo discurso de Trevas! Isso eu sei bem... Eu vivi isso... Você quer algo mais padronizador do que o nazismo?

Fiquei em silêncio.

Cheguei a engolir o seco!

Eu tava diante de uma sobrevivente do nazismo! Eu jamais ousaria discordar do que ela disse quanto à padronização!

Padronização de pessoas: um verdadeiro sinônimo de Trevas...

- Por isso, Selene, uma educação que tente retirar as pessoas das Trevas levando-as para uma luz padronizada, uma luz igual para todos, é apenas um disfarce elegante para encobrir mais Trevas!

"Selene, se nós quisermos uma Educação Profunda, que retire uma criança das Trevas da ignorância, precisamos encarar o desenvolvimento como um caminho múltiplo que levará para Luzes múltiplas.

E as Luzes múltiplas não são padronizadas: são absolutamente diferentes entre si.

Diferença, Selene!

Diferença! Isso é a Luz! Padronização: isso são as Trevas!"

Foi uma frase chocante...

Um conceito bem simples e chocante de Luz e Trevas...

Hélène prosseguiu:

- Por isso eu sinto que podemos fazer uma Educação Profunda baseada numa Pedagogia Cósmica que olhe para Luzes Múltiplas, não mais para uma luz padronizada, uma luz "guia e modelo" para todos.

Luzes múltilplas?

Hummm...

- O que seriam essa Luzes Múltiplas, Hélène?

- Frequências Cósmicas Originais, cada uma com um conjunto associado de Dons Originais!

Mas heim!?

Que papo é esse?

Como assim?

Nem precisei lhe perguntar nada... acho que a minha careta de dúvida já mostrava pra Hélène aquela pilha de pontos de interrogação que brotavam acima da minha cabeça...

- Somos filhas do Universo, não somos, Selene?

- Lógico!

- E se houvessem imensas Frequências Cósmicas, presentes desde o início da expansão deste Universo – sendo por isso chamadas de 'Originais': porque presentes desde as nossas Origens – e desde lá sempre tocando, sempre vibrando e, nesse tocar, fazendo existir o Tecido da Realidade como a entendemos?

Hummm...

Isso já tava começando a me soar como Física Cósmica... aquele cheirinho perfumado de Cosmologia e Astronomia no ar:

- Tipo... algo parecido com a Teoria das Supercordas? String Theory? M-Theory?

- Algo talvez semelhante, eu acho... afinal, não sou versada em Física, Selene!

- Ah, não seja tão modesta... de físico e louco todo mundo tem um pouco! Mas por favor, continue! Quero seguir o seu raciocínio!

- Então... pelo Modelo de Universo Holográfico, que canta poeticamente que "a pedra está na montanha e a montanha está na pedra", estas Frequências Cósmicas Originais seriam parte de nós.

Acredito que elas seriam mais do que parte de nós: seriam elas quem nos fariam ser o que realmente somos.

Sendo as Frequências Cósmicas Originais diferentes entre si, seriam elas a raiz original das diferenças em todo o Universo... inclusive das diferenças no mundo humano.

Assim, cada pessoa seria diferente uma da outra justamente porque seria nutrida e constituída por uma diferente Frequência Cósmica Original.

Cada pessoa diferente, existindo num corpo diferente graças à sua Frequência Cósmica Original diferente!

Corpo! Corpo!

Nenhum corpo existente é igual ao outro, nenhum rosto existente é igual ao outro, nenhum temperamento existente é igual ao outro entre os bilhões de rostos e temperamentos que se expressam neste planeta.

Sim, Selene, existem rostos e temperamentos parecidos... tão parecidos que poderiam até mesmo ser agrupados em famílias, em afinidades. Mas ainda assim são diferentes, mesmo agrupados.

Assim sendo, é no corpo em que a música da Frequência Cósmica Original consegue tocar, pois toda música necessita de matéria, toda música implora por um corpo!

Não há música no vácuo do espaço cósmico, Selene! Só há música onde existe a materialidade da atmosfera, embora as Frequências Cósmicas Originais estejam vibrando em toda a parte, inclusive no vácuo...

E cada Frequência Cósmica Original, ao vibrar, produziria um conjunto de notas e tonalidades musicais: estas seriam os Dons Originais, indissociáveis da Frequência Cósmica Original que as produziu.

Assim, Selene, uma Pedagogia Cósmica seria justamente isso: como afinar cada vez mais o corpo inteiro de cada pessoa para que ela possa vibrar de forma cada vez mais fiel à sua própria Frequência Cósmica Original que a constitui e nutre. E conforme vibra mais em ressonância, expressar cada vez mais através de seu próprio corpo os seus Dons Originais!

Essa é minha concepção de desenvolvimento, Selene: desenvolver em nossos próprios corpos, com os instrumentos de que dispomos em cada período da vida, a afinação necessária para que cada pessoa, constituída e nutrida pela sua própria Frequência Cósmica Original, possa vibrá-la e expressá-la mais e mais!

Mais e mais!

Essa, Selene, é para mim a mais legítima vocação humana de ser mais!

E esta é a minha concepção de Educação Profunda: construir uma rede de escolas para cada grupamento semelhante de Frequências Cósmicas Originais. Uma rede de escolas para cada conjunto de Dons Originais.

Uma pequena base comum unificaria as diferente redes: apenas uma base do universal que existe em cada ser humano, como a linguagem e o senso de humanidade. Uma pequena base, mas incrivelmente sólida, aonde se assentaria a única coisa que profundamente embeleza e dá significado ao ser gente: a diferença!

Nunca mais existiriam escolas padronizadas e indiferenciadas, em redes padronizadas e indiferenciadas, para formar pessoas padronizadas e indiferenciadas como numa fábrica de refrigerante de cola de sabor idêntico...

Isso seria para mim, Selene, o fim de uma escola que hoje apenas fabrica pessoas "refrigerante" sem sabor de Vida e o início de uma escola para pessoas "néctar" com um intenso gosto por existir!

Quando ouvi isso...

Fiquei pasma!

Com cara de boba...

Nunca, em toda a minha vida, havia visto, lido, ouvido ou sequer imaginado uma forma de educação e de escola desse jeito...

Fiquei estática...

Suspensa no ar... como um pêndulo de relógio parado...

Eu... que sempre odiei escola...

Eu... que sempre fui uma inimiga declarada da instituição mais medíocre que poderia existir em Happy Harbor...

De repente, escuto algo assim...

Algo... completamente inesperado pra mim...

Putz, eu nem sequer sabia como reagir!

Era inesperado demais!

Acho que Hélène notou que eu tava congelada no tempo e no espaço...

Ela se calou.

Eu levei alguns minutos pra me descongelar...

E, ainda meio que saindo daquela letargia, perguntei:

- E... já se sabe alguma coisa sobre essas Frequências Cósmicas Originais, algo do tipo... como são os Dons delas...? Essa escola... não precisaria conhecer bem esses Dons? Conhecer pra que... sei lá... encaminhasse cada um para que encontrasse... encontrasse e desenvolvesse os Dons de sua própria Frequência Original?

Perguntei, ainda muito letárgica...

Sim, eu tava mesmo desconcertada.

Nunca tinha encarado a porcaria da escola dessa maneira... era mesmo um choque desconcertante pra mim!

Hélène sorriu, satisfeita. Acho que ela curtiu mesmo a minha pergunta:

- Ótima questão, Selene! Uma questão investigativa! E essa questão demanda muita pesquisa para ser bem respondida!

Mas heim?!

- Como assim? Muita pesquisa?

E ela me respondeu:

- Sim, muita pesquisa, muita Ciência Nova! Justamente para se compreender melhor as Frequências Cósmicas Originais.

Hummm...

Interessante...

Ela prosseguiu:

- Vamos tentar criar uma modelação de pesquisa bem simplesinha, aqui nesse nosso papinho de cozinha, tudo bem?

- Bom... cozinha é um tipo de laboratório, não é? Então... let's go!

E, enquanto ela colocava a assadeira com biscoitos no forno, me disse:

- Se existe tanta diferença, no Universo e entre as pessoas, então existiriam muitas Frequências Cósmicas Originais. Porém, como a gente conseguiria investigá-las sem nos perdemos numa floresta delas?

- Boa pergunta... agrupando-as por semelhanças?

- Isso! Isso!

E, enquanto regulava a temperatura e o timer do forno, disse:

- Selene, estamos num momento talvez análogo ao dos pioneiros da Química do século XIX... lá eles descobriam elementos... aqui, nós descobrimos Frequências Cósmicas Originais...

"Em 1800, haviam apenas cerca de 30 elementos conhecidos pelos químicos... em 1860, já eram cerca de 60 elementos... mas quantos seriam?Infinitos?

Ninguém sabia...

Quais as sua propriedades? Características?

A Química tateava no escuro...

Cada vez surgiam mais e mais elementos e mais e mais propriedades...

Por milhares de anos, acreditava-se que eram apenas quatro os elementos: terra, fogo, ar e água... mas em 1860 já se sabia que terra e ar eram uma mistura... que água era um composto... e que o fogo era uma reação violenta de pura energia... nenhum dos 4 era um elemento!

Por milhares de anos, foram apenas esses 4 personagens que atuavam no palco e, de repente, em menos de 100 anos, além de se descobrir que eles não eram atores legítimos, já se haviam descoberto mais de 60 autênticos atores!

Como entender aquela confusão toda de atores no palco sem organizá-los?

Foi então que Dimitri Mendeleev, depois de anos e anos mergulhado naquele difícil quebra-cabeça, conseguiu organizar a Tabela Periódica dos Elementos... e conseguiu montá-la jogando com um elenco incompleto de 60 atores, dentre os 92 necessários ao teatro da Natureza.

Mas o que Mendeleev conseguiu?

Encontrar um padrão de organização periódico, repetitivo, entre o peso do elemento e as características similares entre eles. Nasciam os períodos e as famílias!

Sem os períodos e as famílias de Mendeleev, jamais entenderíamos o mundo que nos cerca, Selene!

Por isso, me inspiro na obra máxima dele... a Tabela Periódica dos Elementos!

Se há uma floresta imensa de Frequências Cósmicas Originais, precisaríamos primeiro agrupá-las por características semelhantes, como se fossem 'famílias'..."

Que ótimo!

Saíamos da Física pra entrar na Química... Eu não curto muito Química!

Prefiro mesmo é Física...

Afinal, Física faz muito mais o meu estilo... algo do tipo: "se a química não rolar, vai na física mesmo"...

Pra mim, o contrário nunca funcionou... tipo... "se não rolar física, vai pra química" nunca deu certo pra mim!

Química... que saco!

Paciência!

Se Hélène quer entrar em Química, tenho que respeitar...

Então... permaneci atenta enquanto ela prosseguia:

- Assim, Selene, talvez hajam grupos de Frequências Cósmicas Originais tão vastos que poderíamos chamar de "clãs". E como cada Frequência produz Dons, propriedades ou características ao vibrar, haveriam "clãs" de Dons Cósmicos Originais.

Assim, na pesquisa de Dons para se conseguir criar uma escola que leve as pessoas em direção a eles, nesse nossa analogia com a Tabela Periódica dos Elementos, seria algo como:

'Este Dom é do clã metal? Ou é um Dom do clã não-metal?'

'Seria um Dom do clã semi-metal? Ou é um Dom do clã gás nobre?'

Conhecendo-se esses clãs de Dons, partiríamos para especificações destes Dons: as famílias de Dons!

Famílias seriam especializações agrupadas de Dons.

Voltando à analogia da Tabela Periódica, seria algo semelhante a isso:

'Este Dom é do clã metal da família alcalina? Ou é um Dom do clã metal da família alcalino-terrosa?

'Seria um Dom do clã metal da família de transição? Ou um Dom do clã metal da família de transição interna?'

'Talvez fosse um Dom do clã não-metal da família calcogênio? Ou seria um Dom do clã não-metal da família halogênio?'

Conhecidas as famílias de Dons, poderíamos através delas descobrir finalmente algumas pistas para nos aproximarmos da máxima especialização: identificar o máximo possível da Individualidade nos Dons Originais.

Na analogia da Tabela Periódica, seria algo semelhante a isso:

'Ah, eis um metal alcalino-terroso Cálcio! Dom Cálcio!'

'Hummm, aqui está um metal alcalino-terroso Magnésio! Dom Magnésio!'

'Ah, eis um não-metal halogênio Cloro! Dom Cloro!'

'Oh, veja: um não-metal calcogênio Oxigênio! Dom Oxigênio!'

E, finalmente, o grande objetivo de uma Pedagogia Cósmica é alcançado: oferecer as condições para se criar um ambiente específico para que as crianças exercitem seus Dons de Família Cósmica Original para que possam individuar-se, especializando-se em seus próprios Dons Individuais!

Este exercício de Dons de Família servirá para que, através dele, as crianças e os jovens possam encontrar por si mesmos, muito mais facilmente, preferencialmente nos primeiros 15 ou 20 anos de suas vidas, coisas que muitas pessoas levam hoje 40 ou 60 anos, ou mesmo nunca conseguem: descobrir e sentir em si os seus Dons Originais Únicos e absolutamente individuais. Dons Únicos porque jamais se repetirão em todo o Cosmos e que, no final das contas, apenas a própria pessoa que os carrega pode descobrir e sentir por si mesma.

Para tanto, se construiria uma rede escolar para cada clã de Dons. Em cada rede de Dons Amplos haveria uma escola para cada Família Cósmica.

Porém, em cada escola de Família Cósmica, jamais se ensinaria um Dom Individual, porque isso é absolutamente pessoal, único. O que se ensinaria seriam os Dons de Família para assim criar-se um ambiente que facilitasse ao máximo que a criança e jovem encontrasse, em si mesmo e por si mesmo, o seu Dom Único Original e Personalíssimo.

A função da escola seria apenas indicar os Dons, mas a descoberta da especificidade pessoal de cada Dom? Isso é com cada aluno, partindo da indicação sugerida pela escola. A escola dá o mapa aproximado... mas fazer a jornada e encontrar o local exato do tesouro? É com a criança e o jovem.

Porém, com esse mapa aproximado, se acabariam com essas horríveis frustrações que hoje existem ao se nascer na Terra: nasce-se, vive-se uma longa e imensa vida aflitiva e morre-se em completa frustração porque jamais conseguiu-se encontrar a si mesmo!

A escola da Pedagogia Cósmica existirá para resolver esse imenso vazio existencial: seu maior objetivo será o de fazer com que, no máximo aos 20 anos, a pessoa encontre a si mesma.

E, encontrando-se, começar a aventura de descobrir-se mais e mais! Trilhar a aventura de ser mais e mais o que ela verdadeiramente é, até o fim de sua reencarnação! E que bela passagem ela teria! Seria o fim de uma morte vazia, oca e sem sentido e o nascer de uma morte repleta de significado, preenchida de Beleza, de satisfação e da mais pura e plena Paz!

E tudo isso... partindo da escola! Da Educação Infantil aos 6 anos, das Creches antes disso e, avançando do Ensino Fundamental ao Médio, até a Universidade!

Partindo da escola, organizada em suas diferentes redes! Identificando desde muito cedo os Dons Originais da Família Original à qual pertenceria a criança para encaminhá-la o melhor possível.

Ou seja, pela analogia da Tabela Periódica dos Elementos, esta identificação e encaminhamento seria algo semelhante a isso:

'Ah, eis um metal alcalino-terroso Cálcio! Você estudará na rede de escolas de metais, numa escola de formação de metais alcalinos terrosos!'

'Hummm, aqui está um metal alcalino-terroso Magnésio! Você também estudará na rede de escolas de metais, na mesma escola de formação de metais alcalinos terrosos de Cálcio!'

'Ah, eis um não-metal halogênio Cloro! Você estudará na rede de escolas de não-metais, numa escola de formação de não-metais halogênios!'

'Oh, veja: um não-metal calcogênio Oxigênio! Você estudará na rede de escolas de não-metais, numa escola de formação de não-metais calcogênios!'

Assim, nesse exemplo, eu vou acompanhar o aluno Cálcio mais de perto!

Como haveria uma rede de escolas para metais, uma rede de escolas para não-metais, outra para semi-metais e outra para gases nobres, Cálcio estaria na rede de escolas para metais.

Assim, dentro desta rede de escolas para metais, haveriam escolas específicas para metais alcalinos, metais alcalinos terrosos, metais de transição e metais de transição interna.

O aluno Cálcio iria, por afinidade de Dons, para a escola de metais alcalino-terrosos! Nesta escola ele estaria em uma ambiente específico para estimular que seu Espírito de Cálcio dos alcalino-terrosos saltasse para fora, mostrando-Se.

Este é o objetivo de toda a Educação Profunda que uma Pedagogia Cósmica se propõe: fazer com que o Espírito Divino e único da criança se expresse, salte para fora e se mostre!

Eis a escola verdadeiramente ambiciosa: aquela que busca, nada menos, do que a máxima expressão do Espírito!

Assim, o garoto Cálcio, nesta escola para metais alcalino-terrosos, teria a maior facilidade possível para que ele mesmo descobrisse a sua individualidade única em toda a Tabela Periódica, perante todos os outros diferentes elementos do Universo!

Assim, todo o sistema de educação, da Educação Infantil à Universidade, teria por objetivo que este garoto um dia afirmasse com imensa convicção perante todos os seus colegas de Tabela, justamente porque se encontrou e continua a se descobrir:

'Eu Sou o Cálcio!'

Assim sendo, toda esta Pedagogia Cósmica e Educação Profunda se resumiriam em 3 etapas:

1°) Identificar o melhor possível qual a Frequência Cósmica Original da criança, através do seu Clã e Família Cósmica Original;

2°) Identificar o melhor possível quais os Dons Originais deste Clã e Família Cósmica que a criança carrega nessa vida atual;

3°) Identificados os seus Dons Cósmicos Originais, propiciar à criança um ambiente escolar em que estes Dons possam se expressar e individuar-se ao máximo através de exercícios e vivências.

O seja, a função do ambiente escolar seria retirar o Dom do Espírito do estudante, que está em estado imaterial de latência ou Potência, na Zona de Desenvolvimento Proximal Espiritual e Potencial Espiritual, para o estado de Existência na Zona de Desenvolvimento Real Espiritual, por meio da vivência material.

Vivência material no corpo através da escola!

Uma vivência umbilicalmente ligada à vivência material no mundo e no Cosmos!

Ou seja, as três palavras-chave de uma Pedagogia Cósmica e Educação Profunda seriam estas: FrequênciaDomVivência.

Impressionante!

Mas...

E sempre tem um 'mas'...

Quando ela falou no garoto Cálcio... imaginei também uma garota Selênio...

Quem iria colocar essa garota no lugar certo?

Quem iria se responsabilizar por encaminhar essa garota no lugar certinho?

Ah, porque certamente ela iria se ferrar se a colocassem no lugar errado!

Quem faria isso? Encaminhá-la?

Seria um abençoado sábio?

Ou seria um maldito "'çábio' especialista"?

Ah, não! Não pode ser!

Um "jaleco branco"!

Seria um desgraçado dum "jaleco branco"?!

Isso me deixou profundamente irrequieta!

Foi aí que eu perguntei:

- E quem seria o carinha de "jaleco branco" que iria olhar pro garoto Cálcio e saber que ele é um metal alcalino-terroso? Como é que o carinha iria saber disso?

Acho que Hélène pegou de cara a minha preocupação, pois ela falou em tom bem sério:

- Seria um dos profissionais mais importantes da Nova Civilização do Espírito, Selene, porque ele estaria imbuído de uma responsabilidade imensa quanto ao futuro dessa criança e necessitaria de muito conhecimento e saber para bem encaminhá-la!

Acho que eu soltei um daqueles meus sorrisos, sabe... daqueles meus sorrisos meio demoníacos que às vezes eu solto, enquanto disse:

- Ah, isso eu te garanto, Hélène, te garanto que ele deverá ser muito responsável! Por que imagina o meu caso?!

Hélène ficou me olhando. Eu prossegui:

- Já pensou? Uma Selene, uma garota Selênio, uma autêntica não-metal da família do Oxigênio, de repente sendo analisada por um "jaleco branco" estúpido e drogado, irrigado a whiskey e morfina, que resolve colocar a garota numa escola pra metais? E ela fica lá como uma condenada, estudando pra se tornar um Chumbo, e ainda tendo que aguentar as cantadas do Mercúrio e as pauladas do Ferro! Cacete do inferno! Ah, te juro, Hélène, mas te juro mesmo: esse "jaleco branco" iria se arrepender de ter nascido no dia que visse o que eu faria com o carro dele!

Nem sei que cara a velhinha fez quando ouviu isso... porque eu já tava irritada demais pra olhar pra ela enquanto imaginava aquele desgraçado de jaleco branco ferrando com a minha vida...

Mas, subitamente, um sorriso iluminou meu rostinho... iluminou-me exatamente no momento em que me imaginei, com um taco de basebol, fazendo carinho na lataria do carro dele e depois encerando-o com coquetel molotov...

Ah, sim, não importa o quão escura fosse aquela noite: a luz daquelas chamas realmente iluminaria o meu rostinho!

- O que houve, Selene? Você está sorrindo!

Putz!

Foi só quando a velhinha me perguntou isso que eu consegui sair da minha fantasia pirotécnica!

Ai, preciso disfarçar! Vou fazer uma pergunta rápido, e aí ela se distrai!

- Quem seria esse profissional, Hélène? Um pedagogo? Um terapeuta?

Funcionou!

Ela se esqueceu daquele meu sorriso iluminado... e continuou suas explicações!

Ufa... maravilha!

- O desafio, Selene, de identificar na criança qual a sua Frequência Cósmica Original e seus Dons Cósmicos Originais necessitaria de um profissional completamente novo!

Uma Civilização Nova, principalmente uma tão diferente quanto seria a Civilização do Espírito, sempre necessitará carregar consigo uma gama de profissões completamente novas.

Assim sendo, este novo profissional necessitaria ser alguém que unisse, de uma só vez, tanto a capacidade pedagógica de investigar e identificar Dons Originais, para educá-los, quanto também a capacidade terapêutica de diagnosticar desvios ou bloqueios desses Dons Originais, para reeducá-los.

Assim, como pedagogo, esse novo profissional educaria e orientaria o Sistema de Sombras do estudante para que este sistema expressasse cada vez mais a Luz do seu próprio Espírito-Alma.

E, como terapeuta, esse novo profissional corrigiria no sistema de Sombras do estudante as disfunções e ineficiências na expressão da sua própria Luz. Afinal, a aprendizagem é quando a própria Luz do Espírito da criança salta para fora, criando sentido e significado através de uma estrutura de Sombras educada, funcional e eficiente.

Em outras palavras, este seria um profissional investigador da Frequência Cósmica Original do estudante e promotor de sua expressão. Algo como um "terapeutagogo" ou "biopedagogo"...

Quando ouvi essas últimas palavras, não me aguentei:

- Putz... o som e o formato da palavra "terapeutagogo" ficou de doer... horroroso! Eu preferi "biopedagogo"... é mais sonoro, é mais bonito, tem mais charme! Preferi mesmo a segunda palavra!

Hélène riu gostosamente:

- Eu também, Selene, eu também!

Acabei rindo também!

E, nesse clima de descontração, enquanto estávamos sentadas à mesa da cozinha esperando o "tlim" do forno nos avisar que a forma de biscoitos assados estava pronta, resolvi fazer um apanhado geral:

- Acho que peguei a ideia. Toda essa Pedagogia Cósmica e Educação Profunda se baseia em Dons Originais, certo? Dons Originais é o centro de tudo, certo?

- Certo!

- Mas se os Dons Originais não forem mapeados e bem descritos, então não se poderia levar ninguém a lugar nenhum... então... como você investigará os Dons para mapeá-los e descrevê-los?

- Bela pergunta, Selene! E é nessa bela pergunta que eu estou me dedicando em obter uma bela resposta!

Fiz uma cara de espanto:

- Quer dizer que você ainda não sabe?!

Hélène deu uma gostosa risada enquanto simplesmente me dizia isto:

- Ainda não!

Continuei com aquela cara de espanto! E foi ainda com essa cara que eu ouvi:

- Há muitas formas de investigação, Selene, talvez muito mais do que poderíamos imaginar!

Possivelmente haveriam inúmeras formas de identificar as Frequências Originais e, com isso, encontrar-se os Dons Originais da pessoa. Só que somos ainda cegos... assim como éramos cegos na Idade Média, por exemplo, para identificarmos os elementos químicos de um cristal de quartzo e assim compreender as inúmeras propriedades que se expressam em um único cristal de quartzo.

Mas a cegueira é provisória... sempre surgem pesquisadores para mostrar que, onde por séculos todos viram apenas pedras comuns, haviam na verdade coisas fascinantes, de uma incrível Beleza e imensas aplicações que só o quartzo possui! Porém são coisas fascinantes que ninguém repara, até que um pequeno grupo de pessoas se coloca na postura de investigação e tornam-se pesquisadoras...

- Pesquisadoras... como você e eu?

- Talvez... quem sabe?!

Curti esse negócio de "Selene pesquisadora"!

Acho que eu realmente vou me engatar nessa... afinal, pode ser bem divertido! E se não der em nada... pelo menos o título "Selene pesquisadora" soou mega legal!

Comecei então a minha carreira de "investigadora de Ciências Futuras" comentando isso com Hélène:

- Isso tudo que você me disse, Hélène... de Frequências... "Clãs"... "Famílias"... me lembrou de Rachel... lá dos tempos da Terreira do Pai Xapanã, local onde ela era a yalorixá...

Sim... porque desde que Hélène falou em Clãs Cósmicos, Famílias Cósmicas e eu me lembrei da Teoria das Cordas e da Teoria-M, os Orixás não me saíam da cabeça...

Sim: pra mim é falar de Supercordas e Branas, String e M-Theory, que de cara já imagino imensas Inteligências Cósmicas, Imensas Divindades libertas de qualquer forma como se fossem apenas Informação Especializada Divina em estado puro...

E quer saber que nome eu dou para "Informação Especializada Divina em estado puro"? Este: Orixá!

Pois é... eu sou uma nerd, uma geek... então... como você queria que eu visse uma Divindade, que eu percebesse um Deus, uma Deusa?

Como "bytes divinos", lógico!

Cybers-deuses!

E eu ficaria divagando dentro de minha própria mente, deixando Hélène no vácuo, se ela não falasse:

- Você falava de Rachel... o que você queria mesmo me dizer?

- Ah, é! Sorry! Eu tava pensando uns negócios...

- Sim, eu notei!

E ela riu gostosamente!

Meio sem jeito, larguei essa de cara:

- Bom... como minha vó Rachel era yalorixá, eu só entendo as coisas grandes do Universo, inclusive Frequências Cósmicas Originais, supercordas e outros papos, sejam da Física, sejam do Espiritualismo, apenas em termos de Orixá...

Hélène sorriu, um sorriso convidativo pra que eu continuasse.

Prossegui:

- Então... já que eu fui identificada por Rachel como sendo uma filha de Oxum Pandá... então... se eu chamar as suas Frequências Cósmicas Originais de "Orixá Original"... então, na sua Educação Profunda e na sua Pedagogia Cósmica, eu como aluna, seria algo tipo... tipo...

- Tipo...?

Hélène me estimulava!

Então desembuchei:

- Tipo... eu estudaria numa Escola pra "Oxuns", tipo... uma escola vinculada à Imensa Frequência Original Cósmica do Universo chamada "Oxum"... estudaria com todas as outras Oxuns, mas teria nessa escola também um monte de estudos em salas de aula específicas só pra mim e minhas colegas da frequência mais especializada de Oxum, a frequência "Pandá", que seria, por exemplo, mega diferente das salas de aula pras Oxuns "Docô" ou pras Oxuns "de Ibeji"... ou seja... tipo... hãm... hum... haveria uma Rede de Escolas do Povo D'água... nessa rede haveriam as Escolas pra Oxalás, as Escolas pra Oxuns, as Escolas pra Yemanjás... um biopedagogo que fosse tão bom quanto Rachel iria me identificar, quando eu fosse criança, como uma Oxum Pandá e me mandaria pra uma escola da Rede do Povo D'água, especificamente para uma Escola pra Oxuns... seria isso?

Falei tudo do jeito que eu entendia!

Larguei todo o medo do preconceito, todo aquele meu pavor que eu carregava de ser maltratada e agredida pela minha fé, fé diferente da "normal" cristã ou da fé "normal" materialista, e me expressei perante Hélène do jeitinho que eu sabia!

Sim, ela nunca me julgou!

Por isso, enquanto me ouvia, Hélène dava um lindo sorriso.

Ela verdadeiramente entendia que aquele era o meu jeitinho "todinha eu" de me expressar e, meigamente, respondeu-me assim:

- Tenho pensando em algo que lembraria isso, Sê...

Quando eu ouvi isso... foi a minha vez de sorrir!

E, empolgada pela receptividade e acolhimento de Hélène, falei mais um pouquinho de Rachel:

- Lá na Terreira do Pai Xapanã, quando Rachel precisava ajudar certas pessoas urgentemente a se reequilibrarem, ela dizia que precisava "fazer um chão nessa pessoa"...

Porém, cada pessoa necessitava de ingrediente diferentes pra esse "chão", dependendo da sua filiação divina... então Rachel primeiro descobria essa filiação para depois "fazer o chão" bem certo nessa pessoa...

Assim, além de identificar essa filiação através de sua mediunidade pelos búzios, ela fazia a leitura do corpo da pessoa... tipo... ela via a forma do corpo da pessoa... a forma do seu rosto... pegava a mão da pessoa e examinava os dedos, a palma, as linhas... também perguntava pra pessoa sobre alergias que ela tinha, inclusive alergias alimentares... Rachel chamava essas alergias de "quizilas"...

Parece que quando eu falei nas técnicas que vó Rachel usava pra encontrar a Frequência e os Dons Cósmicos Originais das pessoas, Hélène se empolgou:

- Que fascinante! Conte-me mais, por favor, Selene!

- Bem, eu não sei muito mais, porque... acho que depois dos meus 13 anos eu fiquei "meio torta"... meio perturbada... sei lá, tava mega revoltada, não chegava mais perto de ninguém nem deixava que ninguém mais chegasse perto de mim...

Quando eu disse isso, comecei a sentir uma sensação muito ruim... Saint Peter... e eu sabia o que aconteceria se eu não mudasse o rumo dessa prosa rapidamente e cedesse àquela sensação...

Fiquei firme, jogando ao máximo minhas memórias pra bem longe de mim.

Respirei fundo, muito fundo.

Não tenho certeza se fechei meus olhos enquanto tentava expulsar aquelas lembranças de mim ao mesmo tempo em que respirava profundamente, me esforçando pra jogá-las no lixo...

Acho que Hélène percebeu que minha situação tava complicada, por isso ela estava se preparando pra mudar de assunto, falando sobre um tempero novo que ela havia descoberto...

Dei um suspiro.

Lembro-me de ter aberto meus olhos, fitado o rostinho meigo de Hélène e firme, não deixar ela mudar de assunto.

Eu não iria fugir de meus monstros pessoais mais uma vez:

- Isso que te contei de Rachel, Hélène, eu aprendi antes dos meus 11 anos, faz muito tempo... minha vó devia fazer mais coisas que não sei pra identificar tudo o que pudesse da pessoa... tudo isso porque ela queria muito ajudar os filhos de fé a terem uma vida boa... e ela sempre dizia que uma vida boa só se consegue conhecendo-se tudo o que você puder, com toda a sua atenção, sobre as vibrações que estão em todo o corpo do filho de fé, para orientá-lo com sabedoria.

Hélène deu um grande sorriso... um sorriso que pareceu iluminar a cozinha inteira! Parecia que ela estava, de alguma forma, orgulhosa de mim porque eu não fugi...

E, sorrindo, disse-me:

- Que grande mulher era Rachel, Selene! E as técnicas que ela utilizava são tão interessantes... realmente interessantes!

Ainda meio tonta e cansada, como se tivesse feito uma esforço físico enorme – afinal, jogar fora aquelas minhas memórias-lixo não era nada simples! – acabei dizendo sem pensar:

- Vai ver... sei lá... quem sabe pessoas como Rachel, no futuro, ao tentarem descobrir quem é o Orixá de cabeça e de corpo da pessoa, as passagens e todo o resto, tentando fazer a pessoa ficar mais próxima das suas Divindades... quem sabe pessoas assim, em escolas do futuro, não seriam confundidas com os biopedagogos?

Que sorrisão imenso Hélène deu nesse momento!

- Muito interessante sua observação, Selene! Até porque, possivelmente, sua vó estivesse nos dando várias pistas para nossas investigações...

Poderíamos, com essas pistas, levantar várias perguntas de pesquisa!

Por exemplo... na hipótese de ser possível encontrar nas mãos, corpo, forma do rosto da pessoa ou alergias, o seu Clã e Família Cósmicos, como faríamos isso? Quais formas de mãos, corpo, rosto ou alergias que se associariam a um respectivo Clã e Família?

Além disso, será que poderíamos identificar através da aura da pessoa, através de sua cor fundamental de aura, de um tom fundamental, qual seria o seu Clã e Família Cósmicos?

Ainda quanto à aura: haveriam máquinas, mais confiáveis do que as da atual Kirliangrafia, para investigar a cor fundamental?

Haveriam médiuns que percebessem esses tons fundamentais de aura, que soubessem identificá-los?

Havendo esses médiuns, poderiam eles calibrar as máquinas utilizadas nessa identificação de tom fundamental?

Estas são apenas algumas perguntas de pesquisa. Muitas outras poderiam ser feitas!

Quando Hélène terminou de levantar essas questões... bem, acho que chegou a minha vez!

Selene Modo Pesquisadora: on!

Comecei de mansinho... só pra não assustar a clientela:

- Hélène... se você quer fazer uma Pedagogia Cósmica que se baseie em Frequências e Dons... bem, eu só consigo entender Frequências e Dons do Universo apenas em termos de Orixá... posso continuar a usar essa palavra? "Orixá"?

- Você se sente confortável empregando essa palavra, Selene?

Exclamei direta:

- Totalmente!

- Então, vamos lá, menina! O que você quer me falar sobre Pedagogia Cósmica e Orixá?

Well... hora de sair do aquecimento, de sair do modo mansinho, e ir pro meu famoso estilinho mesmo...

Estilinho intensa!

Lá vai:

- Bom... primeiro tópico: o Universo é imenso...

Sendo imenso, tem um número imenso de Dons... por isso duvido mesmo que o conhecimento do número de Orixás, bem como do número de Dons que os antigos sacerdotes descobriram e que sobreviveu até os dias de hoje, esteja perto do número real...

Deve haver uma floresta cósmica gigantesca de Orixás que ninguém sequer suspeita que exista... uma floresta imensa de Frequências e Dons Cósmicos Originais...

Afinal nós, Homo sapiens, somos tão estúpidos que um Dom poderia estar bem na nossa cara e nós, ou não o percebemos, indiferentes, ou interpretamos estupidamente como um vício aquilo que, na real, é uma Virtude!

Segundo tópico: você quer uma Pedagogia com base nesses Dons... então a gente teria que entender o máximo possível desses Dons... mas pra entendê-los, será impossível se os deixarmos todos soltos no meio da floresta... a gente precisa agrupar esses dons...

Só que eu não curto muito o papo religioso, Hélène... sim, curto Orixá pra mais de metro, mas odeio Religião, porque é na Religião onde se refugiam os fanáticos mais perigosos, aqueles que perseguem toda a pessoa diferente que tem sede por mais Verdade e se puderem, a matam.

Seja explicitamente numa passeata contra você, te espancando... seja através de feitiçaria, sutilmente... se puder, o fanático religioso te mata! Porque ele faz de tudo pra calar você, pra impedir você de falar e impedir você de ser diferente dele!

Ninguém odeia mais a diferença do que o fanático! E em nenhum campo, nem na Ciência, nem na Arte, nem na Filosofia, apesar de todos os problemas destes campos, há maior concentração deles do que na Religião! É ali em que eles mais proliferam, acima de todos os outros campos!

Por isso eu curto mais é Ciência. Religião me dá arrepios horríveis!

Eu, na real, nem sei mais se Rachel fazia Religião na terreira dela, embora ela dissesse que fazia. Porque, pra mim, Rachel tinha a mente tão aberta que não era mais uma sacerdotisa, era uma excelente terapeuta, isso sim! Uma terapeuta espiritual de primeira linha!

Assim, eu não quero agrupar Orixá usando Teologia ou Filosofia religiosa... qualquer papinho de status quo religioso me dá náusea... blarg!

É falar de Religião pra mim... e eu já me vejo cercada por um bando de fanáticos me surrando, me espancando, jogando gasolina em cima de mim e me fazendo arder em chamas até à morte... tipo... eu devo sofrer de alguma Síndrome de Galileu ou Doença de Giordano Bruno...

Então... se a gente precisa entender os Dons, acho que a gente precisa agrupar eles através de uma ferramenta de Ciência...

Tem uma forma obscura de Matemática chamada "Teoria de Grupos"... é uma teoria matemática que analisa grupos de números e símbolos e que depois tenta organizá-los em padrões simples e simetrias...

Essa ferramenta foi a mesma que o cabeção do Murray Gell-Mann usou nos anos 1960 pra tentar organizar a bagunça daquele zoológico de partículas subatômicas que não paravam de surgir naqueles experimentos de aceleradores de partículas.

Sim, nos anos 1960, enquanto você estava fazendo seu doutorado, Hélène, os carinhas da Física tavam descobrindo cada vez mais e mais tipos diferentes de partículas subatômicas... eles já tavam desesperados, porque quanto mais pesquisavam, mais coisa esquisita aparecia!

Foi nessa época que eles chamaram aquela confusão toda de "zoológico de partículas"!

Mas foi usando essa ferramenta matemática da Teoria dos Grupos que Gell-Mann conseguiu organizar aquela Casa da Mãe Joana... e foi assim que ele descobriu o quark em 1967.

Então, se dá pra usar Teoria Matemática de Grupos pra organizar um monte de partículas subatômicas sem fim totalmente bagunçadas numa confusão só... possivelmente também dá pra usar pra organizar Dons e Virtudes. Afinal, Casa da Mãe Joana é Casa da Mãe Joana... seja ela uma bagunça de partículas ou uma bagunça de Dons...

Assim, a gente organizaria os Dons Cósmicos em grupos, em Famílias Cósmicas organizadas, que a gente entenderia bem melhor.

Daí a gente poderia montar uma Pedagogia toda baseada nesses Dons Cósmicos organizados em padrões simples e simetrias que a nossa estúpida mente humana conseguisse processar numa boa.

Então, a partir desses padrões e simetrias, se montariam as escolas e os currículos.

Algo assim: pra cada faixa de Dons e Frequências, uma escola... tipo... como eu curto Orixá, seria algo assim... sei lá... só um exemplo que me veio... tipo... pra Frequência Cósmica BXZ37 até C53PFR, faixa de Frequências Cósmicas que a gente chamaria de Orixá Exu, se faz Escolas pra Exus, pra ajudar tudo que é filho de Exu reencarnado na Terra a evoluir e virar mais rápido um Orixá Exu...

Pra Frequência Cósmica KXW789 até LC53RFR, faixa de Frequências Cósmicas que a gente chamaria de Orixá Oxum, se faz Escolas pra Oxuns, pra ajudar tudo que é filha de Oxum reencarnada na Terra a evoluir e virar mais rápido uma Orixá Oxum...

E por aí vai!

Todas as escolas teriam um currículo curto com uma parte igual, tipo, aprender a ler e escrever na língua nacional e numa língua internacional, calcular e solucionar, etc. ... e é lógico que você iria ensinar um filho de Exu e uma filha de Oxum a ler, escrever, calcular e solucionar de formas mega diferentes... afinal, Exu e Oxum nunca pensam iguais!

E teria um currículo grande com uma parte totalmente específica: currículo pra Escolas de Exus... currículo pra Escola de Oxuns... currículo pra Escola de Oxalás... e por aí vai...

Assim, eu estudaria, desde menina, depois de identificada a minha frequência e os meus Dons, numa Escola pra Oxuns...

Nessa minha Escola pra Oxuns teria um currículo ainda mais específico, um currículo pra Oxuns Pandá... e seria dentro desse currículo que eu teria mais facilidade pra encontrar a mim mesma, descobrir a mim mesma, essa Oxum Pandá individuada e única, incomparável a qualquer outra Oxum Pandá... seria uma escola que serviria pra me ajudar ao máximo, desde a Educação Infantil, com 4 aninhos, até a Universidade, para que eu me individuasse, para que meu Espírito único e incomparável se expressasse e brilhasse cada vez mais em mim.

Enfim, seria uma escola que facilitaria ao máximo a formação de deuses individuados, de deusas individuadas, de iluminados e de iluminadas...

Pronto!

Falei!

Eu não disse que eu sou intensa?!

Pois é...

Hélène?

Sorriu com a minha metáfora... mas acho que ela sorriu principalmente foi da quantificação de números de frequência que eu havia acabado de inventar pra cada Orixá...

BXZ37 ?

C53PFR ?

KXW789 até LC53RFR ?

De onde é que eu tirei isso?!

Pois é... imaginação fértil demais e uma cabeça sempre ligada em 220 V, enquanto os dedos simplesmente escorregam pelo teclado, dá nisso!

Foi quando Hélène falou:

- Selene... sobre a Teoria Matemática de Grupos...

Wow! Ela se interessou pelo meu esquema!

- Sim?

- Pois é, Selene... na National University... você conhece algum colega de universidade... alguém jovem, descomprometido com o status quo atual, livre de preconceitos, criativo, ousado, com uma mente aberta e uma sensibilidade espiritual... quer seja do Instituto de Física, quer seja do Instituto de Matemática... você conhece alguém que tivesse interesse em aplicar a Teoria Matemática de Grupos em algo tão espiritual quanto essa nossa pesquisa dos Dons?

Ao ouvir essa pergunta, exclamei na hora algo muito revelador:

- Putz!

- Isso quer dizer um "não"?

Tive que ser mega honesta:

- Pois é... sabe, Hélène, eu pipoco muito pelo campus... conheço gente da Física, da Matemática, das Letras, da Arte, da Filosofia, da Arquitetura, da Química, da Informática... só não me dou bem mesmo é com as gurias da Pedagogia e com os guris da Engenharia e da Medicina: nunca curti fadinhas, mecânicos e açougueiros!

Fui honesta, ué! Quer que eu minta, dizendo que eu gosto de quem não gosto?!

- E dentre as pessoas que você conhece?

- Pois é, Hélène... o fato é que... putz... não conheço ninguém que teria interesse em aplicar a Teoria Matemática de Grupos pra organizar Dons, Virtudes, caramba! Iriam só rir da minha cara se eu sequer tocasse no assunto! Seria zoação total em cima de mim! Afinal, eu nem mesma posso dizer que sou uma médium, que sinto e vejo defunto por aí... senão já surge algum babaca dizendo que eu tô alucinando e me carregam pro ambulatório do campus pra me injetarem alguma droga psiquiátrica! Que inferno, cacete!

Hélène suspirou... um suspiro que me pareceu imensamente desolador...

Chegou a me doer o peito ao ver a velhinha assim!

Mas os olhos dela continuaram brilhando enquanto ela descrevia a nossa complicada situação:

- Talvez, Selene, no futuro... tenhamos não apenas a Mediunidade e a experiência de vida de uma yalorixá, como foi Rachel, para associarmos Frequências e Dons Cósmicos, mas também a ajuda da Transcomunicação Instrumental e a precisão das Teorias Matemáticas... só que hoje, Selene, além de não termos a Transcomunicação Instrumental disponível como quem tem uma TV na sala, nem eu e nem você dominamos a ferramenta da Teoria Matemática dos Grupos para conseguirmos organizar e entender os Dons... e eu já tenho alguma idade, não posso ficar esperando indefinidamente!

Quando ela disse isso... "alguma idade"... fiz força pra ficar firme: não rir, de jeito nenhum!

"Alguma idade", Hélène?

TODA a idade!

Pois é...

E a minha sorte é que ela não lê pensamentos... porque se Hélène lesse os meus... eu tava ferrada!

Porque fiz aquela minha típica carinha "mega inocente", exatamente enquanto eu pensava aquilo, justamente pra despistar... e funcionou!

Lógico... funciona sempre! Sou uma mestra nisso! Anos e anos de prática tão dedicada sempre produzem uma expert, não sabia?

Assim, Hélène nem imaginava o monte de sacanagem que eu já tava pensando: a idade dela... dinossauros... fósseis... as pirâmides... múmias do Egito...

Ai, como isso é uma delícia!

Sacanagem é o maior prazer da Vida!

Porque, enquanto isso, ela inocentemente continuava a discorrer sobre o assunto, o que deixava a minha diversão tão mais interessante:

- Por isso, Selene, não posso simplesmente ficar apenas sentada esperando que, um dia, alguém que tenha realmente tanto as habilidades matemáticas quanto a sensibilidade espiritual se interesse pelo tema e organize matematicamente os Dons... então...

Foi apenas com aquele seu "então", solto daquele jeitinho todo especial no ar, que finalmente consegui deixar de pensar nas minhas sacanagens e voltar a minha atenção novamente ao que ela tava falando...

Que poder milagroso o de um "então" tão bem colocado e proferido com um ar tão misterioso... estimulou a única rival capaz de desligar mademoiselle Sacanagem: mademoiselle Curiosidade, claro!

Ergui minha sobrancelha esquerda à mando dessa senhorita que, se apossando de mim, perguntou:

- Então...?

Hélène respondeu em tom sério:

- Então, precisaríamos nos virar com o que temos agora! O que você me disse sobre Rachel me deu uma ideia... talvez a Antropologia nos dê algumas pistas em nossa pesquisa, mais especificamente através da...

Mademoiselle Curiosidade já tava frenética:

- Através da...?

- Mitologia, Selene! Mitologia dos povos mais antigos do planeta, Mitologia de onde nossa espécie, o Homo sapiens surgiu...

Nem falei... quase gritei:

- África!

- Sim, Selene! Talvez um estudo cuidadoso, como se fôssemos um arqueólogo de Dons, nos ajudasse a encontrar nos mitos africanos sobre suas divindades – principalmente os mitos mais antigos, anteriores à miscigenação com culturas mais novas como a europeia – boas pistas para avançarmos hoje nessa espécie de "Ciência de Frequências e Dons de Frequência".

- Mas por que os mitos de divindades africanas seriam tão valiosos pra essa pesquisa, Hélène?

- Por cauda da validação!

Fiz uma careta, eu acho:

- Validação?

Hélène assim me explicou:

- Sim, anos e anos de experiência em alguma coisa, mesmo que não se tenha ainda uma boa teoria para guiar essa experimentação, produz muita sabedoria acumulada, validada pela experiência.

Por exemplo, é sabendo que existe essa sabedoria acumulada validada que entram em ação a Etnofarmacologia e a Etnobotânica: nenhum bioquímico chegaria num local e começaria a pesquisar qualquer erva como se fosse medicinal.

Primeiramente esse pesquisador perguntaria para o xamã, o olossaim ou o curandeiro local a respeito das plantas que recomendam e só depois, a partir do que eles lhe dissessem, ele começaria a pesquisar a bioquímica vegetal...

Assim sendo, ele se aconselharia primeiramente com aqueles que conhecem profundamente as ervas e suas propriedades através da experiência acumulada de gerações de ancestrais... e como eles acumularam esse saber validado? Acumularam tanto pelo "jeito materialista" quanto pelo "jeito espiritual"...

Ela fez uma pausa.

Ai, que saco!

Cutuquei-a para que continuasse:

- Hummm... o "jeitão materialista" seria...?

- Seria o acúmulo de milhares e milhares de anos de experiências validadas de tentativa e erro!

Algo do tipo: há milhares de anos, quem estava com dor de estômago e fazia chá com a erva tóxica "ABC", morria. Era aquela comoção!

Mas quem sobrevivia lembrava aos outros: "olha, foi essa erva aí que matou fulano..."

Já quem estava com dor de estômago e fazia chá com a erva "FGH", que possuía propriedades curativas para o estômago, sentia-se melhor.

Assim, quem sobrevivia, lembrava aos outros: "olha, foi essa erva aí que salvou fulano...".

E isso tudo é um conhecimento maravilhoso que se demora milênios para ser construído! Doloroso de se obter, obviamente, mas extremamente valioso.

E o bioquímico, sabendo disso, sempre irá direto aos protetores desse saber ancestral validado por séculos de experiências, que são os...

Nem aguentei! Quase gritei:

- Xamãs, babalaôs, olossaim, curandeiros! Os protetores do saber ancestral!

- Exatamente!

- Legal! E o "jeitinho espiritual" seria...

- Seriam a Mediunidade e a Jornada Xamânica! E como os maiores especialistas em Mediunidade e em Jornada Xamânica eram justamente os mesmos sábios que criavam e contavam os mitos...

- Teríamos nos mitos africanos o acúmulo de milhares e milhares de anos ininterruptos de saber ancestral material e espiritual a respeito de Dons e Frequências!

- Sim! Embora, Selene, eles tivessem uma visão diferente de Dons e Frequências do que nós temos hoje, e precisamos sempre ter cuidado com isso... afinal, a visão sempre é substancialmente determinada pelo contexto histórico...

- "Ter cuidado com isso"? Como assim?

Hélène então me explicou:

- As interpretações mudam com o tempo, Selene, porque a nossa capacidade e visão de mundo também muda.

Por exemplo, onde interpretamos hoje Inteligências Cósmicas e Frequências, semelhantes talvez à Leis Naturais Conscientes passíveis de serem estudadas pela Ciência, eles interpretariam como Deuses e Deusas exclusivamente estudáveis pela Religião...

Ou onde hoje interpretamos um comportamento social como vício, eles o interpretariam como virtude e vice-versa...

Veja, por exemplo: hoje, num planeta densamente povoado e esgotado, sem espaço, em meio ao caos climático, à crise ambiental e em plena Sexta Grande Extinção de espécies, ter muitos filhos é um imenso vício...

Já para os antigos, ter muitos filhos seria uma imensa virtude, pois viviam num planeta estável, espaçoso, mas com alto risco de que seu próprio povo desaparecesse pela elevada mortalidade, ao mesmo tempo em que a expressão "extinção em massa de espécies", a nossa atual realidade, sequer seria sonhada nem mesmo no pior dos seus pesadelos...

- Peguei a ideia...

- Por isso precisamos sempre de muito bom senso para simplesmente não cometeremos o erro grosseiro de uma mera transposição dos mitos antigos africanos para um formato moderno pretensamente "científico"...

Precisamos interpretá-los com os olhos do passado e de hoje ao mesmo tempo e, após interpretá-los, destacar deles todas as pistas possíveis a respeito das Frequências e dos Dons Cósmicos...

Seria essa a ferramenta de pesquisa para estudar as Frequências e Dons que julgo ter disponível nesse momento enquanto pedagoga, até que outras ferramentas surjam.

Talvez dados clínicos mensuráveis de pessoas que melhoraram suas vidas mudando comportamentos indiquem que aquele comportamento seja um Dom, pertencente a uma Frequência...

Talvez a Teoria Matemática dos Grupos ajude a organizar os Dons e as Frequências...

Mas, Selene, eu não sou uma terapeuta e nem mesmo uma matemática, sou uma pedagoga! Não posso ficar esperando que terapeutas e matemáticos se interessem por Frequências e Dons Cósmicos aplicáveis numa Escola que forme gente mais feliz!

Preciso então trabalhar com as ferramentas que tenho, mesmo que, desejando aço e concreto, eu tenha apenas disponível areia e barro fofo... não posso deixar de tentar construir o que posso!

- Já entendi, já entendi! Não precisa falar mais! Já saquei que nós duas somos umas tapadas em dados clínicos mensuráveis e em teorias matemáticas! Não precisa falar mais sobre isso! Já entendi, ok?

Ah, sim! Eu detesto me sentir burra ou ver o quanto sou tapada em algo! E Hélène já tava começando a me mostrar isso com demasiada "clareza e ênfase"!

Nisso, Hélène acabou rindo daquela cara de frustrada depressiva que eu fiz...

Minha cara?

Algo do tipo:

"O Ministério da Saúde adverte: perceber a si mesma, com muita clareza e ênfase, como sendo uma toupeira desmamada em algum assunto pode levar à depressão"...

Pois é...

Ah, mas eu não vou deixar isso barato assim!

Vou fazer agora uma pergunta inteligente!

Lá vai:

- Mas você sempre fala em mitos africanos. África pra cá, África pra lá... mas e a América? E o mitos americanos? Não seriam tão valiosos quanto os mitos africanos como fonte de pistas para os Dons?

Perguntei! Será que foi uma questão inteligente mesmo? Vai depender da resposta que ela me der...

- Sim e não, Selene.

Hummm... uma resposta ambígua!

Legal! Respostas ambíguas são típicas de perguntas complexas e geralmente perguntas complexas são... inteligentes!

Yes! Me senti inteligente de novo!

Depressão? Tô out!

E voltando a me sentir inteligente, cutuquei pela resposta:

- E o sim e o não seriam...?

- Sim: se olhássemos os mitos dos dois continentes pela abordagem da Jornada Xamânica e da Mediunidade. Elas estão presentes em ambos os continentes.

Não: se os olhássemos pela antiguidade... pois enquanto os mitos americanos teriam cerca de 40 mil anos, ou seja, o tempo de permanência ininterrupta da corrente de saberes do Homosapiens na América, os mitos africanos teriam cerca de 200 mil anos, ou seja, o tempo de surgimento da nossa própria espécie, sobrevivendo de forma ininterrupta, como uma corrente de saberes que ainda não se rompeu, até os dias de hoje. Um feito incrivelmente notável!

- Então seria só por uma questão de "tempo ininterrupto"?

- Sim, Selene. Embora ambos tenham o "jeitinho espiritual", o saber acumulado na matéria ao longo do tempo é muito valioso.

Por isso, nesse sentido, os mitos africanos mais recentes, contaminados pela cultura cristã europeia ou pela islâmica árabe, seriam uma fonte ruim para pesquisar Dons.

A cultura cristã e islâmica romperam drasticamente em si mesmas uma corrente milenar de saberes e, cada uma ao seu modo – seja com fogueiras, prisões, coerções ou execuções – exterminou o máximo possível de guardiões da sua longa corrente de saberes ancestrais validados.

Além disso, a cultura cristã e islâmica são muito novas: uma tem apenas 1.500 anos e, a outra, apenas 2.000 anos. Naturalmente, cometem os erros que as culturas tão jovens geralmente cometem.

Assim sendo, mesmo que se apropriassem de algo das culturas antigas incorporando em suas estruturas, essa incorporação "costurada" jamais teria a mesma profundidade, jamais seria a mesma coisa...

- Tipo... perder um dedo... ou perder coisa pior... e ir correndo pro hospital tentar costurar de volta no lugar?!

Nem eu esperava ouvir isso!

Me surpreendi com o que eu mesma disse!

Hélène riu da minha figura de linguagem! Confesso... eu também!

- Sim, Selene! A emenda nunca fica melhor que o soneto!

- Faz sentido, Hélène... 2.000 anos de Europa contra 40.000 de América e 200.000 de África... realmente: dos mitos europeus não dá pra tirar muita coisa...

- E embora ainda hajam na Europa mitos sobreviventes bem antigos e profundos, a corrente européia se rompeu violentamente na Idade Média, Selene...

Assim, não sobraram significativamente xamãs, magos, bruxas nem curandeiros na Europa, desde a Idade Média, que passassem os seus segredos mais valiosos para as gerações seguintes, mantendo assim a corrente de saberes contínua.

Afinal, todo mundo sabe que uma yalorixá ou babalorixá verdadeiramente sábios jamais revelam publicamente os detalhes mais importantes de seu saber: isso é revelado apenas para os filhos de fé mais próximos.

O mesmo faziam os sábios xamãs europeus, até que as fogueiras da Idade Média os consumiram... e a continuidade milenar do saber validado foi despedaçada.

Por isso, uma coisa é você encontrar hoje um mito antigo europeu e lê-lo. Isso é fácil! Porém, sobrou alguém vivo que mantivesse a corrente de saber contínua, algum sábio guardião dos saberes mais profundos desse mito hoje disponível para dialogar com você agora, ajudando-a a interpretar esse mito profundamente?

- Hummm... mas se todos eles morreram... então a Mediunidade... pela Mediunidade a gente poderia...

- Ah, sim, Selene, mas necessitaríamos de uma Mediunidade refinadíssima, educadíssima, do contrario, a comunicação seria muito inconfiável!

Você é médium, Selene, sabe disso!

Você se candidataria a interpretar os Dons presentes nos mitos europeus, recebendo um antigo sábio xamã europeu?

E se esse "xamã" europeu não fosse o sábio que se diria ser, mas sim apenas mais um espertalhão desencarnado das Trevas que veio atraído pelo orgulho, vaidade e falta de discernimento do médium?

Você confiaria criar todo um sistema de educação sobre uma base tão frágil?

Você gostaria, quando criança, de confiar o futuro da sua vida em algo tão incerto?

Meu deu um arrepio horrível quando ouvi isso!

Afinal... apesar da escola de Happy Harbor já ser em si mesma uma porcaria quase impossível de ficar pior... eu odiaria participar de mais uma coisa que tornaria o sistema de ensino mais chiqueiro do que já é!

Pois é, eu não sou tão "sem noção" assim: sei perfeitamente o quanto a minha Mediunidade é deseducada... exatamente tão porca quanto a de 99% dos médiuns...

Sim, porque tanto o preconceito religioso quanto o fechamento às incômodas perguntas investigativas, fechando-se a elas porque se acredita que a Verdade já está toda num livro, numa codificação ou num código só porque foi Pedrinho© quem escreveu, ou porque foi Dona Benta© quem ditou, ou porque foi a Boneca Emília© quem revelou, etc. ... tudo isso também é uma mega vaidade estúpida, pô!

Só um mega vaidoso, um puta orgulhoso, tem medo de descobrir mais Verdade através das incômodas perguntas investigativas!

E nessa vaidade e orgulho bestiais, o cretino gruda-se num livro e ameaça com o "Fogo do Umbral" ou com "O Grande Expurgo" todos aqueles que ousarem perguntar por mais Verdade além das linhas de seu livro!

Que palhaçada!

Que nojo!

Vaidade é um nojo mesmo!

Acho que é por isso que 99% dos médiuns que conheci se comportavam se achando tão "adultos":

"Eu já aprendi isso dos guias e dos livros e o que eu aprendi jamais está errado! Eu me levo muito a sério!"...

Bando de babacas vaidosos! Babacas mesmo!

Acho que só 1% dos médiuns que conheci – ou nem isso! – se comportavam se vendo como Crianças Cósmicas:

"Olha, eu não tenho muita certeza de nada que sei, viu?... Afinal, me levar a sério é uma mega bobagem... o importante mesmo é que eu me divirto fazendo duas coisas: jogar lixo no lixo e construir! Me divirto jogando no lixo tudo aquilo que eu acreditava e que não funciona mais... e me divirto construindo, exatamente naquele vácuo que ficou do lixo que joguei fora, uma coisa nova e bem bonita que agora funciona legal!"

Que coisa... quantos médiuns você conhece assim?

Hei, não mente aqui pra titia Selene, viu!?

Por isso mesmo... melhor eu não me meter mais em encrencas... melhor mesmo é, por enquanto, procurar aqui mais nos mitos as pistas para os Dons... até que os "médiuns Crianças Cósmicas" sejam mais numerosos do que estes 1%, 0,1% ou 0,001% como temos hoje... ou... sei lá... até que... até que em Happy Harbor a Transcomunicação Instrumental se transforme na nova Fox© e CNN©!

Pois é!

Nisso, o forno fez o barulhinho esperado.

"Tlim!"

E, enquanto Hélène removia a forma com aqueles biscoitos quentinhos, acabei resmungando... pensando em voz alta... uma espécie de resumão mental de tudo que Hélène havia me falado de sua Pedagogia...

- Sempre me senti mega diferente do que a escola queria que eu fosse... aliás, eu sempre me senti mega diferente em qualquer coisa relacionada a essa palavra que me dá calafrios: "escola"... tipo uma alien, uma mutante... sim, uma mutante! Mas esta Escola Cósmica que a Hélène quer inventar parece ser uma coisa mega legal... tipo... até parece a Escola para Mutantes do Professor Xavier©!

- Quem? Professor Xavier©?

Tomei um susto!

Eu jurava que tinha pensado em silêncio!

Então, respondi pra velhinha, meio sem jeito:

- X-men©, Hélène!

- Como?

- Ah, esquece isso... é só papo de garota nerd...

Foi quando aquele aroma de biscoitinho quentinho invadiu as minhas narinas sem sequer pedir licença...

Hélène percebeu que eu tava faminta!

Pois é...

Conversar na cozinha dá uma fome...

Assim sendo, em alguns instantes, estávamos lá nós duas fazendo um lanchinho com o belo fruto do forno, irrigado com um gostoso chá australiano adoçado com mel...

Black Tea Twinings of London©.

Hélène adorava esse chá!

Mas sei lá porque ela curtia tanto chá...

Afinal, às vezes eu não sabia se Hélène tinha nascido na França mesmo... ou se ela era uma falsificação made in England...

Ela devia curtir vinho, não chá!

Bem... mas... se não me engano, ouvi uns papos de Leilene de que o falecido esposo de Hélène era um imigrante inglês... vai ver que foi daí que ela criou o hábito do chá...

E foi em meio a esses nossos papos, de "Pedagogia Cósmica" e lanchinhos irrigados a chá, que Hélène me convidou pra participar de um curso com o pessoal da Luz em que ela havia sido convidada.

Participar em projeção.

Viagem Astral!

Curso com desencarnados.

Estudar com defuntos, ora!

Arregalei os olhos... mas não pelos defuntos: isso era mega rotina pra mim! Afinal, meus melhores amigos até Saint Peter eram todos defuntos!

Arregalei os olhos foi pela Viagem Astral! Eu não dominava bem isso, de projeção astral consciente:

- Hei! Mas como é que se faz isso de ir estudar no astral, projetada e consciente? Não é exatamente como ir ao supermercado, Hélène!

- Que é isso, menina! Não é tão difícil assim, e você anda treinando!

Tá, tudo bem.

Mas... sei lá...

Eu já dei uma voltas projetada consciente por aí... e... putz... controlar a minha vontade, projetada, não é tão fácil assim, não... e como é a vontade controlada que te leva pra um lugar legal ou pra um lugar não tão legal assim... a coisa complica!

Confesso que eu fiquei meio insegura!

Falei isso, sem pensar, mega espontânea:

- E se eu, sei lá... me perder por aí? Tipo... ao invés de entrar numa sala de aula do curso do pessoal da Luz, eu acabar entrando direto numa sala de aula do curso "Como se vingar de Salet de modo fácil e grátis!" e, o que é pior: adorar de paixão essa aula?!

Putz... falei mesmo! E agora?

Me ferrei!

A velhinha?

Nem acredito!

Ela riu!

Que coisa...

- Relaxa, Sê! Eu te pego pelo braço e te levo pra aula certa!

Fiz uma careta de desconfiada... pensei... pensei...

- Você me garante? Garante mesmo que não vai soltar o meu braço, Hélène? Porque cansei de fazer tanta besteira, pô!