HUNGRY LIKE THE WOLF
Geórgia, uma aeromoça de vinte e poucos anos, já estava ficando preocupada. Um dos passageiros estava soando frio e tremendo muito. Apesar de pouco tempo de profissão, ela já tinha visto esses sintomas em várias pessoas antes. Era um tanto comum ver passageiros com medo de vôo. – Medo besta – Achava a moça. O avião é o mais seguro dos transportes. - Mais fácil ganhar na loteria do que morrer de acidente aéreo - Achava a aeromoça.
- Algum problema, senhor? Quer que eu traga um copo de água? – Falou Geórgia com sua voz doce ao passageiro em pânico.
- Água? Água não serve!! – Diz o passageiro que, devido ao tom agressivo da voz, agora parecia ameaçador. – Preciso de algum remédio calmante, de preferência a base de benzodiazepínicos. Brozepax, Lorax, Psicosedim, Olcadiul... Se quer mesmo me ajudar pegue o que encontrar e traga pra mim.
- Senhor, acho que não posso...
- AARGH!! – O passageiro em questão deu um berro de dor, chamando a atenção de todos os outros passageiros que estavam a sua volta. Muitos estavam assustados, alguns poucos achavam aquele "barraco" interessante. Algo pra quebrar a monotonia da viagem. – AARGHH! Está começando!!
- Senhor! O quê...?
- Sai da frente!!
O passageiro histérico levantou-se abruptamente da cadeira, empurrou com brutalidade Geórgia para fora de seu caminho e saiu correndo em disparada ao banheiro. Se trancando lá dentro.
Enquanto os demais passageiros ficavam cochichando sobre a atitude do neurótico, a aeromoça chama suas colegas e o comissário de bordo para tentar tirar o sujeito do banheiro. Muitos argumentos são usados para convencer o rapaz de sair de lá, mas nenhum parece ter surtido efeito.
- Senhor. – Dizia o comissário. – Qualquer que seja o problema que o senhor esteja passando, nós...
-AAAAARRRRGHHH! – O uivo de dor do passageiro interrompeu a fala do comissário. Todo mundo ficou sério. Assustados. Preocupados. - Será que esse homem pode se tornar perigoso? - Era o que mais se perguntavam.
Ninguém podia afirmar com certeza o que estava havendo ali naquele banheiro, mas, pelos fortes barulhos de batida e pelos gritos, parecia que o sujeito estava se contorcendo de dor.
BLAMMM!!
Uma coisa monstruosa sai de dentro do banheiro abrindo a porta com tanta violência que quase chegou a ponto de arrancá-la. A criatura era peluda, tinha quase dois metros de altura e seus olhos vermelhos e dentes pontiagudos eram por demais assustadores.
- AAAAHHHHH!! – Todos os passageiros que viram aquele monstro berraram de medo. A criatura, em resposta, dá um uivo. Um uivo estridente e agudo.
Bruno nunca gostou de esperar. Em toda sua vida ele sempre foi impaciente. Coisas como esperar por alguém no aeroporto para ele era uma tortura. Filas, supermercados, bancos... Então, nem se fala.
Sentado na praça de alimentação do aeroporto, o rapaz de trinta e poucos anos, se distrai tomando um cafezinho enquanto espera impacientemente pela chegada de sua esposa. Sua mulher, que é quatorze anos mais nova que ele, havia viajado há negócios para Paris. Só voltando hoje. Além da impaciência, Bruno carregava consigo um sentimento de culpa causado por um "casinho" extraconjugal que teve enquanto sua esposa estava fora. Pobre rapaz. Se ele soubesse o que sua mulher fez na França não se sentiria tão culpado assim.
- "Oía, mã" – Próximo a praça de alimentação havia janelas enormes de vidro por onde era possível para qualquer um ver os aviões aterrissando e decolando na pista de vôo. As crianças pequenas adoravam ver o espetáculo daqueles colossos enormes vindo e indo embora. Um espetáculo que ficava ainda mais bonito à noite, principalmente de lua cheia. Uma criança, em particular, ficava tentando chamar a atenção de sua mãe. Pra azar de Bruno, mãe e filha estavam sentadas em uma mesa bem próxima a dele. Uma coisa que o rapaz também não tinha paciência era com crianças pequenas. Não aturava sequer ouvir suas vozes.
- Esse é bem "gande", "mã"!!
- Sim, filha. É grande mesmo. – Naquele momento, a mãe parecia compartilhar da impaciência de Bruno em relação a crianças pequenas também
- "Mã"!! É enorme!!
- Õ, filha. Mamãe já sabe que o avião é grande, não precisa... OH MEU DEUS!!!
BROOM! CRASHH!!! TOOOM!!! AAARRRGHHH!!! BOOOOMM!!! POOOWW!!
Mais um avião aterrissa no aeroporto. Algo que parecia banal e sem importância acaba por se mostrar muito relevante, pois o pouso em questão não foi nada tranqüilo. O avião conseguiu chegar até a pista de pouso, no entanto sua velocidade não foi reduzida. Ele continuou andando até se chocar contra o salão de embarque.
Pra "sorte" de Bruno, e das outras pessoas que estavam na praça de alimentação, o avião foi bater no lado oposto de onde ele estava. Foi "sorte" também o fato do avião não ter explodido. Se isso acontecesse o calor emanado pela explosão mataria todos que estivessem ali, fossem ou não acertados pelo colosso de aço que caiu do céu.
-AAAHHHHH- As pessoas em pânico não sabiam o que fazer. Botavam as mãos na cabeça, gritavam, corriam feito loucas... Todos queriam sair do aeroporto, mas o avião trouxe um problema. Da forma que ele caiu, ele acabou por tapar a principal saída. Se quiserem sair dali o povo vai ter que arranjar uma rota alternativa. Mas vai explicar isso a uma multidão em pânico.
Bruno o que tinha de impaciente tinha de frio e calculista. Não se passaram nem cinco minutos do acidente e ele já estava calculando um meio de sair dali. Algo excepcional para uma pessoa fazer levando-se em conta o cenário a sua volta. Corpos jogados no chão, muitos escombros, pessoas desesperadas... Destruição.
Com o impacto, a porta do avião acabou ficando aberta. E como o bicho estava meio inclinado, era possível entrar nele. Já que o avião estava obstruindo a passagem, Bruno teve uma idéia um tanto quanto inusitada. Ele decidiu entrar no avião para atravessá-lo e chegar ao outro lado. O que ele não calculou, até porque não entendia muito bem de aviões, é que não havia porta do outro lado. Um "pequeno detalhe" que ele só iria perceber momentos depois de ter entrado naquela aeronave.
Estava difícil andar dentro daquele avião. Nem tanto pelo fato dele ter ficado inclinado, mas sim pelo fato de haver muita gente, bagagem e quinquilharia espalhada por todos os cantos.
Enquanto tentava chegar à porta do outro lado, que não existia, Bruno notou algo bastante esquisito que não se encaixava com nada naquele cenário. O corpo nu de um jovem. – O que uma pessoa pelada faz dentro de um avião? – Se perguntava Bruno.
Dono de uma curiosidade muitas vezes mórbida, Bruno se aproximou do corpo nu em questão para dar uma "examinada rápida". Mudou de idéia na mesma hora assim que notou o ferimento que causou a morte daquele homem. Um pedaço de ferro contorcido que havia lhe trespassado a barrida. Uma coisa não muito bonita de se ver, garanto eu.
- Roooarrr!! – Enquanto estava procurando pela porta inexistente, Bruno teve a impressão de ter ouvido um rosnado. Julgando se tratar só de sua imaginação, Bruno ignorou esse fato e se aprofundou mais em sua busca. – Roooarrr!! – O rosnado voltou a aparecer e desta vez Bruno achou melhor dar mais atenção para ele. – Será que algum passageiro levou um cachorro bravo com ele? – Raciocinou Bruno. Sem levar em consideração que quando animais são transportados não ficam no mesmo local dos passageiros e das bagagens pequenas.
- ROAAARRRR!!! – Finalmente Bruno age por impulso. Sem perder mais tempo examinando defuntos, procurando portas ou divagando sobre rosnados. O homem sai correndo pela porta de onde entrou e vai parar na mesma praça de alimentação onde, pouco tempo atrás, estava tomando um cafezinho.
- Hei, maluco. – Diz um rapaz de cabelo rastafári ao olhar para Bruno saindo do avião. – Você por acaso é um sobrevivente?
- O quê? Do avião? Não, não. Estava tentando procurar uma saída daqui através desse gigante aqui. – Responde Bruno.
- Aqui não tem saída não, rapá. Tamo tudo fodido.
- ROOOOOAAAARRR!!! – Mais um rosnado se fez presente. Desta vez forte o suficiente para que as 27 pessoas que estavam fora do avião pudessem escutá-lo. Assustados, as pessoas começaram a gritar, chorar e rezar. Alguns até chegaram a pensar que aquilo era obra do capeta. O que, de certa forma, não estava errado.
Bruno, individualista do jeito que era, ignorou todos os que estavam a sua volta e se dirigiu até uma das várias lanchonetes que, agora vazias, circulavam o local. Ele havia tido uma idéia. Talvez a porta dos fundos de algumas daquelas lanchonetes pudesse levar até uma rota que desse para sair daquele aeroporto.
A maioria das pessoas não deu muita bola para o que Bruno fazia. Somente o rastafári, um recepcionista do Mcdonalds e uma senhora de meia idade prestaram atenção e entenderam qual era a intenção do moço, sendo assim o seguiram.
Bruno pulou o balcão do Habibs e tentou abrir a porta do fundo daquela lanchonete. Por sorte estava destrancada. O jovem passou por ela e foi embora, sem se preocupar se alguém o seguiria ou não. No caso, só mesmo o rastafári, o recepcionista do Mcdonalds e a senhora de meia idade acima citados.
ROOOAAARR!!! AAAAHHHH! SLASH!! AUUUUU!!!
Depois que aqueles quatro já estavam fora da praça de alimentação, três figuras esquisitas, semelhantes a lobos, mas com postura humana, saíram de dentro do avião derrubado. Muitos gritaram, muitos correram, nenhum escapou. Os que não morreram foram mordidos e ficaram incapacitados. No entanto, esses incapacitados, não ficarão assim por muito tempo. A lua está cheia e brilhante no céu. Logo irão se transformar também.
O temor de Bruno se confirmou. Aquela porta dos fundos do Habibs não levava a lugar nenhum. Ela dava acesso a cozinha, ao local onde os funcionários trocavam de roupa, aos banheiros... Mas a saída do aeroporto que era bom, nada. Nem mesmo uma janelinha por onde alguém pudesse se esgueirar e sair dali. Pra piorar, Bruno pôde ouvir os gritos e rosnados vindos da praça de alimentação. Seu bom senso dizia que era melhor não voltar para lá.
- E agora? Fazemos o quê? – Pergunta Bruno as pessoas que estavam ao seu redor, procurando respostas. No entanto tudo o que consegue ouvir são um monte de "não sei" e lamentos.
- O jeito é voltar para a praça de alimentação. – Diz o rapaz usando uniforme do Mcdonalds.
- Tá maluco?! – Responde o de cabelo rastafári.- Você não ouviu a gritaria não? Sabe-se lá o que aconteceu com aquela gente lá fora! Acho melhor ficar aqui e esperar.
- ROOOAAAARRRR!!!! – Um uivo se fez presente e, pelo que parecia, o autor dele estava bem próximo ao Habibs. Quem estava escondido na loja começou a ficar em pânico, menos Bruno, que já estava calculando um meio de sair dali. O rapaz pegou um banco, ficou em pé em cima dele e, utilizando-se de um bocal de caneta, conseguiu desparafusar a pequena grade que dava acesso ao duto de ar. Não era por menos que seus poucos amigos o apelidaram de Macgyver.
TRUCKT!
Depois de desparafusada, a grade de proteção do duto de ar é solta e caí no chão, fazendo um baque que assustou os outros três. Bruno então tratou logo de se esgueirar pelo duto. Como da outra vez, os outros três o seguiram. Só havendo um "porém". A senhora de meia idade não conseguia entrar no duto. Ela não tinha a habilidade física de sustentar o corpo com os braços para poder chegar lá. Sendo assim, tendo um não comum ato humano, Bruno ergue o braço na tentativa de puxá-la para dentro do duto. Se ele houvesse tido mais tempo conseguiria, mas algo terrível acontece.
POW!! ROOOOAAARRR!!! AAAHHHH!!!– Um dos monstros entrou na lanchonete e, vendo a senhora lá dentro, pulou em cima dela. Aterrorizado, Bruno não teve outra opção a não ser continuar o seu caminho por aquele duto apertado e empoeirado. No entanto, a imagem daquela criatura horrorosa teimava em não sair de sua mente. E, por mais que os outros dois insistissem para que ele contasse o que ocorreu, ele nada disse.
Depois de muito se esgueirarem, e muito joelho e cotovelo ralado, o trio (sempre liderado por Bruno) acaba por chegar há um ponto que ficava posterior ao local onde o avião havia caído. Se conseguissem quebrar a grade de proteção dali conseguiriam chegar a um local que tornaria a saída do aeroporto bastante viável. O problema é que a grade do duto ficava a uma distância muito alta do chão, fazendo com que a saída do duto por ali, seguido de uma boa queda, fosse bastante perigosa.
- Acho melhor procurarmos por outra saída. – Disse Bruno.
- Tá doido? A gente tá no sufoco e você querendo escolher oportunidade? Sai da frente. Se você não quer sair, eu quero. – Empurrando Bruno, o homem de rastafári chega até a grade e, após quatro chutes potentes, consegue derrubá-la. Agora bastava pular e ele assim o fez.
Crack!
- AAAHHHH!!! MERDA!!! – O estalo foi o som que a perna direita do rastafári fez ao encostar-se ao chão. Ela quebrou com a queda. Como Bruno havia previsto, sair por ali não era uma boa idéia.
- Calma. Nós vamos encontrar um meio de chegar aí e já vamos te ajudar. – Disse Bruno ao rastafári antes de sumir da vista do rapaz. O jovem de perna quebrada ficou ali, deitado, com o sentimento de frustração ainda maior até do que a dor que sua perna causava. A saída do aeroporto estava bem próxima dele, fazendo com que pudesse vê-la com bastante clareza, apesar de, por causa de sua perna, não poder chegar lá.
- Roaarrr – O rapaz da perna quebrada ouviu um rosnado. O som era baixo. Parecia que, o que for que seja que estava fazendo aquele som, estava longe. – Roaarrr!! O segundo rosnado era mais próximo e o terceiro mais ainda. Seja lá o que estivesse fazendo aquele som estava se aproximando. O rapaz da perna quebrada decidiu então se arrastar em direção da saída. A perna doía demais, mesmo assim ele continuou se arrastando. – ROOOAAARRR!!! – Coitado, o rapaz da perna quebrada não conseguiu se afastar nem o equivalente a cinco passos. Uma fera monstruosa chegou até ele e, com uma mordida, acabou com sua vida.
Depois de quase uma hora se esgueirando nos dutos de ar, Bruno e o garoto do Mcdonalds chegaram ao que eles esperavam ser uma oportunidade de sair dali. A grade do duto, nesse ponto, não era assim tão alta e, pra melhorar, havia uma mesa embaixo dela, amenizando ainda mais a queda. Aquela saída do duto dava acesso ao que parecia ser um escritório. Com sorte por ali desse pra sair daquele inferno, esperavam os rapazes.
O garoto Mcdonalds era bastante forte. Bastou um chute dele na grade para derrubá-la. Como estava na frente, ele foi o primeiro a sair do duto. Assim que chegou ao escritório, ainda em pé na mesa que ficava logo abaixo a saída do duto, o garoto fez sinal para que Bruno descesse também.
Bruno, assim que desceu do duto, sentiu uma forte tontura que o fez cair sentado no chão do escritório.
- O que foi, "véi"? "Tamo" quase conseguindo, "véi"! Não vai apagar agora não, "véi"! – Dizia o garoto Mcdonalds, na tentativa de fazer com que Bruno não desmaiasse. - O que foi, cara? – Continuou o garoto Mcdonalds. – Está se sentindo enjoado? Está com vontade de desmaiar?
- Aí que coceira! – Respondeu Bruno. Fazendo com que o "Mcdonalds Boy" ficasse sem entender. Bruno começou a coçar com vontade uma ferida, que ele julgava sem importância, em sua mão direita. Tonto, quase desmaiando, Bruno começou a raciocinar para saber qual havia sido a origem daquela ferida. – Foi no duto? – Pensava o rapaz metódico. – Acho que não, ela mais parece marca de arranhão de bicho... A velha? Poucos segundos antes de perder a consciência, Bruno conseguiu entender daonde veio aquele machucado. Quando ele tentou salvar a senhora de meia idade momentos atrás, a criatura que a matou acabou também fazendo um corte em sua mão com suas garras. O corte era pequeno e, devido sua situação, Bruno acabou por não dar muita importância a ela. Até agora.
- Bruno? Bruno?
Bruno desmaiou, mas não ficou desacordado por muito tempo. Quando seus olhos voltaram a abrir eles estavam vermelhos, seu corpo se contorceu fazendo barulhos estranhos e, após uma metamorfose terrível, ele havia se transformado em um monstro, em um lobisomem. O pobre garoto Mcdonalds tentou fugir, mas ele não era páreo para Bruno em uma corrida nem mesmo quando este estava em uma forma humana, imagina agora, que ele havia se tornado um ser sobrenatural.
Quando o sol surgiu naquele amanhecer, a equipe de resgate (bombeiros, polícia, peritos) já estava reunida para cuidar do caso do acidente no aeroporto. Ninguém soube explicar como o avião caiu e nem porque alguns corpos foram encontrados, no avião e no aeroporto, com marcas de mordida de animal feroz. O mais estranho ainda foi quando a equipe de resgate encontrou os sobreviventes. Eles eram ao todo oito pessoas, Bruno incluso. Ninguém soube explicar como eles foram ficar sem roupa, nem mesmo os próprios sobreviventes. Estavam todos nus e, pra piorar, eles alegavam amnésia.
Poucas semanas depois, o caso parou de ser novidade e foi esquecido pela mídia. No entanto, a repercussão desses eventos será sentida por muitos, principalmente pelos sobreviventes, quando, após um mês, a lua cheia voltar aos céus.
