Olhei para uma Lily sem expressão, cabisbaixa, que acariciava a barriga lentamente e, em poucos segundos, virou-se para a cozinha para continuar a fazer a janta que, agora, seria somente para duas pessoas. Confesso que me senti um pouco constrangido durante aquele primeiro par de horas, mas logo estávamos conversando normalmente e aquela Lily deprimida deu lugar àquela garota incrível que eu sempre convivera e trazia um brilho especial nos olhos, que sempre me balançavam quando olhavam diretamente nos meus.
Os insetos se agitavam em torno da lâmpada na sala e o vento suspirava em passos de dança entre as árvores que lá fora se erguiam, e ali a escuridão era muito profunda, contrastando com a luz que havia onde estávamos. E pela maneira como a noite engolia a paisagem, e a estradinha que serpenteava à frente da casa, por onde ninguém poderia ver o que ali havia, pois estávamos protegidos por um feitiço.
"Você já saiu de casa desde que chegaram aqui?", perguntei, enquanto observava pela janela.
"Não, não queremos correr esse risco". E ela falava sempre no plural, o que de certa forma contrastava com aquela Lily independente que todos nós conhecemos ainda quando criança e que agora vivia sob o medo de ser pega, assassinada e ter seu filho sem vida em suas mãos, pelas mãos de Voldemort.
Ela parou ao meu lado com uma xícara de chá nas mãos e deu uma longa olhada. "Às vezes vejo alguma nuvenzinha de poeira e penso ser alguém chegando, mas nunca é ninguém", suspirou. Mas parecia que eu não estava ali ao seu lado, e ela estivesse simplesmente desabafando a respeito de tudo o que acontecera em sua vida até então, e tinha um certo medo de contar para James, também para não preocupa-lo tanto. Mesmo vendo aquelas flores embaixo da janela e estando ao lado de Lily, havia um peso inexplicável no meu coração como se eu já tivesse vivido essa cena antes e já tivesse caminhado por aquela trilha sinuosa em circunstâncias parecidas. Tive vontade de deitar-me ao seu lado e me lembrar de tudo aquilo, enquanto me perdia em seus olhos. Toda vez que estou com ela, fico com essa sensação: sempre parece que já conheço aquele lugar, há muito esquecido, como o rosto de um parente morto há muito tempo, como um sonho antigo, como o trecho de uma canção esquecida que está à deriva sobre a água, mas acima de tudo como eternidades douradas da nossa infância passada ou de vida adulta passada e de todos eles, James, Sirius, e os que estão lá fora à beira da morte e o coração que bateu ali há um milhão de anos e as nuvens que passam ali em cima servem de testemunhas para essa estranha sensação. Êxtase, até, senti, com lampejos repentinos de lembranças, e me sentindo sonolento, tive vontade de puxá-la contra o peito e adormecer no sofá. À medida que ela me levava para ele, onde eu deveria dormir, ia ficando mais cansado e, àquela altura, como dois velhos amigos, já não conversávamos mais e não precisávamos conversar, ainda bem, aliás Lily comentou enquanto me cobria com um cobertor leve, "É assim que eu gosto de ficar, quando não se tem a necessidade de conversar, como se fôssemos animais e simplesmente nos comunicássemos por meio de telepatia silenciosa". E foi assim que, absorto em meus próprios pensamentos, e vendo aqueles olhos verdes em minha frente, eu acabei adormecendo e acordei somente no dia seguinte, com um delicioso cheiro de torta de abóbora inundando a sala.
Rastejei, praticamente, até o banheiro embaixo da escada, e ali lavei o rosto e limpei os dentes. Olhei-me no espelho pela primeira vez depois de muitos anos ou meses. Perdi a conta do tempo também. Meu reflexo me assustou, mas foi melhor do que eu imaginava. Achei que, quando acontecesse de me ver refletido em algum lugar, eu fosse me deparar com uma criatura feia e descuidada, mas, apesar de me sentir assim, meu rosto estava ok, provavelmente pela boa noite de sono em tanto tempo, e só alguns fios brancos caíam pela minha testa. Eu era jovem, mas eles já existiam. Imaginei o lobisomem e levantei a gengiva, para ver os dentes. Um pouco amarelados, é verdade, mas em perfeitas condições. A pele sob os olhos estava um pouco queimada de sol e certamente eu aparentava mais idade do que realmente tinha, mas naquela manhã eu me sentia jovem novamente. Desabotoei a camisa, tirei minha velha calça e tomei um banho quente. Quando saí do banheiro, vestindo a mesma roupa, Lily me interrompeu dizendo que me emprestaria roupas limpas.
"Tome, são do James, e ele não usa mais."
"Não quero atrapalhar", eu disse, mas ela me olhou com aquele olhar de pena, que não era intencional, mas eu certamente já me acostumara a ser olhado assim, e insistiu para que eu as colocasse. Vesti a camisa jeans com mangas curtas e uma calça do mesmo material, um tanto gasta, mas nova, se comparada às minhas. O dia estava agradável. O verão estava chegando e o sol teimava em sair, apesar de fraco. Mas dentro da casa o ambiente estava quente e aconchegante, não tenho certeza se por causa do clima, somente.
Logo cheguei à cozinha, à beira do balcão onde Lily preparava toda aquela comida, e pensei que James estava certo quando disse que ela encontrara ali uma maneira de se sentir útil, porque certamente esta era a razão para toda aquela atividade culinária.
"Dormiu bem?"
"Sim. E você?"
"É esquisito dormir sem o James", ela respondeu me dando um sorriso melancólico, enquanto virava para pegar algumas cebolas na cesta à minha frente.
Esperei um pouco antes de retomar o assunto, apenas observando a sua habilidade com os utensílios. Era, afinal, uma exímia preparadora de poções, e cozinhar era bem parecido. Todos aqueles aromas cozinhando no fogão subiam e deixavam a casa com um perfume magnífico, que lembrava uma infância que eu nunca tive, mas imaginava ser perfeita.
"O cheiro está delicioso", eu disse, enquanto a observava, absorto.
"Ah, isto aqui não é nada", ela respondeu, ainda atarefada com um ramo de sálvia sob as mãos. "É uma receita da minha mãe, trouxa, mas à noite posso fazer um ensopado de coelho e separar meia dúzia de cenouras para um refogado, se você quiser".
"Não se incomode".
Ela virou para mim com a expressão afetada, como se eu a tivesse ofendido, e voltou para a sua atividade. Prometi a mim mesmo que não falaria aquela frase novamente.
"Você nunca incomoda, Remus", ela prosseguiu, com a voz em um tom devidamente decepcionado pela situação, por não estar com James, por estar sozinha, por ter que mudar de casa. Eu senti tudo isso em sua voz. Ela veio até mim e, se debruçando no balcão, me agradeceu por ter ficado com ela. Eu abaixei os olhos, porque meu estômago revirou quando ela segurou as minhas mãos. Era sempre aquilo, aquela amizade. Ela era uma pessoa excepcional. Eu a amava, mas de uma forma diferente, e jamais admitiria a ela ou a qualquer outra pessoa. Ela largou minhas mãos, não sem antes fazer um último movimento nelas com o polegar, e esses pequenos detalhes me faziam ficar um pouco melhor.
"O segredo desse tipo de comida", disse Lily, voltando à colher de pau e às panelas, "É saber a hora de parar de acrescentar os temperos. Se você coloca mais do que deveria, está perdido. Não pense. Simplesmente dance de acordo com o ritmo. É a coisa mais instintiva do mundo."
Depois de alguns minutos de conversa sobre ingredientes, já não falávamos muito. Ela estava especialmente concentrada naquela atividade e eu voltei minha atenção à estante de livros que ficava perto da porta, na sala, e passei a próxima hora lendo um livro interessantíssimo sobre criaturas das florestas. Quando toda aquela comida ficou pronta, nos divertimos muito enquanto saboreávamos cada prato, cada pedacinho de frango que ela havia cozinhado, ou sentindo o "crec" da cebola em cada mastigada, enquanto ela contava com gestos a dificuldade que o James teve de trocar uma lâmpada do teto sem magia, a pedido dela. Passamos a tarde em meio àquelas conversas, e foi quando o dia se transformou em fim de tarde e a luz foi ficando cada vez mais amarelada, com as sombras caindo de modo agourento sobre as árvores na frente do sobrado mas, em vez de assustar, traziam de volta aquela sensação de que, ali dentro, estávamos seguros.
"Toma, sua poção", ela me disse, e quando eu virei lá estava ela, com uma camiseta amarela, os cabelos molhados, pois acabara de tomar banho, segurando um copo grande com aquela poção esverdeada que eu já conhecia muito bem.
"Obrigada", eu disse, e ela retribuiu com um sorriso e um carinho no meu braço, antes de voltar à cozinha. Dei um gole e acompanhei seus passos até lá, sentando ao velho balcão e tentando puxar algum assunto.
"Você me preparou esta poção pela primeira vez quando eu tinha 16 anos".
"É mesmo", ela disse, fazendo um barulhinho com o nariz, que eu entendi como um desabafo a respeito do tempo que passa tão rápido. "Foi o Severus quem me ensinou. Ele conhecia todas as poções naquela época."
Senti a tristeza em sua voz ao tocar no nome de Snape. Tenho certeza de que ela não conversava com James e mais ninguém a respeito dele, pois todos o odiavam. Ele havia se tornado um Comensal da Morte e era assunto proibido em qualquer rodinha de conversas onde o James estava presente, principalmente. Então percebi que Lily queria falar sobre isso, como se esperasse há muito tempo por essa oportunidade de lamentar o futuro do amigo. Houve uma pausa para o silêncio, quando observei que ela estava pensativa a respeito do assunto que entrávamos.
"É realmente triste que ele tenha seguido esse caminho", eu disse, e ela jogou algumas cenouras cortadas dentro de um imenso caldeirão antes de responder que "triste é a palavra certa".
"Sabe o que eu não entendo, Remus?", ela disse, voltando-se para o balcão e deixando todas as panelas sozinhas borbulhando atrás dela. "Ele sempre teve escolha, entende? Ele não precisava ter seguido esse caminho. Ele é muito inteligente, poderia ser um excelente bruxo, um professor, talvez."
"Ele continua sendo um grande bruxo, pelo que ouvi dizer."
"De nada adianta você ser um grande bruxo se direciona isso para o lado errado."
"Ele não acha errado."
"Mas sei que também não acha certo, Remus.", ela disse, enquanto voltava às panelas e batia levemente a colher de pau na beirada de uma delas. "Ele simplesmente tomou esse caminho como algo que devesse fazer, como se não tivesse outra opção, mas ele sempre teve. É o que eu penso e não concordo."
"Você tem falado com ele desde que saímos de Hogwarts?"
"Não. Quer dizer... Eu o encontrei há um ano no Beco Diagonal, ele deveria estar indo na Travessa do Tranco, estava muito esquisito, com todas aquelas olheiras e arqueado. James e eu tínhamos acabado de nos casar e eu estava comprando uns caldeirões para a nossa casa, inclusive este aqui, olha" – e me mostrou o caldeirão de ferro que estava sobre o fogão cozinhando o coelho para o jantar. "Eu o cumprimentei, perguntei como ele estava, e ele disse 'bem', só isso. Eu respondi 'que bom' e saímos andando, mas foi um momento bem constrangedor. Gostaria de ter conversado com ele, mas ele já estava tão distante de mim, tão... em outro lugar, já sem brilho naqueles olhos negros e profundos que, confesso, tive até um pouco de medo de me aproximar. Eu já não conhecia aquele Severus Snape, mas ao mesmo tempo sabia que ele continuava ali dentro, por trás daquela capa preta, à espera de qualquer coisa que, até hoje, eu não sei te dizer o que é, assim como não sabia quando eu tinha 16 anos e ele começou a mudar."
"Ele sempre foi esquisito, Lily.", eu disse, e ela me olhou com cara de poucos amigos e eu fiquei surpreso com a minha estupidez. Isso era o que nós dizíamos quando éramos adolescentes, e que tipo de vida perfeita eu tinha para fazer uma afirmação dessas?
"Ele sempre foi muito inteligente, isso sim. É só isso que não entendo, como pôde ter escolhido um caminho tão obtuso.", ela disse, e praticamente encerrou o assunto. Depois daquilo, eu não sabia mais o que dizer e não queria arriscar uma opinião. Comecei a prestar mais atenção ao rádio que estava ligado e estava tocando a música Save Me, do Queen. Eu ia cantarolando a letra e movimentava as mãos de acordo com o ritmo. Ouvir essa canção fez com que eu me sentisse bem e todo bobo e feliz enquanto arrumava a mesa para jantarmos, bebia um copo de água de fonte deliciosa, e estava pronto para percorrer 5 mil quilômetros correndo, se fosse preciso.
Escutei sua voz vindo da cozinha e me perguntando se eu não senti medo quando estava no trem, sozinho. "No começo eu estava um pouco hesitante", respondi, agora acendendo a vela dentro da pequena luminária da parede, "Principalmente por causa daqueles policiais em Londres, sabe, se eles me pegassem ali de carona, eu estaria perdido, não teria como aparatar na frente deles."
"Ah, isso é mesmo bem típico. Ainda bem que você não teve problemas."
"Então passei a noite na praia de Bristol."
"Você está brincando."
"Não, mas foi uma ótima noite. Fiz algumas salsichas e fiquei observando o mar e pensei na vida."
"Parece divertido, mas vou te dizer uma coisa: se eu soubesse que você fosse fazer isso, teria proibido você de vir de trem, Remus, proibido."
"Depois dessa comida maravilhosa que você está fazendo para mim, eu concordaria com qualquer coisa que você me pedisse.", respondi meio sem pensar, e ela deu uma gargalhada como há muito não ouvia, e fiquei satisfeito por estar conseguindo ser uma boa companhia e não deixá-la ainda mais deprimida do que já estava, o que era o meu medo.
Continuamos conversando animadamente enquanto saboreávamos aquela comida maravilhosa e eu tomava meu chá, prestando atenção em cada traço do seu rosto, mas eu estava impaciente com relação a algumas coisas, e a ausência de James pela primeira vez se abateu sobre mim, como se o que eu estivesse fazendo, todos aqueles pensamentos sobre Lily, fossem algo extremamente feios e desonrados. Fui tentando mentalmente me tranqüilizar a respeito disso, tentando convencer a mim mesmo de que não havia nada de errado enquanto não se tornasse real e explícito. Mas o que poderia ser mais explícito do que aquela dependência patética que se abatia sobre mim? Parecia extremamente claro o que eu sentia, mas ela continuava me tratando como sempre, daquela maneira carinhosa com a qual tratava as pessoas de quem gostava. Fiquei contente por ser uma delas e acabei esquecendo todo o resto negro que habitava os meus pensamentos.
Na hora de dormir, acompanhei com os olhos sua silhueta sumindo nos degraus da escada enquanto eu apoiava um livro sobre o meu peito, fingindo ler apenas para observá-la mais um pouco e ter aquela imagem de seu sorriso e de seus gestos soltando os cabelos antes de dormir. O sofá ficava perto do confortável aquecedor a óleo e devia estar frio lá fora, mas a vontade que eu tinha era a de abrir as janelas e respirar aquele vento gelado que rasgaria os meus pulmões e veria a lua cheia lá em cima, enquanto eu pensava "você não me controla mais, lua!". Lembrei da poção que Lily preparara e agradeci em pensamento por estar ali, naquele momento, e me dei conta que durante o dia inteiro ela não citara o nome de James e Sirius, talvez receosa de que viesse a chorar ou algo do tipo, mas mesmo assim resolvi que no dia seguinte tocaria no assunto, em respeito a eles, principalmente a James.
Toda aquela região enluarada estava em um silêncio absoluto, não se ouvia nem mesmo o barulhinho de cervos ou o uivar de lobos em nenhum lugar, mesmo sendo lua cheia, para o meu alívio de poder esquecer durante algumas horas quem eu era. Um silêncio abençoado e frio. Só se ouvia um som muito tênue vindo da floresta, aquele farfalhar de folhas. Uma noite abençoada. Eu imediatamente entrei em um transe vazio e sem pensamentos o qual mais uma vez revelou-se pra mim que meu cérebro havia parado e suspirei porque podia pensar nela e senti todo o meu corpo se afundar completamente relaxado e em paz com o mundo efêmero do sonho e do sonhador e do ato de sonhar em si. Todas as coisas vivas e mortas e eu indo e vindo sem nenhuma perenidade nem substância própria, por Merlin. Que horror seria se o sonho fosse real, porque se o sonho fosse real, eu seria imortal! E meu cobertor me protegia do frio, como uma máscara ajustada ao corpo inteiro, foquei meus olhos na lua até que ela virasse um borrão e então adormeci.
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Save Me foi uma música do Queen que tocou bastante em 1981 em decorrência do lançamento do álbum "Greatest Hits (Queen)". Você pode conferir a letra da música no seguinte link: letras..br/queen/67909 e o vídeo em: /watch?vk8cYDnthloI . Eu acho que essa música é muito a cara do Remus e quis dar um jeito de inseri-la na fic para exemplificar o que ele sentia quando estava perto da Lily. Espero que você também ache isso. Aliás, depois desse trecho eu escrevi todo o restante do capítulo ouvindo essa música no repeat e ela acabou dando o tom para a conversa que eles tiveram etc.
Obrigada à Anne por ter lido essa fic antes de todo mundo e ter feito comentários.
