Capítulo 1
O tempo
O tempo é algo relativo. Para alguns, passa numa velocidade como a da luz, deixando coisas, pessoas, sentimentos, tudo para trás como algo fácil de ser ignorado. Para outros, o tempo se arrasta como uma carga pesada em um terreno arenoso. Lento, denso.
Para Edward, o tempo quase não existia.
Seus minutos eram fracionados entre seu trabalho e sua filha. Os poucos segundos de um suspiro não podiam ser desperdiçados, pois com certeza fariam falta depois.
Ele precisava urgentemente de um café.
Calculou quanto precisaria para ir até a cozinha do andar onde estava, e viu que era razoável e saudável dar um intervalo para que as letras em frente aos seus olhos parassem de ficar embaralhadas. Quando se levantou da minúscula mesa que servia de apoio para suas milhares de anotações, deu de cara com Jane, sua chefe.
— Você terminou o que eu pedi, Edward?
Um suspiro. Edward teve que gastar esses segundos pra não enlouquecer.
Ele havia passado boa parte da noite terminando o mais novo caso da Volturi & Volturi. Um grande cliente, com grandes acusações e uma grande conta bancária. E uma grande cara de pau também, já que ele era o responsável por tudo o que estava sendo julgado.
Os papéis ainda não estavam prontos. Edward precisava revisar toda a argumentação antes de passá-la à Jane para que ela simplesmente decorasse o texto para a audiência que seria dali dois dias.
— Está quase feito Jane. Em 10 minutos estará em suas mãos.
E lá se vão os minutos de seu café.
Jane sorriu para Edward, e caminhou ruidosamente para sua sala com vista panorâmica da bela Chicago. Ele até a acharia bonita, se não nutrisse um grande sentimento negativo em relação a ela.
Volturi & Volturi apareceu na vida de Edward em um momento muito oportuno. Ele estava numa situação crítica, onde os avós maternos de sua filha estavam pedindo a guarda de sua pequena, alegando que ele não tinha tempo para cuidar dela devidamente. Edward estava prestes a terminar a faculdade, e trabalhava para poder colocar algo para comer na mesa.
Apesar do pouco tempo que lhe restava, ele fazia questão de ir a todas as reuniões de pais, de cuidar de perto da educação de sua menina, e nunca a deixou sem um beijo de boa noite. Ele se sentia orgulhoso de estar cumprindo sua promessa à sua esposa, agora morta. Elizabeth Cullen era uma bela menina: educada, carinhosa, doce. Ele não via erros no que estava fazendo com tanto esforço.
Porém, nem todos pensavam assim.
Quando Edward sentia que estava completamente sem saída, Jane apareceu. Ela fazia parte da sua turma de Direito Civil, e estava prestes a se formar também. Com uma conversa fácil que exalava simpatia, ela o convenceu de que poderia ajudá-lo. E realmente, ela o fez. Edward ganhou a batalha na justiça e não perdeu a guarda de sua filha.
O único problema era o fato de que Edward não tinha dinheiro para pagar o que Jane havia feito a ele. Quando ele disse isso a ela, no primeiro encontro que tiveram, sua salvadora o tranquilizou dizendo que arranjaria uma forma para que ele pudesse lhe recompensar.
Depois de formados, Jane ofereceu a ele uma vaga na empresa de seu pai. Ela alegou que apenas tendo um talento como Edward com eles já faria com que sua dívida fosse paga. Sem hesitar muito, ele aceitou.
Quando se deu conta, Edward estava resolvendo casos para Jane. Mas, quem os defendia no tribunal não era ele, e sim, ela. No instante em que resolveu confrontá-la, ele identificou o sorriso que achava que era pura simpatia, mas viu que representava apenas pura crueldade. Jane simplesmente disse que aquele era o preço de sua dívida com ela.
Edward pensou em sair da Volturi & Volturi. Ele não queria trabalhar como um escravo, não podendo defender seus clientes por ele mesmo. Porém, sua cabeça não era a única que tinha de ser sustentada. Ele tinha uma filha, uma que ainda era apenas uma criança e que era totalmente dependente do sustento que ele levava para casa.
Naquele momento, Edward engoliu todo o orgulho que tinha e continuou trabalhando. E está nessa situação por tempo o suficiente para se sentir completamente sugado e esgotado.
Sua mente não era um lugar muito confortável de se estar. Seu corpo não tinha o frescor que deveria ter pela sua idade. Sua alma estava espessa, recheada de sensações e sentimentos obscuros.
Edward se lembrava de sempre ter um motivo para dar um bom dia, oferecer um sorriso a alguém, ou apenas demonstrar alegria. Um dia ensolarado. Um animal abandonado que abanava o rabo para ele na rua. O rosto de sua esposa em sua mente.
No momento, nenhuma dessas coisas mais o fazia sorrir. A única pela qual ele ainda fazia um esforço era sua filha.
Era por ela que ele continuava ali, forte, carregando toneladas nos ombros. Era por ela que Edward aguentava humilhações e noites sem dormir. Era por ela que ele recebia um salário bem menor do que lhe era de direito. Era por ela que ele levantava de manhã e encarava todos os outros que se achavam melhores que ele em algum aspecto, mas que na verdade eram apenas manipuladores com mais dinheiro nas mãos.
Tudo era por ela. Elizabeth Cullen.
[...]
— Parece que você não dorme há dias. Você ao menos lava o rosto, Edward?
Ele estava sentado em uma das mesas mais distantes do Pixie Caffe, o café de sua melhor amiga, Alice. Ela estava parada em sua frente, com uma xícara fumegante de café sem açúcar nas mãos. Edward salivou.
— Eu sei que estou horrível, não precisa me lembrar disso. — Ele estendeu a mão, ansioso pela cafeína.
— E quando você vai deixar de ser tão idiota?
— Não estou para sermões hoje, Alice.
A pequena mulher se sentou em sua frente, com seus olhos azuis intensos como todas as vezes em que ela ia dizer algo importante. Não passou despercebido por Edward que ela também estava cansada. Seus ombros estavam curvados para frente, e havia algumas pequenas rugas em torno de seus olhos e vincos em sua testa.
Mas Edward não era tão idiota a ponto de dizer a Alice que ela tinha rugas.
— Agora, falando sério Edward. Eu estou preocupada com você. Eu não gosto de ver meu amigo com essa cara de derrotado. — Ela estendeu uma mão e tocou as mãos de Edward que agarravam a xícara com força. — Você tem noção da quantidade de tempo que você não dá um sorriso espontâneo? Eu vejo em seus olhos o quanto você está cansado. E você sabe que pode reverter isso.
Edward sentia seu coração se apertar ao ver nos olhos de sua amiga a angústia que ele sabia que também estava nos seus olhos. Alice sempre foi a pessoa que lhe deu apoio incondicional desde a morte de Tanya. Eles se conheceram nesse mesmo café, que ainda não pertencia a ela, e desde então ela era a única mulher que conseguia ter alguma influência em sua vida, além de sua filha.
— Não Alice, eu não posso. Não enquanto eu tiver uma filha em casa que depende de mim. — Lizzie. Ela precisava dele, e ele não podia nunca ignorar isso. Nunca.
— Lizzie não é o problema, e você sabe disso. Eu posso te ajudar. Carlisle e Esme também, até os Denali.
— Não quero ajuda. Eu me virei muito bem todos esses anos. — O café entrava na circulação de Edward, fazendo com que ele ficasse mais desperto, pronto para retrucar os argumentos de Alice, que pareciam estar afiados hoje.
— Por que você é tão orgulhoso? Isso só faz de você um idiota ainda maior.
— Eu não quero ficar devendo nada a ninguém, Alice, nem mesmo a minha família. Eu já tenho dívidas demais para pagar, e isso suga tudo de mim.
— É por isso que você precisa de ajuda! Eu posso ver isso, Edward. Você não tem mais toda a virilidade que você tinha quando tudo isso começou. O tempo passa, e com ele estou vendo você definhar.
Alice se levantou, levando consigo a xícara de café completamente vazia.
— Eu só quero saber o que acontecerá com Lizzie quando você quebrar totalmente.
E com isso, Alice saiu de vista, deixando suas palavras criarem mais um pouco de pressão sobre os ombros de Edward.
[...]
Quando abriu a porta de seu apartamento, Edward sorriu. E dessa vez, era sincero.
— Boa noite pai. — Lizzie o cumprimentou com um sorriso igualmente amplo.
Edward se jogou no sofá ao lado dela, enlaçando seus ombros com seu braço. Sua cabeça descansou contra o sofá e ele fechou os olhos.
— Você sabe que precisa dormir, não é? Você parece um zumbi.
Ele abriu os olhos e encontrou Lizzie o encarando, com um sorriso torto nos lábios. Ela estava brincando, mas em seus olhos igualmente verdes como os dele, Edward via que ela estava tão preocupada com ele quanto Alice. Ele fez seu melhor para fazer uma cara de composto enquanto se ajeitava melhor no sofá.
— Eu estou bem, pequena.
— Sabe pai, eu já tenho quase um metro e setenta. — Lizzie torceu o nariz. Edward gostava de irritá-la, pois ela sempre dizia que já estava crescida agora. Para ele, altura não mudava nada.
— Foda-se, você ainda é minha pequena.
Lizzie revirou os olhos teatralmente, como todo adolescente. Edward se aproximou ainda mais e plantou um beijo em seu cabelo, inalando o cheiro logo em seguida. O shampoo de pêssego que ela usava o deixava mais calmo.
— Vou fazer algo pra gente comer. — Ela disse, se levantando.
Edward aproveitou a deixa para zapear entre os canais da TV. Nada parecia interessante. Apenas pessoas que mexiam seus lábios, pronunciando sons que ele não conseguia compreender. Por que tudo de repente parecia tão complicado?
— Pai, acorda.
Lizzie estava na sua frente, com um prato em uma das mãos, e um copo de suco na outra. Edward fez um esforço para deixar suas pálpebras abertas enquanto ajudava a filha a colocar as coisas sobre a mesa de centro da sala.
Ao se sentar ao lado do pai, Lizzie passou as mãos pelas madeixas ruivas que ela gostaria de ter herdado, ao invés do loiro que ela adornava. Seu pai parecia tão cansado.
— Pai, você sabe que eu posso trabalhar. A lanchonete aqui no final do quarteirão está precisando de gente para meio período.
— Eu não quero que você trabalhe, você sabe disso. — Ele afirmou determinado, como todas as outras vezes em que tiveram essa discussão.
— Por que você é tão teimoso, Sr. Cullen? Eu consigo dar conta, e você sabe disso.
— Não quero discutir hoje, pequena. Estou cansado. Será que a gente pode simplesmente comer?
Lizzie lançou um olhar ao pai que ele sabia que significava que a conversa não estava acabada. Ela relaxou um pouco no sofá e começou a comer, assim como Edward. De repente, algo na TV chamou tanto a atenção da menina que ela quase deixou o sanduiche cair em seu colo.
— Quem é essa? — Edward perguntou, apontando para a morena na tela.
— Pai, você ao menos presta atenção nos livros que compra para mim?
Edward levantou uma sobrancelha. A resposta era óbvia.
— É Isabella Swan, a maior escritora de todos os tempos!
— Eu achei que esse cargo pertencia ao Shakespeare?
— Não mais. — Lizzie tinha um sorriso brilhante nos lábios. A devoção dela pela escritora era evidente.
— Certo. Se ela é uma escritora, o que ela está fazendo na TV?
— Ela promoveu um concurso que vai presentear uma das leitoras dela com uma festa de debutante, assim como a Amy, protagonista da trilogia que ela escreveu.
— E você é uma das que está concorrendo, certo?
Lizzie confirmou com a cabeça, empolgada.
O assunto sobre a comemoração dos dezesseis anos de Lizzie era algo delicado dentro daquele apartamento. Por mais que a menina dissesse ao pai que não se importava com toda a besteira de ter um dia especial, Edward sabia que aquele era o sonho dela. Seus olhos denunciavam sua vontade quando se encontravam com o mais simples vestido em uma vitrine de loja.
Edward estava tomando providências. A festa de Lizzie não seria tão digna quanto a que ela realmente merecia. Porém, ele e Alice estavam fazendo todos os esforços para que a data não passasse em branco.
Dizer que ele também estava ansioso para o resultado desse concurso não seria uma total mentira naquele momento.
A introdução para todo o anúncio teria sido completamente chata se quem estivesse falando não fosse a bela morena na tela. Ela era realmente bonita, Edward pensou. Ou, isso fosse apenas alguma consequência da tremenda abstinência pela qual ele estava passando.
Sua voz também era muito melodiosa. Com o sono que Edward sentia, ele seria facilmente sugado pra o mundo dos sonhos se ela continuasse falando e falando.
E ele se deu conta de que o nome que ela disse não incluía um Cullen no final.
— Eu nem sei por que tenho esperanças. — Ouviu a filha lamentar, ao seu lado. Ela imediatamente virou o rosto, tentando disfarçar as lágrimas que desciam por suas bochechas.
Edward se deu conta naquele momento do porque de se sacrificar tanto para conseguir o melhor para Lizzie. Aquelas lágrimas que desciam pelo rosto dela eram como pequenas agulhas entrando em seus próprios olhos. A dor que ela sentia era multiplicada quando chegava até ele.
Ele não se arrependia de não dormir. Ele não se arrependia de ser praticamente ume escravo. Ele devia isso à Lizzie. Era seu dever ver aquelas lágrimas extintas dos olhos de sua filha, ao menos que representassem apenas felicidade.
— Você vai ter a sua festa, pequena. — Edward se arrastou no sofá e agarrou Lizzie, colocando sua cabeça sobre o seu peito, aninhando seu corpo já tão amadurecido no seu. — Nós não precisamos de nenhum concurso.
— Pai...
— Não. Eu quero dar isso pra você, e eu vou dar. Mesmo que isso signifique que eu fique parecendo um zumbi por mais alguns meses.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Lizzie.
— Eu te amo, pai.
— Eu também te amo, pequena.
Ambos ficaram sentados no sofá, se abraçando.
Esses minutos eram os mais preciosos do dia de Edward. Nos braços de sua filha, o tempo não era algo opressor, mas sim, apenas o mais puro amor.
Nota da Autora:
Olá meninas, aí está o capítulo 1! Então, o que me dizem sobre esse pobre Ed tão cansado? E qual foi a primeira impressão de Lizzie? Ela está comportada, mas ainda vai aprontar um bocado! haha
Deixem uma autora feliz e escrevam reviews, sim? Muitas meninas seguem a fic, mas não comentam, gostaria muito de saber o que vcs estão achando!
No próximo capítulo teremos Bellinha! Se o feedback da fic for mais positivo, penso em postar duas vezes por semana ;)
Beijos, e até quarta!
