Dezembro: Sob o Visco
"E agora há uma voz em meu coração que me mantém pensando."
A brisa de inverno pela manhã era relaxante e ao mesmo tempo congelante. E mesmo com esse frio que pareço sentir, eu também posso sentir o calor chegar, já que é o mês do Natal e está chegando. Apenas mais cinco dias e me sinto orgulhosa em dizer que já finalizei todas as minhas compras para a data.
...Exceto por uma pessoa.
"Ah... O que vou comprar pra ele?" Murmurei pra mim mesma, andando de loja em loja dentro do shopping enquanto tentava encontrar o presente perfeito.
Fazia quase um mês desde que encontrei Sasuke e nos tornamos bons amigos desde então. E ele ainda não sorri, ainda. Ele apenas sorri de canto e eu aguardo o dia em que o verei sorrir de fato ou gargalhar.
"Desisto." Eu disse, suspirando e me voltei para a saída do shopping.
Mês passado eu perguntei a Sasuke no que ele estava trabalhando já que não era mais soldado. Ele disse que ainda estava procurando, mesmo que ainda não fosse necessário, já que ele tinha uma boa quantia guardada durante o último ano com o seu salário de soldado. De acordo com ele, ele só gasta quando realmente precisa e não compra nada do qual ele não vai tirar algum ganho ou benefício. Mesmo não sendo mais um soldado ele ainda agia como um na maior parte do tempo.
Eu perguntei se ele queria um emprego e ele me disse que fazer algo seria bom já que ele ficava entediado ficando em casa. Então após nossa conversa ele começou a trabalhar na floricultura de Ino no terceiro dia após nosso encontro. É claro que, Ino sendo Ino, ela sempre dava um jeito de me fazer substituí-la quando a senhora Yamanaka a deixava encarregada das coisas. Era cansativo, já que era apenas Sasuke e eu trabalhando na floricultura. E desde que o próximo modelo da Axe começou a trabalhar lá, houve um aumento no número de clientes femininas, jovens e mais velhas.
Uma floricultura pequena como aquela e lotada de gente era o último lugar no qual eu gostaria de trabalhar, especialmente se estiver cheio de garotas que ignoram o seu serviço devido ao "gracinha" disponível.
Ah, sim, comecei a citá-lo pelos apelidos que Ino deu a ele. Claro, sempre que ele não estava por perto. A última coisa que queria fazer era me embaraçar na frente dele.
"Sakura."
Congelei. Aquilo não apenas soava como o Sr. Rawr.
"Não achei que fosse te encontrar aqui."
É. Certo, era ele.
"Ah, oi!" Cumprimentei. "Feliz Natal!" Eu já ia sair quando Ino me chamou, fazendo Sasuke e eu nos virarmos para ela, vendo-a com Shino. "Ino!" Eu sorri. "Oi, Shino...!"
"Vocês já perceberam onde estão parados?" Shino perguntou.
Eu notei o sorriso de Ino e quando olhei para o chão não vi nada; Voltei a olhá-los com uma sobrancelha erguida, apenas para que meus olhos se abrissem mais ao vê-la apontar para algo acima da minha cabeça. Ergui o olhar, vendo Sasuke observando o visco que pendia sobre nós e meu rosto ficou vermelho escuro por causa daquilo.
"Oh, não tinha visto." Sasuke disse olhando para o ornamento irritante – pra mim era irritante.
Eu suspirei e virei meu rosto pro outro lado enquanto Ino e Shino assistiam divertidos.
"Se importa?"
Olhei para ele quando ele perguntou vendo que ele estava com a cabeça abaixada para me olhar, seus olhos questionando, pedindo permissão. Droga, ele perfeito em seu próprio jeito e eu realmente, realmente, desejei tê-lo conhecido antes do Riku.
"Não. Vá em frente. Tradições de Natal, né?[1]"
Ele anuiu e abaixou sua cabeça em direção a minha, olhos fechados enquanto eu deixei minhas pálpebras bloquearem minha visão e tombei um pouco minha cabeça para o lado. Senti seus lábios se encostarem nos meus levemente e mesmo que tenha levado um ou dois segundos pra acontecer, pareceu um minuto pra mim e fiquei desapontada que tinha acabado tão logo quanto veio e me chutei mentalmente por querer mais.
"Seria tão romântico se fosse o primeiro beijo da Sakura!" Ino exclamou e lutei contra a vontade de fazê-la comer um sanduíche de punho. Sasuke apenas sorriu de canto e deu de ombros. "Bem vinda à realidade." Ele disse, se voltando para mim. "Então você está fora de casa, sozinha, de novo."
"Sim, por quê?"
"Seu ex não está à solta?"
Assenti e dei as costas a ele, minhas mãos se apertando atrás de mim enquanto eu sorria. "Duvido que ele faça algo nesse lugar. Há muita gente aqui e estou muito mais atenta do que antes."
"Heh; vamos ver."
Me virei e o encarei. "Seu arrogantezinho..."
"Zinho?" Ele ergueu uma sobrancelha, sorrindo de canto pra mim de novo. "Se importa em checar primeiro quem de nós é o mais alto, Sakura?"
Oh não. Ele NÃO insultou minha altura! Eu vou pular nele! E NÃO é daquele jeito, seus pervertidos!
...
...Apesar de ser bem tentador.
"Vá se ferrar." Esquentei minha cabeça. Ah, a velha e boba eu.
"Hn." Ele se voltou quando Ino chamou sua atenção e eu juro que minha melhor amiga loira tinha algo em mente. E tenho certeza de que envolve Sasuke e eu. Sim. É o tanto que a conheço e a sua mente muito, muito, MUITO malvada. Só posso esperar e rezar pra que ela não nos faça fazer nada embaraçoso.
"Acho."
Olhei para Sasuke tentando entender o que ele queria dizer enquanto ele permanecia ali parado, olhando para Ino enquanto ela falava.
Reparei que ele ainda usava roupas escuras como antes, mas não poderia reclamar. Preto cai bem nele, já que o deixa bem mais misterioso. Fico pensando se ele não poderia trabalhar como meu guarda-costas.
...
Nhya! Não gostaria de tê-lo me seguindo por aí. E conhecendo o treinamento de um soldado; eu iria definitivamente – de algum modo – sentir pena de sua vítima. Está bem. Vamos jogar a ideia fora. É inútil.
"Sakura!"
"O QUÊ?" Bradei, encarando Ino por ter interrompido meus pensamentos.
"Afffe! Já te chamei umas cinco vezes! Vamos lá!"
Pisquei, abri minha boca pra falar, mas a senti pegar minha mão e me puxar pra algum lugar, eu olhando pra trás pra ver Sasuke e Shino nos seguindo. Foi então que a ficha caiu. Ino provavelmente organizou um encontro duplo – e eu sabia que a mataria por isso. "Ino." Eu a chamei franzindo minhas sobrancelhas quando ela se voltou para mim com um sorriso. "O que você fez dessa vez?" Perguntei.
"Pedi ao 'gracinha' ali pra nos acompanhar."
"O que quer dizer com 'nos'?"
"Como um encontro duplo."
"...INO!"
"Sim, querida?"
"Eu juro... Eu juro... EU JURO!"
Eu posso não ter visto, mas sabia que Sasuke e Shino estavam piscando para nós com uma gota[2] na cabeça pelo nosso comportamento.
"Desculpe por você ter sido arrastado..." Murmurei, encolhendo meus ombros enquanto Sasuke me acompanhava no caminho de volta pra casa, levemente feliz já que tinha finalmente conseguido um presente pra ele. "Você poderia ter recusado, você sabe..." Eu disse, mas meus pensamentos vagaram de volta ao presente que comprei pra ele.
Vi pelo canto do olho ele dar de ombros e permanecer quieto. Acho que ele não estava no humor pra conversar, então apenas fiquei o observando, vendo suas mãos metidas dentro dos bolsos de seu casaco preto, o dito casaco desabotoado para revelar a igualmente preta blusa estilo cacharrel que ele usava por baixo. Ele também usava um jeans azul marinho com botas coturno pretas por fora e isso me fez imaginar como ele ficaria em uniforme militar. Do que eu me lembro de minha mãe dizer, homens sempre ficam bem de uniforme.
"Sasuke...?"
"Hn."
"...Você tem... Uma foto sua de quando ainda era soldado?"
Ele ergueu uma sobrancelha e eu ri nervosamente, esperando que ele não achasse que eu queria uma foto dele. Mesmo que aquele fosse parcialmente o motivo, mas eu preferia morder a língua a falar aquilo em voz alta.
"Por quê?"
"Bem..." Sorri. "Estou curiosa pra saber como você fica em um uniforme."
"A curiosidade matou o gato."
"Não sou um gato..."
Ele sorriu de canto. "É uma figura de linguagem, Sakura."
"Ah, dane-se!" Eu murmurei. "Vamos! Só quero ver!"
"Você vai ter que merecer."
"Como?"
"Encontre um modo."
Argh! Ele estava me dando nos nervos! Mas quando penso em como conversamos assim, fico corada, porque sinto como se nós agíssemos como se estivéssemos juntos, mas ainda não estamos. Me lembro de ter sido assim com meu ex, quando eu queria algo e ele não queria me dar ainda, me provocando primeiro, antes de desistir quando eu ficava quieta e triste. Ao pensar em Riku meu humor ficou um pouco áspero e pesaroso, e talvez Sasuke tenha notado, já que ele se voltou para mim, mas me recusei a erguer minha cabeça e encontrar seu olhar.
"Não vai funcionar."
"Hum?" Eu pisquei e olhei pra ele. "Desculpe, o que disse?"
Sasuke voltou sua cabeça para fitar a rua em frente. "Você ficou quieta de repente." Ele disse. "Se você acha que isso me fará me sentir culpado, então você está errada."
"...Eu nem estava tentando fazer você se sentir culpado."
"Hn. Não dá pra ter certeza." Ele disse dando de ombros e atravessando a rua comigo quando o farol dos carros ficou vermelho. Sasuke parecer dar muito de ombros, um hábito do qual ele não parecia conseguir se livrar. Esse e seu outro hábito de passar a mão pelo cabelo, como ele acabou de fazer agora. Tirando isso, ele tem uma tendência a suspirar e quanto está pensando ou confuso por algum motivo, ele deita um pouco a cabeça, suas franjas são puxadas pela gravidade e eu fico vermelha quando ele faz isso, já que ele tem olhos igualmente bonitos e inocentes que piscam quando ele faz aquilo e não posso deixar de querer que aquela imagem permaneça pra sempre em minha mente.
"De qualquer forma, vou pensar nisso."
Saí de meus pensamentos quando ele falou de repente.
"Hum?"
Devagar Sakura... Realmente devagar.
"A foto." Ele esclareceu. "Vou pensar sobre isso."
"Ah." Sorri um pouquinho. "Se você não quiser me mostrar, tudo bem."
"...Disponha."
Quase tropecei. Eu tinha pensado que ele ia insistir, mas ele não o fez e quando o vi sorrir de canto percebi que ele tinha previsto o que eu tinha pensado.
"Eu já disse que me formei como aluno número 1 da classe na ADN?"
"Não, não disse." Eu rosnei. Aquilo só poderia significar que ele não era bom somente em estratégias de batalha, mas também em táticas de dia-a-dia. Affz! Me recuso a jogar jogos mentais com ele, nem que me pagassem um milhão de yenes[3].
...Um milhão de yenes, hã? Pensando bem, eu poderia tentar.
"Ei."
Senti o cachecol se apertar em volta do meu pescoço já que tinha sido puxado por trás e eu quase caí, me virei para Sasuke olhando-o feio; ele estava observando algo à sua frente.
"Argh!" Engasguei. "Por que fez isso?"
Tanto faz se ele é lindo-de-morrer ou não, não vou tolerar que ele faça o que quiser.
"Você continuou andando depois de passar da sua casa."
Me virei pra onde ele fitava e, de fato, eu já estava em frente de casa.
"Ah." Mostrei a língua pra ele e ele me olhou de volta. "Desculpe." E fui em direção à entrada, mas parei e me virei para ele. "Ei... Tá ocupado?"
Ele encolheu os ombros.
"Algo planejado?"
"Planejado de verdade, não."
Sorri. "Gostaria de ficar pra jantar?"
Antes que alguns de vocês tirem conclusões, eu só estava sendo educada.
Ele permaneceu quieto, me olhando e me perguntei por quê.
"Sasuke, tudo bem?"
"Eu não sei se digo sim ou não." Ele murmurou.
"Hein?"
"Hn." Ele abaixou um pouco a cabeça antes de seu olhar encontrar o meu. "Rejeitar um convite é rude. Aceitar assim é como se intrometer."
Eu juro, preciso fazer uma lavagem cerebral nele. Ele já tinha se aposentado; ele realmente deveria parar de agir como um soldado.
"Te garanto que se disser não, não vou considerar rude. E se disser sim, não estará se intrometendo."
"...É como se você estivesse me forçando."
"Não estou." Pausa. "Ok, talvez esteja. Mas quem liga?" Sorri pra ele. "Vamos, você ficaria entediado em sua casa de qualquer jeito."
"E como você sabe?"
"Eu apenas... sei?" Dei uma risadinha. "Vamos, por favor."
Fosse por ele não conseguir resistir aos meus olhos de filhotinho de cachorro[4] ou por eu estar certa quanto ao tédio que ele teria em casa, eu exalei alegria quando ele aceitou e entrou em casa.
Na verdade, eu estava tão feliz que esquecido fato de meu pai ainda estar bravo por causa do Riku e que ele ainda precisava me permitir convidar alguém pra entrar.
Espere. Acabei de me lembrar. Ah, merda!
"Hum... Sasuke?" Eu ia falar pra ele que seria melhor nós comermos fora, mas meu pai apareceu de repente vindo da cozinha assim que ouviu minha voz. E me baseando no modo como ele pareceu feliz em me ver mas permaneceu quieto de repente ao ver Sasuke, eu já sabia o que viria.
"Perdão se estiver incomodando, senhor."
Antes mesmo que eu pudesse falar, Sasuke foi mais rápido e se curvou em respeito ao meu pai. Eu me surpreendi com ele, pois nem mesmo Riku tinha feito aquilo quando eu o apresentei aos meus pais como pretendente. Papai até disse que Riku era rude, mas por mim, ele lhe deu uma chance. Talvez dessa vez ele não ficaria bravo, já que Sasuke o havia cumprimentado.
"...Realmente acho que você não está incomodando." Respondeu meu pai, assentindo para Sasuke enquanto meu ex-soldado se erguia novamente. Ah, que ótimo, ele está naquela posição de sentido novamente. É sério, vou acrescentar aquela lavagem cerebral nele na minha lista de coisas a fazer até o Ano Novo. "Tenho certeza que minha filha o convidou." Continuou meu pai e eu sorri encabulada quando meu querido papai me lançou um olhar acusador.
"Ele pode ter convidado, mas eu não considerei primeiro sua aprovação."
Eu não sei se Sasuke foi criado pra ser tão educado ou se foi por causa do treinamento tanto de disciplina quanto respeito que ele teve na ADN.
O que quer que fosse, não pude deixar de ficar admirada com a calma que ele manteve e ainda assim parecer tão bom pra comer.[4]
...
Esqueçam que eu disse isso.
"Hum, talvez." Foi o que papai respondeu e eu aguardei nervosa, o temperamento dele explodir. "Mas seria rude manda-lo ir embora, além do mais, você já aceitou o convite da minha filha." Vi papai arrumar os óculos antes de continuar e soube que ele estava se acalmando deixando seus tensos músculos relaxarem. De fato, agora sei que ele pôs sua confiança em Sasuke. Embora não totalmente, mas com certeza, sabe que pode confiar. "Então entre e sinta-se em casa."
Sorri para papai; ele retornou o sorriso e me disse pra acomodar Sasuke enquanto ele voltava para a cozinha para avisar minha mãe. Ufa! Acho que entrei em pânico por nada.
"Sabe..." Comecei sentando ao lado de Sasuke após lhe dizer pra se acomodar. "Fiquei impressionada com a sua educação."
"Por que ficou?"
Sorri calorosamente pra ele. "Poucos caras que eu conheci demonstraram esse respeito pelos meus pais, especialmente ao meu pai." Parei e olhei pra meus joelhos, vendo como meus dedos se apertavam, mostrando como eu estava nervosa por sentar ao lado de Sasuke. "Ele é muito..." Hesitei, sem saber como descrever Haruno Ikichi[5], também conhecido como, querido papai. "Vamos dizer que respeito é um de seus mais importantes requerimentos para um cara; seja ele um pretendente ou um amigo."
"Hehe..."
Olhei para Sasuke e o vi sorrindo de canto.
"É assim que pais devem ser, especialmente em torno de suas filhas, únicas ou não."
Eu dei uma risadinha, chamando a atenção dele. "Você também vai ser assim se um dia tiver uma filha?"
"Eu com certeza exigiria muito de um pretendente, com certeza."
Até consigo imaginá-lo sentado no sofá, encarando o pretende da filha, assistindo o convidado se inquietar sob aquele olhar penetrante. Oh, coitada da filha dele.
"E se você tiver um filho?"
"Hn. Vou me assegurar que ele vai respeitar não só a garota que ele está paquerando, mas também a família dela."
Não posso deixar de sentir que Sasuke é perfeito. Não importa o que os outros dizem que ninguém é perfeito, eu não posso negar o fato que pra mim ele é perfeito. Parece que Deus me enviou um anjo amigo que é o cara sentado ao meu lado, com esse calmo olhar no rosto, seu lábios não se atrevendo a sorrir, mas fazendo uma linha reta e mesmo assim ele não parecia estar em profundos pensamentos ou coisa assim. Ele apenas parecia relaxado, como se não tivesse preocupações na vida, nenhuma coisa para o perturbar e, definitivamente, nada a temer.
"Você é tão..." Não pude terminar minha frase, já que acabei esquecendo minhas próximas palavras quando ele olhou pra mim, sua cabeça pendendo um pouco, suas franjas seguindo seus movimentos, seus olhos, aqueles lindos orbes negros, me olhando, piscando, penetrando em minha alma.
Eu sabia. Com certeza sabia. Definitivamente, eu tinha me apaixonado por ele e não posso me segurar, porque não importa o quanto eu queria evitar me apaixonar de novo para não sentir e novo a mesma dor que senti com Riku, pra não ter um relacionamento que cause problemas aos dois; eu simplesmente não posso evitar me apaixonar lentamente por ele.
Uchiha Sasuke algum dia será minha morte, ou minha vida...
O que era isso com relação a ele? Sério, desde aquela noite em que o convidei pra jantar, há dois dias, comecei a sentir minhas bochechas se aquecerem. Sabia que minhas orelhas estavam vermelhas e não era por causa do frio. Tenho certeza que é por causa dele. Sem dúvida. Tem sido frustrante, já que não posso mais cumprir minha promessa a mim mesma. Tem sido irritante, porque eu não gosto muito da ideia de me apaixonar por ele, mas sei que quero sentir como é estar em um relacionamento com ele.
"Que droga."
"Tá xingando as flores ou o trabalho?"
Pisquei algumas vezes e me virei para trás, vendo Sasuke há alguns passos de distância, sem olhar pra mim, mas com a atenção nas rosas no outro lado. Este seria nosso último dia de trabalho no ano. A Sra. Yamanaka tinha falado algo sobre fazer algumas modificações na loja devido ao aumento no número de clientes.
Obviamente, isso era por causa da presença de Sasuke.
"Eu não deveria estar trabalhando aqui."
"Mas está." Ele disse ainda olhando as rosas vermelhas, azuis, brancas, rosadas, lilases e alaranjadas. "Você sabe que pode falar com elas."
"Eu sei."
"Então por que não fala?"
Tremi. Sasuke, você consegue ser bem ingênuo apesar de ser ex-soldado. "Eu não quero."
Ele sorriu de canto. Eu deveria saber, porque senti que ele sorriu. "Por que não?"
Porque quero ficar aqui, trabalhar aqui, me divertir cuidando dessa beleza, ser capaz de relaxar e curtir ao mesmo tempo e último porque quero estar com você. Não é óbvio? Ou eu não sou tão transparente quanto achei que fosse? Mas, definitivamente, não serei capaz de falar a última parte. Sem chance de eu admitir que na verdade eu quero ficar perto dele, ao lado dele, no mesmo lugar que ele está.
"Gosto de flores."
"Hn." Olhei pra ele, vendo-o finalmente olhar pra mim. "Você sabe que não acredito em você."
"E eu acredito que você sabe a resposta pra aquela pergunta."
"Sim e estou certo que você sabe que eu gostaria que você confirmasse."
Ah, estamos jogando esse jogo de novo. Não é de se admirar que eu frequentemente pense que estamos juntos, mas não em um relacionamento, não é?
"...Deixa pra lá." Eu murmurei. Não estava no humor pra isso.
Quase pulei de susto quando uma poinsétia[6] apareceu de repente na minha frente.
Meus olhos seguiram para a mão que segurava a flor e então para o pulso, vendo a familiar munhequeira que servia de pulseira de relógio. Então observei os definidos porém finos músculos dele até que, devagar, virei minha cabeça; meus olhos encontrando um par de negros orbes nos quais eu sempre me afogava.
"Poinsétia: se anime."
Pisquei e vi o esboço de um sorriso, embora aquele não fosse o tipo de sorriso que eu esperaria ver, era uma pequena curvatura para cima em um dos cantos dos lábios dele e já estava bom, por enquanto.
Permaneci quieta, mas minhas mãos pegaram a flor gentilmente; meus olhos não abandonaram o olhar dele enquanto ele olhava as pétalas da planta florescida em minhas mãos, e ainda assim, meu olhos permaneceram grudados nele.
"Pelo menos isso é o que eu acho e espero que signifique."
Meus lábios involuntariamente se curvaram em um pequeno e tímido sorriso e baixei a cabeça, enquanto minhas bochechas coravam. Ele estava tentando me animar por algum motivo e poderia ser pelo meu último comentário. Eu tinha dito a ele que esquecesse o assunto e ele achou que eu estivesse tendo um problema com isso. De certa forma, eu estava, mas isso não tem mais importância, porque ele me animou e realmente funcionou.
"Assim é melhor."
Pisquei de novo e olhei pra ele.
"É bem melhor te ver sorrindo." Ele disse dando de ombros antes de se voltar para as rosas. Pelo que eu havia observado, ele parecia tomar um cuidado extra com elas se comparado às outras flores. "As rosas têm um significado especial pra você?" Perguntei curiosa.
Ele ficou tenso de repente e eu estava quase lhe dizendo pra esquecer, mas logo ele virou um pouco a cabeça com o olhar caído. Pude ver a expressão solene no rosto dele, especialmente nos olhos. A dor que ele estava sentindo; eu não fazia a menor ideia de quão ruim era, mas com certeza aquilo me deu uma dor em meu próprio coração; pensei por que eu tinha sentido aquilo de repente.
"Sim." Ele respondeu baixando um pouco a cabeça fazendo suas franjas esconderem seus olhos e a emoção que ele estava sentido, de mim. "Rosas têm um significado muito especial pra mim."
"Desculpe... Ter perguntado." Me senti triste também.
Normalmente, quando você sente o que outra pessoa está sentindo, isso deveria significar alguma coisa. Acredito que se eu vir Sasuke sofrer, eu também vou sofrer.
"É oficial." Sussurrei pra mim mesma, feliz por Sasuke ter voltado ao seu trabalho sem ter me ouvido. "Eu realmente fui longe demais."
Talvez tenha sido só minha imaginação, mas jurei ter visto as orelhas dele se mexerem um pouco, simbolizando que ele tinha ouvido a última parte, mas fingi não ter visto e me voltei para as narcisos, fitando uma em particular, me fazendo dar um sorriso triste. Narcisos eram definitivamente meu tipo de flor; simbolizava o que eu estava sentindo agora.
"Isso envolve uma garota?" Perguntei do nada esperando que a resposta de Sasuke fosse um 'não'.
Mas assim como o que ele havia dito quando Ino comentou que teria sido romântico se nosso beijo sob o visco tivesse sido meu primeiro, 'bem vinda ao mundo real' – o mundo no qual todos nós vivemos, o mundo onde a realidade morde, a verdade machuca e a vida fede.
"É."
E com aquilo, segurei a narciso mais forte e mais perto de meu peito, meus olhos fechados pra não deixar nenhuma lágrima estúpida e indesejada cair. Por que me machuquei? Eu não precisava ter me ferido. Sasuke é meu amigo, meu salvador. Ele é meu cavaleiro da armadura reluzente não importa o quão brega isso soe.
"Namorada?" Me forcei a dar um risinho e sorrir, mas não pude parar as lágrimas. Dei uma olhadela nele, vendo-o erguer a cabeça por um momento, olhos meio fechados e lábios numa linha fina e reta. O silêncio dele só piorou meu humor, fez meu coração doer um pouco mais, me fez admitir como eu e a narciso combinávamos.
Amor não correspondido...
"Se é verdade, eu quero ouvir mais uma vez."
Continua...
Janeiro: A Beleza dos Fogos de Artifício
"Você está perdendo a diversão." Ele disse olhando pra mim, vendo como meus olhos quase se fecham e minha cabeça pende virando para o lado. "Sakura, está se sentindo bem?" Corei quando sua mão tocou minha testa, sentindo minha temperatura e não posso evitar querer empurrá-lo, só assim percebendo que minhas mãos não se moviam. "Quer que eu te leve pra casa?"
"Não." Murmurei. Na verdade, eu quero que ele me console, do jeito que um namorado faz com sua namorada. Mas como ele poderia? Ele não é meu amor, é só um amigo. "Por acaso você deveria estar aqui?" Eu perguntei mesmo tendo certeza que meu tom de voz soou um tanto áspero, porque quando olhei pra ele, vi seus olhos se arregalarem por uma fração de segundo antes de semi fechar e desviarem para o lado. Eu sei que não estava certo, principalmente por ele só estar preocupado, mas o que posso fazer? Estou amarga. É assim que estou reagindo diante da realização de amar alguém que nunca irá retornar o mesmo sentimento profundo.
"O que quer dizer com isso?"
Fiquei feliz pelos fogos terem começado para anunciar o Ano Novo; o barulho da multidão gritando e se cumprimentando com um "Feliz Ano Novo" foi capaz de abafar o que eu tinha gritado pra ele, que permaneceu parado, me fitando, tentando falar mais alto pra que eu ouvisse, mas ambos não conseguíamos. Na verdade, nós dois não deveríamos nos importar.
Notas da Tradutora: [1] Em muitos países há a tradição de Natal do beijo embaixo de uma planta chamada visco. Se um casal parar embaixo dela, não importando se são apenas amigos, eles devem se beijar. Muitas lojas costumam espalhar viscos em suas dependências pra pegar casais desavisados.
[2] "...que Sasuke e Shino estavam piscando para nós com uma gota." Essa gota é aquela famosa gota azul que aparece na cabeça dos personagens nos animes quando eles presenciam cenas um tanto idiotas.
[3] Um milhão de yenes equivalem a R$ 25.642,19 aproximadamente.
[4] "O que quer que fosse, não pude deixar de ficar admirada com a calma que ele manteve e ainda assim parecer tão bom pra comer." O original está assim. Infelizmente não entendi muito bem o que isso significa e não consegui entrar em contato com a autora pra perguntar. Então por enquanto eu deixo na tradução literal mesmo, até conseguir falar com ela.
[5] Haruno Ikichi. Eu não tenho certeza quanto a este sendo o nome do pai de Sakura. Segundo consta nos spoilers do filme de Road To Ninja os nomes dos pais de Sakura são "Kizashi Haruno" (pai) e "Mebuki Haruno" (mãe). Não sei se a autora inventou os nomes dos pais de Sakura que estão nessa história ou se ela retirou de algum lugar.
[6] Poinsétia também é conhecida como "Flor de Natal".
Por último eu sei que não adianta pedir desculpas pelo atraso, mas eu realmente não tive como atualizar antes. Bem, vamos esperar que minha agenda e acesso à internet melhorem, né? Obrigada por revisarem!
