I
Ele estava no meio de sua refeição quando Mario adentrou a sala de jantar, caminhou até ele e abaixou-se; sua voz soou baixa e os lábios mal se moveram. Ivan limpou o canto da boca e ergueu os olhos cor de mel. Dois pares de olhos o encararam, com um misto de curiosidade e preocupação. O moreno pediu licença e deixou a sala de jantar ao lado de seu Braço Direito. Os passos só passaram a ecoar quando eles chegaram ao hall e ali estava a pessoa que o ruivo havia mencionado. O rapaz não tinha mais de 20 anos, e estava na Família desde pequeno. Até os 25, a maioria dos membros recebia missões pequenas, aparentemente insignificantes. O rapaz de nome Anunzio abaixou a cabeça quando o Chefe se aproximou, oferecendo no mesmo instante o pequenino envelope branco. Ivan esboçou um sorriso, agradecendo ao subordinado, dispensando-o e abrindo o envelope sem pensar duas vezes.
O moreno soube que havia alguma coisa errada quando seu amante não apareceu para o jantar.
Alaudi geralmente estava na mansão antes das 18h, porém, naquela sexta-feira, o relógio marcava mais de 20h e o louro não havia chegado. O bilhete havia sido escrito com a mesma letra caprichada de sempre, contendo apenas três linhas, além de ser extremamente objetivo. Então ele não vem neste final de semana, hm? O Chefe dos Cavallone releu duas vezes a mensagem antes de fechá-la. Seus olhos encontraram os de Mario e o envelope foi dobrado e colocado no bolso detrás da calça.
"Se as crianças perguntarem, Alaudi não vem devido ao trabalho."
"O quão verdadeira é essa informação?" O Braço Direito abriu um meio sorriso.
"Eu diria que é quase uma certeza." Ivan tentou sorrir, mas não conseguiu. "Eu quero todos os mensageiros prontos. Redija um convite para cada um dos Chefes e envie-os ainda esta noite. A ordem é para que nenhum deles retorne sem uma resposta, seja negativa ou positiva. A reunião será amanhã, depois da meia-noite e em um local ainda a ser escolhido."
O homem de cabelos ruivo o encarou antes de menear a cabeça e seguir na direção do escritório. O moreno ajeitou a camisa e respirou fundo, retornando para a sala de jantar e ponderando sabiamente as palavras que usaria. Catarina já estava fora da cadeira quando ele entrou, no entanto, ela permaneceu no mesmo lugar.
"Alaudi não vem neste fim de semana." A voz do Chefe dos Cavallone soou doce. Ele sabia que Francesco o olhava, contudo, sua atenção estava totalmente na filha. Ela não irá gostar disso...
A garota entreabriu os lábios, entretanto, não disse uma palavra. Quando Catarina finalmente falou, ela apenas pediu licença para se retirar da mesa.
"Está tudo bem?" O rapaz de cabelos castanhos enrolava o spaghetti em seu garfo. Sua voz havia se tornado grossa e quase não existia mais resquícios do garoto tímido e ingênuo que costumava se lambuzar com molho de tomate. Ele é um homem agora e o futuro Chefe desta Família, Ivan deu um gole em sua taça de vinho, mas o Chefe no momento ainda sou eu.
"Sim; aparentemente os momentos ociosos terminaram." Foi muito difícil para o moreno sorrir, todavia, ele sabia melhor do que ninguém como transmitir certas emoções, mesmo que falsas. A máscara de Chefe...
"Entendo."
Francesco voltou sua atenção ao jantar, no entanto, foi impossível para o Chefe dos Cavallone seguir o exemplo. A comida havia perdido o gosto e a bebida não serviria para nada além de deixá-lo mais devagar. Ivan permaneceu em sua cadeira, imóvel e apenas esperando que o filho terminasse. O rapaz de cabelos castanhos não comia sobremesas, então, quando seu prato tornou-se limpo, o futuro herdeiro pediu licença e sorriu antes de se levantar. O moreno respirou fundo, dando mais um gole em sua taça e também ficando em pé. O hall estava vazio, entretanto, o Chefe dos Cavallone sentiu o movimento diferente na mansão. Eles estão no escritório. Ivan cruzou o hall, ouvindo seus próprios passos ecoarem pelo piso de mármore. A grande porta de madeira escura estava recostada, contudo, foi aberta muito antes de ele girar a maçaneta dourada.
O escritório da Família Cavallone era grande, basicamente as mesmas medidas de dois quartos. Ele comportava uma parte da biblioteca, apenas a que continha material necessário para pesquisas. A outra parte ficava no cômodo ao lado e continha o dobro do tamanho. Naquela noite, porém, o escritório pareceu pequeno para comportar os mais de 60 homens que ali estavam. Sessenta e um rostos viraram-se quando o moreno entrou, mas a atenção do Chefe estava apenas no homem atrás de sua mesa e que dava as instruções. Mario calou-se ao avistar Ivan, todavia, o moreno pediu que ele continuasse.
"Sessenta convites para sessenta Chefes. E eu não preciso dizer que precisarão retornar com sessentas respostas, não?" A voz do Braço Direito soou alta e séria. "Vocês já têm os convites e os nomes que devem procurar. Eu estarei na mansão esperando as respostas, seja noite, madrugada ou dia, então esperem o tempo que for necessário. Esta missão é de extrema importância."
Pela primeira vez o Chefe dos Cavallone quis rir. Os rostos sérios continham uma mistura de medo e terror. Os jovens rapazes deixaram o escritório de dois em dois, e todos pareciam andar um pouco curvados, tamanho o peso da responsabilidade que o ruivo havia colocado em suas costas. Mario é especialista quando o assunto é criar pânico. Até a menor das tarefas é transformada em uma missão mortal através daqueles lábios. Entretanto, havia um rapaz que não parecia temeroso ou receoso. Ele foi o último a deixar o escritório e naquele momento Ivan se permitiu um meio sorriso. Ele é responsável pelo convite dos Vongola, tenho certeza. De todos, o rapaz é o único que tem certeza de que será bem recebido... pelo menos por Giotto, mas não posso afirmar nada se quem o receber for G... O sorriso desapareceu e o moreno apenas torceu para que seu velho amigo ainda estivesse acordado, pois G. e Mario compartilhavam muito mais do que os cargos e os cabelos ruivos. Ambos eram extremistas quando o assunto era trabalho.
"Os pobres garotos estavam com lágrimas nos olhos, Mario." O Chefe dos Cavallone aproximou-se da lareira, retirando o envelope de seu bolso e o jogando no fogo. Os olhos cor de mel brilharam enquanto observavam as chamas envolverem a belíssima letra de seu amante.
"Eles têm que aprender desde cedo que trabalho é trabalho. Não existe missão fácil." O Braço Direito havia se sentado em uma das poltronas. "Eu passarei a noite na mansão. Amanhã pela manhã teremos as respostas."
"Eu acredito que todos irão comparecer. A situação é séria." Ivan ainda assistia às chamas.
"Você sabe o que dirá a ele?" A voz do ruivo fez o moreno se arrepiar.
"Ainda não. Eu tive um mês para pensar em alguma coisa, mas simplesmente não encontrei nenhuma explicação que pudesse satisfazê-lo. Para ser sincero, eu achei que a situação não chegaria a este ponto e que as coisas poderiam ser resolvidas sem que precisássemos reunir o Conselho. Você sabe como são essas reuniões..."
"Se o culpado estiver entre os Chefes as coisas ficarão mais complicadas. Nós talvez estejamos em uma situação em que não tenhamos como distinguir amigo de inimigo." Mario ponderou.
"Giotto disse algo parecido da última vez que nos encontramos." O moreno deu a volta, caminhando ao redor das poltronas e indo se recostar à sua mesa. "Acredito que essa mensagem de Alaudi tenha chegado em boa hora. Acho que o melhor a ser feito é não nos encontrarmos por algum tempo."
O Braço Direito não respondeu. O ruivo estava sentado, as pernas cruzadas e a cabeça apoiada na mão esquerda. Os olhos verdes estavam em seu Chefe e Ivan entendia muito bem aquele silêncio. Estamos em situações similares. O moreno sorriu e desencostou-se da mesa.
"Eu vou subir agora. Catarina ficou visivelmente chateada quando avisei que Alaudi não viria esta noite."
"Eles se acostumaram a ele, Ivan." Mario moveu levemente os pés. "Você sabe disso, não? Que para eles, especialmente Catarina, Alaudi é como um segundo pai."
"Eu sei." O Chefe dos Cavallone juntou as sobrancelhas, curioso. Algo naquela conversa parecia misterioso demais entre eles, o que era algo inédito. O Braço Direito sempre foi direto e extremamente sincero em seus pontos de vistas. "Diga de uma vez, Mario."
"Não é nada, mas você jamais poderá esquecer esse detalhe, independente do rumo que as coisas tomarem. Aquele homem vem frequentando esta casa por dez anos e não é como se você pudesse simplesmente apagar todas as memórias que ele criou com seus filhos." Mario deu de ombros.
"Você fala como se eu fosse cortar laços com Alaudi. Eu só acho que devemos permanecer afastados enquanto a situação ainda estiver latente. Eu farei isso por ele e não por mim."
"Eu acredito em você." O Braço Direito soou sincero. "Porém, e se o melhor para Alaudi for não ter mais contato com essa Família? O que você irá fazer? Como você vai explicar tal coisa para os seus filhos?"
Ivan sentiu as palavras desaparecerem de seus lábios. Aquele era um raro momento, pois ele sempre tinha algo para dizer, independente da situação. Como Chefe, era sua função estar preparado para as eventualidades da vida e isso incluía situações perigosas e sérias. Todavia, não havia nada que ele pudesse dizer e que soasse sincero. O moreno sabia que Mario estava certo. Cada palavra tinha o peso da verdade e foi por esse motivo que o Chefe dos Cavallone se permitiu o silêncio. Ele já havia pensado sobre aquilo, naquela possibilidade, e até mesmo cogitado imaginar sua vida se por ventura aquela realidade viesse a acontecer. Os olhos cor de mel se abaixaram e Ivan sentiu os ombros pesados, exatamente como os rapazes que deixaram o escritório há poucos minutos. É pesado, o moreno sentiu o gosto de vinho em seus lábios, o peso da responsabilidade é muito pesado.
"Boa noite, Mario." O moreno esboçou um meio sorriso. "Qualquer eventualidade não deixe de me avisar. Eu estarei no meu quarto."
O Braço Direito desejou um baixo boa noite e o Chefe dos Cavallone deixou o escritório. Ele sentiu os olhos verdes em suas costas e mesmo ao ganhar o corredor aquela sensação não passou. O hall estava vazio, então sua curta caminhada foi feita sem espectadores. A escadaria se mostrou longa, não devido aos dois lances de escadas, mas porque Ivan se sentia verdadeiramente cansado, embora soubesse muito bem que não conseguiria dormir naquela noite. O topo da escada chegou com muito custo e o moreno seguiu na direção do quarto que continha um belo "C" cravado em madeira clara. Sua mão direita bateu duas vezes, no entanto, a porta foi aberta por dentro e ele precisou dar um passo para trás, permitindo que a pessoa que estava no interior pudesse sair.
"Boa noite, Chefe." A voz de Giuseppe soou baixa e ele fechou a porta com delicadeza.
"Ela dormiu, não?" O Chefe dos Cavallone manteve o mesmo timbre sussurrado.
"Sim, eu fiquei com ela até que dormisse." O homem de longos cabelos louros desviou os olhos, visivelmente incomodado.
"Ela estava muito chateada?"
"Um pouco." O Braço Direito esboçou um meio sorriso. "Alaudi prometeu que contaria alguma história sobre seu tempo de escola, e ela estava realmente ansiosa por isso. Eu acabei distraindo-a com bobagens que eu mesmo experimentei e ela acabou dormindo."
"Você contou sobre o vestido, não foi?"
Ivan riu. Ele não conseguia não rir daquele acontecimento. Nos tempos de escola, Giuseppe frequentava uma turma mista e na época eles precisavam de alguém que fizesse o papel de princesa para a peça. O homem louro foi votado unanimemente, embora fosse homem, e encenou perfeitamente o papel da donzela apaixonada. Mario jamais esqueceu aquele dia, e até mesmo mandou pintar um quadro que, infelizmente, fora escondido no porão da casa e longe de todos os olhos. Francesco adora essa história.
"Por favor, não ria." O rosto do Braço Direito estava em chamas. "E-Eu apenas mencionei para fazê-la dormir, mas ela já sabia da história."
"Você não achou que algo tão importante ficaria guardado, não é? Mario até mesmo levou Catarina para ver o quadro. Ela ofereceu uma boa quantia pelo objeto, contudo, infelizmente ele já havia sido vendido."
Giuseppe juntou as sobrancelhas e a realização veio aos poucos. Quando os olhos verdes se arregalaram, o homem louro virou-se no mesmo instante, encarando a última porta do lado direito do corredor. O rosto então ganhou um tom ainda mais rubro, porém, o olhar tornou-se pesado e rancoroso.
"Chefe, se o senhor me permite, preciso me retirar. Eu tenho um assunto a resolver e é de extrema urgência."
A seriedade naquelas palavras fez Ivan rir. A mão direita fez sinal para que sua companhia se retirasse e o Braço Direito deu meia volta, cortando o corredor com passos longos e rápidos. O moreno permaneceu imóvel, cruzando os braços e observando a tudo. Ele viu quando Giuseppe bateu três vezes na porta, esperando alguns segundos até que o dono do quarto aparecesse. Francesco vestia seu pijama azul e o sorriso que esboçou ao ver quem o chamava foi tão sincero que o Chefe dos Cavallone sentiu-se mal pelo que aconteceu em seguida. O homem louro disse algo que Ivan não escutou por causa da distância, no entanto, viu claramente o momento em que o Braço Direito entrou no quarto e o rapaz de cabelos castanhos fechou a porta às pressas, desculpando-se inúmeras vezes.
O moreno permaneceu por mais alguns segundos no corredor, até dirigir-se ao seu próprio quarto. O sorriso ainda estava em seus lábios, entretanto, ele desapareceu pouco a pouco. Quando a porta foi aberta, não existia mais vestígio da simples felicidade que ele sentira há poucos segundos. A rotina e o cotidiano de sua família ficaram em segundo plano, dando lugar a um estranho vazio. O Chefe dos Cavallone fitou o quarto enquanto fechava a porta, perguntando-se se o cômodo sempre pareceu tão largo. Os passos seguiram na direção da janela e Ivan se recusou a encarar a cama. Aquele era um local sagrado em sua vida. Foi naquele lugar que Alaudi o aceitou, há dez anos; quando Ivan retornou de viagem e viu o louro dormindo em sua cama ele soube que seus sentimentos seriam correspondidos. A partir dali sua vida foi uma sucessão de momentos felizes e únicos e uma década havia se passado, todavia, ele se lembrava vivamente daquela noite e da sensação de saber que a pessoa que tanto amava havia lhe dito sim.
O céu estava escuro e não havia estrelas. Com o inverno se despedindo, o chafariz voltou ao seu esplendor e os dois cavalos alados cuspiam água e iluminavam o centro do jardim. O moreno conseguia ver os subordinados caminhando e os carros estacionados ao longe. A mansão ficava em um local alto, então de sua janela ele conseguia ver Roma, ao longe, um ponto brilhante no meio de toda a escuridão. Eu quero chorar, mas as lágrimas não saem. O Chefe dos Cavallone tocou a janela, sentindo o vidro frio. Eu quero conversar, mas sei que ele não me ouvirá. A figura de Mario surgiu abaixo, em frente ao chafariz, e o Braço Direito fez sinal para três dos subordinados, apontando para um dos lados e enviando-os para fazer a ronda noturna. Ivan desencostou-se da janela e caminhou até o lado que servia como escritório, jogando-se em uma das poltronas — aquela que ficava de costas para a cama. Eu deveria deixá-lo ir, mas não consigo.
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As crianças dormiam profundamente quando o moreno desceu a escadaria, cortou o hall e ganhou o jardim. A noite estava fria e ele precisou vestir um casaco mais grosso. Sua vestimenta para aquela ocasião era um conjunto social negro e um sobretudo de mesma cor. O cachecol azul escuro estava pendurado ao redor do pescoço, contudo, ambos os lados pendiam sobre seu peito. As luvas foram colocadas enquanto o Chefe dos Cavallone descia os poucos degraus que uniam a entrada da mansão ao jardim, e a porta de seu carro estava aberta, permitindo que ele entrasse. Mario fechou-a e sentou-se no banco do motorista. O veículo já estava ligado, no entanto, o Braço Direito permitiu-se alguns segundos para ajeitar o retrovisor. Os olhos verdes fitaram o homem que estava atrás e Ivan esboçou um meio sorriso amigo. Entretanto, quando o carro circulou o chafariz e seguiu pela estrada de pedra, não havia expressão alguma no rosto do moreno além da fria seriedade.
As sessenta mensagens foram respondidas e , quando desceu na manhã seguinte para tomar café, o Chefe dos Cavallone as encontrou em seu escritório, sobre sua mesa, e arrumadas em ordem alfabética. Havia ainda uma mensagem do ruivo, avisando que ele havia se retirado para sua casa e que retornaria após o almoço. Ivan checou as respostas após o café da manhã, porém, não havia satisfação em seus olhos ou nas linhas que lia. Aparentemente todos os Chefes de Roma participariam da reunião, o que por si não era boa coisa.
O Conselho era composto por duas Famílias principais: os Cavallone e os Vongola. Qualquer um dos dois Chefes poderia marcar uma reunião extraordinária e não era preciso aviso prévio ou permissão da outra parte. Em todos os seus 20 anos como Chefe, aquela era a segunda vez que o moreno convocava o Conselho. A primeira vez aconteceu quando ele assumiu a Família, e as circunstâncias foram totalmente diferentes. Naquela época eles não estavam eliminando pessoas como moscas em uma cozinha. Os Vongola haviam convocado outro, há cinco anos, quando Giotto deixou claro que não admitiria a cobrança de impostos dos pequenos fazendeiros. Aquele assunto rendeu muita dor de cabeça, pois os Chefes menores alegaram que não havia como obter dinheiro se não fosse através dos fazendeiros. Giotto se manteve firme até o final e os Chefes foram substituídos. Desde então não houve mais reclamações sobre o assunto e o não-imposto aumentou a produção de alimentos no interior e menos famílias passaram a necessitar do auxílio do governo.
O Chefe dos Cavallone, em particular, detestava reuniões sérias como a que ele teria naquele começo de madrugada. As mentiras, a falsidade e principalmente assumir uma postura que não lhe agradava o faziam muitas vezes resolver as coisas sozinho, e somente em último caso levá-las aos Conselhos. Infelizmente as coisas sempre terminam com assuntos aleatórios. Algum Chefe irá fazer um pedido absurdo e isso se transformará em uma corrente e no final eu e Giotto passaremos a noite ouvindo reclamações e oferecendo soluções óbvias, mas que claramente não agradam aqueles que ali estão. Ivan recostou a nuca na parte alta do banco e fechou os olhos. Até Roma seriam cerca de quarenta minutos, e nem ele e nem Mario pareciam inclinados a iniciar um diálogo. Chefe e Braço Direito conversaram quando o ruivo retornou, depois do almoço, e passaram horas no escritório acertando os preparativos. Ele me pediu para ser sério e firme, não deixando aberturas para assuntos não relacionados aos últimos acontecimentos. O moreno concordava com Mario e esperava que os demais também fossem mais objetivos, exatamente porque a situação exigia seriedade.
Na noite passada Ivan havia dormido muito pouco. Ele se recusara a ir para cama, passando a noite na poltrona. O sono foi ruim, e o moreno despertou várias vezes. Ele também fora o primeiro a acordar, seguido por Catarina. A garota ficou surpresa ao vê-la na sala de jantar, e seu bom dia foi baixo e desanimado. Francesco juntou-se a eles no final do café da manhã, avisando que decidira adiar a visita a Enrico para o dia seguinte, contudo, não mencionou o ocorrido com Giuseppe. O Chefe dos Cavallone retirou-se antes do fim da refeição, atitude essa rara. Ele geralmente era o último a deixar a mesa, todavia, foi impossível permanecer ali e ver a expressão no rosto da garota ruiva. Ela me olhava como se esperasse que eu fosse dizer alguma coisa a qualquer momento. Ivan abriu os olhos. Todas as vezes que eles se fechavam ele via o olhar pesado da filha. Me faz pensar se Catarina não sabe mais do que aparenta. Depois da reunião de hoje eu precisarei tomar uma decisão.
Roma tornou-se visível após trinta minutos de viagem. A estrada principal seguiria em linha reta, entretanto, aquele não seria o destino da noite. O carro virou à direita, pegando uma estrada paralela e que levaria ao centro, porém, por outro lado. O local reservado para as reuniões variava, e naquela noite ela seria realizada no salão de uma mansão localizada na área boêmia da cidade. O moreno desencostou-se do banco e passou a olhar pela janela quando eles entraram em Roma e a paisagem mudou dos campos para as ruas e calçadas. A diferença entre os frequentadores tornou-se visível quando eles entraram em uma rua cheia de bares. Havia pelo menos três prostitutas por esquina e os hotéis noturnos possuíam placas grandes e belas mulheres que o anunciavam.
"A nostalgia..." A voz de Mario foi ouvida pela primeira vez desde que entraram no carro. "Às vezes eu passo por aqui e não reconheço os rostos novos. As mulheres que conheci deixaram o negócio, os bares que costumava frequentar fecharam as portas e sei que não conseguirei bons quartos nos hotéis que um dia visitei. Como foi que isso aconteceu?"
"Eu acredito que você ganhou mais do que perdeu, meu velho amigo." O Chefe dos Cavallone riu.
"Ganhei?" O Braço Direito diminuiu a velocidade antes de dobrar uma esquina. "Eu estava me fazendo esta mesma pergunta ontem enquanto esperava no escritório. Eu sabia que precisaria passar por aqui, no entanto, imaginei que sentiria tristeza ou saudades." O ruivo fez uma pausa. O veículo seguiu por uma longa rua e a boêmia ficou para trás, dando lugar às residências mais respeitadas. Havia uma larga fila de carros estacionados e Mario optou por uma vaga próxima à saída. "Eu acho que Giulio vai me deixar."
As palavras foram ditas de maneira displicente e sem um pingo de remorso ou tristeza. Ivan havia se ajeitado melhor no banco, pronto para descer, todavia, foi impossível fazer outra coisa além de encarar o retrovisor do carro. Suas sobrancelhas se juntaram, esperando a continuação. Contudo, o Braço Direito saiu do carro e abriu a porta, aguardando o moreno descer. O Chefe dos Cavallone era um pouco mais alto, porém, os dois se encararam frente a frente.
"Você está planejando deixá-lo primeiro." Ivan mal moveu os lábios, surpreso.
"É apenas temporário, não?" Havia um forte cinismo naquelas palavras. O ruivo esticou as mãos ajeitando o cachecol no pescoço do moreno e deixando-o apresentável.
"Eu admiro você." O Chefe dos Cavallone sorriu. As luvas foram arrumadas melhor em seus dedos.
"Mas que coincidência," o ruivo passou as mãos nos cabelos, colocando-os atrás da orelha. Os olhos verdes se ergueram e ele sorriu, entretanto, naquele momento havia somente tristeza em sua voz. "Porque pela primeira vez na vida eu quis ser um pouco mais como você."
"Teimoso e egoísta?" Os dois amigos estavam de frente um para o outro e Ivan se sentiu novamente com 15 anos: inexperiente e totalmente autodestrutivo.
"Esperançoso."
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A mansão possuía dois andares, embora somente o grande salão fosse utilizado naquela noite. O restante da casa foi verificado e trancado, apenas para garantir a discrição naquela reunião. Ivan cruzou a entrada e automaticamente seus olhos pousaram nos presentes. Havia cerca de vinte pessoas, todas espalhadas e dignamente bem vestidas. Luciano Zappa, Amelia Valente... ele se lembrava de todos. De onde vinham, das últimas decisões tomadas em reuniões e principalmente se estavam ali apenas por obrigação ou porque se preocupavam com a situação. O moreno recebeu um menear de cabeça como cumprimento e Mario apontou para a direita, abrindo caminho e seguindo à frente. Durante os segundos que passou trocando de cômodo, o Chefe dos Cavallone buscou o tempo inteiro por um rosto amigo. O corredor era largo, forrado por um belíssimo tapete xadrez, enquanto diversos quadros faziam companhia aos que ali passavam. A iluminação era feita por várias lâmpadas decoradas como se fossem delicadas tochas, dando um toque fino ao local. E, ao entrar no largo salão que seria utilizado como sala de reuniões, Ivan finalmente viu quem procurava.
Giotto já estava sentado em seu lugar, uma das duas cadeiras em frente à porta. O homem de cabelos castanhos abriu um genuíno sorriso ao vê-lo e o moreno sentiu-se mais animado. Os dois amigos se cumprimentaram com um polido, porém, acalorado aperto de mãos e o Chefe dos Cavallone tomou o seu lugar ao lado. O Braço Direito afastou-se, indo se sentar nas cadeiras reservadas ao seu cargo e que ficavam paralelas às principais, rentes à parede. A sala era retangular, no entanto, a disposição das mesas formava uma espécie de "u" invertido, deixando um largo espaço na região central. O ruivo sentou-se e cumprimentou G., recebendo um discreto sorriso. Eles poderiam se passar por irmãos... Ivan lançou um rápido olhar na direção em que os dois homens ruivos estavam sentados.
"Nunca pensei que este dia chegaria." O Chefe dos Vongola disse baixo. Havia meia dúzia de cadeiras ocupadas e pouco a pouco as pessoas começaram a entrar. Quando os dois Chefes principais estavam presentes, era necessário manter o mínimo de etiqueta e não fazê-los esperar.
"Eu compartilho da mesma opinião." O moreno afrouxou um pouco o cachecol em seu pescoço. "E peço desculpas por marcar um Conselho sem avisá-lo, Giotto, contudo, eu mesmo fui pego de surpresa."
"Não se desculpe, por favor. Nós somos velhos amigos e não necessitamos desse nível de formalidade." O homem de cabelos castanhos sorriu. "Para ser sincero, você fez o que eu teria feito no dia seguinte. Logo depois que recebi sua mensagem eu soube do ocorrido."
O Chefe dos Cavallone abaixou os olhos, sentindo o peito apertado. Ele sabia que precisaria perguntar e consequentemente ouvir a resposta, todavia, era difícil. A pior parte será ouvir da boca dele.
"O quão ruim está a situação para ele?"
"Aparentemente o Chefe Principal o colocou em uma situação um pouco comprometedora." Giotto esboçou um sorriso.
"Você acha que eles sabem da ligação entre vocês e ele?" Ivan tentou manter a expressão séria, mas sentiu-se corar quando o Chefe dos Vongola fez aquele comentário. Ou sabem da relação entre nós?
"É provável. Eles o estão usando. Nosso amigo sabe disso e você também sabe, não é?"
"Por isso eu estou aqui." O moreno encarou a sala. As cadeiras estavam basicamente todas preenchidas, embora os Chefes conversassem entre si. "Enquanto eu não descobrir de quem veio a ordem eu não posso arriscar a vida de nenhuma dessas pessoas presentes e muito menos a vida dele. Eu me sacrificaria com um sorriso nos lábios se isso realmente significasse o fim, entretanto, ambos sabemos muito bem que é só o começo.
"Não fale sobre coisas desnecessárias, Ivan. Você tem dois filhos."
"Meu filho já é um homem e não se esqueça de que ele tem outro pai."
O comentário foi seguido por uma piscadela e o Chefe dos Cavallone ficou em pé.
As conversas cessaram e o silêncio que envolveu a sala foi quase palpável. Dois subordinados, de alguma Família, fecharam a larga porta e então todos os olhos pousaram em Ivan. A sala não possuía janelas e apenas uma saída, mas ele sabia bem que os corredores estavam cheios de subordinados prontos para defenderem qualquer um dos presentes no caso de ataque. Essas regras foram feitas por todos nós. Cada um dessa sala opinou e deu o seu melhor para que criássemos uma comunidade. Eu não deixarei que destruam anos de trabalho. Algumas das cadeiras estavam vazias, fazendo o moreno se lembrar que ali deveriam estar os convidados, no entanto, não apareceriam naquela noite, pois estavam entre os mortos. Os olhos cor de mel se abaixaram por um instante e o Chefe dos Cavallone respirou fundo antes de começar.
O discurso havia sido praticado anteriormente e foi montado com o auxílio de Mario. Não existia melhor pessoa para trabalhar com as palavras, e os dois passaram horas no escritório ligando os pontos especiais e criando um texto limpo, direto e que eventualmente acabaria recebendo críticas e talvez revolta. A voz de Ivan soou clara, límpida e completamente entendível. A ideia principal já era de conhecimento de todos os presentes, contudo, ele precisava ter certeza de que todos entendiam o que estava acontecendo. Durante o discurso o moreno observou bem as reações, notando aqueles que concordavam e aqueles que não estavam totalmente à vontade com o que ouviam. Vários trocaram olhares entre si, porém, ninguém pareceu disposto a tomar a voz, pelo menos por enquanto.
"O próximo poderá ser qualquer um de nós. Agora, mais do que nunca, é o momento para deixarmos antigas rivalidades e nos juntarmos pelo bem comum. A minha Família precisa de todos vocês e vice-versa." O Chefe dos Cavallone continuou. "A reunião de hoje é apenas para demonstrar que nem os Cavallone e nem os Vongola se esqueceram da amizade e aliança que temos."
Giotto ficou em pé e tomou a palavra logo em seguida. Ivan sentou-se e ouviu a tudo, tentando manter a atenção no momento, embora fosse realmente difícil. Seu corpo estava ali, entretanto, sua mente e coração cortavam as ruas de Roma, indo alojar-se na pequena casa localizada em uma tranquila rua florida. Ele sentia falta das visitas, das horas que passara naquele local e principalmente saudades do dono daquela residência. Estar ali, naquela noite, era como viver um pesadelo e infelizmente não havia sinal de que ele estivesse prestes a acordar. O moreno sabia que seu amante fora incumbido de investigá-lo. Alaudi não precisaria dizer uma palavra, todavia, o Chefe dos Cavallone acabaria descobrindo. Eu soube disso antes mesmo de receber a mensagem. Mario me falou sobre as intenções do Chefe Principal e eu jamais perdoarei aquele homem por tentar usar Alaudi. Jamais! O Chefe dos Vongola sentou-se e Ivan precisou momentaneamente focar-se no momento presente.
O objetivo da reunião era apenas mostrar aos pequenos Chefes que eles não haviam sido esquecidos. Os Cavallone e os Vongola eram as Famílias mais importantes, no entanto. nenhum império é formado do dia para a noite ou sem bases sólidas. Todos aqueles Chefes eram responsáveis por pequeninos locais, vilarejos, ruas, e etc. Suas funções eram ajudar aquelas áreas, oferecer um auxílio que o governo não daria e que, aos olhos da lei, era ilegal. Quando você ajuda as pessoas e o governo não lucra nada então isso se torna ilegal. Eu não me importo. Eu prefiro ser taxado de criminoso a deixar uma criança com fome. Desde que as Famílias se juntaram tudo mudou e aquela mudança estava visível nos olhos de todos os presentes. A maioria eram fazendeiros ou donos de negócios, mas que dependiam totalmente de outras pessoas. Ali, cada um precisaria trabalhar em conjunto e aquela ideia era basicamente o que tornava difícil uma traição interna. E o simples fatos de que nada passa despercebido por Mario... Ivan lançou um rápido olhar para o seu Braço Direito, recebendo um meio sorriso como resposta.
Os Chefes repassaram suas preocupações quanto à situação e pela primeira vez desde que o Conselho fora criado, todos, sem exceção, concordaram em ajudar. Algumas pessoas compartilharam informações, a maioria sobre os casos que aconteceram fora de Roma. O moreno ouviu, sem dizer absolutamente nada, porém, ele estava atento. Em momento algum o nome de Alaudi foi citado e aquele era o maior medo do Chefe dos Cavallone. O louro poderia ser indiretamente o Guardião dos Vongola e, apesar de todos saberem disso de uma maneira ou de outra, eles desconheciam a natureza da relação entre o Inspetor de Polícia e Ivan. Aquele segredo deveria ser mantido a qualquer custo.
O Conselho terminou duas horas depois de ter começado. Nenhum dos Chefes divergiu do assunto e o moreno agradeceu mentalmente pela excelente reunião. O Chefe dos Cavallone despediu-se de Giotto, e os dois amigos prometeram se encontrar pelos próximos dias em uma reunião somente entre eles. Mario estava ao seu lado quando deixaram a sala, e em frente à mansão havia meia dúzia de carros da Família.
"Peça que um deles vá para a casa de Alaudi." Ivan disse enquanto atravessavam a rua. "Eu quero mais dois homens fazendo a segurança."
O Braço Direito meneou a cabeça, fazendo sinal com a mão. Um subordinado deixou um dos carros e aproximou-se. O ruivo deu a ordem e o homem apenas meneou a cabeça e se afastou, desejando boa noite. Eu me sinto mais seguro dessa forma. O moreno entrou no carro. Desde que começou o relacionamento com o louro, o Chefe dos Cavallone tinha homens da Família que estavam diariamente vigiando a casa e a sede de Polícia. O que muitos chamariam de paranoia, Ivan preferia chamar de zelo.
O carro deu partida e o moreno recostou-se ao banco. Ele se sentia cansado, contudo, sabia que não conseguiria dormir. As mesmas ruas passavam diante de seus olhos, todavia, o movimento havia diminuído. Em determinado momento, quando o carro parou para dar passagem a outro veículo, um belo rapaz aproximou-se oferecendo seus serviços para "Os dois charmosos e distintos homens dentro do veículo". O Chefe dos Cavallone sorriu e meneou a cabeça em negativo, entretanto, o Braço Direito retirou duas notas do bolso e ofereceu ao rapaz.
"Infelizmente eu não poderei desfrutar dos seus serviços, mas compre algo quente para comer. A noite está fria."
A surpresa no rosto do rapaz foi tão visível que Ivan quase se sentiu tentado a oferecer mais dinheiro. O carro voltou a andar e o moreno inclinou-se um pouco à frente.
"Eu costumava me divertir com rapazes como ele." O ruivo respondeu antes que ele pudesse perguntar. "Eles são realmente os melhores. Permitem tudo e são bem sensíveis. Muitos vêm de famílias pobres e geralmente são estudantes. Aquele rapaz tinha belos dentes e sabia falar correntemente. Provavelmente está estudando para ser advogado ou professor." Mario encarou o amigo pelo retrovisor. "O quê? Você acha que eu apenas me divertia? Eu costumava conversar com os rapazes."
"Eu só estou surpreso..." O moreno ergueu as mãos e voltou a se recostar ao banco. "Eu sempre soube que você não era totalmente indiferente, e sei que desde sempre se importou com quem levava para a cama, porém, não acha que poderia oferecer um pouco mais de pensamento para o seu, digamos, atual amante?"
"Eu estou resolvendo isso ainda." A voz do Braço Direito saiu divertida. "Tem uma exposição que quero visitar. Ela terá início na terça-feira e estou pensando em utilizar a oportunidade para vê-lo."
"M-Mario..." O Chefe dos Cavallone tornou-se sério. Ele queria pedir para seu amigo ser um pouco mais ameno, mas talvez isso soasse como uma intromissão. Eu sei que Mario tem consciência de que Giulio foi a melhor coisa que aconteceu em sua vida, e, apesar de entender os motivos, eu não queria vê-los separados. Aquele pensamento fez Ivan morder o lábio inferior. Ou talvez eu esteja apenas projetando minhas próprias inseguranças nesses dois... porque gostaria que minha situação fosse diferente.
"Não se preocupe, eu irei apenas conversar." O ruivo retirou uma mão do volante e a gesticulou no ar. "Eu pensei sobre o que você disse e decidi ver no que isso vai dar. Se nós descobrimos quem está por trás dos ataques então tudo se resolverá." Mario parecia visivelmente mais animado. "E quanto a você? O que fará? Alaudi tem muito mais responsabilidade do que Giulio e será bem mais difícil encontrá-lo sem ser visto."
"Eu estou de mãos atadas no momento. Enquanto Alaudi não entrar em contato eu infelizmente não poderei fazer nada." O moreno soltou um longo suspiro.
"Eu o manterei informado. Tenho certeza de que Giulio não calará a boca sobre o assunto."
O Chefe dos Cavallone riu baixo, sentindo-se muito mais otimista. Eles haviam deixado o centro de Roma e seguiam pela longa estrada que os levariam até a mansão. Ivan consultou o relógio dourado em seu bolso, surpreso por ver que passava das 2h30 da manhã. Ficar longe de seu amante seria penoso e triste e totalmente devastador, no entanto, o moreno sabia que precisaria se focar em seu trabalho e, principalmente, pensar em uma boa história para contar aos filhos. Catarina jamais aceitará que Alaudi esteja apenas ocupado. Eu precisarei utilizar a imaginação com ela. A ideia de ver novamente a expressão chocada no rosto da garota fez o Chefe dos Cavallone se sentir culpado. Giotto tem razão. Eu preciso pensar em meus filhos. Ivan acomodou-se melhor ao banco e fechou os olhos. Talvez um cochilo lhe fizesse bem naquele momento e com sorte ele até mesmo sonharia com Alaudi. Porque aparentemente este será o único meio de tê-lo comigo, pelo menos durante os próximos dias.
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Naquela noite, o moreno precisou se render à cama. Seu corpo entrou no quarto, todavia, ele não se lembrava de ter andado ou retirado o terno e a gravata, jogando-se na cama e apenas se dando ao trabalho de enfiar-se debaixo dos cobertores. Aquela havia sido uma noite sem sonhos, e o Chefe dos Cavallone acordou sozinho, sentindo a claridade do dia em seu rosto. Os primeiros segundos foram sem dúvidas os melhores. Ivan não se lembrava quem era e o que fazia; a posição que possuía ou os problemas que enfrentava. Sua mão esquerda esticou-se automaticamente, procurando o corpo pálido que vinha ocupando o seu lado esquerdo há dez anos. Os dedos sentiram a macia roupa de cama, contudo, não tocaram nada. A realidade o atingiu pouco a pouco, fazendo-o sentar-se na cama. Eu dormi vestido... o moreno encarou a camisa e a calça social. Os olhos cor de mel pousaram no lado vazio e tudo o que ele conseguiu fazer foi suspirar.
De banho tomado, dentes escovados, roupas novas e cabelos perfeitamente escovados, o Chefe dos Cavallone desceu para o primeiro andar, seguindo direto para a sala de jantar. Mario já estava lá e ele havia detectado esse detalhe muito antes de entrar. Da porta ele conseguiu ouvir a voz de seu Braço Direito, o tom rouco, e que naquela manhã parecia energético.
"Você ficará de olho naquele rapaz o tempo todo, entendeu? E depois reporte tudo o que viu." O ruivo vestia apenas uma camisa branca naquela manhã, sem terno ou gravata, e seus cabelos estavam presos em um charmoso e curto rabo de cavalo. O inverno realmente estava indo embora.
"Eu sei." Giuseppe respondeu baixo, meneando a cabeça. "Eu ir—", a voz morreu em seus lábios e o louro virou-se, fazendo uma polida reverência ao ver Ivan entrar. "Bom dia, Chefe."
"Bom dia." O moreno sorriu, tocando o ombro de Mario antes de seguir até a mesa. "Eu havia me esquecido, mas Francis já está de pé? Ele adiou para hoje a visita à casa de Enrico, não?"
"Sim, ele está se trocando, Chefe." O Braço Direito do herdeiro abriu um largo sorriso.
"Vocês já tomaram café?" O Chefe dos Cavallone encarou a mesa repleta de comida ao se sentar. O lugar de Catarina estava vago, porém, havia farelos em seu prato. "Ela já desceu?"
"Foi a primeira a acordar, como sempre." O ruivo respondeu. "Eu vou me retirar agora e lembre-se do que eu te disse, Giuseppe. Observe tudo."
"Do que você tem tanto medo, Mario?" Ivan riu enquanto cortava um pedaço de pão de milho, e o Braço Direito voltou metade do corpo, apertando os olhos verdes.
"De que ele seja como você costumava ser." Mario abriu um meio sorriso. "Eu lembro muito bem o que fazíamos quando visitávamos nossos amigos. Incrível como eles usavam vestidos, hm?"
O moreno arrependeu-se automaticamente de ter feito aquela brincadeira. Eu me esqueci que Mario nunca esquece. Sua memória é excelente. Quando eram bem mais novos, os dois amigos passavam os finais de semana com os outros rapazes do vilarejo vizinho. A diferença é que muitas vezes o Chefe dos Cavallone acabava indo se divertir com alguma bela garota. Isso parece tão distante, tão... longe. Ivan ergueu os olhos, pousando a xícara sobre o pires e encarando sua única companhia. Giuseppe tinha uma expressão diferente, um misto de tristeza e estranha resignação.
"Aconteceu alguma coisa, Giuseppe?"
"Hã?" O Braço Direito piscou, como se não houvesse ouvido à pergunta. "N-Não, d-desculpe, Chefe, eu estou de saída. Tenha um bom dia."
O homem de longos cabelos louros fez novamente uma séria reverência antes de virar-se e deixar a sala de jantar. O moreno deu de ombros e voltou sua atenção ao café, achando que talvez aquele tipo de comentário pudesse ter chocado Giuseppe. Ele é muito sério, e nunca ouvi Mario mencionar nenhuma amante. Giuseppe deveria aproveitar melhor seu tempo livre e a beleza da juventude. A ideia de mencionar aquilo para o ruivo pareceu excelente, entretanto, o Chefe dos Cavallone precisou colocar aquele pensamento de lado, pelo menos por enquanto. A porta da sala de jantar abriu-se e a pessoa que Ivan esperava adentrou.
"Bom dia." Francesco entrou bocejando.
"Bom dia." O moreno passava geleia em sua torrada. "Achei que houvesse desistido do passeio."
"Não, mas estou com sono." O rapaz de cabelos castanhos encheu a xícara com chá e até mesmo aquele movimento pareceu demais para ele.
"Giuseppe foi retirar o carro, então sugiro que se apresse." O Chefe dos Cavallone pegou um pão doce e o colocou no prato do filho, recebendo um sorriso como agradecimento. "Eu quero você de volta antes do pôr do sol."
"Eu voltarei muito antes disso. Enrico quer que eu o ensine Inglês, então acredito que depois do almoço já estarei livre."
"Oh!" Ivan ficou genuinamente surpreso. "Eu não sabia que Enrico estava tão empenhado em aprender."
"Ele passou seis meses em Londres, mas disse que foi muito difícil se comunicar, e pediu que eu o ajudasse." O herdeiro deu de ombros.
"Eu estou feliz por você, Francis." O moreno sorriu. "Eu achei que houvesse outro tipo de interesse nessa visita."
"Outro tipo?" Francesco piscou longamente e juntou as sobrancelhas.
"Sim... como uma garota." O Chefe dos Cavallone tentou não rir, mas foi impossível.
"Uma garota?" O rapaz de cabelos castanhos ergueu as sobrancelhas, mostrando genuína inocência. "Enrico é filho único... e por que é que eu mentiria? E eu não vou encontrar garota alguma."
"Eu sei, foi somente uma observação."
O futuro Chefe encarou o pai por alguns segundos, mas logo voltou sua atenção ao chá. Por alguns minutos pai e filho permaneceram em silêncio, até o prato de Francesco tornar-se vazio. O último gole do chá desceu devagar por sua garganta, porém, ele não se levantou. Os olhos cor de mel se ergueram e Ivan sentiu um frio na espinha ao sentir aquele olhar.
"Eu posso pedir uma coisa?" A voz do rapaz de cabelos castanhos soou séria.
"S-Sim..." O moreno levou nervosamente a xícara de café até os lábios. Quando estava sério, o herdeiro lembrava e muito Alaudi, e nada, absolutamente nada bom seguia aquele tipo de expressão.
"Quando eu voltar eu quero que me diga o que está acontecendo." O Chefe dos Cavallone não sentiu o gosto do café, apenas pousou a xícara já vazia sobre a mesa. "Porque eu sei que alguma coisa está acontecendo."
Eu ainda não pensei na história, Ivan havia se esquecido desse detalhe, ou melhor, eu não esperava que ele fosse me pedir isso. Francesco manteve o olhar sério, esperando uma resposta. Foi somente quando o moreno meneou a cabeça em positivo que ele limpou o canto dos lábios e ficou em pé
"Eu quero ajudar no que for preciso, no entanto, se o problema for sério demais para mim, apenas me conte a situação."
"Eu realmente gostaria que você não soubesse, Francesco."
"Eu sei." O rapaz de cabelos castanhos não parecia ofendido. "Mas eu sou o futuro Chefe, não? E já sou um homem crescido e preciso saber como resolver as coisas."
"Um homem crescido?" O Chefe dos Cavallone riu para si mesmo. "Certo. Quando você retornar nós teremos uma conversa séria."
"Obrigado." O herdeiro sorriu de canto. "E... sobre Alaudi, ele vai voltar, não é?"
Ivan entreabriu os lábios, mas não conseguiu responder. O medo estava tão presente no olhar de Francesco que o moreno quase se levantou e abraçou o filho, apenas para dizer que tudo ficaria bem e que seu outro pai retornaria muito em breve. O problema é que aquilo seria uma mentira. Ninguém sabia disso melhor do que o Chefe dos Cavallone, e a realidade não seria tão fácil ou cômoda.
"Eu espero que sim, Francis." Ivan respondeu com um sorriso. "Eu realmente espero que Alaudi retorne para nós."
Continua...
