LEMBRANÇAS

Ela abriu seus olhos molhados, passou os dedos por eles tentando impedir inutilmente que as lágrimas continuassem caindo. Victória se levantou da cama, andou até a porta e saiu para o corredor. Sua cabeça doía, aquelas lembranças eram horríveis. Ela queria fugir de seus fantasmas, durante 5 anos fizera isso. Terminara Hogwarts achando que o melhor a fazer seria se afastar... para o mais longe possível. Foi até a cozinha, preparou um chá e começou a bebê-lo se entretendo nos desenhos formados no fundo da xícara. Tudo sempre estava escrito em algum lugar. Vickie parou, fitou a escuridão em que estava a casa. Como as lembranças doíam! Subiu as escadas, passou por duas portas e entrou numa terceira, um lindo menino de quatro anos dormia profundamente, os cabelos pretos lisos, a pele muito clara. Suspirou, fechou a porta e sorriu. Aquela era a única lembrança boa que restara de tudo. Voltou para seu quarto, deitou-se na cama, e adormeceu. Contudo, no mundo dos sonhos o controle se vai e as lembranças voltam...

Você é tão importante para todos

Você finge ser tudo o que você quer ser

Mas eu, eu sei quem você realmente é

Você é aquele que chora quando você está sozinho

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Chegara correndo em seu quarto, na Torre da Grifinória, estava sem fôlego, respirava descompassado, sentou na beira de cama e fechou os olhos. Então era ele? Pensou e abriu os olhos fitando a noite lá fora. Eu sabia que o encontraria ali... naquela noite, estava na borra de chá... Sacudiu sua cabeça. Não ele... não! Deitou na cama, as lágrimas correram, fora até aquele corredor escuro descobrir quem era aquele homem, deparara-se com o pior pesadelo de sua vida, e se atirara em seus braços. Com o olhar perdido na escuridão da noite, Victória adormeceu.

Mas Para onde você vai?

Sem ninguém para te salvar de você mesmo

Você não pode escapar

Você não pode escapar

Acordou com o sol entrando pela janela, ainda estava com as vestes da escola, não trocara de roupa. Não devia ser tão tarde, ainda havia alunos dormindo, daria tempo de se lavar e descer. Um frio percorreu sua espinha, ela não queria descer ou teria que olhar para aqueles olhos negros. Também não podia ficar ali, tinha sido estúpida o suficiente para se expor, agora era tarde para voltar atrás. Victória ajeitou os cabelos ruivos, lavou o rosto e desceu. Snape não sabia de nada do que estava para acontecer, e ele nem lhe perguntara nada sobre seu aparente descontrole. Talvez se mantivesse assim...

O café da manhã tinha corrido bem, evitara olhar para a mesa dos professores, e estava de saída do Salão Principal quando um braço firme a deteve. Com as pernas bambas, sentindo a pressão dos dedos em torno de seu pulso, ela se virou tentando manter o pouco de autocontrole que ainda possuía, e encontrou um par de olhos negros cintilantes.

- Senhorita Norris, gostaria de lhe falar - apesar do frio em sua voz, ela soou suave -, na minha sala.

Você acha que eu não consigo ver através de seus olhos

Assustado até a morte de enfrentar a realidade

Ninguém parece ouvir seu choro secreto

Você foi deixado sozinho para enfrentar você mesmo

Ela concordou com breve aceno de cabeça, e seguiu-o pelos corredores até as masmorras. A porta da sala se abriu e ele entrou seguido de longe por ela. Victória parou assim que cruzou a porta, tentando manter a maior distância possível do professor, vendo que Snape prosseguia até a mesa. Ele se virou bruscamente para ela, os olhos penetravam sua mente, e Victória desviou os seus, não queria estar ali. Seria melhor que ele gritasse e a mandasse embora o mais rápido possível.

- Pode me dizer, exatamente, o que estava fazendo naquele corredor, senhorita? - vendo que ela não o encarava, avançou até a menina. - Não minta! - advertiu ferozmente.

- E... eu tinha... - abriu e fechou a boca duas vezes conseguindo murmurar apenas algumas palavras - perdido meu livro... e achei que talvez estivesse caído naquele corredor. O trabalho sobre ele era para hoje, senhor.

- Acredita que aceitarei essa sua desculpa esfarrapada? - ele crispou os lábios em um sorriso cínico e vitorioso. - Achei que, como uma grifinória, tivesse uma resposta melhor!

- Bom, se não me acredita posso trazer o trabalho até aqui, senhor - ela falou com cautela, estudando os movimentos dele.

- Resolveu me desafiar, então? - ele rosnou. - Detenção, senhorita, hoje, nesta sala, às 9:30 h.

Victória pensou em protestar, mas calou-se ao encontrar os olhos frios do professor, apenas assentiu com a cabeça saindo pela porta. Queria sumir dali, deixar o frio daquela sala para trás, aumentou a velocidade de seus passos e chegou rapidamente na sala de História da Magia. Não conseguiu se concentrar em nenhuma aula do dia, os exames estavam se aproximando, apesar de ser uma boa aluna, precisava manter as boas notas.

No horário marcado, Victória já estava na porta da sala, mas não havia sinal do professor. Esperou pacientemente por uma hora, suas pernas começaram a formigar, algo estava errado nunca soube que o professor de Poções deixara de cumprir uma detenção. Sentiu um desconforto, andou pelo corredor vazio e agora escuro. Parou, se aproximou da porta, e ao tentar escutar algum ruído do interior da sala, percebeu que não estava trancada. Empurrou-a, entrando no ambiente frio e mal iluminado. Olhou a sua volta, a não ser pelo fogo crepitante da lareira, não havia nenhum sinal de que alguém estivera ali. Percorreu a sala com os olhos, nunca fizera isso antes, e notou que a parede do outro lado da sala se estendia um pouco mais além do ângulo de visão que se tinha. Victória avançou naquela direção e pôde divisar uma outra porta. Estava prestes a empurrá-la, como fizera com a primeira, quando um estalido as suas costas a fez se virar, e seu sangue congelou. De pé, no meio da sala, estava uma figura alta envolta em uma capa preta. que deixava a mostra apenas as mãos brancas. Ela recuou para a parede a trás de si, derrubando alguns fracos na prateleira da estante, denunciando sua presença.

No mesmo instante Snape se virou para ela, arrancando a máscara que cobria seu rosto, e foi em sua direção. Ele viu o horror estampado nos olhos dela, seu total estado de pânico, e com medo que gritasse, tapou-lhe a boca com uma das mãos. Vickie sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao toque daquelas mãos frias indo de encontro aos seus lábios. Snape chegou mais perto, ela sentiu o hálito quente dele em seu rosto enquanto sua voz aveludada sussurrava:

- Não grite - ordenou.

Mas Para onde você vai?

Sem ninguém para te salvar de você mesmo

Você não pode escapar

Você não pode escapar da verdade

Eu percebi que você está com medo

Mas você não pode abandonar todo mundo

Você não pode escapar

Você não quer escapar

Ela assentiu com a cabeça, e ele retirou a mão de sua boca. Vickie o encarou, um turbilhão girou em sua cabeça, agora tinha certeza do que vira na xícara: Snape seria o homem a causar-lhe tanto sofrimento. Fitou a máscara em sua mão, ele percebeu, mas não tentou escondê-la. Ao contrário, retirou a capa e colocou-a encima da mesa ao mesmo tempo em que se dirigiu à ela.

- O que faz em minha sala, senhorita? - sua voz era fria. - Está ficando tão intrometida quanto os seus amigos de casa.

- Tínhamos uma detenção, se esqueceu? - ela não notou seu tom arrogante.

Um leve brilho passou pelos seus olhos negros, Victória mais uma vez o encarou. Aquele olhar penetrante a fazia tremer, mas sustentou seu olhar no dele. Até agora ele não se justificara nem dissera nada, e se Vickie o conhecia um pouco, nunca o faria.

- Não vai me dizer o que significa isso, professor? - ela o abordou.

- Não a tomo por uma tola, senhorita - crispou os lábios num sorriso arrogante. - Acho que sabe exatamente o que isso significa. A pergunta certa é: Você quer saber a verdade? - seus olhos cintilaram, e ele rosnou: - Ou só sair por aí ventilando um bando de mentiras?

- Existe algum motivo coerente para o senhor estar vestido de comensal dentro de Hogwarts? - Victória o fitou, e mais uma vez ele sentiu aqueles olhos castanhos dentro dos seus.

- Muitos, e nenhum no momento que eu possa lhe revelar! - ele lembrou da noite anterior, o desespero dela e como a abrigara em seus braços.

- É só isso? - olhou-o incrédulo. - Tudo o que pode me dizer é isso? - não obteve resposta. - Se é só isso, professor, é melhor eu ir.

Victória seguiu na direção da porta, os cabelos ruivos passaram perto do rosto dele, que sentiu seu perfume, mas antes que ela pudesse seguir adiante Snape a deteve. Seu braço estava segurando o pulso dela, e Vickie o fitava.

- Não posso permitir que saia por aí contando o que viu, senhorita - falou rispidamente.

- Por quem me toma? Não sou o tipo de pessoa que sairia por aí falando nada - disse fria. - O que quer realmente de mim, professor?

- Que confie em mim... - ele murmurou, as palavras eram quase inaudíveis.

- E por que deveria? - Victória o fitou, seu rosto tinha adquirido uma aparência cansada. Ela sentiu pena do homem a sua frente.

- Não deveria, senhorita - os olhos castanhos de novo nos seus -, contudo, é o que preciso lhe pedir no momento, sua segurança e a minha dependem disso.

- A quem você é fiel, Professor? - ela disse firme. - Está claro que faz um jogo duplo...

Snape a olhou detidamente, aquela era uma pergunta interessante vinda de uma grifinória, uma pergunta direta, sem rodeios. A senhorita Norris era uma excelente aluna. Uma sabe-tudo! Mas não alguém que gosta de notoriedade por isso. Seu interesse pela menina ruiva parada a sua frente cresceu, ouviu-a novamente pronunciar a pergunta e se viu respondendo:

- A Dumbledore, senhorita - disse seco.

- É só o que precisava saber - Victória sorriu. - Se incomoda de largar meu braço, professor?

Eu estou tão cansado de falar palavras que ninguém entende

É evidente o bastante que você não pode viver sua vida inteira sozinho?

Eu posso ouvir você num sussurro, mas você não consegue nem me ouvir gritando

Ele a soltou, devagar, algo o fascinara naqueles olhos castanhos e na maneira como ela falava. Snape se sentiu ridículo por tais pensamentos, era apenas uma menina e uma grifinória.

- Fique tranqüilo, eu confio no senhor, professor - completou -, não contarei nada á ninguém.

Desta vez ela alcançou a porta rapidamente e saiu para o corredor escuro. Victória não teve mais contato com o professor de Poções, exceto durante os exames finais. Evitou permanecer mais do que o tempo necessário perto dele, mas podia sentir seus olhos negros acompanhando-a.

E para onde você vai?

Sem ninguém para te salvar de você mesmo

Você não pode escapar da verdade

Eu percebi que você está com medo

Mas você não pode rejeitar o mundo inteiro

Você não pode escapar

Você não vai escapar

Você não quer escapar

( Where Will You Go? - Evanescense )