Isabella Swan roía a unha do polegar enquanto lia em voz alta, pela terceira vez, as instruções para o uso de sua nova secretária eletrônica, na esperança de que as palavras enfim fizessem sentido. Soltou uma blasfêmia que não estava no manual, embora tencionasse ligar para a companhia telefônica e sugerir que incluísse instruções mais claras. Isso depois que recebesse o sinal de que o aparelho estava mesmo ligado.

Anulou tudo o que fizera anteriormente e começou de novo. Após noventa minutos e seis unhas roídas ela conseguiu o sinal e deu um grito de alegria. Para cantar vitória deu uns passos de dança no tapete e jogou longe o manual, que foi parar perto do telefone, que até poucas horas atrás estivera mudo, por causa de um temporal que havia caído.

Receosa de que o aparelho parasse de funcionar de novo, deitou-se no sofá e ligou para sua amiga Alice.

— Escritório de escravos — Alice respondeu.

— Você é impossível — Bella disse, rindo. — E se fosse o dr. Halbert, precisando de seu serviço? – tanto ela quanto Alice eram enfermeiras.

— Eu não aceitaria trabalhar esta noite mesmo que fosse a pedido dele. Não vou perder o show dos rapazes, por nada no mundo. E quero que você vá comigo.

— Sobre o show… — Bella limpou a garganta.

— Oh, não, Isabella Marie Swan, não vai me negar esse pedido. Você prometeu que iria. E sabe que Rose vai ficar furiosa de vc não aparecer.

- Rose que vá para o inferno.

— Ora, vamos, Bella, divirta-se um pouco. Tem receio de que Jake não queira que você veja homens musculosos seminus, e transpirando?

— Não. Ele estará trabalhando até tarde. E já disse que não se importa se eu for ao show.

— Santo Deus, amiga. Realmente pediu licença para ele?

Com franqueza, secretamente esperara que Jake ficasse com um pouco de ciúme, em especial considerando-se que ela nunca o vira nu, mesmo depois de dez meses de namoro. Mas em vez de enciumado, ele parecera surpreendido, e logo acrescentara que não era o tipo de homem ciumento. Confiava nela, afinal. Que benevolente!

— Pedir-lhe para ir ao show foi somente um ato de consideração, Alice — explicou à amiga.

— Foi uma atitude comovente a sua. Afinal, o homem não é o dono de seus orgasmos.

E você vem me dizer isso?! Como se eu não soubesse!

— O que vai fazer esta noite? — Alice acrescentou. — Dormir?

Bella gostaria muito de ir dormir. Mas já sentia os sinais da insônia e tinha certeza de que ficaria a maior parte da noite de olhos abertos.

— Talvez programando os números de telefones em minha nova secretária eletrônica — respondeu.

— Mas isso não levará mais do que dez minutos.

— Levará muito mais, para uma analfabeta em eletrônica como eu.

— Chega! Espero você daqui a uma hora em minha casa. Venha com uma cara alegre e traga muitas notas de um dólar.

Bella sussurrou um adeus e procurou o botão de desligar.

Após muita procura, apertou por engano o botão "talk", e surpreendeu-se ao encontrar os números dos telefones que mais usava: o de Jake, de Alice, de Rose, de seus pais, de várias amigas, do pessoal do hospital, do entregador de pizzas, do restaurante chinês, do tailandês, do mexicano. Aproveitou a chance e acrescentou mais dois ou três números.

Ela enxugou o suor da testa com a barra da camiseta.

Levantou-se e começou a andar pela sala, abrindo as janelas a fim de que o ar de seu apartamento no terceiro andar pudesse ficar menos estagnado.

Fora, as ruas estavam movimentadas, os faróis acesos dos carros ajudavam a clarear tudo, e as buzinas eram ensurdecedoras. Todo o mundo parecia ávido por sexo naquela noite quente.

Incluindo Isabella Marie Swan.

Ela suspirou e pressionou o nariz na tela da janela. Mesmo as pessoas de seu relacionamento, as mais próximas, ficariam surpresas se soubessem que a circunspecta enfermeira suspirava por sexo.

Seria ela ninfomaníaca? Talvez, mas não era promíscua, isso não. Na realidade tinha até fama de ser um tanto puritana, o que, ela descobrira anos mais tarde, era a proteção que adquirira contra a tendência perigosa que tinha. Simplesmente recusava ceder aos desejos de seu corpo inquieto por sexo.

Oh, houveram alguns encontros com colegas da universidade, e um ou dois breves relacionamentos desde então. Mas esses homens não a empolgaram, não invadiram seu mundo secreto. Ela foi à cozinha e abriu a geladeira, suspirando com alívio quando o ar frio beijou-lhe a pele. Ergueu a camiseta a fim de se refrescar e pegou uma banana.

Olhou para a fruta e suspirou. Tudo lhe parecia fálico naqueles dias. Imergindo no trabalho, ela conseguira controlar suas necessidades urgentes… até um ano atrás. Agora, aos vinte e seis anos de idade, por alguma razão hormonal, quem sabe?, ou pelos anos de repressão, ou por causa do horrível calor que fazia, seu corpo se rebelava.

Sempre assumira que um dia se casaria, mas queria encontrar o homem perfeito e se guardar até esse dia. Achou que Jake poderia ser esse candidato: rapaz atraente, de sucesso na vida, de boas maneiras, inteligente e amável. Gostara imensamente dele. Porém após alguns meses de convivência chegara à conclusão de que o homem não tinha interesse em dormir com ela.

Enquanto ela queria ir para a cama, e ele parecia muito contente em passear pelo parque.

Mas, na verdade, era mais do que sexo o que ela procurava. Queria uma união mais duradoura, a intimidade gerada quando dois amantes compartilhavam do sexo. Queria ouvir a famosa expressão "você me completa", que escutava em filmes mas que observava em poucos casais nos tempos presentes. Se o verdadeiro amor ainda existia, era esse que ela almejava. Queria um homem louco por ela, que a adorasse.

Suspirou e se abanou. Nesse meio tempo, sua rebelião interna alcançava proporções inacreditáveis, parecendo combustão espontânea. No ritmo em que essa fornalha interior crescia, em combinação com o calor escaldante do verão, Bella temia chegar ao ponto de inflamabilidade.

Terminou de comer a banana e com relutância fechou a porta da geladeira. Em seguida olhou suas unhas do pé bem tratadas, pintadas de vermelho. Esperara que Jake as apreciasse. Mas na noite da véspera ele nem as notara apesar das sandálias bem abertas que ela usara, de salto alto.

Em vez disso, prevenira-a de que cuidasse para não cair quebrando o pescoço.

Beijou-a depois no rosto.

Ela jamais se considerara uma mulher capaz de terminar um relacionamento porque o namorado não avançara um pouco, ou muito, o sinal.

Mas é que precisava tanto daquele avanço! Tinha de encontrar, de uma maneira ou de outra, um meio de fazer com que ele soubesse que ela estava pronta para o próximo passo, e com urgência.

Fez uma careta ao passar perto do sofá a caminho do quarto. Bem depressa, também, compraria um sofá confortável. Mas no momento precisava pegar alguns dólares de suas economias para dar aos rapazes do strip-tease.

Levantou os cabelos acima do pescoço úmido, fazendo um coque no alto da cabeça.