II. ENTREGA INTERCEPTADA

As coisas não melhoraram no dia seguinte. Wendy continuava a ignorar o pai, e isso fazia com que Tia Margareth fizesse cara feia toda vez que a garota passava. A Sra. Darling continuava tentando convencer a filha de que aquela decisão, ao contrário do que a garota pensava, não se tratava de um castigo, mas sim da segurança de que a filha teria um futuro sem dificuldades. Wendy limitava-se a rolar os olhos e torcer para que o ônibus do colégio chegasse logo e a tirasse daquela situação.

Não demorou muito e a buzina pôde ser ouvida. Wendy levantou, agarrou sua bolsa e saiu correndo até a porta. John já a esperava com a porta aberta, Tia Margareth tentava tirar Teddy, o urso de pelúcia, dos braços de Michael. Ao longe, um copo quebrou, e logo em seguida Naná e o Sr. Darling apareceram. A primeira correndo e atropelando todos a sua frente, e o segundo com um pano em mãos, limpando uma enorme mancha na perna direita da calça.

- Esse cachorro... - Wendy ouviu o pai começar a murmurar, mas logo saiu pela porta e entrou no ônibus escolar seguida dos irmãos.

O ônibus estava quase cheio, como de costume, e Wendy viu quando Richard escorregou para o lado da janela, oferecendo o lugar ao seu lado para ela. Até quando ele vai fazer isso? ela pensou, irritada. Richard era o filho do gerente do banco onde o Sr. Darling trabalhava. Ela não tinha certeza, mas tudo a levava a acreditar que ele era o seu pretendente, aquele com o qual seus pais a queriam casar. Lembrar disso a deixou mais irritada, porém dirigiu um pequeno sorriso ao rapaz, sentando-se logo em seguida ao lado do irmão caçula e a frente de John.

- O que houve, Michael? Por que essa cara? - ela perguntou, quando viu que o mais novo estava de braços cruzados, olhando para a janela.

- Tia Margareth não me deixou trazer Teddy, diz que é coisa de bebezinho. Grande estúpida...

- Michael! - Wendy ralhou com o irmão.

- Teddy é o meu companheiro de batalhas! É o amigo do Cacique! Ela não entende que eu e Teddy somos índios guerreiros, que lutamos para proteger a princesa Tiger Lily.

Wendy e John sorriram para o mais novo.

- Não dê bola, Michael. É até uma boa coisa, sabe? - John comentou - Ela não saber disso. Adultos são chatos e provavelmente nos proibiriam de lutar. Imagine o que mamãe diria se eu contasse que sou um pirata? Ou que Wendy é a melhor espadachim que Neverland já viu? É bom mesmo que isso fique só entre nós.

O comentário de John arrancou um sorriso do caçula, que descruzou os braços e começou a assoviar uma canção que ele dizia ser a canção dos guerreiros do Cacique. Tia Margareth sempre dizia que não era saudável Wendy ficar contando essas histórias fantasiosas para os irmãos, pois eles poderiam acreditar em tais absurdos. Mas as histórias não eram fantasiosas, eram reais. Como Wendy poderia parar de contá-las se ela mesma acreditava nelas?

Uma vez, Wendy contou a uma garota de sua turma, Angela, sobre Peter a visitar todas as noites para ouvir suas histórias. A garota desatou a rir, mas nunca contou nada para ninguém. Wendy não sabia o tamanho do erro que cometeu, até a primeira aula do dia.

Aulas de cálculo eram as que Wendy mais detestava. Nunca gostara de números e, principalmente, nunca gostara de quem os lecionava. Só a voz da Sra. Bettany a deixava com dor de cabeça, então a garota passava a maioria das aulas dela rabiscando desenhos em seu caderno, grande parte deles sobre suas histórias e seus sonhos, e cantando canções em sua mente.

- Srta. Darling?

- Sim? - Wendy levantou a cabeça, ao ouvir seu nome.

- A pergunta.

- Qu.. Que pergunta? - ela perguntou, corando.

- Honestamente, Srta. Darling - a professora caminhou até ela - já está no último ano, onde anda sua cabeça? - e, dizendo isso, pegou o caderno da garota e soltou um gritinho ao ver seu conteúdo.

- O que significa isso? - ela praticamente gritava, apontando para a figura de uma garota desenhada no peitoril de uma janela.

- Sou eu, Sra. Bettany.

- E isto aqui é um garoto? - ela perguntou, chocada, apontando para o desenho de Peter, do lado de fora da janela. Wendy baixou a cabeça, envergonhada, quando Angela levantou de sua classe.

- Ele se chama Peter, Wendy disse que ele a visita todas as noites.

A Sra. Bettany mudou de uma cor para outra tão rápido que Wendy pensou que a mulher seria capaz de explodir. A professora acompanhou a garota até a diretoria da escola, onde Wendy teve que ouvir um discurso moralista durante meia hora. A diretora, ainda não satisfeita, redigiu uma carta endereçada ao Sr. Darling denunciando a conduta promíscua da filha e o aconselhando a manter os olhos sobre a garota. Wendy queria esganar a mulher, como ela pode pensar tantas bobagens a respeito dela? Era apenas um desenho, sobre uma história que ela contava aos irmãos, sobre um garoto que ela nem sabia se existia. A raiva deu lugar à preocupação, quando a garota viu que a diretora entregava a carta ao carteiro da escola, um garoto baixinho, gordinho e cheio de sardas. Papai vai me matar, ele não pode receber essa carta! Serei obrigada a casar se ele recebê-la!

No final do dia, Wendy saiu do colégio e pediu para que John e Michael fossem para casa na sua frente, que ela os encontraria logo depois. A garota ficou esperando que o carteiro saísse dos prédios do colégio. O plano era interceptá-lo na metade do caminho, implorar para que lhe devolvesse a carta. Assim que o avistou, correu até ele antes que ele subisse na bicicleta.

- Espere! - ela gritou.

O garoto esperou que ela se aproximasse.

- Por favor, devolva-me a carta. Não sabe o quanto estou encrencada se ela chegar nas mãos do meu pai.

- E o que eu ganho com isso? - ele a analisou de cima a baixo, com cara de desdém.

- O que quer? Não tenho muito dinheiro.

- Um beijo.

- Está louco? - ela gritou - acha mesmo que eu vou te dar um beijo, seu fedelho?

- Ou o beijo, ou nada feito - ele sorriu, aproximando-se dela.

Nesse momento, Wendy tentou pegar a carta dentro da cesta da bicicleta, mas o garoto foi mais rápido e a empurrou para trás, subiu na bicicleta e saiu.

Wendy correu atrás dele o mais rápido que podia, e viu, com espanto, que o garoto pretendia entregar a carta no local de trabalho de seu pai, visto que estacionou a bicicleta na frente do banco. Gordinho maldito, ela pensou. Wendy apressou o passo e correu até o banco. Tudo aconteceu muito rápido: o Sr. Darling conversava com alguns outros homens de terno, provavelmente se despedindo, pois era final de expediente; o garoto estava a alguns metros de distância, correndo com o braço esticado, a carta entre os dedos, gritando "Sr. Darling!" ; e então Wendy correu o mais rápido que conseguiu, pulou sobre o garoto e arrancou a carta de sua mão, caindo no chão logo em seguida. O Sr. Darling e os outros ficaram horrorizados ao ver que Wendy brigava e batia no garoto como se fosse um. O garoto levantou, ajeitou o paletó e a gravata, e saiu praguejando para Wendy. Quando a garota levantou do chão e encontrou os olhos de seu pai, só tinha certeza de uma coisa: estava mais do que encrencada.