Broken Heart.
Ventos congelados pareciam querer perfurar-lhe a pele. O ar frio e penetrante dali não só parecia congelar-lhe o corpo, como seus sentidos também, ou melhor, seu entristecido coração. Estava ali, recostada sobre uma das imensas e várias formações de gelo que compunham toda a inóspita Sibéria. Fitava o nada, mergulhada em seus devaneios, como o fazia todos os dias. Os ventos estavam ainda mais cortantes naquele final de tarde, e ao cair da noite, se tornavam mortalmente insuportáveis.
Kamus aproximava-se dela, ainda que o "clima" entre eles não estivesse tão bom. Ultimamente ela só lhe falava o estritamente necessário. Talvez soubesse o porque dela agir dessa forma, mas contudo, jamais permitiria que permanecesse por mais tempo ali. Mesmo 6 anos já adaptada, sobrevivendo e suportando as condições inóspitas da Sibéria, seu corpo não agüentaria.
- Pretende ficar por mais tempo ainda? – Kamus lhe dizia hesitante.
- O tempo que for preciso. – lhe dizia friamente, de costas para ele.
Por mais frio e impassível que fosse, era diferente na presença dela. Não conseguia ser e agir como fazia com os outros. Com ela, era totalmente diferente. As horas já haviam se passado e conseqüentemente o frio penetrante dali faltava-lhe congelar o corpo. Kamus podia sentir a respiração falha e enfraquecida dela. Sabia que não suportaria mais tempo.
- Vamos voltar para casa. Não pode permanecer aqui! – o Aquariano dizia enquanto percebera uma tempestade intensa que se formava.
- Acha mesmo que eu a deixaria morrer? – Kamus lhe dizia, impaciente.
-...
Notara que ela não cederia, o que já esperava mesmo. Aproximou-se ainda mais dela, tomando-a rapidamente em seus braços.
- O que pensa que está fazendo? – ela o encarava furiosa, tentando desvencilhar-se dos braços fortes e másculos do Aquariano, mas seu corpo enfraquecido não a permitia.
Carregava-a rumo á pequena casa em que habitavam. Modesta, mas aconchegante e espaçosa o suficiente para se viver. Com um dos pés, Kamus empurrava a estreita porta da casa. Ainda com ela em seus braços, ele a levava até a cama, onde precisava recuperar-se. Sem perceber, surpreendeu-se ao sentir as pequenas e delicadas mãos da jovem amazona envolverem-lhe a nuca. Estava fraca e pálida. Deitando-a delicadamente sob a cama, cobriu-a com todos os poucos cobertores que encontrara.
- Por que insiste em se preocupar comigo? – a voz fraca da jovem lhe dizia, ao mesmo tempo em que seus olhos encheram-se de lágrimas.
- Nem ao menos sou digna de que me treine. – Marina parecia envergonhar-se diante de sua fraqueza.
- É isso mesmo que você pensa? Aliás, insiste em sentir-se fraca comigo? – por um momento, Kamus esquecera-se um pouco de sua frieza. Sentia que ela precisava mais do que nunca de seu auxílio.
- Acho que devo me redimir com você. Ultimamente meus atos têm sido egoístas... Perco-me em tudo que sinto, meu orgulho, e não penso em como você... – a jovem amazona suspirava, hesitando em continuar a dizer-lhe tudo o que estava preso em seu coração partido. Era difícil falar de seus sentimentos, mas encontrava a confiança que precisava no Cavaleiro de Aquário.
-...
Kamus aproximara-se dela, tocando suavemente em suas mãos. Queria que ela realmente entendesse o quanto poderia confiá-lo.
- Kamus, o que sente por mim? – Marina parecia nem acreditar em suas próprias palavras. Sabia que era difícil tanto para ela quanto para ele, que falassem de seus sentimentos.
- Me perdoe. Já deveria saber que sua frieza, seus princípios estão acima de qualquer coisa. Um Cavaleiro como você, tão austero, jamais teria coragem o suficiente para encarar seus próprios sentimentos. Acho que os ares congelados daqui, te esfriaram também o coração. – a jovem amazona dizia ironicamente. Mas sua verdadeira intenção fosse, talvez, encorajá-lo.
- Não sabe o que está dizendo. – Kamus agora lhe falava irrequieto. Se havia algo que não admitia era ser chamado de covarde. Em outras palavras, fora o que entendera das palavras da amazona.
- O que acha que eu sentia, o que acha que se passava dentro de mim quando a via nos braços de Milo? O meu melhor e verdadeiro amigo, apaixonado pela pessoa que...
- Kamus, não continue. – Marina temia que ouvisse o que talvez de fato, já soubesse.
- Você começou tudo isso. – o Aquariano lhe encarava, desafiando-a.
A jovem amazona o retribuía da mesma forma. Aqueles olhos enigmáticos, de um mistério tão envolvente, tão intenso... pareciam conhecê-la por inteiro. Tentou fugir daquele momento, levantando-se com dificuldade da cama, mas as mãos fortes do Aquariano a deteve.
- Kamus, por favor... não insista.
Percebera o constrangimento da jovem, soltando-a levemente. Jamais faria qualquer coisa que a afligisse. Talvez não fosse o momento apropriado.
- É melhor que permaneça descansando. Esgotou-se muito ao se expor hoje. Sabe que mesmo estando aqui por 6 anos, seu corpo não teria a resistência necessária para suportar tanto tempo. – Kamus dizia enquanto a deitava novamente sob a cama.
Marina percorria seu olhar pela face distante e ao mesmo tempo carinhosa do Aquariano. Nem havia notado que ela adormecera em seus braços. Parecia querer proteção, carinho... apesar de sua impassibilidade e rispidez, tinha seus sentimentos, desejos... afinal, era humana também. Num ímpeto, Kamus afagava-lhe docemente os cabelos macios enquanto admirava o rosto de traços tão marcantes, de uma beleza jamais vista pelo Cavaleiro de Aquário. Parecia não entender tudo o que acontecera na sua vida em 6 anos. Acariciava carinhosamente os cabelos longos e negros da jovem amazona que tanto... amava. Tentava compreender toda a explosão de sentimentos que finalmente, tomavam conta de seu coração, até então, inflexível. O tão frio e sisudo Kamus, o inexorável Cavaleiro de gelo, "acendera" seu coração...
Horas se passaram até que a gélida madrugada Siberiana chegara. Ambos haviam adormecido. Marina, recostada sob o peito largo e aconchegante do Aquariano, este que carinhosamente havia entrelaçado suas mãos nas dela.
Marina despertara. Vagarosamente, desvencilhava-se do abraço de Kamus. Não queria despertá-lo. Sentou-se na cama, pensando em como era diferente o frio e distante Kamus do qual sempre ouvira falar superficialmente, do Kamus diligente e carinhoso que agora conhecia.
"Por que não consigo o corresponder com os mesmos sentimentos? Me perdoe, Kamus...". Marina pensava consigo enquanto suspirava com pesar por não amá-lo da forma que ele realmente desejava. Retirou-se do quarto, direcionando-se a cozinha, onde prepararia um pouco de café. As horas tão frias da madrugada "exigiam" algo que esquentasse um pouco mais. Assustou-se ao se deparar com o Aquariano já desperto, fitando a escuridão misteriosa daquele lugar através da pequena janela. Perdido em seus pensamentos... Como lhe doía saber que o motivo de sua angústia, seria ela. Dirigia-se a ele com passos lentos e hesitantes.
- Kamus!? Achei que estivesse dormindo...- Marina dizia, estendendo-lhe a caneca com café. Notou sua face distante, surpreendendo-se ao perceber que há pouco havia... chorado? Sim. As expressões de seu rosto, não negavam. Abaixou-se na frente dele, encarando-o fraternalmente. Suavemente enxugava-lhe algumas solitárias lágrimas que ainda rolavam por sua face.
- Parece que agora estamos em igualdade. Não precisa mais me dizer que se sente fraca, afinal, sinto-me com a mesma fragilidade. – Kamus dizia surpreso de suas próprias palavras enquanto a fitava doce e intensamente, o que a ruborizou instantaneamente.
Num ímpeto, tocou-lhe o rosto alvo, agora totalmente corado com aquele olhar tão enigmático.
- Sua beleza resplandece ainda mais quando fica assim.
- Kamus...
Puxou-a delicadamente para si, tomando seus lábios que há muito queria senti-los novamente. Beijava-a lenta e carinhosamente enquanto deslizava suavemente suas fortes e grandes mãos pelas esguias costas dela, sob o fino tecido do vestido que a cobria. Envolveu-a completamente em seus braços. Marina ficara lânguida naquele abraço. Como queria aquele momento... era tudo o que desejava o Aquariano. Um resquício de razão atingira a mente da amazona, que interrompera aquele beijo morno e terno. Separaram-se sôfregos.
- Kamus!? – Marina lhe dizia, retomando a compostura.
O Aquariano abaixara a cabeça, culpando-se por tal ato. Sabia que tudo acabaria assim... a primeira e única mulher que amava, não o correspondia da maneira que profundamente desejava.
- Está bem tarde. Você precisa descansar. – Kamus dizia, evitando transpor todo aquele sofrimento que tomava conta de sua alma. Tentava parecer o mais impassível do que já era diante daquela situação.
Mesmo ainda desconcertada pelo que ocorrera, assentiu com a cabeça.
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Despertara lentamente com um pequeno rastro de luz que já adentrava o quarto. Logo percebera que Kamus não estava por ali. Os ventos frios que soavam, a "solidão" que parecia tomar conta da pequena casa...
- Hyoga!? – espantou-se ao ver o Cisne adentrando a casa, acompanhado de Kamus.
- Athena enviou-me para...
- Ela solicita a nossa volta ao Santuário. – Kamus dizia enquanto tomava uma xícara de café que estava sob a mesa.
- Mas o que estão me dizendo? – a jovem amazona levantara-se da cama, perplexa. Parecia não acreditar no que acabara de ouvir. Andava de um lado para o outro, irrequieta.
- Kamus, você sabe... eu...
- Hyoga... – o Aquariano dizia enquanto lançara um olhar que instantaneamente fora compreendido por seu pupilo.
- Caham... com licença. – o Cavaleiro de Cisne se retirava calmamente dali.
Marina estava de costas para Kamus, inconformada com aquela situação.
- Você sabia que voltaríamos, não é? Por que não me disse nada? Está sempre querendo que eu me sinta impotente diante dessas situações que você sabe bem que de uma forma ou outra me machucam. Por que sempre assim? – Marina cerrava os punhos, com um olhar que tinha tanta fúria quanto consternação.
Kamus sabia o quanto ela sofria. Ver a tristeza e agonia que tomavam conta dos profundos olhos azuis da amazona, o entristeciam violentamente. Aproximou-se dela, segurando-a pelos ombros.
- Precisa enfrentar seus medos. Sei que é árduo para você ter que encará-lo. Teme que a reação dele seja...
- Está se referindo á Milo? Acha mesmo que ele é o motivo do meu sofrimento? – dizia-lhe ironicamente, desviando o olhar para a janela.
- E por acaso há um outro nome, ou melhor, um outro alguém? Marina... passaram-se 6 anos, não 6 dias. Já não é mais aquela garota tão arredia que conheci. Sabe o que sente, e tenho certeza que o ama. – a última frase que ele mesmo dissera parecia perfurar-lhe o coração.
Marina abaixara a cabeça, soltando um suspiro entristecido. Kamus erguia-o delicadamente, notando uma solitária lágrima que rolava por sua face, enxugando-a levemente com a ponta dos dedos.
- Você é forte, e eu... confio em você. – Kamus a encarava com o olhar embargado de ternura. Ela o retribuía da mesma forma, segurando-lhe a mão que estava sob seu rosto.
- Kamus, você está sempre do meu lado... aliás, acho que não há como não se sentir bem ao seu lado. – a amazona dizia-lhe com um doce sorriso.
O Aquariano a abraçara fortemente... Como era gostosa a sensação de tê-la em seus braços, mesmo que não fosse da maneira que realmente seu coração ansiava senti-la.
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Tudo estava quase pronto. Athena queria que a decoração ficasse impecável, afinal, não era comum que eventos tão majestosos se realizassem no Santuário. E o motivo de tal comemoração era ainda mais suntuoso... Comemorar o sucesso da Fundação da qual tanto prezava.
- Vejo que está ficando tudo perfeitamente da forma planejada. – dizia Mu, aproximando-se enquanto passeava seu olhar por toda a magnífica decoração do Templo.
- Sim... não sabe como isso me faz bem. A alegria que repercute em cada rosto daquelas crianças... – Athena dizia com um largo sorriso.
- Com sua licença minha Deusa. – o Cavaleiro de Áries lhe dizia, reverenciando-a. Mu descia as escadarias, quando passando pela Casa de Escorpião, avistara Milo recostado sob uma das pilastras de sua casa. Aproximava-se vagarosamente dele.
- E então Milo? Você vai á festa de amanhã? – dizia-lhe com um tom sereno, como era de seu habitual costume.
- Não tenho a menor intenção de ir. – Milo dizia seco e ríspido.
- Há, Mu... ainda não percebeu que todo esse mau-humor do "nosso Escorpiãozinho" deve-se a ausência de sua amada pupila? – dizia Máscara da Morte irônico, aproximando-se dos dois Cavaleiros.
Milo rapidamente levantara-se furioso, fuzilando-o com o olhar.
- Você não é um tanto suspeito para falar sobre sentimentos? Um ínfimo e desprezível Cavaleiro como você, não sabe nada sobre sentimentos! – o Escorpião lhe dizia, desafiando-o.
- Vou fazê-lo engolir essas palavras! Seu inseto de rabo torto! – Máscara dizia direcionando seu dedo indicador que logo dispararia suas Ondas do Inferno, mas Mu o deteve antes que o fizesse.
- Solte-o Mu! Quero ver se tem capacidade para me enfrentar. – Milo dizia lançando um olhar extremamente desafiador para o Canceriano.
- Mas seu...
- BASTA! Ajam como dois Cavaleiros de Ouro que são! – Mu lhes dizia agastado, o que não era de sua natureza.
- Tudo bem. Em respeito á Athena... – o Escorpião dizia contendo sua fúria... aparentemente.
Máscara da Morte se retirava lançando um olhar atravessado para Milo, que por cima dos ombros, devolvia-lhe com a mesma altivez.
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Hiii! Finalmente terminei o 2º Capítulo depois de dias "assolada" pelos estudos, consegui! xD
Ah, não posso deixar de me desculpar com as (os) fãs do Kamus. Acho que peguei um pouco pesado com ele... Confesso que fiquei com pena dele, mas prometo que numa outra fic que está em andamento, darei um "desconto" para o nosso Cavaleiro de Gelo.
Gente, muuuuuuuito obrigada pelos reviews, quem está acompanhando, obrigada mesmo. Ah, mandem maaaaais! )
Tentei retratar o Kamus diferente daquele Kamus que todo mundo o vê. Não sei se consegui. Mas...
Continua...
Beijos!
