Capítulo I – O Começo...

- Vamos logo! Vire aqui à direit...

- Mas como você é irritante! Não acredite nele! Você deve virar à esquerda!

Will corria em frente, como se não escutasse aquela discussão ao seu redor. Sempre que ele sentia medo, seus espectros ficavam totalmente confusos. Normalmente, o garoto de cabelos castanho-acinzentados e pele bem clara feito neve, poderia ouvir totalmente os conselhos de seus espectros, porque eles sempre concordavam em tudo - ou quase. Rafael era mais rebelde, tinha um semblante jovem e confiante. Já Nyel era mais racional, e seus longos cabelos prateados caiam cacheados por cima de seus olhos azuis. Mesmo assim, os dois sempre chegavam num mesmo ideal. Mas agora, os dois pareciam totalmente opostos.

- Não seja tolo em virar à direita Will! É um beco sem saída! Pelo menos daquele lado há uma passagem!

- Ah, claro! Uma passagem na qual somente nós podemos passar vai ser muito útil pra ele! Do meu lado ele pode escalar as caixas e...

- Vocês querem ficar quietos um pouco? Em vez de me atrapalhar, porque não ajudam?

Era claramente perceptível que as palavras de Will surtiram algum efeito, pelo menos em Nyel, que deu um cutucão num Rafael nervoso que logo em seguida flutuou pelas ruas à frente deles procurando um bom caminho a seguir. Will podia sentir Rafael praguejando Nyel do fundo de sua alma. Ela, ao contrário, permanecia totalmente calma, ou apenas forçava-se a estar assim, para não contrariar Will. A ligação tanto entre os espectros e seus donos, quanto entre os espectros entre si era muito forte e quase inquebrável, quando um sentia, os outros sabiam.

- Veja... Ele está voltando.

Só que ele estava tão longe que quando Will olhou para o horizonte na mesma direção que Nyel olhava, apenas pode ver um simples vulto transparente vindo em sua direção em meio à paisagem noturna.

- Distante um quarteirão daqui, há uma mansão onde celebram alguma coisa. Vi um menino da sua idade entrar. Pareceu-me que era só entregar a senha ao porteiro.

- E qual é a tal senha? - perguntou um Will esperançoso.

O espectro sussurrou algumas palavras para o garoto que assentiu.

- Devemos ir imediatamente! Vejo três carros e quatro homens a pé há dois minutos e meio mais ou menos daqui.

Will e Nyel olharam-se preocupados e seguiram junto a Rafael até a tal mansão. Os espectros se esconderam na sombra de Will e eles entraram na festa mais fácil do que imaginavam que seria.

- Com licença...

Uma voz disse desanimada logo atrás deles, fazendo que Will quase pulasse de susto no lugar onde estava. Rápido e discretamente, ele se acalmou e olhou para ela.

- Sim...?

- Opa... Desculpe-me se o surpreendi. - ela olhava diretamente pra ele, sua cara curiosa e ao mesmo tempo entediada enquanto pegava uma enorme lista. - Você deve ser um dos amigos de meu irmão. Nunca o vi aqui antes. Eu lhe conheço?

- Não, imagino que não. Perdoe-me a intromissão, mas há algo de errado, senhorita... - agora que a havia visto melhor, tratava-se de uma menina talvez um ano mais nova que ele, aparentemente uns quinze anos de idade. Estava com uma cara inexpressiva e seus longos cabelos castanho claros estavam totalmente desalinhados.

- Taken... Sarah Taken. Não espalhe, mas eu odeio as festas de meu irmão. Devo fazer sala e conferir a lista em todas elas. Ah, mas um dia isso vai mudar. Quer saber? Você é a primeira pessoa com quem eu falei desde o início da festa. Falando nisso, qual é o seu nome?

- Anh... Será que eu poderia beber alguma coisa? - o garoto sorriu desajeitado tentando evitar que a garota olhasse a tal lista e constatasse que era um intruso.

- Claro, vamos ali ao lado e já sirvo-te algo. - a garota olhou-o desconfiada e Will sentiu um frio na espinha quando ela olhou diretamente pra ele sem realmente olhá-lo. Estava examinando seus espectros. Guiou-o até a porta do jardim praticamente deserto, onde uma bandeja antes portadora de refrescos estava vazia. - Não acredito que aqueles... já acabaram com todos os sucos que coloquei aqui!

Ela pareceu surpresa, mas Will supunha que tinha feito de propósito.

- Como disse que era seu nome mesmo?

- Eu ainda não o havia dito... - sorriu encurralado. Se sentia um rato frente a um gato esfomeado.

- Pode dize-lo a mim. Não é realmente um convidado, é?

- Na verdade... - ele pensou um pouco antes de dizer - ... não. Meu nome é Willëan Owenl. É, é difícil de se pronunciar, pode me chamar de Will. - disse fazendo uma pausa.

- Muito bem, Will. Conte-me como e por que entrou aqui. Pode mostrar seu espectros. Como os meus, não devem gostar nem um pouco de se esconder.

Will hesitou, mesmo assim, quando percebeu, Nyel e Rafael conversavam com dois outros dois outros espectros a uma certa distância.

- Hm... - deixou de encará-la um pouco - Bom, como você já sabe, não sou um convidado do seu irmão. Estou aqui porque estava sendo perseguido por... E então Rafael ouviu a senha, contou-me e nós entramos.

Torcia internamente para que ela não houvesse percebido que ele havia hesitado em contar o que o perseguia. Porém Sarah prestava tanta atenção que não pode deixar de perceber que ele escondia algo.

- Deve ser uma situação um tanto quanto ruim, imagino.Acho melhor você ficar aqui, pelo menos por essa noit...

- Sarah! - a menina congelou no mesmo instante de susto e medo.

- Caramba, Roniel! Pensei que era meu irmão! O que foi?

- Seu irmãnicus! Está vindus diretamente par...

Não deu nem tempo do espectro terminar o aviso. Um garoto junto a um pequeno grupo havia chego até eles. Pela cara que Sarah fez, Will pode imaginar quem era aquele garoto. Não se parecia muito com ela. Sua expressão era a mais alegre possível, e seus cabelos, de fios loiros e ruivos, davam um tom angelical à ele. Seus espectros eram fortes e imponentes. Ele passou o olhar de Sarah para Will e podia-se ver sua expressão mudando rapidamente de sorridente à totalmente antipática.

- Garota, quantas vezes terei de repetir que não quero seus amigos aqui?

Agora ela parecia até mais ameaçadora que o irmão, mas permanecia quieta. Olhando bem, eles até eram por demais parecidos, apenas fisicamente. Com o canto do olho, Will pode ver Roniel usando toda sua força para poder pelo menos alcançar o outro espectro, sendo segurado não só por sua companheira Samuriel, mas também por Rafael e Nyel. De repente, pareceu que Roniel desistiu de lutar e simplesmente virou a cara para os espectros opostos, assim como seus companheiros.

- Ele é meu namorado, Luke! - disse a garota agarrando delicadamente o braço de Will, pasmo.

- O que? - disse rapidamente de modo que só ela ouvisse.

- Confie em mim... Com licença, tenho mais o que fazer do que atender seus caprichos... - ela havia se virado para sair do meio deles mas Luke a puxou pelo braço com força, lançando uma nova onda de raiva em Roniel.

- Escute bem o que vou lhe dizer, garota! Não tente me desafiar...

- Você pode ser o meu irmão mas nunca será meu pai! Não manda em mim! Agora me solta, está começando a me machucar!

Ele a soltou, dando um tapa em sua face corada de ódio.

- Como nosso pai já morreu, eu estou no lugar dele. - disse virando as costas e saindo com os amigos e seus espectros em direção à outro cômodo da casa.

- Vamos, Will. Você deve descansar agora. - disse guiando-o pela enorme escadaria que ficava no centro da mansão, sem o encarar.

- Tem certeza de que posso... - disse o garoto encabulado com a situação quando chegaram a um corredor cheio de portas.

- Você pode dormir aqui hoje. O meu quarto fica ali ao lado. Se precisar de alguma coisa, Samuriel e Roniel estarão à sua disposição. - abriu então uma das portas como um labirinto. - No armário maior ao lado da cama tem roupas limpas que devem servir em você. Se quiser, pode banhar-se ali. - disse apontando uma porta dentro do imenso quarto. Quando Will foi acompanhar com o olhar o caminho que ela mostrava ficou pasmo com o que viu. Uma enorme cama de mogno com cortinas bordô e champagne que desciam de cima da cama ocupavam apenas uma parte pequena do quarto. Nyel e Rafael estavam até receosos de entrar tamanha luxúria do local.

- Vou te deixar em paz. Desculpe-me pela cena que viu hoje. - e o encarou com seus olhos avermelhados, o que assustou Will, pois ela não estava chorando.

- N... Não foi nada, Srta. Taken. Obrigado.

- Sarah... - sorriu - Boa noite Will.

- Boa... - respondeu enquanto ela fechava a porta do recinto. - Um banho não é má idéia.

Andou até o armário indicado pela garota e viu surpreso várias roupas penduradas em devida ordem, separados por tipo e cor. Pegou um conjunto de roupas confortáveis e simples - se é que haviam roupas simples ali - e encaminhou-se ao banheiro. Ao abrir a porta, qual foi a sua surpresa ao encontrar um cômodo tão grande quanto o quarto, um pouco menor talvez, com uma banheira branca de hidromassagem que mais parecia uma piscina de tão grande com plantas por todos os lados dando ao ambiente uma cor levemente esverdeada e um leve e agradável cheiro de flores.

- Se esse é o quarto de hóspedes, não quero nem imaginar como é o quarto do dono da casa. - disse Rafael surpreso.