Capítulo I
– Astarte, o Reino das FadasUma noite de
luar e festa tomava conta de Anatel, no centro do reino das Fadas.
Todos dançavam, comiam e bebericavam magicamente, comemorando
a entrada da primavera e uma decisão de sua rainha.
A
clareira em frente ao castelo real estava completamente enfeitada com
folhas de outono alaranjadas pela estação e por
lanternas espalhadas por todas as árvores locais. Flores e
frutas frescas, alem de doces e outras gostosuras que se estendiam
por uma mesa enorme vestida de uma toalha mágica que refletia
a luz das estrelas e da lua já alta no céu eram
servidos aos convidados, todas as famílias de Astarte.
Um
grupo de músicos tocava melodias alegres enquanto os
convidados dançavam e bebiam hidromel. Vestiam roupas leves
que esvoaçavam entre os vaga-lumes da noite iluminada. Apenas
uma fada, dentre todas, não se divertia.
Owëna
Wilwarin era a princesa herdeira do reino das fadas, seus cachos
ruivos apresentavam mechas loiras em sua extensão, dando a ela
um ar belo e jovial. Seu rosto pleno e levemente arredondado lembrava
a lua cheia, com a exceção de suas bochechas rosadas.
Owëna estava em cima da árvore mais alta da floresta do
reino, em seu último galho, abatida. Sua mãe, a rainha,
havia decidido que ela se casaria com um sereiano de um dos sete
mares governados por seu pai. Ou como ela o via, um aristocrata
medíocre cuja presença ela agourava.
Seu pai não
era um fado, e sim um sereiano. Infelizmente, pra ela, nem mesmo ele,
o rei dos mares, podia fazer muita coisa, a não ser apoiar a
rainha a juntar os reinos da terra e dos
mares através do
casamento de Owëna. Estava encurralada. Poderia até ser
que esse tal sereiano, de nome Marfacel, não fosse tão
mal. Mas só a idéia de ser forçada a se casar
com alguém que não queria e mal conhecia a fazia
enjoar. Queria ser como qualquer outra fada de seu futuro reino e
casar por amor com quem desejasse.
- Windë! – chamou a
rainha Nya, sentada na ponta da enorme mesa, vestida formalmente, num
misto de fúria e decepção pela ausência de
sua filha. – Ache Owëna e a traga para a festa nem que seja
amarrada. – disse a senhora de cabelos bem louros num corte
chanel.
- Sim, senhora rainha.
Isilmëwa Windë era
um tipo de faz-tudo para a realeza das fadas. Apesar disso, não
era uma fada, e sim uma elfa. Tinha cabelos negros que a destacavam
dos outros integrantes do reino. Tinha um semblante jovem e sem
emoções, seus olhos azuis eram inexpressivos e tão
profundos quanto o mar. Seus trabalhos eram muito bem realizados e
tinham completa confiança da rainha, além de ser uma
das melhores amigas e segurança pessoal da princesa.
-
Owëna... – disse pulando em saltos élficos até o
último galho para onde a princesa havia voado. – Sua mãe
mandou-me buscá-la para a comemoração... E
parecia um tanto furiosa, se me permite uma observação...
- Deixe que ela aproveite da festa sem mim, Isil...
- Mas,
princesa...
- Se isso é necessário, Isil, é
uma ordem!
- Está certo... O que devo dizer à
rainha então?
- Diga a ela que pareço indisposta e
que me encontraste dormindo...
Com um longo suspiro, a elfa
saltou para trás nas árvores e sumiu num piscar de
olhos de Owëna. Não ia comemorar a perda de sua liberdade
com ninguém.
A noite serviu para ajudar Owëna a dormir e
esquecer um pouco de sua difícil realidade. Observando-a
dormir, estavam Isilmëwa e Ardwinë, uma fada camponesa,
amiga de Owëna que sempre esteve com ela, desde criança.
Era um pouco mais baixa que as duas, e usava um utensílio
camponês sobre seus cabelos que deixavam apenas à mostra
algumas mechas de seus cabelos castanhos. Olhavam a outra dormir em
seu leito de flores e folhas com pesar.
- Olhe como ela está
sofrendo, srta. Windë... Até mesmo em seus sonhos aquele
maldito Marfacel vem a incomodar... Amaldiçoado, sem
vergonha...
- Basta, Ardwinë... Guarde suas palavras
maldosas para os gnomos... Eu sei do estado da princesa e,
infelizmente pra rainha... Eu penso ter a solução...
- E qual seria ela?
- Nem a você poderei dizer por
enquanto, minha amiga... Apenas peço que faça um
favor... Entregue esse pergaminho a Owëna e apronte as malas de
viagem dela para amanhã à noite. – disse estendendo
um pergaminho amarelado que tirou do meio de suas vestes.
- Como
é? Vais fugir com ela?
- Isso ela é quem vai
decidir. Só não posso deixa-la casar com o tal
sereiano. Pelo menos até as coisas se acalmarem, vou estar
longe. – Isilmëwa já ia saindo ao falar a última
palavra quando Ardwinë a impediu.
- Aonde vais?
-
Dizer a Nya que estou partindo de Anatel logo amanhã.
-
Ela vai desconfiar que você levará a menina.
- Não,
não vai.
- Mas e se acontecer?
- Não vai
acontecer.
- E se...
- Já chega, Ardwinë! Se o
que quer é impedir a felicidade da princesa, diga-me! Por mil
duendes...
- Quero ir com vocês para garantir!
- Logo
imaginei... Seu dever é ficar aqui e servir Nya, assim como
seus pais em meu lugar. Por falar neles, Sëlphin e Larpus iam me
acusar de duplo seqüestro... E de penas já estou cheia.
- Está certo... Farei o que me pedes.
- Obrigada
Ardwinë... Pode ter certeza que está fazendo o que é
certo. Além do mais, preciso que me informe dos acontecimentos
de Astarte. – disse a elfa séria e calmamente enquanto
pulava um galho e reverenciava a fada se despedindo. – Podes
entregar isto a Owëna assim que o sol se por?
- Sem
problema algum... Apenas me responda uma coisa, srta. Windë... –
a elfa apenas inclinou a cabeça indicando que perguntasse. –
Por que está fazendo isso...?
-... – seguiu-se uma
longa pausa, onde Isil mirou a lua antes de responder. – Digamos
apenas que... entendo como ela se sente...
- Então... Vai deixar
nossos serviços e voltar a vida de andarilha?
- Sim
senhora. – disse a elfa sem encarar a rainha, em meio a uma
reverência respeitosa à frente do trono real.
- E
por que o fazes tão de repente?
- Soube por meio de aves
da região que meu irmão chegará de navio à
costa nas próximas horas. Viajarei com ele.
- Entendo.
Muito bem, és livre de suas obrigações para
comigo, elfa. Espero que façam boa viajem. Dar-te-ei algumas
moedas de ouro como recompensa por seus serviços.
-
Agradeço a gentileza, mas viajarei do jeito que cheguei... De
bolsos e mãos vazias. Assim me despeço, rainha. Foi uma
honra. – saiu então da sala, deixando os aguçados
sentidos curiosos da rainha desconfiados de sua repentina partida.
Ela nunca entenderia os elfos, e muito menos seus planos
mirabolantes.
A noite caía rapidamente e cobria de escuridão
todas as partes de Anatel. Como Isil pediu, Ardwinë preparou as
malas da princesa antes mesmo do por-do-sol e aguardou até que
ela terminasse seus afazeres e voltasse ao seu quarto para contar
sobre a partida da elfa.
- Como é? Quer dizer que a
Isil vai embora e nem se despediu?
- Na verdade, ela deixou esse
pergaminho pra senhorita. Disse-me que era para entregar-lhe apenas
agora quando o sol se fosse.
- Típico daquela elfa
maluca... – Owëna começou a ler o pergaminho
atentamente. Seu rosto foi se abrindo num sorriso amplo conforme lia.
Suas mãos delicadas pararam enfim na testa numa feição
cômica. – Ela é louca!
- Apesar de não
gostar muito daquela esquisita, apóio a loucura dela dessa
vez... É o único jeito de você ser feliz, minha
amiga... Já fiz suas malas e a srta. Windë deixou uma
capa élfica de camuflagem para a senhorita.
- Ardwinë...
Mas e você, vem junto?
- Como a elfa disse... Meu lugar é
aqui... E ela não vai te seqüestrar por muito tempo. Só
até as coisas por aqui esfriarem... Agora vamos. Ela já
deve estar chegando pra lhe buscar.
- Obrigada Ardwinë... –
disse abraçando a amiga. – Eu sempre mandarei notícias.
