Capítulo 1

Um ano e cinco meses depois

Naruto Uzumaki andava pelas ruas com os olhos pesados e o corpo mole. Estava morrendo de sono, pois fora obrigado a acordar às sete horas da manhã para pegar o ônibus que fazia linha em seu futuro "emprego". Há. Ótimo. Começou perfeito.

Para quem estava acostumado a acordar depois das dez e levantar às onze, sete horas era praticamente madrugada ainda.

Parou no ponto de ônibus, encostou-se em uma das vigas que sustentavam o teto de metal e olhou para si mesmo: tênis surrado, calça desbotada, camisa uns dois números maior que ele. Passou a mão esquerda pelo cabelo: bagunçado; quanto a isso ele nada poderia fazer, seu cabelo tinha vida própria, principalmente pela manhã. Poderia ter se arrumado melhor para a ocasião, mas não quis.

O fato é que Naruto não era os dos mais animados para chegar ao seu destino e causar boa impressão. Não é como se ele fosse obrigado a fazer isso. Já o estavam obrigando a fazer muitas coisas.

Meteu a mão no bolso da frente da calça e sacou um maço de cigarros, tirou um e o colocou entre os lábios, mas quando foi procurar o isqueiro não o encontrou. Então lembrou-se que nunca andava com um. A relação do Uzumaki com o cigarro era meio estranha e rendia uma longa história...

O garoto virou-se para o lado e uma mulher alta e bem vestida o olhava com desdém. Naruto sorriu de canto e segurou o cigarro entre os dentes antes de falar:

— Tem fogo aí?

A mulher nem mesmo respondeu, apenas virou o rosto de forma rude e se afastou, acabando por ficar do lado oposto ao que o Uzumaki estava. "Perua, como se não estivéssemos esperando o mesmo ônibus" pensou ele, fazendo pouco caso. Não era a primeira nem última vez agiam assim com sua presença.

Apesar de não o acender, manteve o cigarro na boca até que o ônibus chegou. Diferentemente das demais pessoas que o esperavam, o Uzumaki direcionou-se para a última porta de saída. Não tinha um tostão no bolso e aquela era a única maneira dele ir no ônibus sem precisar passar pela roleta. No momento em que os passageiros estavam descendo para desembarcar, ele aproveitou a aglomeração, curvou o corpo e entrou, escondendo-se entre as pessoas que saiam. Sentou no primeiro banco que encontrou, relaxado.

Pronto, conseguiu.

Um jovem com uma enorme mochila que estava sentado ao seu lado e vira tudo o olhou com repreensão. Naruto o encarou com as sobrancelhas erguidas, pegou o cigarro que havia amassado durante sua manobra e começou a desamassá-lo ao mesmo tempo que se curvava em direção ao rapaz.

— Tem fósforos?

Em vez de responder, o jovem negou energicamente com a cabeça, depois agarrou sua mochila com mais força, levantou-se e se começou a esgueirar entre as pessoas que estavam em pé até parar quase na parte da frente do ônibus. Naruto apenas riu desdenhoso da atitude idiota do cara, supondo que talvez ele achasse que o loiro fosse assaltar o ônibus.

Desistindo, o Uzumaki enfiou o cigarro no bolso e afastou para sentar no banco da janela, abriu mais o vidro e deixou que a brisa fria da manhã o atingisse, rezando para não acabar dormindo e passando de seu ponto. Mas ele estava com tanto sono...

Que droga.

Ele estava literalmente sendo obrigado a trabalhar. Havia cometido um ato infracional e fora pego, mas como ainda tinha apenas dezessete anos e seu delito não havia sido considerado tão grave, acabou tendo que prestar serviço comunitário. O promotor que estava cuidando de seu caso não lhe poupou e, assim que saiu sua sentença, o homem já lhe entregara o endereço onde supostamente trabalharia por cerca de seis meses, um documento e instruções que ele não se deu ao trabalho de ler.

Pensando nisso, o rapaz tirou as folhas que trazia no bolso traseiro da calça (os mesmos estavam dobrados juntos várias vezes, o que os deixou bem amassados), desamassou-os, pegou apenas a folha que continha o endereço e dobrou o documento novamente o enfiando de volta no bolso.

Na primeira vez que lera onde trabalharia até se assustou quando reconheceu o nome do lugar. Ficava no exato extremo oposto de onde ele morava, por isso tivera que pegar o ônibus tão cedo. Era no bairro mais rico da cidade! Naruto ficou matutando em sua mente porque alguém que poderia comprar um hospital só para si iria querer ser cuidado por alguém como ele.

Ricos e suas estranhezas, concluiu.

...

Depois do que pareceu uma eternidade, o ônibus enfim chegou ao seu ponto e o garoto desceu, nada animado. Havia cochilado e acordado umas cinco vezes pelos solavancos que o veículo dava. Pegou novamente o endereço e o estudou com calma, então começou sua caminhada, pois o ponto em que estava ficava à quatro ruas da que constava no papel. Dobrou a esquina onde havia uma lanchonete bem grande, depois desviou de um túnel interditado e foi à procura do endereço.

Quando chegou à rua indicada, deu mais uma olhada no papel para confirmar o número. Enquanto descia a avenida grande e larga, o Uzumaki percebeu que não passavam muitos carros além de dois ou três que saiam de garagens das residências. Uma placa contendo "Via Particular" respondeu às suas observações, o que não o deixou nada surpreso, pois as habitações ali eram todas amplas, demonstrando o poder aquisitivo de seus donos.

Foram necessários mais de quatro minutos para o rapaz encontrar a casa que procurava.

Casa? Aquilo era uma mansão!

Verificou o número novamente, apenas para confirmar, e meteu a mão no bolso, dessa vez pegando o documento, e guardando o endereço. Aproximou-se do grande portão de segurança e procurou pela campainha. Não foi necessário um segundo toque para uma voz feminina soar no interfone ao lado da campainha:

— Residência Uchiha, quem deseja?

Naruto não respondeu, apenas desamassou o documento, ajeitou-o para que ficasse legível e o colocou na frente da câmera que ficava um pouco acima de sua cabeça. Um minuto depois o portão se abriu sem fazer um único ruído e um homem de roupas sociais o recebeu.

O Uzumaki o observou: apesar de apresentar os cabelos grisalhos, o sujeito aparentava estar na casa dos trinta e tantos anos e tinha os olhos baixos como se tivesse passado uma noite insone.

— Me acompanhe, por favor — ele disse com a voz grave e o loiro o seguiu, rindo ao constatar que o cara andava igual um robô.

O "robô" engravatado o guiou até uma varanda com vários sofás e almofadas, atrás uma parede toda de vidro que refletia o jardim ao redor. O jardim era um lugar muito bonito, tinha até estátuas!

— Sente-se e aguarde um momento, logo virão recebê-lo.

— Valeu, Robocop. — Naruto brincou dando um tapinha em seu ombro. O homem olhou para a mão de Naruto, tirou-a dali com brusquidão e se afastou.

O Uzumaki então se aproximou dos sofás e poltronas da varanda, decidindo qual seria a mais confortável. Acabou concluindo que todos eram, e optou por sentar no sofá maior que ficava exatamente de frente para o jardim. O local era bonito e grande, havia plantas e flores de todos os tipos. À alguns metros podia-se avistar um laguinho artificial com a água de aparência esverdeada. Esse ele não achou bonito. Estava tudo muito silencioso, a não ser por um som distante do que parecia ser um cortador de gramas.

Dez minutos se passaram e Naruto já havia observado tudo para espantar o sono e evitar de dormir ali mesmo (aquelas almofadas eram dos deuses de tão macias!), mas nada de ninguém aparecer. Quando o sono já ameaçava a pegá-lo ele levantou de um pulo e andou até a beirada do átrio, ficando na ponta do piso de madeira da varanda. Com seus um e oitenta e seis de altura, o rapaz pôde enxergar a cabeça grisalha do "Robocop". O mesmo estava parado em frente ao portão, tão imóvel quanto as estátuas do jardim.

— Hey! — Naruto gritou, o homem o olhou por cima do ombro, mas o ignorou prontamente.

Desistindo, ele voltou para o sofá sentando-se de pernas cruzadas, só para fazer pose. Notou que havia algumas revistas escondidas embaixo de uma almofada sobre a mesinha de centro com o tampo de vidro, pegou uma abrindo-a em uma página qualquer para fingir que estava lendo.

Foi só colocar os olhos na folha que uma mulher de jaleco se projetou a sua frente. Naruto abaixou a revista e a olhou de cima abaixo, perguntando-se de onde diabos ela havia surgido. Mas estava satisfeito, finalmente lembraram que ele estava ali.