II.

"Lock your door, but the rain is pouring
Through your window pane
Baby, now your struggle's all vain..."

Assim foi a Câmara Secreta construída; o que talvez a quem leia em seus próprios dias julgue lenda, ou talvez se impressione por conhecê-la de perto. Foi ao me afastar dos irmãos ruivos que prontamente visualizei toda a estrutura, o funcionamento, desde o último centímetro do piso à decoração abobadada do teto. Cada passo era um alicerce, como foi cada palavra de Rowena uma das fundações do nosso castelo.

(Pressinto que tal informação não se espalhará pelo grande público, e que talvez nem sairá dessas folhas enrugadas e envelhecidas de pergaminho. Como toda esta história. São detalhes tão insignificantes que sei que serão modificados e esquecidos, e um dia ricos historiadores – num futuro próximo – dirão "mas não foi assim que aconteceu". Qualquer alma inteligente pode atestar tal fato, é apenas um cálculo. Tudo que passou teve testemunhas vivas que se foram; afora assim atestado, são apenas conjecturas baseadas em boatos e mentiras. Aprendi através de um mestre que a magia surgiu além do mar da Bretanha; mas talvez tenha surgido apenas uma década antes do nascimento dele, e quem saberá? Apenas coisas que gostamos de usar como enfeite em páginas que serão amassadas, esquecidas e resgatadas por um grande sábio, que as interpretará errado, e contará as histórias erradas, e assim os que viveram estarão fadados ao esquecimento.

Uma brilhante rebeldia de minha parte é a de renegar toda e qualquer afirmação; aprendi com uma pessoa muito acima de mim os argumentos que sustentassem essa minha decisão.)

Pressinto que nada que se forme pela tinta dessa pena irá muito longe do rolo de pergaminho. Mas ao atento leitor que porventura envolver o papel: é sabido que a história sai e vira melodia de acordo com a preferência pela métrica de cada um. Há quem conte em alexandrinos, e aí será fiel, terá todos os detalhes, poderá se passar por bom resumo; mas de pequenas redondilhas em pequenas redondilhas que as coisas serão espalhadas a todos os ventos.

Em dodecassílabos estendidos: há precisos quarenta e nove anos, da noite de sua morte para trás, Rowena acordou em suor frio e com uma idéia na cabeça. A Inquisição batia às nossas portas e janelas e a solução desejou um bom dia a uma sonolenta moça de cabelos negros. Rowena acordou com o que chamou de castelo, à semelhança do rei, um lugar onde os coroados seriam aqueles com o aprendizado. Para ela, a mais pesada das coroas.

Levantou-se e pesquisou. Conhecia em alguns pontos da Bretanha quem lhe pudesse auxiliar, mas era tão difícil... Não havia uma escola, à época, onde pudessem ter estudado juntos. Viviam afastados de feudos e aglomerações trouxas. Então os encontrou por acidente, atrás de uma imponente igreja. Que se faça entender a ambientação: o último lugar em que os pecadores seriam procurados é na casa dos caçadores. Quem buscaria um bruxo numa igreja? Os sábios e aprendizes também buscavam as silenciosas bibliotecas abarrotadas de antigas informações.

Uma inteligente manobra. Salazar também se ordenou padre. E disso não dará detalhes, pois é insignificante; que se saiba pertencer a uma família rica, que por se mostrar demais era acima de suspeitas. Lá, no abastado clero, tão próximo dos castelos dos reis, Rowena chegou a mim.

O título de Ravenclaw quem lhe deu fui eu, e ela me presenteou de volta com o nome de Slytherin. Quando a vi, aquele cenário azul-escuro e bronze – pois era esse o tom de seus olhos e fivelas –, não compreendi o que fazia uma mulher, a espécie repudiada como eram os bruxos, na igreja. Então percebi que só eu podia vê-la.

Era uma das minhas, como minha mãe, como minha irmã, como meu pai.

Era uma feiticeira e se fazia invisível como os demais bruxos que eu outras vezes espiara escondidos pelas prateleiras que cheiravam a pó e tinta fresca.

Entre Aleixo e Árion, ela viu em meus olhos que sempre me procurara. Ouvi cada uma de suas idéias malucas e as repliquei com pessimismo. Rowena provou aos poucos o sentido no fundo de cada uma delas. E não levou mais que uma tarde para que o gentil e sempre silencioso Senhor Salazar desaparecesse com a mulher invisível.

(Não creio que algum clérigo tenha sentido minha falta, e também não me importei se caçassem minha família em busca de respostas.)

Mencionei anteriormente um mestre, agora não sei ao certo se no corpo do conto ou se nas divagações entre parênteses. Havia um mestre, o homem que me educou na Igreja, o senhor que me vestiu de preto e aprofundou no latim e explicou o germânico. Fosse o que fosse o germânico.

Não era bruxo e ao constatá-lo rezo aos céus para que esta história se perca nas águas, no fundo dos mares. Não era bruxo. Talvez fosse de algo mais sublime e perdido. Não era bruxo de sangue, mas era de alma, tinha a magia correndo nas veias e principalmente nas cordas que conduziam-lhe a voz. Era Meister Johann.

(O único ser a quem me submeteria como seguidor. Aos demais, me submeto como simples desinteressado.)

Ele podia ver Rowena e os outros feiticeiros que se sabiam esconder em mantos mágicos pela propriedade sagrada. E decidiu-se por me fazer seu seguidor. Nunca abriu uma bíblia ou semelhante coisa em minha frente. Contou-me de lendas e que além do mar, numa terra quente onde os mortos eram honrados e se vivia apenas para uma além-vida, conheceu-se a magia. Que saía do fundo do espírito, passava pelo coração, enchia-nos as narinas de ar e bombeavam energia pelo corpo. Meister Johann podia não ser como eu, e ser inferior por isso, mas era certamente bom, e maior que muitos outros.

Quando Rowena me contou de sua idéia, meu pensamento inicial foi apresentá-la ao Meister. Mas ela não quis. E segurou uma de minhas mãos e me guiou para fora do mosteiro...