CAPITULO DOIS

Bella mexeu o conteúdo da panela com movimentos furiosos. A coragem do sujeito! Seu marido. Por que ele teria dito algo tão bizarro? Para ela, de todas as pessoas! E soara certo disso, também, até m pouco surpreso, como se não compreendesse a razão da pergunta. E depois ele se reclinara na cama como se estivesse exausto demais para continuar falando.

Ela despejou o denso mingau de aveia em duas vasilhas e colocou uma delas diante de Amy.

— Açúcar?— A menina indagou esperançosa.

— Lamento, querida. Não temos mais açúcar.— Bella acrescentou leite ao mingau da filha, que ficou criando ilhas e oceanos com a mistura em sua tigela. Longe ia o tempo dos utensílios de prata no armário, dos mais variados e deliciosos alimentos. Ela pegou a outra terrina. — Vou levar isto aqui para o homem lá em cima. — Respirando fundo, subiu a escada preparando-se para o confronto. Sou seu marido. Francamente!

Ele estava acordado, os olhos verdes dominados por sombras escuras.

— Como está sua cabeça?— Bella manteve o tom de voz seco, impessoal.

Ele fez uma careta.

— Trouxe um pouco de mingau. Consegue ficar sentado?— Séria, não fez nenhum movimento para ajudá-lo. Não alimentaria idéias tolas e descabidas. Ele já a perturbara o bastante sem que criasse novas situações constrangedoras.

O homem se sentou devagar. A julgar pelas linhas brancas que cercavam sua boca, ele sentia dor. Sem dizer nada, Bella deixou a vasilha sobre um móvel e ajudou-o a ajeitar os travesseiros em torno do corpo. Tentou permanecer indiferente, mas era impossível deixar de tocá-lo. Cada vez que a mão entrava em contato com sua pele, ou roçava o peito quente e nu, sentia os efeitos do contato com clareza assustadora, como se ondas quentes percorressem todo seu corpo chegando às solas dos pés. E a regiões menos aceitáveis.

E ele também tinha consciência disso, o demônio! Sim, sabia, ou não estaria fitando com aquele olhar íntimo, com aquela expressão confiante! Como se atrevia a embaraçá-la ainda mais? Arrancando um dos cobertores de cima da cama, ela o jogou sobre seu peito de forma a cobri-lo, depois colocou a vasilha de mingau e uma colher em suas mãos.

— Coma.

— Sim, Sra. Swan.— ele respondeu num tom de obediência apaixonada.

Bella observou-o com desconfiança. Os olhos verdes acariciavam os dela com ousadia. Depois de censurá-lo com o olhar, ela começou a arrumar o quarto como se tivesse pressa.

— Você fica linda quando está zangada.— A voz máscula soou rouca e profunda e, ao ouvi-la resmungar alguma coisa com irritação evidente, o desconhecido tratou de comer em silêncio, devagar.

Quando retornou ao quarto para pegar a vasilha vazia, Bella já não estava mais nervosa. Na verdade, estava mais confusa do que zangada. O comportamento daquele homem não fazia sentido algum. Por que mentir para ela, quando era a única pessoa no mundo que podia reconhecer tal mentira? Embora a estivesse provoando com seus comentários debocahdos, ele não havia brancado quando afirmara ser seu marido. Era muito estranho. A melhor maneira de tratar o assunto era fazer perguntas diretas e objetivas.

— Quel é o seu nome? Sem brincadeiras, por favor. Quero a verdade.— Em pé, com a vasilha entre as mãos, ela o encarava séria.

Houve uma longa pausa. Finalmente ele disse:

— Não sei.

A resposta soou neutra. Bella só precisava vê-lo e ouvi-lo para ter certeza de o que ele dizia a verdade.

— Isso significa que não se lembra de quem é?

— Exatamente.

Era surpreendente. Bella sentou-se ao lado dele na cama, perplexa, esquecendo de manter-se longe do perigoso desconhecido. Ouvira histórias sobre pessoas que haviam perdido suas lembranças, mas nunca imaginara que um dia conheceria uma delas.

— Não se lembra de nada sobre você?

— Não. Passei a manhã inteira tentando e tentando, mas não consigo pensar com clareza. Não tenho nenhuma idéia sobre qual é o meu nome, não sei nada sobre a minha família, ou sobre o que faço para viver, ou mesmo sobre como vim parar aqui.— O sorriso era constrangido.— Sendo assim, vai ter de me contar tudo.

— Mas eu não sei nada!

O homem bateu em seu joelho, e ela se afastou um pouco.

— Não me refiro a como fui ferido, mas ao resto. Meu nome, minha familia... Enfim, meu passado.

— Se não consegue lembrar de nada, por que disse que era meu marido?

Ele franziu a testa ao detectar o tom de acusação em sua voz.

— Então, não sou seu marido?

— Você sabe que não.

Ele piscou com evidente perplexidade.

— Não pode estar falando sério! Mas eu pensei...

Bella balançou a cabeça.

Ele considerou suas palavras por alguns instantes e a ruga entre suas sombrancelhar tornou-se ainda mais profunda.

— Mas se Amy é minha filha...

— Ela não é sua filha!— Horrorizada, ela se elvantou num salto.— Acabei de dizer que não é meu marido. Como se atreve a sugerir...?

— Se não é minha filha, por que ela me chama de papai?

— Está se referindo....? Oh!— Bella sentou-se novamente na cama.— Isso explica muitas coisas.— Devagar, virou-se para o desconhecido e disse:— O pai de Amy, meu marido, James Swan, morreu há um ano. Ela era pouco mais do que um bebê e não consegue se lembrar dele...— Era difícil explicar. A conclusão soou vazia, sem sentido.

— Isso não explica como você e eu acabamos compartilhando de uma ca...

Sabia em que ele estava pensando e tratou de interrompê-lo.

— Nunca o vi antes em toda a minha vida. Só o conheci há duas noites, quando apareceu em minha porta com a cabeça sangrando e o corpo quase congelado.

— O quê?

Bella levantou-se e continuou:

— Só há uma cama grande o bastante para um adulto. A noite era fria, uma das mais geladas que já tive de enfrentar. Você estava ferido e corria o risco de adoecer por conta do frio. Não podia deixá-lo no chão.— Era impossível encará-lo de verdade.— E como eu também não queria morrer de frio, achei melhor dividir minha cama com um estranho.— Vermelha, lembrou-se como o estranho a encontrara na cama naquela manhã. Respondera como uma leviana às suas carícias. Não o culparia por julgá-la uma mulher decaída. Sua voz tremia. Não esperava que o homem acreditasse em suas palavras, mas sentia-se forçada a acrescentar:— Você foi o único homem com quem compartilhei uma cama, juro. Além de meu marido, é claro.

Não suportava mais permanecer no quarto com aqueles olhos verdes fixos nos seus. Era incapaz de sustentar o olhar gelado e penetante, pois não suportaria ver o que ele expressava. Levando a vasilha, desceu a escada apressadamente.

Ele a viu sair, a cabeça latejando, a mente tomada pela mais completa confusão. Então eram estranhos? Nesse caso, por que se sentia tão à vontade em sua companhia, como se ali fosse seu lugar? Não sentia estar convivendo com uma estranha. Nunca se sentira tão bem, tão em casa como se sentira na cama naquela manhã, despertando o corpo de Bella com suas carícias... como se ela fosse parte dele.

Preguntas sem respostas o devoravam como ratos. Como era seu nome? Era como se flutuassem em algum lugar além de seu alcance... pairando ali, na ponta de sua língua... mas cada vez que tentava alcança-lo, ele se afastava e escapava. Experimentou alguns nomes, esperando que algum fizesse sentido, razendo assim o restante de sua identidade. Abraham... Allan... Adam... Seria Adam, talvez? Repetiu o nome algumas vezes. Soava familiar porém estranho.

Bruce... David... Daniel... Estaria preso na cova do leão? Ele sorriu e se ajeitou melhor na cama. Sua Bella podia ser uma leoa quando era provocada... Ela certamente o provocava e excitava. Edward... Gilbert... James... Puxou as cobertas para aquecer-se. Podia sentir nelas o cheiro de Bella. Respirou fundo, enchendo os pulmões com o seu aroma suave, e sentiu ocorpo reagir de imediato. Walter... William... Ele cochilou.

— Olá, papai.— Uma voz infantil interrompeu seu sono. Ele abriu os olhos. Olhos verdes e brilhantes o estudavam do outro lado de uma velha caixa de queijo.

— Olá, Amy.— Ele se sentou e segurou as cobertas contra o corpo, escondendo o peito.

— Sua cabeça dói muito?

A dor de cabeça, antes insuportável, agora se resumia a um irritante latejar.

— Não, já estou muito melhor, obrigado.

— Mamãe disse que você não sabe quem é.

Ele sorriu com tristeza.

— É verdade. Não consigo lembrar sequer meu nome. Por acaso sabe como eu me chamo?— Tenso, viu a criança mover a cabeça em sentido afirmativo. Bella estivera mentindo? Tinha a sensação de que ela escondia alguma coisa.

Com cuidado, a criança pôs a caixa de queijo sobre a cama e depois subiu nela, sentando-se de pernas cruzadas e olhando para ele com expressão solene.

— Acho que seu nome pode ser...

Seus grandes olhos verdes examinaram seu queixo, a parte mais alta de seu peito e toda a exptensão dos braços.

Não tinha nenhuma idéia do que podia ser tão interessante.

— Seu nome é...— Ela se inclinou para a frente e, hesitante, tocou sua face, rindo. Depois afastou-se com os olhos iluminados, por um novo brilho.— acho que seu nome é... sr. Bruin.

— Sr. Bruin?— Ele repetiu intrigado. Bruin significava urso.— Sr. Urso?

— Sim, porque é grande e até o seu rosto é peludo.— A criança riu.— Como um urso!

Era impossível não rir do cometário inocente. Então, ele parecia um grande urso peludo aos olhos de uma garotinha, não? Intrigado, passou uma das mãos pelo queixo. Talvez ela estivesse razão. Precisava se barbear.

— Se acha que sou um urso, porque insiste em chamar-me de papai?

A garota olhou para a porta com ar culpado.

— Mamãe diz que não devo mais chamá-lo de papai. Não contar a ela, vai?

— Não, não vou contar nada.— Mais uma vez, tentou adivinhar o que mamãe tentava esconder.

A menina sorriu.

— Mas, se sua mãe não quer que me chame de papai, talvez deva charmar-me de sr. Bruin.— Era melhor do que não ter nenhum nome,

O rosto pequenino se contorceu numa máscara concentrada, pensativa, mas, depois de alguns segundos, ela assentiu.

— Sim, esse é um bom nome. E você pode me chamar de princesa Amy. Gosta de bonecas, sr. Bruin? Espero que não as coma.

Conformado, decidiu que passaria toda a tarde como companheiro de brincadeiras de uma adorável menininha. Era melhor do que pressionar o cérebro paralisado em busca de respostas que não poderia obter.

— Oh, não— respondeu determinado.— Nós ursos nunca comemos bonecas.

Ela o encarou desconfiada.

— Ursos podem comer as minhas bonecas... minhas bonecas são muito especiais. Do tipo que podem ser saborosas para ursos.

O home suspirou profundamente e adotou um ar solene.

— Ah, bem agora você me pegou. Prometo que nunca vou comer as bonecas muito especiais da princesa Amy.

— Que bom.— Ela se aproximou um pouco mais, pôs a velha caixa de queijo sobre seus joelhos e começou a apresentar suas bonecas.

A caixa de queijo era uma casa de bonecas artesanal. Tudo nela havia sido criado pelos dedos pequeninos de uma criança ou pelo toque amoroso de uma mãe dedicada. E algumas daquelas bonecas haviam sido criadas a partir de espigas de milho, com berços e miniaturas variadas produzidas com espigas e cascas de amêndoas.

Ele sorriu. Saborosas para os ursos, de fato. Aquela era uma criança encantadora. Seus olhos eram de um mar verde cintilante... quase da mesma cor dos dele. O pensamento era absudamente inquietante. Esperava que Bella não houvesse mentido sobre a questão da paternidade de Amy. Se havia criado aquela adorável menina com Bella... e se a deixara crescer sem seu nome num ambiente que parecia ser da mais absoluta pobreza... então não mereceria o próprio respeito.

Todos os pensamentos conduziam à mesma pergunta. Quem era ele? Já havia se casado?

• • •

— Ele foi ferido com tanta gravidade que agora não consegue se lembrar de nada — Bella contou à única pessoa em quem confiava, o único que não contaria ao seu senhorio sobre o hóspede inesperado.

— Isso é uma absoluta desgraça!— O vigário andava de um lado para o outro tomado pela agitação.— Essa gangue de ladrões está se tornando mais e mais ousada, e o senhorio faz alguma coisa? Não, porque é muito indolente para se incomodar! Ele devia fechar a hospedaria Anjo. Tenho certeza de que o antro de iniquidades é o quartel-general dessa turma. Acha que esse home é capaz e identificar seus agressores?

— Não. Ele não sabe nem mesmo o próprio nome. Não lembra o que aconteceu.

O velho religioso apertou os lábios pensativo.

— E não havia nada com ele capaz de indicar sua identidade?

Bella balançou a cabeça.

—Nada. Quem quer que o tenha assaltado, levou até mesmo o casaco e as botas do infeliz. Pensei que pudesse ter ouvido alguma coisa.

— Não. Ninguém fez perguntas ou procurou por algum desaparecido. Ele.. está lhe causando alguma dificuldade?

— Não, o homem tem sido um cavalheiro durante todo o tempo...— Exceto naquela manhã, quando suas mãos a haviam acariciado com ousadia e experiência, pensou, lutando contra o rubor. O vigário desconhecia os arranjos que tivera de fazer em sua casa a fim de acomodar as três pessoas na hora de dormir, ou não a teria apoiado nem por um momento.

De repente o religioso franziu a testa e olhou de volta.

— Onde está a pequena Srta. Amy?

— Eu a deixei em casa. Está muito frio aqui fora, e ela teve um sério resfriado do qual acabou de recuperar-se. É... é só por alguns minutos.... — Sua voz perdeu a força.

— Você a deixou sozinha com esse estranho? — A pergunta traía incredulidade.

De repente sentia-se tola. Criminosamente tola e ingênua.

— Eu não pensei... não senti que ele pudesse fazer algum mal a Amy... ou a mim.— Agora estava realmente preocupada.— Mas sua apreensão tem fundamento. O homem pode ser um assassino, pelo que sei dele.

O vigário tentou acalmá-la, mas não parecia muito seguro.

— Estou certo de que não há nada com que deva preocupar-se. Se tivesse dúvidas a respeito desse desconhecido teria trazido Amy com você. Sempre teve bons instintos.

A cada palavra de conforto, a dúvida de Bella só fazia crescer. Como sua ansiedade.

Ele asssentiu.

— Está em dúvida— disse.— Deixe o problema em minhas mãos. Se há um homem desaparecido, acabaremos ouvindo comentários ou perguntas. Vá para casa, minha querida. Cuide de sua filha.

— Oh, sim. Sim, estou indo. Obrigada pelo empréstimo desses itens, vigário.— Ela mostrou o pequeno pacote em suas mãos.— Espero devolvê-los em breve.

Bella voltou para casa correndo, sentindo o medo crescer a cada passo que dava. Como havia permitido que seus... seus sentimentos calassem a voz da razão? Deixar Amy em casa, só porque o dia era frio e úmido! Acreditar em um homem que dizia não se lembrar de anda. Presumir que o simples fato de gostar dele... gostar demais, para ser honesta, fosse garantia de estar lidando com alguém digno de confiança. Pelo que sabia, o sujeito podia ser um vilão!

Era simples para o vigário elogiar seus instintos e manifestar confiança em sua intuição, mas ele não sabia nada sobre a confusão que havia criado,em sua vida. Confiara em seus instintos e sentimentos, e eles não valiam nada! Deus do céu, deixara sua filha com um estranho! Se acontesse alguma coisa a Amy, não poderia suportar.

Ainda correndo, ele chegou ao chalé e abriu a porta com um movimento brusco. O aposento estava vazio. Nenhum sinal de sua filha. Bella ouviu vozes no segundo andar. Não conseguia entender o que era falado. De repente identificou um grito agudo e ansioso.

— Não, não! Pare com isso!— Amy gritava.

Bella subiu a escada como se possuisse asas, pulando os degraus, quase tropeçando nas saias enquanto corria. Entrou no quarto e aprou, lutando para recuperar o fôlego, olhando para o inuitado conério com que se havia deparado.

O assassino com quem deixara a filha estava sentado na cama, exatamente onde o vira pela última vez. Ele encontrara sua camisa, por sorte, e a vestira, cobrindo assim aquele peito amplo e musculoso. Ele também usava um de seus xales e sua melhor boina, embora um pouco torta sobre a cabeça, as fitas amarradas num enorme laço sob seu queixo áspero, resultado da barba por fazer. Os braços estavam cheios de bonecas. Em seu colo por cima dos cobertores, havia uma toalha de cozinha e um minusculo jogo de chá arrumado para o serviço, com comida e bebida de mentira dentro das vasilhas feitas com pares dos frutos do carvalho.

Ele encarou acanhado, os olhos verdes tomados por humor.

— Oh, mamãe! O sr. Bruin continua se mexendo e derrubando o piquenique das minhas bonecas. Veja!— Contrariada, Amy apontou para algumas vasilhas viradas.— Sr. Bruin malvado!— A menina censurou-o com severidade.

— Lamento, princesa Amy, mas eu a preveni sobre nós os ursos, somos grandes animais peludos que não servem para fazer companhia a damas em um piquenique— respondeu o home com tom pesaroso.

Bella rompeu em lágrimas.

Houve um silêncio chocado.

— Mamãe, o que foi? Qual é o problema?— Amy pulou da cama e correu ao encontro da mãe, abraçando seus joelhos com aflição.

Bella sentou-se em um banco, pôs a filha no colo, abraçou-a com força e embalou-a mantendo-a aninhada em seu peito. Os soluços persistia. Grandes, dolorosos, do fundo do peito. Não conseguia contê-los.

Ouviu um movimento perto da cama, mas o pranto a dominava por completo. Não podia fazer nada além de abraçar a filha e deixar as lágrimas correrem. Sabia que era uma fraqueza, que estava se mostrando vulnerável quando devia ser forte e cuidar de Amy... Amy, que agora também soluçava e chorava apavorada, porque nunca antes havia visto a mãe chorando. Mas Bella não conseguia controlar os horríveis soluços. Ele brotavam de algum lugar no fundo de seu ser, escapando dolorosamente de seu corpo, ameaçando sufocá-la. Jamais havia chorado dessa maneira antes. Era assustador.

De uma maneira vaga, sentiu a presença do homem a seu lado. Pensou ter sentido também alguns tapinhas desajeitados nos ombros e nas costas, mas não podia ter certeza de nada. De repente, sentiu braços poderosos envolvendo seu corpo , puxando-a para o alto. O desconhecido carregou Bella e Amy de volta à cama, onde se sentou e as manteve nos braços, Bella sentada sobre seus joelhos, pressionada de encontro ao peito firme e largo. Ela ainda tentou resistir, mas foi uma tentativa desprovida de empenho, e depois de alguns instantes, algo dentro dela, alguma barreira, simplesmente... se dissolveu, e ela se apoiou nele, deixando-se abraçar e consolar como ninguém nunca a havia abraçado e consolado antes. Os soluços ecoavam com intensidade ainda maior.

Ele não fazia perguntas, apenas as abraçava, afagando os cabelos de Bella como queixo e o rosto, emitindo sons roucos com que pretendia acalmá-la. Amy parou de chorar quase imediatamente, depois de um momento, Bella ouviu o homem murmurar para sua filha ir lavar o rosto, pois mamãe logo estaria bem. Ela estava apenas um pouco cansada. Sentiu que a criança escapava do círculo formado por seus braços. Amy apoiou-se no joelho do hospede e esperou ansiosa, acariciando os ombros da mãe.

Bella froçou um sorriso que, esperava, tranquilizaria a pequena. Tentava com desespero reencontrar o controle e dominar as próprias emoções, mas ainda não era capaz de falar. Respirava com dificuldade, arfando e tossindo de um jetio muito feio. Os soluços era intermináveis; erupções secas que a sacudiam e faziam doer o peito e a garganta. Amy desceu a escada nas pontas dos pés.

Por fim, a assustadora e inesperada explosão se extinguiu. Sentia-se exausta, com tanta energia quanto um pano de chão molhado... e igualmente atraente.

— Eu... sinto muito sobre tudo isso— disse.— Não sei o que aconteceu comigo.

— Não importa. Acalme-se, está bem? — Os braços eram quentes e firmes em torno de seu corpo. Os dedos afastaram uma mecha que caia sobre sua testa.

— Normalmente, não sou uma mulher chorona e descontrolada. Realmente, não sou.

— Eu sei.— A voz soou com profunda suavidade em seu ouvido.

— Foi só... De repente tive a idéia.. Quero dizer, pensei que... — Como poderia contar a ele o que havia pensado?

O que poderia dizer? Pensei que faria mal à minha filha, e quando o vi brincando com ela, rompi em lágrimas por sua causa. Até que ponto essa noção era ridícula? Ele a julgaria insana, certamente. E, para ser sincera, estava começando a duvidar da própria sanidade.

— Nunca chorei desse jeito em toda a minha vida! Nem mesmo quando meu marido morreu.

— Então já era tempo de derrubar algumas lágrimas. Não pense muito nisso— ele aconselhou com tom próximo.— Sem dúvidas estava no limite de suas forças, acumulando problemas e preocupações que foram formando uma especie de montanha dentro de você, até que não pode mais suportar e explodiu. Quando isso acontece, o melhor a fazer é nem tentar controlar o pranto.

— Mas eu...

— As mulheres choram, os homens geralmente se envem em batalhas e lutas, ou...— ele parou e sorriu.— Bem, buscam alívio no quarto. Mas já vi homens fortes chorando como você chorava há pouco, e nesses momentos ficava claro que eles já estavam chegando ao limite da força, da tolerancia. Não há vergonha alguma nisso.

Houve um breve silêncio.

— Você já chorou desse jeito?

O homem ficou tenso. Por um momento ele não disse nada, depois balançou a cabeça.

— Como posso saber, se não consigo me lembrar de nada? Cheguei a pensar que sim...— ele respirou fundo e deixou o ar sair lentamente pela boca.— É muito frustante. Como se tudo estivesse bem perto, esperando... Como se vislumbrasse alguma coisa com o canto dos olhos, mas quanto me viro para ver o que é, a imagem desaparece...

Ela pousou a mão sobre ele.

— Logo vai recuperar suas lembranças, tenho certeza disso.

— Pode ser. Quer conversar sobre isso?

— Sobre o quê?

Ele a girou entre os braços de forma que pudesse encará-la de verdade.

— Não prevarique. O que a perturbou tanto? Fale. Sei que não consigo me lembrar de nada, mas quero ajudé-la na medida do possível. Alguém tentou machucá-la? — Sua voz soava profunda e sincera.

Bella não teve coragem para confessar a horrível suspeira que a invadira no vicariato. Olhou para ele, tentando pensar em um jeito de explicar...

Se rosto devia expressar mais do que pretendia.

— Fui eu?— ele perguntou.— Eu sou o seu problema.

Bella não disse nada por um instante, mas ele soube assim mesmo. As mãos se afastaram de seu corpo, e de repente ela sentiu frio. Gentil, ele a levantou com firmeza e depositou-a na cama a seu lado.

— Não, não— Bella reagiu apressada.— é que.. são tantos problemas, tantas dificuldade... Mas não quero sobrecarregá-lo...

— Diga-me apenas uma coisa. Preciso ouvir essa resposta.— Havia uma certa tensão em seus ombros e na maneira de falar.— Não me conhece mesmo, ou me conhece e... tem medo de mim por alguma razão?

Houve um silêncio carregado, e ele pegou sob o colchão a frigideira que Bella havia deixado ali na primenira noite.

Um rubor intenso tingiu seu rosto. Ela não sabia para onde olhar.

— Eu a encontrei esta manhã, quando estava me vestindo. Era para mim, não era? Para o caso de eu tentar alguma coisa, talvez até atacá-la no meio da noite?

Bella assentiu, apesar do constrangimento.

— E quando entrou aqui há poco, depois de ter corrido dois quilômetros ou mais... Foi por minha causa. Estava preocupada com Amy, não estava? Por tê-la deixado sozinha comigo. E quando a encontrou segura e... intocada começou a chorar de alívio.

O silêncio era a mais pura expressão da vergonha que a dominava.

Ele cerrou um punho e desenhou um nó de tensão diante da confirmação silenciosa de sua teoria.

— Não posso culpá-la por isso. Nenhum de nós sabe que tipo de homem que eu sou. Não acredito que seja capaz de fazer mal a uma criança, mas... enquanto não recuperar a memória, não posso saber que tipo de homem sou... ou fui.— Frustação e nervosismo eram evidentes em sua voz.

Bella tentou pensar am algo para dizer. Ele era um bom homem, estava certa disso. Mas também estava certo. Não sabiam nada sobre ele.

— Suponho que tenha tornado a situação ainda pior, agarrando-a daquela maneira — ele continuou com amargura.— Não sabia o que fazer. Só precisava tocá-la. Agora entendo que fui presunçoso.

Bella queria gritar. Não! Queria dizzer que ele fizera exatamente o certo, que há muito sentia falta de conforto de ser amparada fisícamente, uma falta tão grande que era embaraçoso admiti-la. Não podia explicar como em seu abraço descobrira o alívio de ser fraca ao menos uma vez... mesmo que por pouco tempo. Durante toda a vida, tivera que ser forte. Gostaria de dizer a ele como havia sido maravilhoso ser abraçada por um homem forte como se fosse preciosa, como se ele a considerasse muito importante... apesar de sua fraqueza.

Mas não podia expor tal vulnerabilidade. E, Deus a ajudasse, estava começando a gostar dele, muito mais do que era razoável, um estranho sem nome que só conhecera há duas noites e dois dias, um tempo durante o qual ele estivera quase sempre inconsciente. Não podia permitir que ele soubesse tanto a seu respeito.

— E quanto a hoje de manhã... na cama... também quero me desculpar.

O rosto de Bella estava em brasa. Ela se levantou.

— Não há nada de que se desculpar — disse constrangida.— Estávamos sonolentos, ainda meio adormecidos, e não pode assimir a responsabilidade por... pelo que fez. Não sabia o que estava...

— Sim, eu sabia — ele a interrompeu com segurança espantosa.— Sabia exatamente o que estava fazendo. Vou lhe dar um aviso, Sra. Swan. Enquanto minha memória estiver prejudicada, sua virtude estará segura comigo. Mas no momento em que descobrir quem sou, se sou casado ou não...

Ela esperou pela conclusão da sentença e, estranhando o silêncio, encarou-o ansiosa, o desconhecido sorriu e prosseguiu com suavidade deliberada:

— Se eu não for casado, Sra. Bella Swan... é bom que saiba que pretendo tê-la novamente nua na cama, comigo, fazendo todas as coisas que já fizemos e muito mais.— Era um juramento.

O rosto de Bella estava vermelho, mas ela conseguiu falar com a mesma compostura de antes.

— Creio que também tenho direito de opinar sobre esse assunto, senhor.

— Gostou do que fizemos hoje de manhã...

— Não tem nenhuma idéia sobre o que penso ou sinto! — ela explodiu.— E não continuaremos discutindo essa tolice! Veja, trouxe chinelos. Os pés do vigário são pequenos demais para que possa usar suas botas, mas os chinelos servirão para protegê-lo. E também trouxe uma lâmina de barbear.

Ele deslizou a mão pelo queixo.

— Quer dizer que não gosta dos meus pêlos? Sua filha não gostou deles, mas tive a impressão de que você apreciou o... estímulo.— Ele riu com um brilho provocante e malicioso naqueles olhos verdes.

— Chega!— Bella responde com tom ríspido, certo de que todo seu corpo estava vermelho, não só no rosto.— Vou buscar água quente para que possa se barbear, e depois comeremos. Preparei um guisado.

— Sim, o aroma está me tentando há algum tempo.— Seu olhar era quente e sugeria outras tentações.— Sua casa é tão cheia de tentações que um sujeito faminto como eu não tem a menor chance de... — Seu rosto esclarecia o exato significado da palavra "faminto", e ele não se referia ao guisado.

Bella deixou o quarto sem dizer mais nada.

— Mamãe me mandou até aqui com o espelho— Amy anunciou da porta.— Ela disse que vai precisar dele para barbear-se.

Ele riu. Alguns minutos antes, mamãe havia enfiado a cabeça pelo vão da porta, empurrava uma tina com água quente para dentro do quarto e desaparecera novamente, resmumgando sobre ter coisas para fazer. Não devia ter tirado a camisa, mas não podia se barbear usando a única camisa que possuía.

Amy entregou-lhe o pequeno espelho quadrado e ele o aceitou um pouco nervoso, sentindo-se aflito diante da perspectativa de deparar-se com a própria imagem. Seria capaz de reconhecer-se?

Devagar, ergeu o espelho e fez uma careta. Era fácil compreender por que a mulher não confiava nele! Tinha aparência de um pirata sanguinário! Faltavam o brinco e o tapa-olho. Sua pele era morena, escurecida pelo sol, certamente, a julgar pela coloração de outras partes de seu corpo. Por consequência, podia deduzir que passava muito tempo ao ar livre. Cavalheiros não faziam isso. Mas os piratas...

Seus olhos eram verdes, mas isso já sabia antes, graças à menina que o fitava solenemente. Também entendia por que ela o chamara de urso. Não precisava apenas fazer apenas a barba. Sob o curativo, os fios eram espessos, abundantes escuros e rebeldes. As sobrancelhas eram grossas e escuras, e havia ma ruga entre elas. O nariz era longo e, ele virou um pouco a cabeça, um tanto encurvado. Quebrara o nariz em algum momento da vida. Sua pele tinha inúmeras e pequenas cicatrizes, além das marcas deixadas pelos ferimentos mais recente. No geral, não oferecia uma imagem muito bonita. Também encontrara antigas cicatrizes espalhadas por se corpo. Havia participado de muitas batalhas.

Que belo hospede essa mulher fora receber em sua casa. A viúva estava cuidando de um pirata cabeludo, barbudo e confuso, sem memória! Não poderia culpar ninguém por abandonar uma criatura tão assustadora ao relento, especialmente uma mulher sozinha, e desamparada, com uma filha pequena. Ele estendeu a mão para a barra de sabão ao lado da vasilha com água quente. Pelo menos podia dar um jeito na barba.

— Pode segurar o espelho para mim, por favor, princesa?

Prestativa, Amy atendeu o seu pedido e ficou observando fascinada enquanto ele ensaboava a pele e ia removendo a espuma e os pêlos com a lâmina afiada.

— Melhor agora?— ele perguntou ao concluir a tarefa.

Amy passou a mão por seu rosto barbeado.

— Ficou bom— disse com ar sério —, mas também gostava dos pêlos do sr. Bruin.

Ele riu.

— Ursos peludos não podem morar em chalés. Agora, vou terminar de me lavar. Enquanto isso, vá lá para baixo e ajude sua mãe, princesa. Irei encontrá-las em poucos minutos.

Bella sentiu a garganta seca. Tentou engolir enquanto ele abaixava a cabeça para passar sob a viga baixa e terminava de descer a escada. De repente o homem parecia tão... diferente. Barbeado, ele removera a bandagem da cabeça e penteara os cabelos para trás com o auxílio da água quente. A pele tinha um brilho saudável, e os olhos cintilavam com uma luz provocante. A camisa branca e limpa contrastava com a pele bronzeada, as mangas estavam dobradas até a altura dos cotovelos. A calça de camurça não chegara a ser justa como uma pele mas, mesmo assim...

Era tolice, ela disse a si mesma com severidade. A calça devia ser justa quando o recolhera em sua porta... mais justa ainda, de fato, porque o homem havia emagrecido muito. Conhecer o corpo coberto por aquela calça, saber que estivera pressionado contra o dela ainda naquela manhã, nu, criava um calor inesperado e incômodo em seu peito.

— Sente-se. A mesa está posta.— Ela se virou para o fogo a fim de pegar a pesada panela com o guisado fumegante.

Um braço bronzeado enlaçou sua cintura, enquanto a outra mão, ele retirava o pano de sua mão, e o utilizava apra retirar a panela de ferro escurecido do gancho que a sustentava.

— Eu posso cuidar disso— Bella protestou, livrando-se do contato físico.

— Eu sei que pode. Mas já lhe dei muito trabalho. Enquanto estiver aqui, farei o possível apra reduzir o peso de meu fardo.— Ele levou a panela para a mesa.

Enquanto estiver aqui... As palavras ecoaram em sua mente. Sim, assim que recuperasse a memória, ele iria embora, sem dúvida de volta para uma esposa e para os filhos. Um dúzia deles, imaginou mal-humorada.

Comeram em silêncio. Ele tinha maneiras corretas e demonstrava hábitos elegantes, pois passou para ela o pão, o sal e a água sem que tivesse de solicitá-los. Bella refletia enquanto comia. Suas maneiras e seu sotaque sugeriam que o homem havia sido educado como um fidalgo, mas as cicatrizes em seu corpo contavam a história de uma vida repleta de riscos físicos. Ele também demonstrava conhecer a rotina da vida de um chalé; habilidoso, retirara a panela do gancho sobre o fogo e alimentara as chamas com parcimônia, como se não quisesse desperdiçar o precioso combustível e soubesse conviver com as dificuldades de uma vida humilde... algo que nenhum cavalheiro conhecia. Um criado poderia adquirir boas maneiras e um sotaque elegante, mas ele não demonstrava o serviçalismo de alguém que vivia para cumprir ordens. Pelo contrário, era arrogante como alguém que só faz aquilo que quer, como se não se importasse em conhecer sua opinião, em saber se ela queria ou não sua ajuda.

O homem arrumou uma janela quebrada. O barulho da janela batendo a teria deixado maluca por muitas semanas, mas, de alguma forma, o fato de ele ter se disposto a concertá-la sem consultá-la era enervante. O desconhecido saiu no frio, apesar de não ter um casaco, e rachou uma enorme pilha de lenha, empilhando as toras perto da porta dos fundos, um local muito mais conveniente do que aquele por ela escolhido anteriormente. Ele manejava o machado com facilidade e conhecimento. Seus músculos eram definidos sob a camisa de tecido macio, e a visão tinha o poder de deixá-la de boca seca. Seus olhos seguiam aquele corpo como um musgo sobre as pedras... até que ela se lembrou de continuar com o que estivera fazendo. Devia demonstrar gratidão pela preciosa ajuda. E estava grata... mas...

A qualquer momento ele se lembraria de tudo. Seu nome e a esposa que tinha o direito de solicitar dele tais serviços! E uns doze filhos. Como ele ousava tornar-se indispensável... fazer com que ela e Amy se sentissem parte de uma família.. Não era justo.

• • •

À tarde ela viu Amy parada do lado de fora, olhando para cima com o rosto pálido e paralisado pelo medo. Bella correu para ver o que estava acontecendo, e o medo que a invadiu foi tão intenso quanto o da filha diante do infeliz que trabalhava em cima do seu telhado, trocando e ajeitando as telhas da cobertura como se não tivesse nenhuma outra preocupação no mundo. Ficou ali parada, torcendo uma toalha de cozinha entre as mãos, observando-o com aflição. Algumas vezes seus pés escorregaram e ela sentiu o coração saltar dentro do peito. A garganta era dominada por um nó de emoções, resultado da constatação de que ele se expunha ao perigo para reparar seu telhado cheio de goteiras. O homem devia ter notado a panela que deixara em um canto do quarto para recolher as gotas. Durante todo o tempo que ele esteve lá, Amy não foi capaz de respirar normalmente.

Como ele conseguira chegar lá em cima sem uma escada era algo em que nem queria pensar! Mas quando ele finalemnte desceu com uma agilidade que a deixou apavorada e sem fôlego, e quando parou diante dela com aquele... aquele brilho nos olhos, como se devesse estar satisfeita por ele ter arriscado a vida por um problema tão trivial.

Gostaria de esganá-lo ali mesmo. Ou pular em seu pescoço e cobri-lo de beijos.

Mas não podia fazer nada disso, porque ele não era seu para beijá-lo ou esganá-lo, provavelmente nunca seria. Não podia sequer gritar com ele, porque seria ridículo gritar com alguém que só quisera ajudá-la. E que asssustara. E que a fizera perceber que o amava. O infeliz!

Amava-o.

O sorriso triunfante desapareceu lentamente de seus lábios, dando lugar a um brilho que invadiu seus olhos e a fez imaginar se havia dito alguma coisa em voz alta. Os olhos verdes e encaravam queimando de intensidade, com passos determinados. Sabia que ele ia toma-la nos braços e beijá-la como havia feito naquela manhã, de um jeito que podia derreter todos os seus ossos.

Mas não podia! Oh, não podia! Porque, se o deixasse amá-lo, não seria capaz de deixá-lo partir... Trêmula, estendeu a mão para detê-lo e o viu parar um passo antes de tocá-la. Os olhos a devoravam, peito arfava. Seus olhos encontraram os dele, mas a mão estendida impedia dqualquer tentativa de aproximação. Ficaram ali parados imóveis.

— Sr. Bruin! — chamou uma voz infantil e aborrecida.

Ele ignorou o chamado e continuou olhando para Bella, devorando-a com os olhos.

— Sr. Bruin!— Amy puxou a camurça de sua calça numa demonstração impaciênte.

Com esforço visível, ele conseguiu desviar os olhos de Bella e se abaixou diante da criança.

— O que é, princesa?

— Não pode subir no telhado sem pedir permissão a mamãe! É muito perigoso. Podia ter caído e quebrado a cabeça outra vez. É um urso muito malvado!— Ela parou como se hesitasse, mas concluiu:— Mamãe e eu ficamos muito assustadas.

A voz dele soou suave.

— É mesmo, princesa? Eu sinto muito.— Então tomou a pequena nos braços e abraçou-a com carinho. Seus olhos encontraram os de Bella demonstrando constrição e alguma outra emoção impossível de nomear.

Era difícil conter as lágrimas. O que podia fazer com um homem como aquele? Como uma mulher podia deixar de amá-lo? Ela se virou para voltar ao chalé. Era bem provável que ele tivesse maia dúzia de esposas, todas absolutamente apaixonadas.

• • •

Bella estava sobressaltada. A noite se fechara como uma cobra em torno dela. Estavam sentados ao lado do fogo num silêncio tranquilo. Ela costurava, ele entalhava uma vareta. Amy havia ido para a sua cama algum tempo antes. Já havia passado de sua hora de ir dormir, mas estava adiando o momento. Logo estariam comparilhando uma cama mais uma vez. Não havia alternativa. É claro, haviam dividido a camanas últimas duas noites, mas ele estivera inconsciênte. Na maior parte do tempo...

Continuava tentando não pensar na sensação de ter acordado em seus braços. Não podia permitir que isso voltasse a acontecer. Aquele era um comportamento impróprio para uma viúva respeitável, e não agiria como uma mulher leviana e sem moral. Além do mais temia que, se o deixasse tocá-la daquela forma novamente, não saberia mais detê-lo. Já havia percorrido mais da metade do caminho para apaixonar-se por ele. Se o aceitasse nesse momento, sabia que estaria permitindo sua entrada não só em seu corpo, mas também em seu coração.

Já havia perdido quase tudo na vida, mas sobrevivera à perda. Se o amasse para depois perdê-lo, essa podia ser a perda final, aquela que a destruiria. Pelo bem de Amy, se não pelo próprio bem, tinha de manter-se forte. Não podia se expor ao risco de ter o coração partido. Não o deixaria partir seu coração.

— Sr. Bruin — ela disse com certa hesitação. Havia decidido usar o nome que Amy criara para ele.

O homem ergueu a cabeça.

— Sim, Sra. Swan?— Um sorriso lento distendeu seus lábios, com dentes brancos brilhantes como o de um lobo à luz do fogo. Ele tinha novamente aquela luz nos olhos.

Bella sentiu o coração bater mais depressa.

— Temos de falar sobre as acomodações...— começou tentando soar prática e segura. A tentativa foi um compelto desastre.

— Sim?— A voz dele, por outro lado, era cada vez mais profunda.

— Sou uma viúva virtuosa.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Sou...— Ela começou indignada, disposta a repetir a frase.

— Tudo bem, amor — o homem teve a ousadia de dizer.— Não estou duvidando da sua virtude.

— Não me chame de a...

Ele ergueu a mão num gesto pacificador.

— Sra. Swan... Bella... Sua virtude está segura comigo. Empenho minha honra de cavalheiro e informo que não farei nada que possa causar-lhe aborrecimento.

Bella parecia perturbada. Era muito fácil para ele oferecer promessas nobres, mas como podia ter certeza de que era um cavalheiro? E o que significava causar-lhe aborrecimento? Sua partida a deixaria aborecida, mas ele ficaria, uma vez recuperada a memória? Duvidava disso. Por que um homem bonito gozando e plena saúde e de estupenda forma física desejaria permanecer em um pequeno chalé no meio do nada com uma viúva miserável e uma criança pequena?

— Não há outra escolha se não...— ela engoliu em seco-... usarmos a mesma cama, mas esse será o limite. Envolverei meu corpo em um lençol, e você fará o mesmo. Dividiremos a cama e os cobertores, mas nos manteremos castos. Está de acordo?— A voz soou estridente mais uma vez.

Ele se inclinou de forma irônica.

— Sim, estou de acordo. E agora, devo subir e despir-me, enquanto você faz o mesmo aqui embaixo, perto do fogo?

Bella sentia-se arder.

— Muito bem.— Ela escolhera a camisola mais grossa e, no momento em que ouviu os passos no andar de cima, começou a desabotoar o vestido. Despiu-se à luz do fogo, olhando duas, três vezes pela janela, para a noite opaca lá fora, sentindo-se exposta. Cobrindo os ombros com o xale mais quente que possuía, pegou uma vela e subiu. Na soleira do quarto ela parou.

— Encontrou seu lençol?— perguntou num sussurro. — Eu coloquei na cama.

Uma risada profunda foi a resposta. O som percorreu seu corpo na forma de um delicioso arrepio.

— Encontrou o lençol?— ela repetiu, erguendo a vela para enxergar o interior da alcova de dormir.

— Sim, amor. Dei-lhe minha palavra. Estou tão casto quanto um inseto em um tapete.— Os ombros e o peito nus contrastavam dourados contra o lençol branco. Seus olhos eram profundas sombras de mistérios, e os dentes brancos podiam ser vistos como pérolas na escuridão. Ele não parecia casto. Lindo e poderoso, era uma tentação grande demais para a paz de espirito de uma viúva virtuosa.

Bella engoliu em seco, virou-se de costas e sentou-se para remover os sapatos, e as meias. Depois pegou outro lençol e enrolou-se nele, sentindo os olhos acompanharem seus movimentos. Finalmente, ela apagou a vela, deixou a no chão ao lado da cama, respirou fundo de deitou-se.

Permaneceu deitada de costas, rígida, encolhida sob os cobertores no casulo do lençol, tentando não tocá-lo. Tudo que ouvia era o vento nas árvores e a respiração do homem a seu lado. Era pior que na primeira vez em que haviam dormido juntos. Naquela ocasião tivera medo dele como teria temido um estranho. Agora o problema que ele presentava não poderia ser resolvido por uma frigideira.

Antes, ele havia sido um estranho para ela, nada mais do que um corpo bonito e ferido. Agora sabia como seus olhos podiam dançar, qual era seu sabor, como era sentir as mãos sobre sua pele, acariciando-a e como se fosse linda para ele, preciosa. Antes de seu casamento, os homens só a queriam por sua herança. Agora não tinha nada a oferecer além de si mesma. E no entanto, esse homem deitado em sua cama a queria. E quando ele a tocava, sentia-se... importante, querida. Era perigosamente sedutor.

Ele já encontrara o caminho para esgueirar-se para dentro de seu coração, embora ainda não houvesse conseguido meter-se sob sua saia. Agora, tudo que possuía era um fino lençol de algodão para proteger sua virtude... e seu coração. Rígida, ficou ali deitada, sem coragem até para respirar.

— Ah, pelo amor de Deus!— O homem viro-se de lado e puxou-a de forma a apoiá-la em seu corpo.

— Pare com isso! Você prometeu...

— E eu sempre cumpro minhas promessas! Esse é o máximo de castidade que posso obter. Agora pare de criar problemas. Cada um de nós está embrulhado em um lençol. A situação é perfeitamente recatada. Mas não consigo dormir enquanto você fica aí parada e dura como uma tábua.— Ele riu. — Esse problema também é meu, caso queira saber.

Bella enterrou o rosto quente no travesseiro frio. Não, não queria saber nada. Já era horrível poder sentir o problema dele, mesmo através dos lençois. A sensação despertavaem seu corpo as mais variadas reações.

— Desculpe, não devia ter dito isso. Pare de preocupar-se, amor, e vá dormir. Nós dois poderemos repousar melhor assim. Sabe disso.

Bella não sabia de nada, mas deixou-se ficar na curva de seu corpo, desfrutando de seu calor e do sentimento de força e proteção que emanava daquele homem. Era uma sensação estranha e sedutora, essa de ser... querida.

Ficaram em silêncio por muito tempo, ouvindo o vento nas árvores. E finalmente, Bella adormeceu. Ele continuou deitado no escuro, segurando-a de encontro ao corpo. Apesar dos lençois em que haviam se envolvido, podia sentir as curvas suaves, a confiança com que ela se deixava ficar em seus braços. Seus pés haviam encontrado a saída do casulo e buscado abrigo ente suas canelas, como duas pedras geladas. Ele sorriu. Estava feliz por ser seu tijolo quente.

Bella suspirou e, dormindo, aproximou-se ainda mais dele em busca de aconchego. Ele enterrou o rosto em sua nuca. Pousando a boca sobre sua pele, sentiu seu sabor com a ponta da lingua. Seu cheiro era único, como o do trigo colhido recentemente... e do feno ao ser cortado. Fresco e agradável. Era como se a fragância daquela pele suave se tornasse parte dele

Quem era ele, afinal? Era insuportável sentir-se tão impotente, aprisionado na escuridão, incapaz de tomar decisões sobre a própria vida. Como poderia planejar o futuro, se o passado era uma lousa em branco? E se a memória nunca mais voltasse?

Ficaria para sempre encurralado naquele estado de auto-ignorância? E, nesse caso, por quanto tempo poderia ficar ali com Bella? Não podia esperar que ela o sustentasse. Não podia permanecer em sua casa para sempre. Alguns dias no rigor do inverno não causariam mal algum, mas, se continuassem na mesma casa, em breve sua reputação estaria arruinada, e Bella era um mulher que dava valor à reputação. Mais uma vez, sentiu o cheiro da sua pele. Não tinha o direito de prejudicá-la. Não devia permitir que ela fosse atingida por sua situação. Mas... como poderia evitar?

As perguntas ainda brotavam infrutiferas de sua mente por mais algum tempo, até que ele dormiu.

• • •

Quando acordou, ele encontrou Bella enroscada em seu corpo. Estavam deitados face a face. Ou melhor, ela mantinha o rosto bem próximo de seu peito, como se o usasse à maneira de travesseiro. Nuvens de halito morno e úmido aqueciam seu peito sempre que ela respirava. Os cabelos, livres da trança em que sempres eram confinados, flutuavam em ondas sobre a sua pele. Uma das mãos repousava na altura de seu pescoço, a outra jazia esquecida sobre o seu peito. Os lençois que antes serviram para agarantir a castidade agora eram apenas amontoados inúteis enroscados em torno da porção mediana de seus corpos, deixando-os descobertos acima e abaixo da linha da cintura. Não havia nada de casto na posição em que se encontravam.

O peso quente e macio do corpo feminino sobre o dele era uma provocação irresistivel. Ele conteve um gemido. Estava excitado, rígido e dolorido por conta do desejo. As pernas dela estavam enrroscadas nas dele, uma repousando atrevida sobre seu quadril. Um pequeno movimento poderia penetrá-la com facilidade. Nunca tivera vontade maior do que essa. Aquela era sua mulher, sua metade, e ali estava adomecida, quente e aberta para recebê-lo.

Queria muito, precisava estar dentro dela. Tanto que teve de engolir em seco. Seu corpo todo pulsava com a necessidade. E ele a combatia corajoso. Havia empenhado sua palavra. Conquistara sua confiança. Podia até ser um pirata sem nome, mas prometera resguardar sua virtude e ela acreditara em sua promessa.

Não a possuira, mas isso não queria dizer que tinha de agir como um santo. Devagar, deslizou a mão por seu corpo. Os lençois estavam enrolados em sua cintura, bem sobre seu quadril, tocando com doçura uma nádega arredondada e macia, afagando com suavidade a região do ventre e das coxas. Ela era quente, doce, e estava mais do que pronta para recebê-lo. Um tremor sacudiu seu corpo. De olhos fechados, tentou resistir ao impulso de esquecer a palavra de honra.

Devia tê-la acordado. Com os olhos ainda fechados, Bella espreguiçou-se e trouxe de volta a urgência que há pouco ele conseguira sufocar, quase destruindo qualquer possibilidadede controle. Ela moveu o corpo, e foi diícil ignorar a deliciosa sensação provocada pela fricção de pele contra pele.

Sonolenta, abriu os olhos e fitou-o, piscando como se estivese aturdida. Como se ainda não houvesse despertado completamente, Bella sorriu. Seu rosto tinha um tom corado, os lábios estavam enrteaberto, úmidos e convidativos. Sua mão se moveu novamente, acariciando-a com intimidade, e seus olhos foram tomados de assalto pelo choque, embora o corpo estivesse arcado buscando o dele. Não havia quebrado a promessa, mas estava muito próximo disso. Por isso removeu a mão.

Ela recuou numa atitude subitamente recatada, mas percebe que suas pernas o prendiam.

— Oh— gemeu constangida, tentando soltar-se.

Ele testemunhou o encantador acanhamento provocado pela descoberta de que lençol e camisola se haviam erguido até sua cintura, fato que, aliado à posição íntima em que se encontravam, poderia ter tido sérias consequências. Tentando abaixar o lençol e a camisola, sem querer ela deslizou a mão por seu membro rígido.

Bella parou apavorada ao se dar conta do que acontecera, e ele rangeu os dentes numa luta desesperada por controle. O rosto dela era uma espécie de chama cintilante, e Bella evitava seu olhar dominada pela timidez. Era estanho que uma mulher casada e mãe de uma filha fosse tão acanhada, mas não dispunha de tempo para explorar a questão. Estava concentradona dura batalha travada ente corpo e mente. O corpo queria apenas fazer amor com ela. A mente também queria a mesma coisa, com a alma e coração.

Mas, para um homem que não tinha lembranças, uma única e inconveniênte recordação permanecia: "Sua virtude está segura comigo, empenho minha honra de cavalheiro e afirmo que não farei nada que possa causar-lhe aborrecimento..."

Mais uma vez, Bella tentou ajeitar a camisola e, novamente, tocou-o sem querer. Mais um encontro com aquele, e não se responsabilizaria, pelas consequências. Determinado, segurou as mãos dela e retirou-as da zona de perigo.

— Não se preocupe com isso, Bella. Essas coisas acontecem— disse.— Não esqueci minha promessa. Bom dia — acrescentou antes de beijá-la.

Lembrando sua timidez anterior, ele pretendia dazer do beijo um gesto terno, delicado e nada ameaçador, mas quando a boca encontou seus lábios entreabertos e úmidos, quando sentiu na língua aquele gosto adocicado e feminino, sentiu que estava perdido.

O segundo beijo foi mais apaixonado.

O terceiro beijo,ele teve a sensação de que o corpo estava prestes a explodir. Como um homem que se está afogando e ainda sobe à superficie pela última vez, ele leventou a cabeça e murmurou:

— Estou chegando ao limite, Sra. Swan.

Ela piscou, os olhos confusos e brilhantes, a boca ainda vermelha depois dos beijos. E cogitou-o como se pudesse ler sua alma. Gostaria de saber o que aquela mulher estava vendo, mas distraiu-se ao vê-la baixar os olhos.

— Limite?— Bella sussurrou vagamente Ela lambeu os lábios como uma criatura faminta. Um gemido brotou de seu peito. A mulher não entedia? Estava a um passo de esquecer promessas, palavra e honra. Se ela não saísse da cama imediatamente, nada mais poderia salvá-lo.

— Meu limite. Três beijos. Se voltar a beijá-la, receio esquecer a promessa que fiz. — Ao vê-la franzir a teta, ele explicu: — A promessa de que sua virtude estaria segura comigo— e acrescentou com tom irônico —, porque empenhei minha honra de cavalheiro. Se não sair desta cama agora mesmo, não responderei pelas consequências.

Bella precisou de um momento para compreender o significado de suas palavras, e ele não conteve um sorriso. Ela estava ainda mais dominada pela paixão do que ele. Mas, ao compreeender o que havia sido dito, ela emitiu um grito assustado e levantou-se de um salto. Ficou parada e alguns passos dela, encarando-o, o peito arfante como se houvesse corrido muitos quilômetros. Tinha de admitir qua também respirava com uma certa dificuldade.

— Eu... sinto muito— ela disse em voz baixa. Depois saiu do quarto levando as roupas que deixara penduradas no cabide atrás da porta.

Um segundo mais tarde ele estava de volta, parada na porta, segurando as roupas contra o corpo e mostrando-se muito perturbada,

— Eu... eu... gostaria que pudessemos... você sabe.— Mais uma vez, um rubor encantador tingiu seu rosto.— sinto muito.— Bella virou-se para sair, deu dois ou três passos e parou. Depois virou-se decidida.— Foi o despertar mais adorável que já tive. Obrigada.— Então ela girou sobre os calcanhares e correu para longe dali.

A necessidade clamando por satisfação fazia seu corpo pulsar sobre a cama, mas havia um sorriso radiante em seu rosto. "Foi o despertar mais adorável que já tive. Obrigada."A Sra. Sou-Uma-Viúva-Virtuosa precisara de muita coragem para fazer tal confissão. Coragem e uma espécie de timidez honesta e sensual que despertava nele a vontade de ir buscá-la e arrastá-la de volta para a cama. Seria um despertador adorável em muitos sentidos, estava certo disso.

Seria sensato usar todo o tempo do dia para criar um colchão de palha no qual dormiria já na próxima noite... mas não queria ser sensato. Naquela noite retiraria sua promessa de cavalheiro. Não tinha importância o fato de não saber quem era. Quem quer que fosse, seria dela.

Naquela noite, tomaria posse daquela mulher.


N/A: Quem sabe, se eu não receber reviews eu não poste outro capitulo a meia noite, no dia de Natal

Então se quiserem mais um capitulo, deixe uma review, pode ser qualquer coisa, até "Boas Festas" :D

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Feliz Natal à todos meus queridos leitores!

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