CAPITULO II

Shizuru lia um livro e Kazuma olhava entediado para a janela quando Kurama chegou na cafeteria, estacionando o Land Rover verde do padrasto, que fazia um ronco que todo mundo olhava quando passava.

_ Kuramaaa! - gritou Kuwabara. Ele nunca ia lembrar de chamá-lo de Shuuichi. - De Land Rover, hein.. Cadê o seu Dahaitsu?

Kuwabara trajava uma camisa do Slayer, e calças jeans sem grandes detalhes, e sneakers pretos da nike. Por cima uma camisa xadrez cinza de flanela. Haviam perto da mesa, duas malas, dos irmãos, para passar o fim de semana no templo.

_ Oi, Shuuichi. - Cumprimentou Shizuru, com sua "expressão quase inexpressiva", sem de levantar.

Como sempre a moça vestia algo moderno, como era aquela calça preta skinny dobrada até os calcanhares e uma t-shirt preta, o blazer coral quebrava o monocromático, acompanhado pelos sapatos oxford com estampas de rescortes de jornal. Devia ser um reflexo da sua faculdade de Arte, pensou Kurama.

_ Olá, amigos! Bom, Kuwabara, meu padrasto me emprestou o carro já que vou levar todo mundo até o templo da Genkai. O meu Dahaitsu é muito pequeno pra isso.

_ Ah, é verdade né? E falando nisso cadê o Yusuke? - Kuwabara perguntou terminando de comer seu hambúrguer, enquanto Kurama sentava-se.

Esperaram algum tempo. Porque é que Urameshi demorava tanto?

Mas só foi saber da resposta mesmo quando o sino que ficava preso na porta da lanchonete tocou. Sim, uma resposta de longos cabelos negros e pele pálida. Vestido com uma camisa azul de botões e mangas, do mesmo modo que as suas, dobradas até os cotovelos, que destacava seus ombros largos, e combinava com a calça de linho cáqui e os sapatos marrons. Segurava um blazer cinza, que parecia estar perfeitamente de acordo com o resto.

_ Yomi. - murmurou de forma inaudível.

E o youko de trás da sua cabeça estalou a língua, atraído com a aparência do rei. Ainda bem que quem estava no comando era Minamino, o bom humano.

Yomi pareceu ter escutado, apesar dos ruídos da cidade. Muitos carros, muitas pessoas. Mesmo assim conseguia localizar o ruivo a quilômetros de distância, como se fosse um daqueles cães farejadores que procuram a todo custo pessoas desaparecidas.

Minamino chocou-se com a surpresa, ainda mais num momento em que sua vida se encontrava. Tentava a todo custo entrar de cabeça no mundo dos homens.

_ E ae, Yusuke? Preparado para curtir os últimos momentos de solteiro? - Kuwabara gritou, como sempre, quebrando o raciocínio de Kurama.

Os amigos se cumprimentaram com acenos.

O ruivo só não entendia porque o Yomi não tinha chifres e nem orelhas élficas sobrando por aí. Será que...

_ Ué, Yusuke, o Yomi que você tinha falado não tinha trocentos chifres e quinhentas orelhas? - perguntou Kazuma imaginando uma caricatura de um youkai com orelhas escapando aqui e ali, como o Hiei em sua forma esverdeada.

_ Ah, bem, na verdade é que Yomi está usando um anel que disfarça a aparência youkai aqui no mundo dos homens. - explicou Yusuke, e todos voltaram a atenção ao anel prateado com uma pedra negra que o rei usava no anular. - Daí parece um humano.

_ Parece um simples anel de formatura. - Shizuru replicou.

Kurama olhou para o anel, e tinha certeza que era uns dos que haviam roubado. Só não lembrava como Yomi havia pego, já que este estava bem guardado. Provavelmente quando o youko supostamente "morreu".

Yusuke limpou a garganta. Yomi não tinha falado nada até agora. Provavelmente porque não fora apresentado aos demais.

_ Bom, esse aqui é o Yomi. E estes são Kazuma Kuwabara e Shizuru Kuwabara.

Kazuma acenou.

_ Seu tolo. Não sacou que ele é cego até agora? - a irmã o repreendeu. E então o reverenciou – Olá, Yomi.

Yomi os cumprimentou.

_ Olá, Kurama. - e falou, com sua voz baixa e rouca, dirigida ao rapaz calado até então.

O ruivo em questão levantou o rosto, encontrando-se com o rosto do outro. Porque Yomi estava ali?

_ Olá, Yomi. - falou, solene, como se estivesse numa reunião de executivos. - Vamos indo pro carro, então?

Era de se esperar que o rapaz chamasse atenção naquela lanchonete, cheia de adolescentes. Kurama era o retrato do bom moço, que toda mãe gostaria de ter como genro. Os pés calçavam mocassim pretos, trajava uma calça vermelha e uma camisa bege, de botões com as mangas dobradas até o cotovelo. Carregava ainda a sua inseparável pasta carteiro caramelo e uma blusa de malha azul petróleo, se acaso esfriasse. Os cabelos longos e ruivos pareciam propositalmente bagunçados.

_ Bem, vamos pra lá então? - Shizuru Kuwabara sugeriu, guardando o livro. - Kuwabara, vai lá pagar a conta.

Kazuma olhou emburrado para a irmã mais velha.

_ Ahh... por que sempre eu?

_ Ué, e eu não pagava sempre quando você era um pivete? Hora de me compensar um pouco. - Shizuru cutucou.

Reclamando, o rapaz de cabelos alaranjados foi pegar a conta dos dois.

Sem mais delongas, a turma se dirigiu ao carro, com Yusuke e Kuwabara matracando bastante, Shizuru soltando alguma frase sarcástica uma vez ou outra e Yomi discretamente atento as conversas e aos detalhes da cidade: cheiros, sons, presenças, temperatura...

Kurama tentava também participar da conversa. A verdade é que ainda estava surpreso com a presença do rei de Gandara. Nunca imaginou que ele visitaria o mundo dos homens, ou que Yusuke fosse chamá-lo para o casamento e o fim de semana dos amigos.

É... as coisas tinham mudado um pouco.

Ele também estava mudando.

Decidido a assumir sua condição de humano, Kurama não usava mais sua forma youkai. E decidiu virar a página na sua vida.

É claro que não esquecia quem ele era, e o que tinha feito. E era exatamente isso que o deixava perturbado. Desde o encontro nem um pouco amigável dos dois ex-ladrões na época do Torneio das Trevas, Kurama sentia-se mal com sua traição. Entretanto, procurava simplesmente não pensar nisso. Achava que aquela despedida colocara fim no assunto. Se não houve oportunidade na época de se desculpar, melhor não reviver a história.

Mas ver Yomi o fazia recordar da culpa.

"Todos tem uma cicatriz no coração por algo que sofreram no passado, não ter uma, significa ter uma alma incompleta"

Lembrou do que Hiei falara. É... mas parece que o youko criou um hábito de simplesmente dispensar as pessoas da sua vida. E era com isso que Kurama se incomodava. Pois não deixava nada para trás. Não mais.

_ Shura não vem, Yomi? - perguntou, educadamente, sorrindo o sorriso amigável mais falso que possuía no momento. Para quem, se Yomi não podia ver?

_ Acabamos brigando. Coisa de criança. Mas achei melhor que ficasse de castigo e repensasse suas atitudes.

_ Ahmmmm.

E o assunto morreu.

Yomi por outro lado, sentia-se num dilema interno. Uma parte um pouco abaixo de seu pescoço manifestava uma pontada de contentamento. Consequentemente, sua consciência parecia responder com raiva de si próprio, e ficou na defensiva, em relação à Yusuke e aos outros. Mas principalmente em relação a Kurama. Ao sentir sua presença, simplesmente ficou sem saber se teria sido uma boa ideia ter vindo.

É claro que tinha que mostrar que não havia o menor problema com isso. E julgava que estava conseguindo. Mas, dentro si, era totalmente desconfortável. Não duvidava que em breve iria ceder, e deixar algo transparecer. Kurama tinha essa habilidade perto dele, de fazê-lo expor totalmente o que quer que estivesse sentindo. Raiva, ciúme, ódio, paixão. Mas, não, esse era um problema que tinha que enfrentar, por mais difícil que fosse, e virar a página.

_ Sua cidade é movimentada. - Yomi falou, querendo demonstrar seu não interesse.

_ Sim, principalmente nessa época do ano.

Kurama deu graças ao alcançarem o carro e poder então acabar com a conversa de desconhecidos, sob o pretexto de estar muito ocupado com a estrada. Guardou as bagagens de Yusuke e Yomi no porta-malas e entrou no carrou, enquanto os demais já se ajeitavam.

Felizmente, Yomi sentou-se ao lado de Yusuke e Shizuru, no banco de trás, enquanto Kuwabara ficou na frente.

_ Mas vê se não dá em cima dele não, maninha.

_ Dar em cima de mim? - Yomi perguntou, se distraindo dos seus pensamentos e estrategicamente se socializando.

_ É que minha irmã tem uma queda por caras perigosos e de longos cabelos pretos, não é, Shizuru?

_ Ai, Kuwabara, fica quieto um pouquinho. - Shizuru replicou, enquanto Yusuke soltava uma escandalosa gargalhada.

E Kurama foi se distraindo no volante, com o ronco do motor, destinado a não interagir tanto com Yomi quanto com o barulhento trio.


A viagem demorou cerca de uma hora. Era um pouco trabalhoso chegar ao templo Genkai. Algumas estradas nem eram pavimentadas, e outras eram quase trilhas. Kurama pensava o que é que o presidente estava fazendo com o dinheiro dos impostos para ainda não ter asfaltado aquele recanto. Depois mudou de ideia. Melhor assim, ecologicamente preservado.

O carro foi estacionado perto da escada, porque infelizmente não havia outro jeito de chegar até aquele lugar se não subindo os longos degraus de pedra, tão típicos dos templos japoneses.

Yomi sorriu levemente, sua percepção lhe mostrando que seria um longo caminho até lá. Fazia tempo que não subia escadarias tão grandes. Gandara era uma cidade de elevadores, rampas e escadas rolantes, Nada das velhas escadarias de templos budistas. Aquele lugar, contudo, parecia ser muito bonito. Cheio de pássaros, ar fresco, e uma nascente em algum lugar.

Quando chegaram então ao templo, já encontraram ali a doce Yukina. Yusuke perguntou se Jin, Tiyu, Toya, Shishiwakamaru e Linku haviam dado sinal de vida. Mas parece que eles mandaram um aviso de que estavam em treinamento no Makai, só podendo chegar ao templo de Genkai no dia do casamento mesmo. De fato, muitos dos convidados chegariam no dia da cerimônia, como era o caso de Koenma, Botan e Jorge. Já Hiei sequer se deu ao trabalho de confirmar sua presença. Mas Yusuke sabia que logo, logo ele apareceria.

Após muitas risadas e conversas a noite foi chegando. Yomi se mantinha calado, apenas observando, enquanto Kurama procurava conversar com as outras pessoas.

Sentia que ele ainda não tinha se acostumado com a vida de humano. Sua voz algumas vezes soava simplesmente polida e educada demais para situação. A menos que os humanos não fossem todos como Kuwabara e Yusuke. Todavia, alguma coisa lhe fazia diferente. Aquela voz...

E que voz. Mesmo sem saber, Kurama brincava, mais uma vez com os sentimentos do youkai. Parecia um doce na garganta do ruivo, um doce tão saboroso que fazia vontade. Yomi procurou pensar em outra coisa. Aquele não era mais o youko com o qual dividira uma cama. Não devia se sentir tão atraído.

Não se sabe porque, os rapazes decidiram pegar algumas garrafas, umas batatas, alguns marshmellows e descer até a praia, para acender uma fogueira.

_ Vamos jogar alguma coisa? - sugeriu Yusuke.

_ Que tal truco? - Kuwabara respondeu.

Kurama limpou a garganta. Claro, joguemos truco e Yomi não participa, pensou, frustrado pelo youkai estar ali.

_ Ahn... então que tal "verdade ou consequência"? - Urameshi cantou a pedra.

Kurama ficou um pouco na defensiva. Jogar verdade ou consequência com Yomi?

_ Que tipo de jogo é esse? - Yomi perguntou, para o azar de Kurama.

_ Ah, é bem simples. A gente pega uma garrafas, um graveto, qualquer coisa desse tipo. Aí gira. O graveto vai apontar de um lado quem pergunta e do outro quem responde. A pessoa que responde pode escolher entre responder uma pergunta ou aceitar um desafio. Basicamente é sempre engraçado ou constrangedor. - Kuwabara explicou já se levantando para irem à praia.

Péssimo, pensou Yomi, como ele gostava.

_ É uma boa. Hahahaha. - Yusuke ria com o que vinha em sua mente. - Tenho perguntas para Kuwabara, Kurama, Yomi... Eu topo!

_ Por mim também tô dentro! - Kuwabara garantiu. - Yomi?

Antes que Yomi abrisse a boca, Kurama se manifestou:

_ Ah, gente, vocês sabem que esse tipo de jogo sempre termina mal.

_ Não quando a gente tá bêbado! - Yusuke argumentou, piscando.

_ Principalmente quando vocês estão bêbados. Eu não vou beber nada.

_ Ahhhh, Kurama! Eu nunca te vi bêbado, por que negar o ar da graça agora? - Yusuke choramingou.

Yomi simplesmente pensou: "é, Kurama, eu sabia..."

_ Nada disso, meu amigo. Bom, mas eu sei de um jogo que a Genkai tinha aqui e que é divertido pra caramba, que todos podem jogar e que é muito simples: Jenga. - e Kurama já ia pegar o jogo.

_ Ahh não, Kurama! Jenga é muito infantil. - reclamou Kuwabara.

_ Muito espinhoso jogar "Verdade ou Consequência" para você, Kurama? - Yomi não resistiu.

Tipico.

Yomi não aguentava ficar quieto.

Minamino não sabia o que ele ganhava com isso. Para quê esse tipo de comentário? Não estava mesmo interessado nesse tipo de jogo, ainda mais com Yomi. Sabia que uma hora ou outra o youkai perguntaria alguma coisa bastante grave e que transformaria o fim de semana de Yusuke num verdadeiro campo de guerra, envolvendo coisas que não tinham nada a ver com os amigos. Resolveu então cortar o mal pela raiz.

_ Pra mim não, Yomi. Não tenho nada a esconder da minha vida, tanto como humano quanto como kitsune. - Kurama lhe encarou, e sabia que Yomi percebia sua encarada. - O que acho é que Jenga é mais divertido. Já joguei "verdade ou consequência" o suficiente pra saber que termina sempre com alguém magoado com a verdade.

"O que é que ele está pensando, que eu não aguento verdades? Kurama..." O rei de Gandara pensava.

_ Posso jogar sim. Mas prefiro jenga. Se vocês querem beber, eu abro uma concessão, então. - negociou - Podemos jogar Jenga e quem perder bebe um copo de sakê ou sei lá o que vocês tão levando. Assim todo mundo fica feliz.

_ TÁ LEGAL! - Yusuke e Kuwabara animaram, esquecendo então do outro jogo.

Então ficou decidido o Jenga. Kurama rapidamente pegou o jogo e mais uma vez o grupo encarou as escadas.

_ E ae, Yomi, só te aviso que sou ótimo no jenga! - Yusuke falou.

_ Que nada, Yusuke. Você tem uma tendência a perder pra mim, e dessa vez acho que não vai ser diferente.

Shizuru e Yukina ficaram no templo, uma vez que aquela era uma espécie de despedida de solteiro. Pena, pensou Yomi, a mulher-fumaça parecia realmente mais interessante e ele sabia que Yusuke não pararia de falar com Kuwabara para lhe dar atenção.

O grupo chegou então a praia.

Kuwabara estendeu uma esteira que tinha pego, procurando deixar o lugar bastante plano para montar o jogo. Kurama pegou alguns galhos secos e Yusuke lhe ajudou a acender uma fogueira. Trouxeram alguns marshmellows e batatas para assar. Yomi, sem saber muito o que fazer, apenas observava, com a audição e os demais sentidos muito aguçados, enquanto no seu rosto se encontrava aquela indefectível expressão de calma.

Pensou no que Kurama falou. Soou frio para os outros, mas foi muito agressivo para quem entendia o contexto. Frio e letal.

Enfim, após Kuwabara explicar as regras ao youkai, começaram uma partida. Logo na primeira, Kazuma foi quem derrubou a torre. Como sanção, precisou beber uma dose de tequila. O interessante em jogar e beber é que cada partida ia ficando mais difícil.

_ Se o Tiyu tivesse aqui ia ser moleza pra ele - comentou Yusuke, rindo e tirando uma peça, para depois colocá-la na parte de cima.

_ É mesmo! Se bem que ele perderia todas! - Kuwabara falou, quando chegou sua vez. - Ai, Kami-sama, tomara que não caia!

_ Bem, mas eu desconfio que vocês também não estão jogando a sério. - Kurama falou, ainda sóbrio, estrategicamente tirando uma peça de algum lugar estável.

_ Eu concordo com isso. - Yomi tirou uma peça que sentia estar solta. - Não é um jogo difícil. Se vocês queriam beber, era mais fácil simplesmente fazê-lo.

_ Bom, mas e a graça? - Yusuke pegou qualquer peça aleatória, pois jogava na sorte e ganhar ou perder era lucro.

E a peça caiu, enquanto Yusuke, como uma criança, ria sem parar, ia tomar mais uma dose de tequila, com limão e sal.

_ Ahh, gente, só eu e o Urameshi que perdemos! E ficar bêbado com gente sóbria não tem graça nenhuma. - falou Kazuma, tentando desajeitadamente remontar a torre de peças de madeira, para iniciar uma nova partida. - Então deem um jeito de perder!

_ Bom, eu não tenho culpa se vocês são péssimos. - Kurama falou.

_ Ah, mas a gente pode dar um jeito nisso, meu fio. Não organizei um torneio no Makai com um monte de demônio idiota e os outros que ninguém achava que iam aceitar, né Yomi? Então. Vamos fazer duas chaves e o campeão de cada uma joga o duelo final. Assim fica mais tenso!

Então, Yusuke pegou alguns gravetinhos e corto-os em diferentes tamanhos. E assim, a primeira partida foi decidida entre Kuwabara e Kurama. É claro que Kurama ganhou, sem grandes dificuldades. De qualquer forma o seu amigo grandão estava mais interessado na bebida que no próprio jogo. Depois foi a vez de Yusuke e Yomi. Era engraçado como mais uma vez os dois duelavam, empolgados.

Esse Yusuke não queria perder. Era muito bom lutar contra Yomi, ainda que fosse numa partida de Jenga. Mas o rei não tinha bebido nada até agora, e Yusuke era o mais bêbado dos caras. Então, o que aconteceu foi que depois de cinco turnos ele perdeu.

_ Ihh... agora eu vô pra galeraaa! - ele falou, tomando outra dose de tequila.

Então sobraram Yomi e Kurama. Os outros dois amigos conversavam alto, andando pela praia, enquanto Kurama arrumava as peças esquecidas.

_ Acho que agora somos nós dois. - Kurama tinha essa habilidade de falar o óbvio quando não tinha muito o que dizer.

_ Sim, mas eu não estou querendo perder.

Os dois começaram a jogar, meio deslocados, como dois desconhecidos. Kurama, como bom observador, era muito bom nesse tipo de jogo. Mas Jenga é um jogo de nervosismo, que não requer muita estratégia. Você tira as pedras fáceis e o jogo se torna mais difícil, até chegar ao ponto de alguém não conseguir tirar as peças sem desmontar toda a estrutura da torre de madeira. Não havia como montar uma tática, do jeito que ambos estavam acostumados a fazer.

_ Boa escolha, Kurama. - Yomi tirou uma peça.

_ Sim.

Com o passar do tempo, Kurama acabou deixando as peças caírem, simplesmente porque no seu turno não havia mais peças que tirar sem afetar a estrutura.

_ Bom, parece que você perdeu. - Yomi falou apontando para a garrafa ao lado deles.

Nesse meio tempo, Yusuke e Kuwabara já se encontravam brincando na água e devorando marshmellows.

_ Que tal fingirmos que eu bebi? Assim aqueles dois ali sossegam.

_ Ora, Kurama, estamos aqui para jogar não para fingir.

Kurama balançou a cabeça, soltando um suspiro de desânimo.

_ Está bem, você ganhou. É justo.

O ruivo abriu uma nova tequila, o limão e o sal. Primeiro o limão. Depois a tequila e o sal vinha a seguir. Para Shuuichi Minamino foi uma experiência diferente. Até então seu corpo humano numa havia ingerido nenhum tipo de bebida alcoólica. A mistura desceu queimando e Kurama tossiu discretamente.

_ Não está acostumado? - Yomi perguntou, deixando transparecer um interesse incomum.

_ Pois é. - Kurama respirou um pouco. - Bom, quero uma revanche.

_ Tudo bem.

E o rei de Gandara montou as peças.

Um nova partida foi realizada, e novamente Kurama perdeu.

_ É... as coisas pioram muito com o álcool. - Minamino comentou.

Então Yomi fez algo que surpreendeu o bom Shuuichi. Pegou a tequila da garrafa recém-aberta e deu grandes goles, deixando-a pela metade. Abaixou a garrafa e deixou-se deitar na areia, apoiando a cabeça com o cotovelo e relaxando um pouco.

_ Agora podemos jogar. Talvez assim fique um pouco mais divertido que nossas conversas monótonas.

Minamino suspirou recomeçando o jogo.

_ É que não temos muito assunto. - comentou.

_ Bom, vamos fingir que temos? - Yomi falou. Um sorriso leve iluminando seu rosto.

Kurama bebeu um pouco mais. É impressionante como o primeiro copo é tão mais difícil que o segundo.

_ Você disse que estamos aqui para jogar e não para fingir, Yomi.

Yomi parou de sorrir. O ruivo tinha lhe pego no pulo do gato.

_ É... acho que você está, certo, afinal.

O fogo trepidava perto dos dois. Kurama pegou uma batata, colocou no seu graveto e resolveu assá-la.

Nesse momento Yusuke voltava, como se tivesse feito a descoberta da sua vida.

_ Ae, tio Yomi! Já passou da meia-noite! Feliz aniversário! - disse, indo dar-lhe uma chave de braço e um coque.

Mas Yomi foi mais rápido e afastou o bêbado Yusuke apenas empurrando-o para trás com o cotovelo. O rapaz esborrachou-se sentado na areia, como um bolinho que é jogado na farinha de empanar. Kuwabara, que vinha atrás, morreu de rir da cena.

_ Agradeço os parabéns, mas acho que ainda faltam muitos aniversários para você conseguir a façanha de me pegar desprevenido, moleque. - observou o youkai.

_ Tá pensando que berimbau é gaita, Urameshi? - Kuwabara falou ainda rindo muito.

_ Ahh, Kuwabara, que que cê tá me zoando, hein? Vai tomar um caldo agora pra deixar de ser besta! - e falando isso, Yusuke voltou a correr atrás do rapaz de cabelos alaranjados, tentando derrubá-lo no mar.

Yomi deixou escapar um comentário divertido, por um momento esquecendo que falava em voz alta:

_ Se eles se afogarem, eu não me importaria nem um pouco.

O sopro do vento passou pelos jogadores, atiçando a fogueira, que trepidava como que para provocar a brisa. Como se dissesse "venha, se puder". O cheiro de maresia, porém, ia e vinha, acentuado pelas ondas do mar.

_ Não sabia que era seu aniversário. Parabéns. – cumprimentou Kurama, com um sorriso gentil.

_ Obrigado, Kurama.

Se conheciam há séculos e ele nunca teve interesse no dia do aniversário de Yomi? Que espécie de parceiro era aquele? Yomi ressentiu-se. Se fosse feito de vidro agora, provavelmente poderia se notar uma mínima lasquinha se descolando na superfície remendada. O remendo nunca fica muito perfeito. Na verdade a coisa piora cada vez que se tenta colar. O melhor seria deixar quebrado ou jogar fora.

Mas se ele sentiu, não transpareceu. Não era mais dado à escândalos dessa ordem. Bem... pelo menos não no tempo que estivera longe de Kurama.

_ Por que não disse? Poderíamos ter comprado um bolo...

"Por que não disse?"

"Por que não disse, afinal, Yomi?"

"Ora, Yomi, se tivesse dito eu saberia."

"Não esqueci, você que não disse."

Quantos anos mais teria que ouvir isso? Umas poucas variações, mas a mesma frase.

Vão se os dedos, a roupagem prateada e de olhos dourados, ficam-se os anéis, a essência, aquela essência sândalo que queimava excitante, sem se importar com quem estivesse sorvendo seu aroma.

_ Ah. Nunca foi muito importante. Acho que só comentei mesmo com Yusuke, nem lembro pra quê.

_ Claro que é importante.

"Como assim claro que é importante, Youko? Não seja cínico!" Desde quando era importante? Importante para quem? Demônios como Yomi vivem demais. Aniversários anuais passam tão rápido quanto as fases da lua. Definitivamente não era importante. Nem para ele era importante. Quanto mais para Youko Kurama.

Subitamente Yomi, com um gesto de mão, destruiu a pequena torre de Jenga.

_ Parece bebida me deixou um pouco sem ânimo para jogos. - justificou-se.

Lá longe os outros dois rapazes se aproximavam novamente. Kuwabara completamente molhado, Yusuke sujo de areia até nos ouvidos.

_ Ah, Yomi, você sempre foi fraco com bebidas...