2º capitulo
A garrafa de vinho estava rolando pela pia. A terceira delas, era importante frisar. A roupa na lavanderia estava acumulada, e em pouco tempo nada teríamos pra vestir, e o jantar não tinha intenção de ser feito. Como não tinha sido nas outras da semana, e quem sabe do mês. As muitas mamadeiras de Rose a Hugo ainda estavam sujas, e o cheiro de leite já azedo estava revirando o meu estômago, porém, eu simplesmente não conseguia lavar a louça. Era uma simples feitiço, e eu não conseguia!
Ginny havia passado uns dias antes pra levar as crianças pra sua casa, afim de "brincarem" um pouco.
Mas era claro que não foi por isso que levaram meus filhos. A família do meu querido esposo não confiava em mim como mãe, essa era a verdade. Talvez eu também não confiasse em mim mesma, afinal sempre que um deles chorava, eu sempre acabava nervosa. Eu amava meus bebês, profundamente. Mas em contrapartida, eu odiava a minha casa, a minha rotina, o meu próprio inferno. Diariamente eu pedia a Merlin pra botar fogo em todos aqueles pertences que pareciam ser de outra Hermione Weasley, enquanto eu simplesmente viajava com meus filhos.
Ron pareceu agüentar a barra da minha loucura na primeira semana. Ele mesmo arrumava a casa, alimentava as crianças, tentava conversar comigo. Ao ver esses momentos de tanta ternura familiar, eu queria me entrosar, eu queria participar daquilo, queria ver os meus pimpolhos tentando chamar "mamãe!". Mas eu não conseguia. Eu me trancava no quarto, e jogada no chão, encarava as paredes.
Na segunda semana, Ron precisou ir em uma de suas milhares de viagens a trabalho, e os gêmeos Weasley ficaram por aqui. Eles acharam que seria importante me animar, trazendo assim uma enorme mala de travessuras e bebidas alcoólicas. Só as bebidas foram bem aproveitadas por mim. Eu ficava bêbada com uma certa freqüência, e ficava com as crianças na sala, rindo de nada, de tudo, de qualquer coisa, e depois acabava dormindo. Os gêmeos se culparam muito por esse estágio da minha vida, que além de ter feito de mim uma inútil, tinha feito de mim uma alcoólatra.
Na terceira semana, Ron disse que ia passar uns dias na casa da mãe, pra eu pensar um pouco na "atitude egoísta e infantil que estava tomando", e provavelmente mandou Ginny vir buscar as crianças. É como se de repente um ralo fosse desentupido dentro de mim, e tudo que estava entupido finalmente pudesse ir embora. Eu começava a sentir o gosto amargo na boca, e não era a ressaca.
A paz da minha casa não mais era ansiada... ela estava lá. Era como um martelo constante sobre um prego, me lembrando que era somente eu de novo. Talvez eu já fosse novamente, Hermione Granger. Eu tive essa esperança durante uma noite ou duas, porém eu estava perdida. Eu não queria aceitar aquilo, que eu nunca mais seria só Hermione Granger, embora a minha personalidade não encaixa-se em Hermione Weasley. Eu não sabia quem era. Não era falta de amor, não era falta de vontade. Era só falta de destino... eu nunca quis ser essa pessoa amargurada, porém, de repente eu era.
Talvez eu não saiba quando veio, mas a salvação sempre vem. Um dia eu acordei, e ele estava lá. Provavelmente estava lá a muito tempo, só pensando no que eu me transformei. Um nada, um caminho perdido da vida dele.
"Você podia ter me chamado, Mione. Eu teria vindo te ajudar." Disse Harry sentado na cadeira ao lado da minha cama. Eu não conseguia ver no rosto dele nenhuma expressão, mas eu não precisava, eu sabia o que ele tava sentindo. Ele estava profundamente ressentido por eu ter me deixado chegar a esse ponto. Harry sempre foi um pai bom demais, e talvez na mente dele seja inconcebível uma mãe desistir de sua família. Ele não entende que certas atitudes não são exatamente decisões conscientes. Mas eu saber que estava certa, não aliviava a dor que a opinião dele causava. machucá-lo sim, iria aliviar minha carga.
"Claro que sim, Harry. Você teria largado seu casamento falido pra vir ajudar sua amiga patética. Desculpe se eu não quis ser a desculpa para o seu próprio caos."
"Pra quem só bebe o dia todo e não conversa mais com a família, você está bem informada sobre meu casamento." Ele respondeu ácido, enquanto com um aceno de varinha fazia um feitiço de limpeza no meu quarto. Do jeito que meu melhor amigo era, provavelmente já tinha feito a mesma coisa em todos os cômodos.
"Só porque eu não converso com as pessoas, não quer dizer que eu não leia jornais."
Harry arqueou a sobrancelha.
"E você acredita em fofoca de jornal agora?"
"Eu acredito que seu casamento com Ginny nunca daria certo." Eu respondi enquanto fitava o teto, sentindo me de repente franca demais. Porque eu queria ferir Harry? Já não era de agora. Era de antes. Desde que ele me disse que ia se casar, uma dor crescente me assolava quando o via, e eu só queria acabar com a felicidade dele. Eu queria gritar com ele, sacudi-lo até que ele sentisse alguma coisa. Qualquer coisa.
"Eu sei disso. Você me disse." Ele respondeu enquanto sentava na beirada da cama. Ele vestia um terno bem alinhado, cor de chumbo, que o deixava com uma aparência de ser mais forte do que era.
"Eu estava certa."
"Talvez." Ele me respondeu balançando os ombros. "Eu pelo menos estou tentando acertar as coisas com Ginny e as crianças."
"Isso é uma acusação?" eu perguntei olhando pra ele impassível. Não que eu não estivesse brava. Eu estava. Porém demonstrar raiva exigia muita energia.
"Você tem filhos, filhos que sentem falta da mãe Mione. E não é só isso... você tinha toda uma carreira. Você é a mulher mais inteligente que eu conheço, e usa toda essa inteligência fazendo nada. É isso que você quer? Ser um vegetal nessa cama pra sempre? Tanta gente querendo viver, e você, dia após dia, joga a sua vida pela janela! E Ron? Oh Mione, vocês se amam! Como você pode deixar ele ir embora?" Harry a cada frase ficava mais agitado, gesticulando e de vez enquando pegando no meu joelho. Pequenas descargas elétricas me percorriam toda vez que esses toques aconteciam, e eu tentava não tremer.
"Ron desistiu muito fácil, Harry. Ele simplesmente queria ir. E você não sabe nada sobre o meu amor com ele." Eu olhei pra ele angustiada, esperando que ele entendesse. "Ai Harry. Eu cometi um erro terrível ao me casar com Ron. Ninguém vê que casamento não é só amor. Eu talvez o ame, não sei! Mas o máximo que eu amo é como um irmão querido. Não há paixão entre nós. Você não sabe como é viver em um casamento sem paixão. É como comer mingau frio todas as manhãs e ter que dizer para a mãe que é a nossa comida favorita e que é isso que nós queremos comer todas as manhãs. E de repente... não sei... talvez eu queira comer ovos."
Harry me olhou pensativo por um minuto, e se deitou ao meu lado na cama.
"Quer dizer então que Ron não tem ovos? Eu sempre soube que ele era meio gay."
E eu ri. Pela primeira vez em 7 meses e 28 dias.
Eu estava no andar debaixo, pasmem, lavando roupa. Harry do meu lado, já sem o paletó do terno, gravata e sapatos, estava tirando um pouco de roupa da secadora. Nós estávamos em silêncio durante um tempo, sem necessidade aparente de falar.
Ele assobiava uma canção do The Who que a muito tempo eu não ouvia, já que Ron não era muito fã de artigos trouxas em casa. Obviamente então, nem um som nós possuíamos. Segundo meu excelentíssimo marido, se eu quisesse música, que eu chamasse uma das fadas do jardim pra cantar pra mim.
"Porque você veio?" eu perguntei hesitante, com medo de assustá-lo. Nos últimos tempos eu me pus em completa solidão, mas ao contrário do que eu pensei, naquele dia a companhia do Harry me acalmava a alma.
"Você estava com problemas." Ele me respondeu com as costas voltadas pra mim, mas eu vi que antes de responder todo o seu corpo ficou rígido.
"Estou com problemas tem um tempo Harry."
"Okay então. Eu estava com problemas. Meu casamento realmente ruiu." Ele respondeu, dessa vez virado pra mim, enquanto cruzava os braços.
"Não se preocupe. Assim que eu descobrir como se conserta casamentos, eu conserto o se. Quem sabe o meu depois, e se Merlin quiser talvez eu consiga consertar o casamento do príncipe Charles e Diana."
Ele riu levemente, e se voltou de novo para a secadora.
"Você quer ficar por aqui um tempo?" eu perguntei, parando do lado dele, ajudando-o a dobrar a roupa.
"Não."
"Porque não?"
"Não quero meus filhos lendo no jornal que o pai está tendo um caso com a madrinha deles."
"Não sabia que os meninos tinham aprendido a ler. Tão espertos!" eu debochei, empurrando o levemente.
"Você entendeu, sua pequena víbora."
"Nós não temos um caso." Eu respondi meio desgostosa. Talvez eu quisesse ter um caso com ele.
"Mas todo mundo irá pensar que sim, inclusive Ron e Ginny."
"Talvez isso ajude a apimentar o relacionamento e nós conseguiremos ajeitar tudo. Eu acabo de descobrir que não gosto de ficar sozinha, Harry. Fique."
"Se você não gosta, ligue pra porra do seu marido e peça pra ele voltar!"
"Talvez eu não queira meu marido, talvez eu queira você." Eu respondi me sentindo totalmente ousada. Colei meu corpo no dele, me esquecendo que eu não tomava banho a dias, e talvez semanas que não penteava o cabelo. Pelo menos eu teria uma desculpa, quando ele me desse um fora.
"O diabo que você está com depressão Hermione. Você anda é louca, isso sim!" Ele exclamou enquanto me segurava pelos ombros e me balançava levemente.
"Você nunca pensou sobre o assunto?" eu disse me afastando dele, provavelmente ruborizada. Quer dizer que as pessoas achavam que eu estava depressiva? Será que Harry por acaso tinha vindo com medo que eu cometesse uma loucura?
"Sobre o que? Trair minha mulher?" ele disse passando os dedos pelo cabelo, parecendo frustrado. "Deus, não. Não depois do casamento."
"Engraçado. Meu casamento é um lixo, mas eu também nunca tinha pensado."
"Você pensou agora? Realmente? Agora, comigo?" ele perguntou surpreso, me olhando de rabo de olho.
"Acho que sim, não sei exatamente." Eu respondi sincera. "Eu só queria saber se é tão ruim com outra pessoa como é ruim com o Ron. Porque se fosse, talvez seria mais fácil simplesmente aceitar que eu nunca conseguirei nada melhor."
"Você tá falando de sexo?" ele perguntou enquanto saia da lavanderia e se dirigia a sala de estar, enquanto eu seguia.
"Não, não estou. Eu tô falando de convivência. Mas também de tesão quem sabe." Eu respondi balançando os ombros.
"Tesão não seria o mesmo que sexo?"
"Obviamente que não. Tesão é vontade de fazer sexo, diferentemente do ato em si."
"Claro, Sra. Dicionário. Então, quer dizer que Ron não te excita?" ele perguntou enquanto vestia o paletó do terno, se preparando pra ir embora. De repente, eu queria urgentemente que ele ficasse, e não que voltasse pra Ginny.
"Nenhum pouco. Na verdade, ele faz exatamente o contrário."
Harry riu abafado e olhou pra mim debochado.
"E como vocês conseguiram dois filhos ehn?"
Eu também ri, encostando no batente da porta.
"Eu não podia ter dor de cabeça todos os dias do mês."
Nesse ponto ele riu e eu acabei rindo também. Eu tomei fôlego, e acabei pedindo pra ele dormir lá.
"Não seria bom." Ele me respondeu, mas dessa vez eu sentia que ele estava indeciso.
"Você tá só ajudando uma amiga com depressão." Eu disse fazendo uma careta. "Mande uma coruja pra Ginny e diga que eu enlouqueci de vez, sei lá. Só dê um tempo pra nós."
Agora ele tava bem próximo à mim, e eu podia ver com detalhes a sua barba já começando a crescer e os detalhes do seu olho verde tão vivo. Se eu me levantasse só um pouco, talvez eu conseguisse beijá-lo.
Harry olhou pra porta, olhou pra mim cheio de indecisão, e depois pra mim de novo.
"Droga! Que se dane." Ele disse enquanto tirava novamente o paletó.
Nota da autora: Demorei um pouquinho só, mas foi porque a inspiração simplesmente não vinha! Eu tinha tantas idéias, tantas coisas que eu queria dizer, mas na hora de escrever não ficava do jeito que eu queria. Muito pensamento e pouco dialogo, que é uma coisa que eu não gosto muito. Mas enfim, saiu o capitulo, que como o outro ainda não foi betado, e que eu também não tive muita atenção ao revisar. Provavelmente tem uns errinhos, principalmente de idéias opostas, porque eu escrevi o primeiro capitulo tem muitooo tempo, e já não lembrava direito dos detalhes que eu tinha dado. Não se preocupem, porque assim que eu achar uma beta eu arrumo tudo! sorriso estilo não-joguem-pedras. E bom, no capitulo anterior eu disse que a fic provavelmente teria três capitulos, mas tanto tempo passou, eu tive tantas idéias, que eu acho que TALVEZ tenha um pouco mais. Provavelmente mais uns dois capitulos e um epílogo, quem sabe. E não vai demorar um, calmaa! tenho mania de ficar pedindo calma, não se estranhem.
Tive duas reviews, e como eu achei muito fofo da parte das meninas deixar (haihaihaiahia), eu preciso comentar!!
butterflypotter: HAIAHIAHIAHAIHAIAH... olha, quando eu escrevi o sumário eu passei longeeee dessa idéia que você me deu, mas agora que eu andei pensando, talvez eu posso encaixar esse fato! Porque não a Rose ser filha do Harry? Ou talvez do Draco. riso maléfico É por isso que essa fic nunca vai ter fim. As idéias vão sempre surgindo.
Mione Ootori: Bom, foi só um mês pra atualizar. E acreditee, sua review foi importante pra isso. haiahiahai Toda vez que eu pensava em sair, eu lembrava que você tava esperando o capitulo e me obrigava a escrever um pouquinho! ahaiahiahaihaiah Tá aí então, e acho que o resto também não demora.
E é isso.
xoxo
