Capítulo 2
Remus Lupin era apenas um rapaz comum. Não tinha a beleza extraordinária de Sirius Black, ainda que não deixasse de agradar aos olhos, é verdade, não faria mal algum que tivesse um pouco mais de carne sobre os ossos magros. Também não possuía uma armadura ou uma espada imponente, nem uma lista de grandes feitos, batalhas vencidas, ou qualquer coisa do gênero. Enfim, nenhuma grandeza externada. Sua beleza, sua força vinha principalmente de dentro, dos gestos simples, da sua incapacidade de ferir quem quer que fosse, e sobre tudo, da coragem de ser sempre justo e verdadeiro ainda que em prejuízo próprio. Era um ótimo rapaz, pobre, mas trabalhador, já passara por maus bocados na vida, mas nunca usara isso como desculpa para justificar seus tropeços. Levava uma vida difícil mas nem por isso deixava-se corromper pelo desânimo ou amargura. Seria de se esperar que, a sorte, um dia sorrisse para alguém assim, com uma alma tão boa... Mas não foi bem assim. Foi exatamente o contrário. Mais uma vez tudo tinha dado errado para Remus Lupin. Era por isso que ele agora estava só, mais do que nunca estivera, exilado do mundo, dos homens; sem lar, sem futuro, sem esperança, amarrado num estábulo imundo de uma estalagem barata, dormindo entre os animais. Mas sua desventura apenas começava.
O garoto acordou sobressaltado, e por alguns segundos benditos, chegou a acreditar que tudo o que lhe acontecera nos últimos dias não passava de um pesadelo, mas a ilusão rapidamente se desfez e a realidade o atingiu com a força de um raio tão logo percebeu as mãos amarradas e dormentes. Todo seu corpo doía terrivelmente, sua cabeça parecia que ia explodir e tinha tanta fome que pensava seriamente em experimentar um punhado do feno à sua frente. Desejou dormir novamente para ter pelo alguns breves momentos de paz e esquecimento, mas isso ele já não podia, não estava mais a sós com os cavalos. Ouvindo os sussurros no escuro, encolheu-se um pouco mais atrás do monte de feno, desconfiando de que, aquela movimentação escusa no meio da madrugada, não poderia indicar boa coisa.
"Você veio mesmo", disse uma voz masculina, rouca e máscula.
E mais uma vez, a risada estridente que o havia tirado do mundo dos sonhos, ecoou por todo estábulo. Logo se seguiu uma sucessão de sons e estalidos que fizeram o pobre garoto se afundar ainda mais atrás da pilha de feno.
"Espera, espera apressadinho!" disse a voz feminina, dona da risada Não quero que você pense que eu sou sempre assim...
"Hã!" exclamou o homem, que agora parecia ter alguma coisa na boca, num tom que deixava óbvio não estar, exatamente, pensando naquele momento.
"Quero dizer, não pense que sou sempre assim tão... Amistosa com todos que passam por aqui."
Remus não sabia se ria ou se chorava. O homem não respondeu, apenas deixou escapar um som abafado parecido com um engasgo, mas ela continuou:
"É que o jeito que você me olhou, você é muito bo-o-BO-nito hummmm... e e-e-EU ... ai... não resis... Aí! ISSO! Oh... Deus..."
Remus desejou morrer, ele não queria passar por mais aquela provação! Tinha que fazer alguma coisa! Enquanto ele decidia se um falso acesso de tosse ou se um simples pigarrear resolveria o caso, a mulher começou novamente:
"É que o meu marido..."
O homem soltou um palavrão, que tentou rapidamente disfarçar, com delicadeza emendou:
"Er... querida, você não prefere dar uma utilidade melhor para essa sua boquinha tão linda?"
Remus resolveu que já era o suficiente, levantou-se de supetão e começou a tossir no melhor estilo tuberculoso. A mulher soltou um gritinho assustado, se preocupando em esconder o rosto, mas esquecendo de tapar todo o resto, o homem se limitou a encará-lo, nem um pouco constrangido, mas extremamente aborrecido e irritado.
"Dá o fora tarado!" ordenou num rosnado, ameaçando-o com um olhar assassino.
O garoto, indignado, se limitou a erguer os braços mostrando as mãos amarradas ao redor da pilastra, tentando não olhar para nenhuma parte mais específica exposta à luz trêmula dos archotes. O homem, encarando-o enfurecido (como se ele desejasse estar ali!) puxou um punhal de suas botas, Remus chegou a fechar os olhos esperando o golpe, mas este foi dirigido à suas amarras que caíram por terra libertando-o.
"Obrigado!" disse cheio de ironia e saiu rapidamente para a noite escura.
A mulher observou o estranho se retirar por entre os vãos dos dedos, espantada, tentando lembrar o que o jovem poderia estar fazendo amarrado em seu estábulo. Seu marido não havia comentado algo a respeito mais cedo? O que era mesmo? Na ocasião estava distraída, pensando no encontro de mais tarde com o jovem forasteiro á quem acabara de servir o jantar, de qualquer forma ela nunca prestava atenção ao que o marido falava. Seria algo importante? E se... Mas logo desistiu de pensar, porque um par de mãos quentes e fortes a envolveu, puxando-a de encontro a um corpo jovem e firme, lábios de fogo tocaram sua pele que logo se incendiou novamente, fazendo-a esquecer de tudo.
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Sirius acordou na manhã seguinte amaldiçoando o vinho vagabundo do estalajadeiro, mas bendizendo a esposa do mesmo. Sua cabeça já tivera dias melhores, mas as lembranças da noite passada logo lhe puseram um sorriso nos lábios perfeitos. Tinha sido uma loucura, mas com ele era sempre assim, também estava precisando, estivera um tanto quanto entediado desde a última missão. Levantou-se devagar, espreguiçando e tirando o feno das roupas e cabelo desalinhados, acabara dormindo no estábulo mesmo, depois que a amante voltara para amanhecer ao lado do marido. Sem muita disposição, dirigiu-se para a estalagem, tinha que acordar aquele improfícuo do seu criado para logo seguirem viagem.
Não tinha dado dois passos ainda, quando um urro colérico, seguido de gritos e do inconfundível som de mobília estraçalhada, irrompeu do salão. Claro que qualquer pessoa sensata e comum correria na direção oposta da voz que rugia feito um dragão ensandecido, mas Sirius, que não era nem uma coisa nem outra, fez justamente o contrário. Mal alcançou a porta esta se abriu, com tamanha rapidez e violência, que quando deu por si já estava voando a uns dois metros de distância e aterrissando no chão poeirento do pátio. Viu uma imensa massa negra e barbuda avançar para o estábulo, totalmente alheio à falta que acara de cometer contra ele. Atrás do homenzarão, o estalajadeiro pálido e próximo a uma síncope vinha arrastado, literalmente, arrastado.
Aquilo era demais para a honra de um cavaleiro! Sabia que não era com ele, ele não tinha absolutamente nada a ver com aquela história, (era o que pensava) mas seu bom-humor já tinha ido para as cucuias com o ataque berserker daquela montanha ambulante. Ergueu-se furioso e seguia ao encalço da dupla, determinado a tirar satisfações com seu agressor, quando um novo grito, que só poderia pertencer a uma alma submetida ao mais doloroso dos martírios, ecoou naquela manhã já tão conturbada:
"Eu o amarrei aqui! Eu juro!"berrou em desespero o estalajadeiro antes de desabar, flácido como uma flor murcha, nas mãos de seu algoz.
A essas palavras Sirius estacou de súbito, assaltado por certa lembrança da noite anterior, que já tinha sido completamente esquecida, mas que agora voltava bem clara, juntamente com a sensação de que tinha feito uma grande, uma enorme, besteira. Percebeu que afinal de contas ele tinha alguma coisa a ver com aquela história sim! E foi como se o grandalhão também percebesse, pois, finalmente dando-se conta de sua presença em toda aquela cena, apontou-lhe o dedo imenso e com o olhar cheio de suspeitas correu para ele:
"Você!" rugiu, lançando fora o pobre homem em suas mãos como se fosse um trapo velho.
Sirius cruzou os braços e esperou. Não se importava que não fosse tão inocente naquele caso, já tinha comprado aquela briga mesmo e estava cansado daquele imbecil berrador que achava que podia sair por aí intimidando meio mundo só por causa do seu tamanho.
"O que estava fazendo aqui fora?" gritou mais uma vez encarando-o de cima. Os rostos amarrotados de alguns hóspedes já espiavam pelas janelas entreabertas da estalagem.
Sirius apenas sorriu e respondeu:
"Muitas coisas, nenhuma das quais sejam da sua conta."
É! Parece que aquele empurrão, havia ferido bem mais que o belo traseiro Sir Black!
