Ficou
surpresa quando saiu da sorveteria e o encontrou observando, com ar
interessado, a vitrina da loja de roupas masculinas. Antes que se
distanciasse na direção oposta ele já estava a seu lado.
-
Precisa deixar que eu tente desfazer a péssima reputação que os
ingleses parecem ter para você. Nem todos os ingleses são
desprezíveis mulherengos como pensa. – disse ainda com um brilho
zombeteiro no olhar - Deixe-me provar-lhe isso... Tome um aperitivo
comigo hoje à noite, depois que as crianças dormirem, no bar do
hotel.
Quando
ela ia responder ele tocou-lhe o braço de leve.
-
Por favor, hoje é a minha última noite em Veneza.
O
corpo de Hermione reagiu ao leve contato arrepiando-se como o de um
gato.
-
Creio que não - Enquanto respondia ela lembrava-se de Vitor, de como
ele conseguia ser meigo e persuasivo no começo. O bebê mexeu-se e
resmungou - Tenho que ir - apressou-se - O bebê tem que mamar. Até
logo!
-
Eu também vou voltar para o hotel.
Ele
não entendera que ela o queria longe. O inglês passou a caminhar ao
lado dela, segurando-a de leve num cotovelo, guiando-a entre a
multidão. Hermione zangou-se consigo mesma ao perceber que gostava
da mão dele em sua pele nua.
-
Vou me trocar e arrumar a mala - contou ele - Depois tenho um almoço
com meus colegas no Cipriani antes da conferência desta tarde.
O
que queria dizer que era a última vez que o veria, pensou Hermione
com o que deveria ser satisfação, mas teve vontade de se castigar
quando notou que era uma leve decepção.
-
Por favor, não se atrase por minha causa - pediu - Julia não pode
andar mais depressa.
-
Na verdade não estou com pressa – disse ele encurtando o passo
para acompanhar o dela. - Então quer dizer que voará para a
Austrália no fim da semana... Irá diretamente daqui ou passará em
Londres?
-
Tenho que passar em Londres para pegar o resto das minhas coisas, mas
pegarei o primeiro vôo assim que chegar – disse com má vontade.
-
Não quer me dizer o seu nome?
-
Hermione. - ficou sem jeito com a má vontade que transparecia em sua
voz e procurou falar com suavidade, porém as sobrancelhas
ergueram-se em sinal de irritação ao acrescentar - Hermione
Granger.
-
Ronald Weasley. Vou para a Austrália daqui a alguns dias.
-
Mesmo? Férias? - Fez a pergunta sem querer.
-
Em parte. Vou também a negócios. Tenho interesses a tratar em
Melbourne e um casamento a comparecer. Tenho uma fazenda de criação
de ovelhas na região oeste de Victoria, a cerca de três horas de
Melbourne. Terei que ficar por lá, substi¬tuindo meu administrador
que vai viajar em lua-de-mel. Em que região da Austrália você
mora?
-
Melbourne - novamente Hermione lamentou a tensão em sua voz, queria
ter respondido com indiferença, queria demonstrar que não
significava nada eles estarem indo para o mesmo lugar.
-
Por que tem tanta pressa em ir para lá?
-
É um caso de urgência. – disse com uma voz fria - Terei pouco
tempo para mim quando chegar lá.
-
Problemas familiares? Doença?
-
É a minha... - calou-se. Sua irmã não gostaria que falasse de seus
problemas pessoais com um estranho. Nicole jamais conver¬sara com
ela sobre seus desgostos matrimoniais por meses. Negara que tivesse
qualquer problema, dando todas as desculpas do mundo para um marido
grosseiro e egoísta. Mas com o tempo, havia ficado difícil esconder
o que acontecia e Nicole lhe pedira socorro. Hermione morava em
Londres e era a única que poderia impedir que a energia e o telefone
fossem desli¬gados por falta de pagamento - Importa-se de falar de
outra coisa?
-
Oh, claro, vai procurar emprego assim que chegar em casa?
Teria
que procurar um emprego, uma vez que Vitor a impossibilitava de
voltar para a empresa onde tra¬balhara. Ele era sócio da
prestigiada firma que ia a Melbourne de tempos em tempos. Podia até
mesmo transferir-se definitivamente para lá, como ela fizera indo
para Londres. No entanto, graças a Vitor, não ficara na matriz da
empresa os seis meses planejados. Pedira demissão e ia ser difícil
arranjar emprego igual ao que tinha na maior empresa de Melbourne,
mesmo que Vitor não fizesse a maldade de espalhar o boato que ela
não era confiável. E ele era capaz disso, porque fazia de conta que
não a traíra. "Essa mulher nada significa para mim",
havia sido a patética de¬fesa dele quando ela o apanhou com a
outra.
-
Ainda não decidi - respondeu - Boa viagem de volta a Londres.
Entrou
atrás da apressada Julia pela porta de vidro que Ronald Weasley
manteve aberta. Não desejou o mesmo para a viagem a Melbourne
esperando que ele compreendesse que não queria vê-lo de novo.
Ronald Weasley era muito cheio de si; bonito demais, sexy demais,
encantador demais... E, como Vitor, considerava-se irresistível.
O
bebê começou a chorar nesse momento. Se Ronald disse alguma coisa,
ela não ouviu. Atravessou apressadamente o saguão e entrou no
elevador que já ia fechar as portas, sem dar a ele a chance de
segui-la.
Fora
nessa mesma noite que o mundo explodira na sua cabeça. Após deitar
as crianças e esperar meia hora para ter certeza que dormiam
sossegadas, foi até o jardim da cober¬tura para respirar um pouco
de ar puro antes de se enfiar em seu quarto.
O
pôr-do-sol era magnífico. Lembrou-se de Ronald Weasley, e o que
dissera: "Precisa apreciar o pôr-do-sol ao lado de um
homem...".
Sentiu-se
inquieta e desejou jamais ter ido para Veneza, jamais ter conhecido
Ronald. Ele era tudo que desprezava num homem, no entanto...
Ouviu
um ruído atrás de si e os cabelinhos da nuca se arrepiaram. Será
que era ele?
-
Hermione, imaginei que a encontraria aqui.
Era
uma voz conhecida, de sotaque inglês, mas não a dele. Voltou-se e
surpreendeu-se com o vulto alto e forte contra o céu brilhante. Era
o pai de Julia e Josh, Draco Malfoy, seu patrão. Ainda vestido como
estava ao sair, com a esposa, só que estava sem o paletó.
-
Senhor Malfoy, esqueceu alguma coisa? As crianças estão dormindo.
-
Eu sei, fui vê-las agora mesmo. - Ele se aproximou - Vim jantar aqui
porque preciso organizar umas anotações para a reunião de amanhã.
Os amigos trarão minha mulher, mais tarde.
Ela
podia sentir o cheiro de uísque no hálito dele.
-
É melhor eu ir para meu quarto – disse. Lá ela estaria segura,
uma vez que os filhos dele dormiam no quarto ao lado e ela poderia
trancar a porta.
-
Espere - Malfoy a segurou pelo braço - Fique e aprecie esse vista
maravilhosa.
-
Por favor, senhor Malfoy, solte-me – disse tentando, em vão, se
soltar.
-
Você é uma mulher muito atraente Hermione – disse com a voz rouca
- Não devia ser tão tentadora.
Como
era cínico. Ele a culpava por sua fraqueza; era um verdadeiro clone
de Vitor, que lhe dissera quando o pegara no flagra: "Não pude
evitar. Ela é uma feiticeira sedutora, nunca mais vai acontecer."
De fato, não acontecera porque ela não dera chance.
-
Quer fazer o favor de soltar meu braço? - disse com voz tensa,
fitando Malfoy com ódio.
-
Só um beijinho Hermione, isso não vai magoar ninguém. Veneza é a
terra do amor, lembre-se. Você está sozinha e isso não é justo.
Não posso deixar que vá embora daqui sem pelo menos um...
-
Não! Por favor, senhor Malfoy.
Hermione
estava mais brava e enojada do que com medo. Sabia que alguém
poderia entrar no terraço a qualquer momento, ele também devia
saber, mas não se importava. Só se impor¬taria com sua mulher e
ela estava jantando no Palazzo Gritti. Incrivelmente, desejou que
Ronald Weasley apare¬cesse ali. Ele podia não ser o cavaleiro ideal
numa armadura brilhante, mas com certeza a salvaria das investidas de
Draco Malfoy. Enquanto ele distraísse o bêbado, ela fugiria.
-
Hermione você é tão linda, sabia? – E num gesto brusco, ele
apertou-a contra si e colou a boca na dela, silenciando seus
protestos. Ela tentou escapar, po¬rém Malfoy era muito mais forte e
não ligava para os socos que levava no peito, nem os pontapés que
de vez em quando acertavam suas canelas.
-
Draco!
Essa
simples palavra, dita num tom rascante, conseguiu o que todos os
esforços de Hermione não haviam conseguido.
-
Pansy!? - O choque pareceu curá-lo da bebedeira. Ele empurrou
Hermione para longe. - Querida, graças a Deus você chegou! Esta
descarada praticamente me atacou. - Hermione perdeu a voz diante de
tanto cinismo. - Saí procurando por ela, porque não estava no
quarto e me preocupei com as crianças... Encontrei-a aqui,
apreciando o crepúsculo sozinha, devo dizer, quem sabe com saudade
do namorado... Quando me viu, ela se atirou nos meus braços. Tenho
certeza que não era a mim que ela beijava, mas ao namorado distante.
Devemos tratar este caso com calma, amor, e perdoá-la. A culpa é de
Veneza, do crepúsculo, da magia...
-
Perdoá-la? Você enlouqueceu? Se não posso confiar na babá de meus
filhos? Arrume suas coisas e vá embora assim que amanhecer. Vai sair
daqui sem receber um centavo, não vamos pagar sua passagem para a
Austrália. Use a passagem de volta para Londres que já tem. Tenho
certeza que saberá dar um jeito para voltar à sua terra... E boa
viagem!
-
Querida, não pode fazer isso - implorou Draco, enquanto o coração
de Hermione gelava. - Nós precisamos dela.
-
Posso contratar uma camareira do hotel para cuidar das crianças até
o fim da semana. Ela vai embora.
-
Mas não pode dispensá-la sem nada. Prometemos pa¬gar-lhe a
passagem de volta à Austrália e...
-
Você está do lado dela, é? – disse fuzilando Draco Malfoy com o
olhar - Estou achando que ela não foi a instigadora da cena
repulsiva que acabei de ver. Você é que se atirou em cima dela!
-
Pansy, nunca. Eu não faria isso - defendeu-se o homem.
A
dramática negativa fez os lábios de Hermione se contraírem pelo
desprezo, porém ninguém lhe prestava atenção. Draco estava
ocupado demais em salvar o próprio pescoço e Pansy em livrar-se
dela.
-
Vou ligar para o aeroporto amanhã cedo e fazer reserva para Hermione
no primeiro vôo à Londres - determinou Pansy - Não quero que ela
volte conosco no fim da semana. Irá amanhã.
Draco
Malfoy mordeu os lábios.
-
Meu bem, não podemos mandá-la embora sem lhe pagar ao menos os dois
dias que ela passou aqui e...
-
NÃO! Ela não terá mais do que o dinheiro que lhe demos para gastar
consigo e as crianças. E se bancar a esperta, cancelo a passagem
dela para Londres, e que se arranje. Tenho certeza que encontrará
outro homem rico para pular em cima.
Parecia
loucura, mas o rosto Ronald Weasley surgiu na mente de Hermione e ela
enrubesceu. Ele também iria embora no primeiro vôo da manhã
seguinte. Se os Malfoy conseguissem reserva, iria encontrá-lo no
avião.
Bem,
com certeza não iria pular em cima dele, nem de qualquer outro
inglês bonitão, rico ou pobre. Já havia tido o bastante de
ingleses até o fim da vida.
