Capítulo 2

Sakura saiu do canto onde estava, segurando a faca. Era sua única e derradeira chance.

Ela não tinha escolha, precisava agir.

O selvagem virou-se ligeiramente ao sentir sua aproximação. A faca bem afiada deslizou com uma facilidade surpreendente para dentro do pescoço dele, como se todo aquele corpanzil fosse apenas uma carcaça horrenda e ressecada. Um jato de sangue jorrou da boca do viking, e uma expressão de puro espanto fez os olhos dele se esbugalharem. Imediatamente uma reação de choque tomou conta de Sakura, que começou a tremer, e seus dedos úmidos de suor escorregaram do cabo da faca.

Ela desabou sobre o corpo sólido do outro guerreiro, ainda caído no chão. No mesmo instante, sentiu os braços dele envolvê-la e puxar seu corpo para debaixo do dele. Protegendo-a. Um resmungo abafado soou em seu ouvido quando ela lutou para respirar.

Um estrondo ecoou no quarto quando o selvagem desabou no chão, por pouco não caindo em cima deles.

Em uma questão de segundos, Sakura tomou consciência de várias coisas: do piso de pedra contra suas costas, do peso do corpo do guerreiro sobre o seu, da respiração de ambos se misturando. Ela viu a sombra escura da barba por fazer no rosto dele e o brilho dos olhos negros. E por fim uma golfada de ar quando ele saiu de cima dela.

Uma das mãos dele, quente e forte, engolfou a de Sakura, puxando-a e ajudando-a a se levantar. Os olhos negros exprimiam apreensão. Sakura ficou ali de pé, sentindo-se zonza, apoiando-se na mão do guerreiro enquanto olhava para o corpo do brutamonte estatelado sobre uma poça de sangue que se alastrava aos poucos pelo chão.

Ela conseguira!

Dividida entre a vontade de rir e de chorar, ela virou o rosto para o peito do guerreiro, coberto pela cota de malha, e apoiou-se ali, buscando forças. Ele a enlaçou pela cintura com o braço forte. A distância, Sakura podia ouvir o rumor da batalha e do fogo, mas ali, encostado em seu rosto, ela ouvia os batimentos do coração dele. Aos poucos, a consciência do que havia feito começou a tomar forma.

Ela tinha matado um homem!

O monstro estava morto, e fora por suas mãos que isso acontecera.

Sakura afastou-se bruscamente do guerreiro, que não a impediu. Ela deu alguns passos cambaleantes e debruçou-se sobre uma caçamba de cerâmica, tentando recuperar o controle, enquanto seu corpo tremia incontrolavelmente.

O ar enfumaçado queimava seus olhos e garganta. Ela precisava sair logo dali, ir o quanto antes ao encontro de Anko e tentar atravessar a ponte, mas quando se levantou suas pernas recusaram-se a mover. Se desse mais um passo, cairia de joelhos no chão.

— Eu também fiquei enjoado na primeira vez. — Uma voz de timbre grave atravessou o quarto. Era um som reconfortante, e parecia envolver Sakura como um lençol de linho macio.

Ela olhou para o viking por sobre o ombro. Ele tinha falado? Ou ela estava ouvindo coisas? Certamente, um homem como aquele não falaria latim. Guerreiros pagãos não falavam o idioma da igreja. Ela devia estar imaginando coisas. Seria esse o efeito de assassinar alguém? Ouvir vozes? Ela cobriu os ouvidos com as mãos e sacudiu a cabeça para clareá-la.

O viking tirou o elmo, e seus cabelos escuros estavam grudados na testa. Ele era alto, bem constituído, com ombros largos. Ele passou a mão pela barba crescida.

Sakura fitou-o, atônita. O homem que ela salvara era o líder dos guerreiros que ela vira pouco antes na praia, o mesmo que tinha discutido com seu tio, o responsável por aquilo tudo. A vontade dela era de enterrar o rosto nas mãos e chorar. Ela salvara o homem que destruíra seu tio. Se o tivesse reconhecido antes, teria fugido junto com Anko.

Sakura olhou para as próprias mãos, imaginando o que ele iria fazer agora, o que ele seria capaz de fazer.

— Você salvou a minha vida — disse ele em latim, com um leve sotaque. Não desagradável, apenas diferente. — Eu, Sasuke Uchiha, jarl de Viken, estou em dívida com você.

Sakura pestanejou, aturdida. Ela não havia imaginado, o guerreiro falava mesmo latim, tão bem quanto um nobre da Nortúmbria.

— Ele está morto? — perguntou ela, olhando para a figura desengonçada e imóvel no chão.

— Creio que sim. — Uma sombra de tristeza anuviou o semblante do viking. Ele abaixou-se e virou o rosto do homem morto para cima, murmurou alguma coisa que Sakura não entendeu e depois fechou os olhos opacos. — Kisame era um guerreiro valente. Sentiremos falta dele. As comemorações em Valhalla serão festivas hoje à noite.

— Ele tentou matar você, e você lamenta a morte dele? — Sakura olhou para o viking, incrédula. — Como isso é possível?

Sasuke avaliou a mulher à sua frente. Os cabelos de cor estranha, um rosa vivo, caíam sobre as costas. Ela usava um vestido verde-escuro simples, sem adornos e sem joias, bem diferente de sua madrasta e das mulheres da corte de Viken. Tinha olhos verdes grandes, e ele podia perceber que ela estava trêmula. Era óbvio que aquela mulher nunca havia matado antes. Será que ela era real, ou era uma valquíria, uma das mulheres guerreiras que varriam os campos de batalhas em busca de guerreiros dignos de Valhalla?

— Ele era um grande guerreiro. Um berserk. — Sasuke olhou para o machado de Kisame.

Quantas vezes ele havia matado? Quantas vidas, por outro lado, ele salvara com os golpes precisos de seu machado?

Era inconcebível que aquilo tivesse acontecido com Kisame, que ele tivesse perdido a vida quebrando seu juramento e deliberadamente atacando um membro do felag, seu próprio líder. Sasuke balançou a cabeça. Não, Kisame devia ter enlouquecido. Ele tinha propensão a isso, quando se enfurecia. Com certeza, ele não tivera consciência do que estava fazendo.

Berserk?

— Ele vivia para lutar. — Sasuke tentou pensar nas palavras em latim para descrever Kisame, mas chegou à conclusão de que não havia nenhuma. — Era um grande guerreiro.

Sakura assentiu, mas sua expressão indicava que não estava totalmente convencida.

Sasuke contemplou o homem caído no chão. Muitos de seus companheiros teriam gana de matar aquela moça pelo que ela havia feito, exigir o sangue dela em troca de ter matado um guerreiro como Kisame. Ele costumava seguir o código dos guerreiros, mas, naquele caso, a intervenção da moça salvara a sua vida. E essa era a maior dívida de todas.

— Você está sob minha proteção, valquíria. — Sasuke esfregou a parte de trás do pescoço. — Conte-me o que aconteceu aqui. O que você fez para provocar Kisame?

Sakura balançou a cabeça e caminhou até a janela. Então ela virou-se, estendeu as mãos e fitou-o com os olhos arredondados.

— Eu não fiz nada. Mas... eu salvei a sua vida.

Uma emoção estranha tomou conta de Sasuke. Ela achava que ia morrer. Ele não era um covarde para matar uma mulher a sangue-frio.

— É por isso que você está sob minha proteção. Ninguém lhe fará mal algum.— Sasuke inclinou a cabeça. — Kisame era valioso e querido entre meu povo. Você precisa entender isso. Ninguém imaginou que ele pudesse ser morto, muito menos por uma mulher.

— Ele ia matar você, esse...esse bruto, depois que minha criada fez você cair, sem querer. Eu fiz o que faria por qualquer pessoa. — O tom da voz de Sakura elevou-se um pouco. Ela pegou desajeitadamente algumas joias em meio a toda a bagunça e estendeu-as para o viking. — Deixe-me ir, por favor. Pegue isto e deixe-me sair daqui.

Sasuke olhou incrédulo para a moça bonita e esguia. Ele afastou a mão dela com as joias. Será que ela não compreendia a situação? Não tinha noção do que estava acontecendo ali? Quando ele e seus homens terminassem, não sobraria uma única construção de pé. Eles não tinham ido até lá com intenção de lutar, mas não fugiam de um desafio. Na próxima vez, os habitantes daquela ilha não se mostrariam tão determinados a resistir às reivindicações legítimas dos vikings. E tampouco eles, vikings, tolerariam aquele abuso. Eles tinham ido negociar, e encontraram uma guerra.

O corpo inteiro da moça tremia, e a área ao redor dos lábios estava pálida. Ela o fazia lembrar um cavalo amarrado. Ele queria acalmá-la, fazê-la entender, para que ela pudesse continuar viva.

— Onde estão seus guerreiros?

— Meus guerreiros?

— Sim, os homens que tomam conta de você. Uma preciosidade como você não ficaria desprotegida.

— Todos os homens estão ocupados, combatendo os seus.

Sasuke gesticulou na direção da pequena janela.

— O cenário lá fora é de fim do mundo. Você não iria querer estar lá no meio.

— E eu tenho escolha? — Os olhos verdes brilharam desafiadores. — Não fui eu, nem a minha gente, que começou essa luta. Eu vou sair daqui agora.

Sakura deu um passo à frente, mas Sasuke estendeu o braço e segurou-a com firmeza, impedindo-a de se mover. Ele podia ver uma veia pulsando na base de seu pescoço.

— Se eu deixar você sair, você vai ser morta. Tem outros como este meu amigo aqui. lá fora.

Sakura puxou o braço bruscamente, libertando-se.

— Vou correr o risco.

— Acredite em mim. O abade foi eliminado, destruído com um único golpe do machado deste homem.

Sakura reprimiu as palavras "meu tio", que quase saíram de sua boca. Não era conveniente que ele soubesse quem ela era.

— Eu vi. Vi vocês na praia, você é o líder dos guerreiros. Ele foi até lá recepcionar vocês. Você é o responsável por esta chacina.

— Onde você estava? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Não vi nenhuma mulher na praia. Talvez seu latim não seja tão bom quanto você gostaria que fosse. Nós viemos em paz e fomos atacados. Como eu disse ao abade, só queríamos o ouro que é nosso por direito, que nos foi prometido. Foi um dos monges que atacou primeiro.

— Eu vi da janela. O abade era... um bom homem.

— A morte dele foi lamentável. Como você matou o homem que o liquidou, talvez considere que a vingança foi feita. — Sasuke passou a mão pelo cabelo, despenteando-o ainda mais. — Viemos aqui buscar o dinheiro que nos é devido por nossas peles e âmbar, e para oferecer nossa proteção. Homens bons perderam a vida hoje, por nada.

— Sim, é verdade. — Sakura recusava-se a chorar na frente daquele viking que a salvara. Mais tarde ela choraria pelo tio e pelos outros que haviam morrido. Agora ela tinha de planejar uma maneira de escapar dali e alertar os lordes das propriedades vizinhas sobre o perigo de invasão.

O cheiro de fumaça ficou mais forte, e o piso começou a esquentar sob os pés de Sakura. Ela ouviu o estalido do fogo.

— Precisamos sair deste lugar. Meus homens receberam ordem de incendiar todas as construções.

— Prefiro morrer a sair daqui com você.

— Está mentindo. — Um sorriso sardônico curvou os lábios do viking.

— Como é que é?! — Sakura empinou o queixo. Como aquele viking selvagem se atrevia a falar com ela daquele jeito insolente?

— Você já demonstrou que tem um grande desejo de viver. Venha comigo e eu a levarei para um lugar seguro.

Sakura engoliu em seco. Cometera um grande erro naquele dia. Deveria ter deixado o viking à sua própria sorte, para que enfrentasse o selvagem da laia dele. Mas ele tinha razão. Era preciso sair dali. Sua única esperança era conseguir de algum modo escapar, quando estivesse do lado de fora. Teria de ficar atenta à primeira oportunidade e preparar-se para fugir e esconder-se. Engoliu em seco novamente, sentindo ódio daquele homem.

— Vou fazer como está dizendo, por enquanto.

— Você vai fazer como estou dizendo se quiser viver. — O tom de voz dele endureceu. — Vamos.

Sakura começou a recolher seus pertences. Pegou o espelhinho de mão, todo rachado.

— O que você está fazendo?

— Pegando minhas coisas.

— Você não vai precisar de nada disso. — Sasuke inclinou-se, pegou a faca de Sakura e limpou-a antes de devolvê-la. — Só vai precisar disto.

Sakura olhou para ele, desconfiada. O que exatamente aquele homem pretendia? Ele sabia que ela tinha usado aquela faca para matar. Poderia usá-la para escapar. Antes que ele pensasse melhor e mudasse de ideia, ela pegou a faca e enfiou-a no cinto.

O viking passou um braço por sua cintura.

— Quer que eu carregue você, ou consegue andar?

— Eu consigo andar.

Ele desceu a escada na frente, segurando a espada e parando para verificar os cantos. Quando saíram da casa de hóspedes, o céu estava escuro, o ar, cheio de fumaça. O cenário diante deles era a ideia que Sakura fazia do inferno. Ela olhou com mal-estar para as várias pilhas de objetos saqueados: tapeçarias do solário de seu tio, crucifixos quebrados incrustados com joias, baús de ouro. Uma pilha de livros, manuscritos e pergaminhos queimava no centro do pátio. Um nó se formou em sua garganta e ela passou as costas da mão pelos olhos. Toda aquela riqueza de informações, conhecimento e aprendizado destruída. Ela queria correr e tirar as bíblias do fogo, mas Sasuke segurou sua mão com firmeza. Não havia escapatória.

Acima de tudo, aquela cena mostrava a Sakura a realidade de sua situação. Aquilo não era um pesadelo do qual ela acordaria para ver o rosto sorridente de sua aia. Tudo em Konoha tinha sido deliberada e perversamente destruído. O mundo havia mudado. Irrevogavelmente.

Sakura estranhou quando Sasuke não a conduziu para o navio nem para nenhum grupo de seus homens. Em vez disso, ele a levou até um montículo, um pouco afastado do cenário de destruição.

O ar ali estava mais claro, embora o sol brilhasse como uma bola vermelha através da névoa de fumaça. Um agrupamento de pedras proporcionava uma espécie de abrigo, ainda que rudimentar, e o som dos gritos e destruição era um zumbido distante.

No alto, uma gaivota sobrevoava em círculos, alheia ao caos e à confusão ali embaixo.

Os dedos do viking afrouxaram no pulso de Sakura, libertando-a. Ela esfregou o pulso, sem entender direito por que ele a levara até ali. Ele circundou as pedras em silêncio e murmurou algo em tom de aprovação.

— Você vai ficar em segurança, aqui. Espere até que tenhamos partido, e então atravesse a ponte. Rápido. Sem olhar para trás. Volte para sua casa.

— Por que você está fazendo isto?

— Uma vida por uma vida. — Ele segurou o queixo de Sakura com os dedos dobrados. — Nós nos despedimos aqui, valquíria.

Sakura piscou para conter as súbitas lágrimas. Ele a estava libertando. Ela pensara que era uma refém, e ele a libertara. Ela sabia que tinha de se afastar, repudiar aquele gesto de carinho.

— Adeus, Sasuke Uchiha, jarl de Viken — murmurou, com os lábios a uma curta distância dos dele.

— Podemos fazer melhor que isso.

Sem aviso, ele inclinou a cabeça e cobriu a boca de Sakura com a sua. Foi um breve encontro de lábios, gentil porém firme. Sakura cambaleou, e ele a envolveu com os braços, puxando-a para si. A natureza do beijo se modificou, cresceu, intensificou-se, tornou-se ardente como as chamas que engolfavam Konoha.

Os joelhos de Sakura fraquejaram, e ela se segurou à armadura de couro de Sasuke, saboreando a sensação dos lábios dele sobre os seus. E então, no minuto seguinte, ele interrompeu o beijo e a afastou. Sakura olhou para ele, atordoada, reparando no peito dele, arfante, como se ele tivesse corrido algumas milhas sem parar. Assim como ela, também. Tudo isso por causa de um beijo.

Ela tentou respirar normalmente e acalmar os batimentos do coração.

— Se todas as valquírias fossem como você, eu ficaria contente em ir para Valhalla.

Sasuke acenou com a cabeça e virou-se, sem esperar resposta. Não queria hesitar. O que ele estava fazendo era o certo. Ele forçou-se a afastar-se da mulher. Era o mais acertado a fazer. Ela ficaria em segurança se não saísse dali. Ele e seus homens partiriam dentro de poucas horas. Ela então estaria livre para viver sua vida, assim como ele. Ele retribuíra a dívida. Estavam quites.

Sakura tocou os lábios com a ponta dos dedos enquanto observava a figura alta e de ombros largos desaparecer na névoa de fumaça. Determinado a prosseguir em sua missão, sem dúvida.

Aquele viking precisava ser tão bonito? O beijo dele fora muito melhor do que todos os beijos que ela recebera de Rock Lee em todo o tempo que ficaram juntos. Rock Lee sempre tentara dominá-la, mas o beijo de Sasuke fora gentilmente persuasivo. E ela sentira o efeito em seu próprio corpo.

Mas aquele homem era o inimigo, apesar de tê-la libertado e lhe salvado a vida. Sakura lamentava que tivessem se conhecido naquelas circunstâncias. Seria melhor nunca ter tomado conhecimento da existência de um homem como aquele.

Ela sentou-se na relva áspera e abraçou os joelhos. Estava em segurança e em liberdade. Livre para voltar para casa e refazer sua vida. Depois daquele dia, ela ansiava pela segurança e conforto dentro das paredes de pedra de Konoha.

As ondas atingiram os navios de velas de listras vermelhas e brancas, sinalizando a mudança de maré. Os homens pareciam figuras pequeninas a distância conforme se moviam, carregando cestos e baús para os navios. Sakura podia ouvir o eco de suas risadas, trazido pelo vento. Quanto tempo demoraria até que eles fossem embora e ela pudesse atravessar a ponte?

Um grito rasgou o ar.

O cabelo na nuca de Sakura se arrepiou. Ela correu até a beirada do monte de pedras e espiou, com a mão no cabo da faca.

Não havia ninguém por ali. Uma andorinha-do-mar que voava em círculos abriu o bico e guinchou outra vez.

Sakura voltou a sentar-se, segurando a faca, os ouvidos atentos. Mas não havia ninguém. O tempo inteiro ela pensava na promessa que havia feito a Anko. Esperava que a criada estivesse a salvo no chiqueiro e que esperasse por ela.

Sakura prometera que iria ao encontro dela, e esperava que ela ficasse lá até ela chegar. Ela sabia que deveria esperar até que os vikings partissem, mas a promessa a atormentava. Se fosse até o chiqueiro agora, ninguém a veria; e ela e Anko ficariam juntas.

Sakura protegeu os olhos com a mão e olhou na direção dos navios novamente. Os preparativos para a partida continuavam. A maioria dos vikings estava ali; o chiqueiro ficava atrás das cozinhas. Não havia nada ali que lhes interessasse. Não havia ouro, nem joias, nem livros. Tudo que havia era estrume.

O estômago dela se contraiu. Ela precisava ir; tinha esse dever para com Anko.

As palavras de Sasuke ecoaram em sua mente. Ela estava em segurança ali. Nada lhe aconteceria se permanecesse ali.

Mas e se ele mudasse de ideia? Será que ela podia confiar em um guerreiro pagão?

A realidade era que ela não estava em segurança enquanto ele soubesse onde encontrá-la. Precisava sair dali!

Primeiro, ela cumpriria sua promessa e encontraria Anko. Nunca em sua vida deixara de cumprir o que prometia, e não era agora que iria fazer isso. Iria somente até o chiqueiro, não além disso. Anko tinha de estar lá. Aqueles selvagens nórdicos estavam muito mais interessados em pilhar o tesouro de um dos mais ricos mosteiros da Cristandade do que em capturar porcos assustados. As duas ficariam seguras lá, e poderiam esperar pela hora de partir sem medo de serem descobertas.

Sakura estremeceu ao pensar em quantas famílias da Nortúmbria e de Mércia estavam arruinadas por causa daquela invasão. Quantas haviam acreditado que seus tesouros estariam seguros sob a guarda dos monges, pois quem se arriscaria à maldição eterna?

O céu estava escuro, espesso com a fumaça, e mais parecia meia-noite do que meio-dia. Sakura respirou fundo e correu colina abaixo, de volta para a cena de carnificina. A Igreja de St. Hashirama emitia os reflexos alaranjados do fogo. Enquanto Sakura olhava, uma enorme viga de madeira caiu na nave central, lançando uma chuva de faíscas para o céu.

Ela tropeçou e caiu de joelhos em uma poça. Sua mão fechou-se ao redor de um pequeno crucifixo de prata que estava na poça rasa de lama. Ela o enfiou no cinto, ao lado da faca. Aquele crucifixo fora um presente de sua mãe; Anko devia tê-lo levado consigo e o deixado cair, durante a fuga. Quando voltasse para Konoha, ela contaria a história à sua mãe, e elas ririam juntas, concordando que de fato havia sido a providência divina que permitira a ela encontrar o crucifixo.

Sakura coçou o nariz, sentindo a ardência da fumaça. Seus olhos lacrimejavam. Não era o momento de pensar no que iria fazer depois que voltasse para o continente. Antes disso, tinha de dar um jeito de sobreviver.

Ela olhou em volta, esperando, mas não havia sinal do viking, e ninguém parecia estar prestando atenção nela. Na verdade, não havia ninguém ali por perto.

Sakura ajeitou o vestido em um gesto instintivo, pois o tecido de lã verde estava todo sujo e arruinado. Mas uma dama era sempre uma dama, e não perdia a classe.

Estava na hora. Ela precisava se apressar, ou viraria prisioneira.

Sakura mergulhou nas sombras e começou a correr junto a um muro de pedra. A fumaça estava mais espessa, e até as pedras irradiavam calor.

Milagrosamente, ninguém a deteve nem a questionou, e logo ela estava correndo para as construções anexas do mosteiro. A cerca tinha sido derrubada, e os porcos haviam desaparecido, deixando um rastro de terra pisoteada.

— Anko? — chamou ela baixinho. — Sou eu, Sakura. Eu disse que viria.

Não houve resposta. O silêncio e quietude a envolveram, tão diferente da balbúrdia no pátio.

Sakura concentrou-se, esforçando-se para ouvir algum ruído. Anko tinha de estar ali. Tinha de ter conseguido escapar. Deus teria permitido que ela conseguisse; Ele as livrara do monstrengo viking.

Foi então que ela se deu conta. O telhado do chiqueiro estava em chamas. Se Anko tivesse conseguido chegar até ali, com certeza havia encontrado algum outro refúgio. Mas onde? Tinha de haver algum outro lugar ali por perto. Mas ela não podia se arriscar e sair procurando, decidiu Sakura, contrafeita. Tinha de confiar que Anko daria um jeito de sair dali e que as duas se encontrariam no continente.

Ela começou a virar-se, mas algo atraiu sua atenção pelo canto do olho, um pedaço de tecido acastanhado no canto do chiqueiro. Sakura levou a mão à boca para suprimir um grito e tentou se equilibrar para não cair.

Anko. O corpo de Anko, esmagado sob uma viga!

Sakura correu até ela. Pousou a mão no pescoço de Anko, mas a pele já estava fria, e os olhos imóveis estavam fixos no vazio. Todo o ar desapareceu dos pulmões de Sakura. Ela cruzou as mãos sobre o peito e começou a balançar para a frente e para trás, tentando negar para si mesma a cena à sua frente.

Nãããooo! — O lamento saiu das profundezas da alma de Sakura. Ela perdeu a noção do tempo e não saberia dizer quantos minutos haviam se passado, quando recobrou a razão e compreendeu que precisava sair dali. O fogo tomara conta de tudo, as labaredas estalavam e flamejavam à sua volta. Mas não podia deixar Anko assim.

Sakura fechou os olhos da moça e rezou uma prece. Não tinha como saber se Anko tinha alguma noção disso, mas pareceu-lhe que a expressão dela se tornara mais serena. Deu-lhe um beijo na testa e levantou-se, limpando as mãos no vestido.

Mais tarde, depois que tudo aquilo tivesse terminado, ela voltaria e providenciaria para que Anko tivesse um enterro digno. Também procuraria os familiares da jovem e explicaria a eles o que acontecera.

Os lábios de Sakura se retorceram diante de tanta injustiça. Mas precisava safar-se, e para isso tinha de atravessar a ponte em segurança. Voltaria ao abrigo de pedras, de onde poderia ver quando os navios partissem.

Ela cobriu a boca e o nariz com a manga larga do vestido quando a fumaça começou a soprar novamente e o calor do fogo atingiu seu rosto.

Na semiescuridão, Sakura foi andando aos tropeços, tentando manter-se escondida. Foi primeiro em uma direção, percebeu que estava perdida e começou a ir na direção contrária, conforme a fumaça ofuscava sua visão.

Ela trombou com uma superfície sólida, cambaleou e começou a correr. Uma mão agarrou seu braço.

O homem disse alguma coisa em seu próprio idioma.

— Vocês já conseguiram o que vieram buscar. Não há mais nada aqui para vocês — respondeu Sakura, forçando-se a falar com voz firme. — Vá embora!

O homem relaxou um pouco os dedos em seu braço, e Sakura arriscou um olhar para cima. Ele parecia ser da mesma idade que Sasuke, um homem ruivo com uma tatuagem na testa e fitava-a com uma expressão zombeteira.

Ela puxou o braço com força e aprumou-se, empinando o queixo.

— Vá embora. Já! — Ela apontou na direção de onde tinha vindo e rezou em silêncio.

O homem começou a se afastar, com uma expressão perplexa no rosto.

Sakura respirou aliviada, esperando que ele se afastasse mais para que ela pudesse correr para o seu esconderijo. Mas de repente ele virou-se e agarrou-a pelos ombros. Os lábios dele se curvaram em um sorriso repugnante conforme o rosto dele se aproximava cada vez mais.