Capítulo 2

- Oi!

Hermione se assustou com o beijo rápido estalado na sua face, rindo e levantando o rosto para ver o namorado se jogar em uma cadeira a sua frente.

- Como está? – perguntou, se debruçando sobre a mesa para beijá-lo de verdade antes de arrumar os documentos que estivera lendo.

- Cansado. Cara, aquele Miguel, sabe, o menino novo? Ele não me deu sossego a tarde inteira!

- Você gosta. – Hermione comentou, rindo.

- Gosto. – Ron sorriu para ela, virando a pilha de papéis para poder olhar melhor o trabalho da namorada – E você, como está aqui?

- Bem. As coisas estão andando. Já consegui acertar toda a documentação dos órfãos, já existimos junto ao ministério como estabelecimento não comercial também e já dei entrada na documentação daqueles meninos que apareceram aqui outro dia, pedindo abrigo, para colocá-los na lista de adoção. – ela suspirou, olhando para o ruivo – Estamos fazendo alguma coisa, não estamos? Quero dizer, eu achei meio maluca essa idéia do Harry de orfanato no começo, mas, não sei... Me sinto bem.

Ron sorriu, pegando sua mão por cima da mesa.

- Olha para ele. – Ron indicou com a cabeça algo atrás de Hermione – Eu não via ele sorrindo assim há meses. É claro que estamos fazendo alguma coisa... por ele também.

Os dois se voltaram para olhar. Ao longe, em um campo cercado, Harry corria com uma bola na mão, três garotos com cerca de três anos de idade corriam atrás dele dando gritinhos. Ele caiu sentado na grama, escondendo a bola às costas, e falava com as crianças como se contasse um segredo. Os olhos verdes brilhavam quase tanto quanto seu sorriso, e era impossível para os dois amigos não sorrirem também.

Depois da guerra, finalmente haviam alcançado alguma paz. O mundo bruxo ainda estava uma bagunça, mas Kingsley fazia um bom trabalho. Hogwarts ainda não reabrira, passando por reformas, e os três se reservaram o direito de tirar umas bem merecidas férias, de preferência juntos.

Mas o estado de ânimo de Harry começou a perturbar o casal. Ele havia se afastado de Ginny e de qualquer outra pessoa que não eles dois, e mesmo assim era comum vê-lo sério, com o olhar perdido e uma expressão de dor no rosto. Algumas vezes ele sumia por horas e Hermione recebeu uma carta de McGonagall perguntando se Harry estava bem, pois ela o tinha visto vagando várias vezes pelos jardins do castelo, indo e vindo sem falar com ninguém e sem motivo aparente para estar ali.

Viajar, sair do país por um tempo, havia parecido uma boa idéia no início, se afastar de toda a expectativa que planava no ar à presença do "Salvador". Mas foi o próprio Harry que pediu para voltarem, dizendo sentir falta de Teddy. E, de fato, a convivência com o afilhado era uma das poucas coisas freqüentes na vida de Harry naqueles meses.

Foi então que, aparentemente de forma repentina, Harry surgiu com a idéia do orfanato. Ron achou estranho, mas tão logo eles começaram a ter contato com as crianças, ele se entregou à causa. Hermione tentara levar a Harry o quanto tudo aquilo poderia ser caro e trabalhoso, mas o amigo parecia determinado e não poupou esforços para estruturar o local que escolhera para receber até 100 crianças, atendendo a todas as suas necessidades básicas.

Hermione observava sua dedicação e o carinho que tinha com as 23 crianças que já moravam ali, a atenção com que ele acompanhava cada caso e a insistência em conhecer e se apresentar para cada criança, tendo ela meses de vida ou 10 anos de idade. Os órfãos de guerra. Crianças perdidas, como Harry fora um dia. E ao pensar nisso e vendo ele sorrir daquela forma, a garota não conseguia impedir de sentir seu peito apertar, se sentindo bem como não se sentia há muito tempo, e sabendo que os dois amigos compartilhavam isso com ela.

Estavam, efetivamente, fazendo alguma coisa.

- Senhora Granger? – uma funcionária do orfanato entrou na sala, tirando Hermione de seus pensamentos.

- Sim, Marie?

- Chegou uma coruja. Acho que é melhor vocês virem ver. – a moça parecia assustada, o que fez Ron e Mione se levantarem imediatamente e seguirem-na até a recepção do orfanato.

Em cima do balcão havia uma cesta de vime. Dentro dela, um bebê ainda sujo de sangue parecia dormir em meio a um lençol branco. Em seu tornozelo, uma linha avermelhada poderia passar como uma irritação na pele nova, mas mesmo sujo, seu formato era peculiar.

- Chame o Harry, Marie. Agora.

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- Quando ele chegou? – Harry perguntou, sério, enquanto uma enfermeira banhava e examinava o bebê.

- No fim da tarde. – Marie respondeu.

- Ao que parece, ele foi enviado logo depois do parto. – Hermione constatou, acompanhando o trabalho da enfermeira – Ele está bem?

- Sim. É um menino saudável. Precisa ser alimentado com alguma urgência, mas de resto está tudo bem. – a enfermeira garantiu, vestindo o bebê.

Harry se aproximou, olhando a criança ainda adormecida. Devagar, passou um dedo sobre a pequena marca avermelhada na perninha. Uma cobra, pequena e fina, mas decididamente uma cobra, como se desenhada por uma pena, era presente ali. Uma marca.

- E isso? – perguntou, sério.

- É uma marca de nascença, senhor Potter.

O bebê acordou com o toque, começando imediatamente a chorar. Harry o pegou no colo, abraçando-o, e pousou um pequeno beijo na cabecinha onde uns poucos fios de cabelo negro surgiam. Acalentando-o, levou-o até uma mesa, onde uma mamadeira estava preparada, e começou a amamentá-lo. Hermione se aproximou, estudando a feição séria do amigo.

- Você está preocupado.

- Você pode arrumar a documentação dele? Ele vai ficar.

- Harry... Você não acha mais... prudente... a gente investigar um pouco mais de onde veio essa criança?

- É um recém nascido abandonado pela mãe, Hermione. Isso não é o suficiente para você?

- É para você? O que você acha dessa marca?

Harry o olhou, sério, e fez um gesto com a cabeça, afastando a franja da testa, deixando a cicatriz a vista.

- Acho que não vou deixar uma criança ser julgada por causa disso. – respondeu, sério.

Hermione desviou o olhar e fez um gesto vago, se afastando.

- Ok. – disse, erguendo as mãos, em derrota, e Ron a abraçou.

Harry voltou a olhar a criança. E sorriu.

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Duas semanas de observação foi tudo de que Hermione precisou para tomar sua decisão.

O menino da cesta, que ainda não tinha nome, não tinha passado também, aparentemente. Não havia registro de busca oficial para nenhuma criança com as características dele em lugar algum. Não houve nenhum crime relacionado com o desaparecimento de um recém-nascido na época em que ele surgiu.

E Harry o amava, fato.

Para o moreno, ele pode ter chegado ali como mais um órfão, mas a convivência dos dois logo disse que não se limitaria a isso. O garoto era uma criança agitada, dormia muito, como todo bebê, mas prestava atenção a qualquer coisa diferente por perto. Logo a presença do moreno era aquela que o fazia acordar ou parar de chorar. Harry passava horas com ele, nem se fosse observando-o dormir, e, de certa forma, estar junto ao bebê se tornou rapidamente uma referência para ele também.

Mas foi quando pediu sua opinião sobre o nome que deveria registrá-lo, que Hermione percebeu o quão profunda poderia ser aquele contato.

- Sirius. – foi a resposta direta do moreno, que fez Ron se agitar.

- Sirius, Harry? – Hermione perguntou.

- Sim, por quê? – Harry brincava com o bebê em seu colo.

- É uma homenagem bonita, mas sempre pensei que você guardaria esse nome para colocar no dia em que você tivesse um filho.

- Não é exatamente só uma homenagem, Mione. – Harry sorriu – Venha ver.

Hermione e Ron se aproximaram e Harry segurou o bebê mais de pé em seus braços, agitando os dedos na frente de seu rosto, fazendo-o abrir os olhos e segui-los, interessado.

Olhos cinzentos, fortes, em perfeita harmonia com os cabelos negros e lisos que cresciam cada vez mais em volta do rostinho bonito da criança.

Não havia como dizer não àquele nome.

E era por detalhes como esse que ela estava ali naquele dia.

- Harry, preciso conversar com você. – ela avisou logo que o viu entrar no orfanato, checando a correspondência.

- Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou, sentindo a ansiedade na voz da amiga.

- Não... só... A documentação do Sirius ficou pronta. E eu queria te fazer uma proposta.

Ele se voltou para ela, indicando que estava ouvindo com atenção.

- Por que você não o adota?

- Quê? – ele pareceu surpreso com a idéia, mas não exatamente assustado, e isso a fez continuar.

- Vocês dois têm uma ligação forte, Harry, e eu sei que você gosta de crianças. Suponho que já tenha pensado em formar uma família algum dia... Seria um começo. Ter o orfanato é legal, mas você não pode ser pai de todos eles. As crianças vêm e vão e você sabe disso. E você já imaginou o que vai sentir se de repente algum casal se interessa pelo Sirius e decide levá-lo daqui? O que você vai sentir? Por que não fazer o que eu sei que você deseja oficial desde já?

- Mione... – Harry pareceu hesitar – Eu só tenho 18 anos, nem sei o que vou fazer da minha vida ainda... Você não acha um pouco cedo para isso?

- Eu não sei, Harry. Mas juntando a herança dos Black com a sua, você tem dinheiro para sustentar mais duas gerações nesse orfanato, além de manter uma vida confortável para você. Eu sei que você não vai abandoná-lo, nunca. E você conhece bem as responsabilidades de ter alguém dependente de você, você já tem o Teddy. Eu não sei, Harry, pense um pouco... Considere isso com carinho. Quando você decidir, eu cuido da parte burocrática para você, ok?

Ele não precisou pensar por mais nem dois dias.

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NA: Está ai, crianças, segundo capítulo ^^

Espero que gostem. Espero comentários também XD

Beijos e boa noite, semana que vem eu att na quinta, porque viajo sexta de manhã.