A TARDIS voava tranqüilamente. O Doutor, já em suas vestes normais, olhou para River, que estava sentada em um degrau da escada meio entediada. Ele baixou uma alavanca e começou a correr em volta do console, fazendo a máquina rugir com mais força.
- Vamos por fogo nesses motores, querida!
Ela sorriu e se levantou, auxiliando o Senhor do Tempo.
- Para onde vamos?
- Surpresa – ele olhou por baixo do Stetson.
- Será que você ainda tem essa capacidade?
- Confie no seu marido – ele piscou. – Ok, aqui vamos nós – ele virou um regulador e a máquina passou a um andar mais leve.
- Dê uma olhada – ele falou, fazendo uma das "bolhas" na parede da máquina ficar transparente.
River foi até lá e viu algo belíssimo. Um mar dourado pairava no espaço. Não era água, ou nada parecido. Era uma espécie de fluido dourado que se revolvia e cintilava com capacidade de movimento reduzida.
- Partículas de ouro puro – o Doutor disse, ao seu lado.
- Como? – ela olhou surpresa.
- Um carregamento vindo do planeta Classorossa foi atacado por piratas do espaço aqui uma vez. Toda a carga de ouro vazou e, em vez de se dispersar, ela ficou aí, flutuando. Os Judoon já estavam a caminho para resolver o problema, devolvendo o ouro a quem pertencesse e pegando o bandido. Mas a carga de ouro era roubada. Se os Judoon chegassem, a tripulação de ladrões e os piratas iam ser presos. Então fugiram, deixando isso ai.
- E então? – River ouvia interessada.
- Ah, eles foram pegos. Porém, as pessoas começaram a gostar do local. Pode ver como é bonito. E acharam melhor deixar como ponto turístico. E também eles não sabiam como remover o ouro. Ninguém nunca soube. Supostamente. Ele fica aí, flutuando no mesmo lugar, formando constelações douradas.
- Supostamente ninguém sabe como remover o ouro? – ela sorriu sugestivamente.
- Assim como supostamente ninguém esteve tão perto do Mar de Ouro em 1500 anos. É uma área protegida pela Proclamação das Sombras. É patrimônio universal.
- Estamos infringindo a lei, então? Desaprovo – River fez que não gostava daquilo.
- Sério que você nunca fez isso?
- Sou uma santa.
- Não, você é o inferno. Em saltos altos.
- São por esses nomes que seus amigos me conhecem, então?
Ele sorriu e pegou a mão de River.
- Se você é o inferno, eu estou bem sendo o demônio. Agora venha.
O Doutor abriu as portas da TARDIS. Puxou a chave de fenda sônica e direcionou a luz para as partículas. Algum tempo depois um pequeno trecho se soltou e flutuou até a máquina do tempo. O Doutor o manipulou no ar com a chave de fenda. As partículas flutuaram até se condensarem num pequeno pingente de dois corações.
- Meu marido, o joalheiro – disse River. – Irei usar isso sempre.
- Lembre-se de mim quando usá-lo.
- Doutor, o que está havendo? – ela sabia que algo estava errado.
- Nada – ele escondeu os olhos baixando a cabeça.
- Me conte – disse ela, fazendo-o a olhar nos olhos.
- Você foi a coisa mais bonita e perfeita que já me ocorreu – ele pegou River suavemente e a beijou. O Senhor do Tempo e a filha da TARDIS, iluminados pelo Mar de Ouro. O amor mais wibbly-wobbly do Universo.
A TARDIS passou a voar novamente em seu ritmo, disparando do Mar de Ouro. River e o Doutor haviam entrado em um consenso no qual o Doutor só falaria sobre o que estava havendo com ele depois.
- E então, para onde agora? – disse a mulher.
- Varsair-8! – disse o homem. – Vamos encontrar um amigo!
Algum tempo depois, uma discussão com uma baleia estelar e um quase casamento com uma princesa manca, a dupla aterrisou em Varsair-8. Estavam no meio de algo como uma praça, mas era estranho, já que os bancos ficavam ao redor do topo do obelisco que subia reto. Embaixo, as pessoas se sentavam em mesinhas, onde eram disputados jogos em que duas pessoas ficavam olhando intensamente uma para a outra. Então, de repente, uma delas levantava e dava cambalhotas ou se declarava para uma das árvores de tronco amarelo que cresciam. Em outros espaços, pessoas cantavam para tijolos em um ritmo que fazia-os arder em chamas.
- Deixa ver se adivinho – disse River. – As pessoas nas mesas estão usando controle telepático?
- Sim, os habitantes de Varsair-8 têm um domínio incomum sobre telepatia. Eles se encaram, embatendo suas ondas cerebrais. Então, quando um deles vence, o outro é dominado por alguns segundos, suficientes para render bons risos – o Doutor fez uma cara meio estranha, como se não gostasse da ideia.
- Você já foi vencido antes nisso, certo? – River tentou não sorrir.
- Eu não tive culpa, OK? Ele tinha olhos muito intimidadores e... se aquela criança acrobata não tivesse tirado minha atenção... – a voz dele foi se perdendo. – Mas quer ver como é fácil ganhar na prova do tijolo? Venha.
Os dois foram para o local onde pessoas tentavam acertar o timbre perfeito para fazer fogo irromper do tijolo. O Doutor casualmente pegou o objeto. Todos olhavam para ele, já que era um novato e queriam ver seu potencial. Discretamente, ele ligou a chave de fenda sônica com a mão no bolso, enquanto alcançava o agudo do fim de "Viva Las Vegas", de Elvis Presley. Imediatamente, o tijolo passou a queimar.
Palmas surgiram de todos os lados. E também sumiram com a mesma velocidade, pois agora os acordes finais de "Viva Las Vegas" eram o objetivo a ser alcançado.
- A intenção dessas pessoas é fazer as moléculas do tijolo vibrarem tão fortemente com a voz que causem fogo, certo? – o Doutor confirmou com a cabeça. – E você usou a chave de fenda para fazê-las vibrar? Que vergonha!
- Nada que você não tenha feito pior, sweetie. Agora, vamos ao meu amigo.
A dupla se dirigiu por algumas ruas até dar com um letreiro berrante em neon, autoproclamando o local como "Os Sete Tentáculos". Lá dentro, o Doutor dava uma olhada por alto nas mesas do salão abarrotado, procurando seu amigo. Um homem alto e robusto cuja face possuía uma doentia tonalidade verde esbarrou no Senhor do Tempo. O Doutor olhou para o outro esperando desculpas, mas isso não ocorreu.
- Acho que você podia prestar mais atenção onde anda, não? É algum problema comigo? – ele estufou o peito e encarou o outro, que começou a se sentir acuado. Era claro que ele era um encrenqueiro de bar, daqueles que você não se livra nem indo para outro planeta. Homens um pouco mais sóbrios se ergueram para retirar o brigão, e até o balconista portava um bastão de choque com um ar de que aquela não era sua primeira experiência com o cliente.
Mas ninguém foi rápido o suficiente, porque River tomou a frente da discussão.
- Você já pode se retirar – ela sorriu cinicamente.
- E a princesa acha que é quem para falar assim com um homem?
- O inferno. Em saltos altos – o Doutor disse, com a cabeça logo sobre o ombro da esposa e um dedo levantado como se levantasse uma questão importante.
- Escute aqui, pequena... – o grandalhão começou a passar o braço no ombro de River, mas então alguns rápidos movimentos e ele acordava no chão, encarando o cano da própria arma, que sabe-se lá como River sacou do coldre dele.
- Esse aqui é minha responsabilidade – ela apontou com o polegar para trás. – E eu tomo conta muito bem do que é meu. Então, dê o fora e poupe a você mesmo de mais vergonha pública, sim?
Ele se levantou e saiu do bar rapidamente. As pessoas voltaram rapidamente às suas conversas.
- Às vezes me pergunto do que você seria capaz, em toda a sua totalidade, sra. Doutor – o homem de dois corações olhava brincalhão para ela.
- Te mostro depois – ela piscou. – Achou seu amigo?
- Sim, ali está ele – os dois se dirigiram para a mesa. – Com licença, senhor, acho que nos conhecemos – o Doutor deu um sorriso cintilante para o homem que conversava com um alien de duas cabeças. Nesse momento elas estavam muito ocupadas numa discussão entre si, então nem notaram o Senhor do Tempo.
- Duvido muito, cara, acabei de chegar nesse fim de Universo – o outro disse sem erguer a cabeça. Então seus olhos viram o homem à sua frente – Embora eu não me importe em conhecer – ele sorriu. – Sou o Capitão Jack Harkness.
