Uma almofada na cabeça. Isso definitivamente não era o melhor jeito de se acordar alguém, principalmente alguém que costuma ser acordado com um suave "Acorde, Mestre" sussurrado. Mas Sirius Black, o mais novo habitante do castelo, parecia não ter consciência disso, e jogara uma almofada na cabeça de seu mais novo amigo. Era costume entre ele e James, mas ele parecia não perceber que o jovem adormecido era diferente de seu melhor amigo. Essa maneira nada delicada de acordá-lo irritou Remus, mas ao ver o sorridente rosto de Sirius o olhando, animado, fez com que seu mau humor fosse embora, juntamente com sua respiração. Quando ele havia desaprendido a respirar, no entanto, era algo que ele não sabia.
- Vamos, Rem! – disse Sirius, sentando na cama do amigo, próximo a ele.
- Vamos aonde? – perguntou ele arqueando uma sobrancelha e sentindo seu coração acelerar sob seu peito quando Sirius sentou-se ao seu lado, na cama.
- Não precisamos saber para onde, só precisamos ir – respondeu Sirius. Remus não sabia, mas aquilo era realmente a idéia que Sirius tinha sobre filosofar, e ele andava se achando muito filosófico nos últimos dias. Quem iria fazer ele desacreditar nisso, no entanto, ninguém sabia. Quando o jovem Black colocava algo na cabeça, não havia ser capaz de tirá-la. Com exceção, talvez, de James. Ele tirou uma mecha de cabelo que lhe caía no belo rosto. – Ah, às vezes esse meu cabelo me irrita. Sempre caindo no meu rosto. Acho que nunca cortei até hoje porque a minha adorável mamãe sempre quis que eu o cortasse... Mas começo a pensar se ela não tinha, pela primeira vez, razão.
- Não tinha!
Sirius olhou para Remus, que começava a tomar consciência das palavras há pouco ditas. Elas haviam saído antes que ele pudesse detê-las, e agora seu rosto enrubescia loucamente e Sirius ria dele.
- Qual a graça, posso saber? – perguntou Remus, ainda vermelho, olhando bravo para o amigo.
- Você não sabe como fica quando está vermelho – disse Sirius, dando um sorriso divertido para o menor e apertando suas bochechas. – Fofinho.
Aquilo fora a gota d'água para o licantropo.
- Saia daqui! – gritou ele, empurrando Sirius para fora da cama. – Vou me trocar, e espero não vê-lo até que eu tenha descido!
Assim que Sirius saiu do quarto, Remus se levantou, com as pernas bambas. Quem ele pensava que era para falar coisas daquele tipo? Será que ele tinha percebido algo ou simplesmente agia assim com todos? Não, isso era ago que ele não queria aceitar; gostava da idéia de ser tratado diferentemente dos outros, apesar de saber que isso era quase impossível já que os dois se conheciam há tão pouco tempo. Sirius não parecia ser o tipo de pessoa que se apaixonava rapidamente, como ele. Na verdade, Sirius parecia ser o tipo de pessoa que não se apaixonava. E ele gostava de mulheres. Remus vira como ele olhara para as pernas – e sabe-se lá o que mais – de Lindsay. Era ridículo o que ele estava sentindo. Entrou no banheiro e sentou-se no chão, as lágrimas escorrendo por seu rosto.
Merlin, por que doía tanto gostar de alguém?
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- Achei que tivesse se afogado – disse Sirius quando Remus finalmente desceu.
- Ainda não – respondeu Remus, frio. Seu humor havia melhorado após um banho quente, mas ao ver Sirius conversando tão animadamente com Lindsay ele se tornou novamente sério. Ela provavelmente havia percebido que Sirius era mais que um simples amigo para seu Mestre, e nela ele confiava plenamente, porque jamais o trairia. Ainda assim não era capaz de controlar seus ciúmes.
- Bom dia, Mestre – disse Lindsay, puxando uma cadeira para que Remus se sentasse.
- Bom dia, Lin – respondeu ele, um pouco menos seco.
- Deveria tentar melhorar seu humor – disse Sirius, servindo-se de um pedaço do bolo de chocolate.
- Não me enche, Sirius.
- Por que está tão nervoso? Ainda está com raiva pelo que aconteceu na sua cama?
Lindsay olhou para o Mestre, com os olhos arregalados. Remus ruborizou e olhou feio para Sirius. Ele não era inocente, e por isso não havia dito aquilo sem maldade; fora proposital. O motivo continuava obscuro para o licantropo.
- Não, Sirius, não estou com raiva pelo que você me chamou – respondeu ele, fazendo Lindsay respirar aliviada.
- Vucheparechiabavo.
- O quê? Fale de boca fazia, Sirius. Sua mãe nunca te ensinou que é falta de educação?
- Deve ter comentado, mas nunca liguei muito para o que ela falava – ele fez cara de criança travessa e Remus riu. – Ufa, finalmente! Achei que não fosse tirar um sorriso seu hoje.
Remus enrubesceu novamente, e fechou a cara.
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Remus estava há horas na enorme biblioteca de seu castelo tentando ler, em cima de uma confortável poltrona. Sirius estava deitado no chão, aos pés de Remus, olhando para o teto. Ele prometa ficar em silêncio para que o amigo pudesse ler, mas como ele e Remus esperavam, ele não o fez: a todo momento ele interrompia Remus em sua leitura. Remus fingia se irritar, mas a verdade é que não prestava atenção ao que lia. Seus olhos dourados ficavam observando Sirius mexer em seu cabelo, o movimento de seus belos lábios enquanto falava, o movimento de seu peito subindo e descendo conforme inspirava e expirava. Enfim, tudo. E isso era a maior distração que ele poderia ter; era extremamente difícil se concentrar em qualquer coisa que não fosse Sirius após tê-lo conhecido. Quando ele estava perto, então, isso se tornava impossível.
- Rem – chamou Sirius.
- Você não disse que ia ficar quieto, Sirius? – perguntou Remus, abaixando o livro que estava próximo ao rosto e olhando para o dono de um pelo par de olhos acinzentados.
- Me tira só mais uma dúvida?
- O que quer saber agora?
- Como você consegue ler sem mover os olhos?
- O q-quê? – gaguejou, sentindo seu rosto esquentar.
- Bem, já faz um tempo que você não meche os olhos – ele se levantou e foi para trás da poltrona onde o amigo estava sentado e abriu o livro na página em que a um dos dedos de Remus marcava. Ele abaixou a cabeça e a colocou ao lado da cabeça do amigo, um pouco atrás, de modo que sua respiração ia de encontro à orelha de Remus, fazendo-o estremecer. – Sobre o que é o livro?
- Sobre um garoto que queria e outro que não queria deixá-lo ler – disse Remus, usando toda a sua força para usar seu tom irritado sem que a voz fraquejasse.
- Interessante – Sirius saiu de onde estava e foi para o lado da poltrona, apoiando os cotovelos sobre um dos braços dessa. Seus olhos fitavam displicentemente o menor. – E o que acontece?
- O garoto que queria ler era um lobisomem muito, muito mau. E em uma noite de lua cheia ele estava sozinho com o outro garoto uma floresta, e-
- Não acredito que lê livros com conteúdo impróprio para menores, Rem – lançou-lhe um olhar de desaprovação.
- Não era isso o que eu ia dizer, idiota! – esbravejou Remus, ainda mais vermelho. – O lobisomem matou o garoto, e ele nunca mais foi visto.
- Correção: os dois nunca mais foram vistos.
- E quem disse?
- É o óbvio, Rem. Ao recuperar a forma humana, o lobisomem não agüentou o fato de ter matado o homem e se matou depois.
- Ele era um lobisomem mau.
- Não, não era.
- E quem te disse que não era? E quem te disse que ele se arrependeu de ter matado o garoto?
- Você sabe – ele deu um sorriso torto e saiu do quarto.
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- Como o Remus virou lobisomem? – perguntou Sirius para Lindsay. Depois do que acontecera na biblioteca, Remus disse estar indisposto e proibiu qualquer um de entrar em seu quarto.
- O Sr. Lupin, pai do meu Mestre, tinha uma rixa com um lobisomem chamado Fenrir Greyback. Durante uma batalha entre eles, na qual ele e sua esposa morreram, Greyback mordeu o jovem Mestre, quando ele ainda era criança – respondeu Lindsay. – Nessa época eu tinha meus doze ou treze anos, e estava em Hogwarts, mas vim correndo quando soube do incidente, pois minha mãe trabalhava para eles, e também foi morta no acidente. Desde então não voltei mais à escola, e dediquei a minha vida a ser a família que ele perdeu, do mesmo modo que ele se tornou minha família, já que nunca conheci meu pai, que era trouxa e largou minha mãe quando soube que ela era trouxa.
- Sinto muito – disse Sirius. – Você disse que ele viu os pais morrerem?
- Sim. E toda noite ele tem pesadelo com isso. Eu costumava ficar ao seu lado toda a noite, velando seu sono e segurando sua mão quando ele sentia muito medo, e ele então se acalmava. Mas ele me proibiu, dizendo que eu também precisava dormir.
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Remus estava deitado em sua cama, pensando. Apesar do que ele sentia, não seria melhor deixar Sirius ser feliz? A noite já caía, e o sol estava alto no céu quando ele o deixou sozinho. Provavelmente ele estava com Lindsay e os dois se divertiam juntos, porque isso era o normal: homens e mulheres. Não poderia ser diferente. Não deveria ser diferente. Então o que ele sentia era errado? Mas como poderia um sentimento tão bonito ser tão errado? Por que seu primeiro amor era seu primeiro amigo? Por que aquilo doía tanto?
Por que...
Por que com ele?
E, com a pálida face manchada pelas lágrimas, ele adormeceu.
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- Querida, corra com ele daqui!
- Não posso deixá-lo sozinho! – várias lágrimas escorriam pelos olhos da mulher.
- Você precisa ir! Não posso deixar que as duas coisas mais importantes da minha vida morram. Vou protegê-los, custe o que custar. Ainda que o preço seja minha própria vida.
- Papai, olhe que lobo bonito! – os olhos dourados do garotinho brilharam ao ver um animal tão grande.
- Sim, filhinho, é sim... Mas você e a mamãe precisam ir.
- E o senhor?
- Eu vou ficar aqui, tenho algumas coisas para resolver. Cuide da mamãe, sim? E nunca esqueça de que eu amo você.
- Muito muito?
- Muito muito.
- Por que o senhor está chorando? – perguntou ele, vendo as lágrimas que caíam pelos olhos do pai.
- Nada, querido, nada.
Dessa vez foram os olhos do garoto que se encheram de lágrimas, e sua roupa se encheu do sangue do pai. O lobo, que há pouco achara tão fofo, com um golpe só fazia a cabeça de seu pai cair de seu pescoço. Sua mãe gritou e pegou a varinha, lançando vários raios pela ponta dessa, mas sem conseguir o lobisomem: ele era rápido demais. Tão rápido que a alcançou antes que ela visse, e jogando o filho que antes estava em seus braços ao chão, ela também foi morta.
Agora restavam apenas o garoto e o lobisomem. Uma presa mais que fácil.
Ele correu até o garoto e mordeu-lhe o braço. O garoto gritou tão alto quanto pôde. A porta se abriu e alguns bruxos entraram, afugentando o lobisomem, que não voltou a pisar naquela casa novamente. Os bruxos levaram o garoto para o St. Mungus, apressados, temendo pelo pior. E a escuridão cobriu os olhos do garoto.
Agora ele estava sozinho e a escuridão era sua única companhia. Estava tudo terrivelmente silencioso, exceto pelo choro alto do garotinho.
- Mamãe? Papai? – ele chamava entre soluços.
- Descanse, Rem – disse uma voz, um sussurro. O garotinho parou de chorar.
- Quem é?
- Apenas descanse.
Uma mão afagou a cabeça do garotinho, que aos poucos se acalmou. Assim que ele se acalmou, um sono profundo se apoderou dele. A escuridão começava a desaparecer, e a última coisa que ele sentiu antes de dormir foram dois braços envolvendo sua cintura.
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Remus acordou, confuso, mas bem. Normalmente ele só se livrara da escuridão pouco antes do amanhecer, mas até lá ficava chorando e chamando desesperadamente por seu pai e por sua mãe. Foi então que sentiu que, como no sonho, realmente dois braços o envolviam pela cintura. Mas dessa vez ele não sentia só os braços: havia um corpo maior que estava encostado ao seu, que o abraçava pelas costas. Era confortável estar ali. Mas ele só queria saber quem era. Seria Lindsay? Mas o corpo dela não era tão grande, tão quente e não tão confortável.
Quando ele finalmente entendeu quem estava atrás dele, seu coração bateu tão rápido que Remus temeu rasgar-lhe o peito. Ele se sentou rapidamente e empurrou quem o abraçava para fora da cama. Seu rosto estava quase roxo de tão vermelho e sua respiração estava descompassada.
Maldito Sirius Black!
N/A: Finalmente consegui escrever! Sinceramente, tive sorte que como está no começo das aulas não tem muita coisa que me atrapalha a escrever as fics, mas a partir da semana que vem não sei como fica... E aí, o que acharam desse capítulo? Deu um trabalho enorme pra escrever, porque sou meio travada pra escrever sobre contato físico e tals... Mas me esforcei ao máximo nesse capítulo! Espero que tenha valido a pena.
Agradecimento especial a Flying Mushroom - Milinha-Potter - Kusmaluka - Raquel Cullen - Psycho, que mandaram reviews! Obrigada meeesmo, gente!
