No dia seguinte de manhã, a rapariga acordou. Edward teve a informação dois dias depois, quando voltou ao Hospital.
- Como é que ela está, colega? – perguntou o jovem médico ao colega, chefe de serviço, Jacob.
- Há melhoras, mas precisa de vigilância e fisioterapia. O joelho sofreu várias perturbações.
- Ela lembra-se de alguma coisa?
- Nada. Tem arritmia, luxações várias nos joelhos, o dedo do pé partido, e um problema maior… amnésia. Não se lembra de rigorosamente nada.
- E agora?
- Agora é um problema, Edward. Só por causa do dedo do pé e do joelho, ela não pode ficar no hospital mais do que uma semana. Isto se não tiver outro problema. Mas sem saber que é, para onde é que vai?
- Não pode ficar mesmo aqui?
- Poder, pode. Mas é difícil. Além disso tivemos um fluxo enorme de doentes nestes últimos dias…
-Mas o que lhe fazemos? Se é impossível ficar no hospital…
- Não há camas.
A situação complica-se. Edward olha-a preocupado. Estava um dia de Primavera, com o sol a brilhar. A rapariga estava sentada, olhando para a rua, para o verde.
- A única alternativa é levá-la para minha casa…
- Para a tua casa? Estás doido? Tu nem sabes quem a rapariga é! Imagina que é uma doida, uma drogada?
- Nem parece ser.
- Vamos tentar prolongar a estadia dela aqui. Sobretudo para ver se ela se lembra de alguma coisa. Se não houver alternativas, então acho que podes pensar nisso. Mas tem cuidado.
- Se ela não se lembrar, não há alternativa. Para onde é que se leva alguém neste estado, que não sabe quem é, nem o que faz, nem de onde vem? E que, sobretudo, precisa de vigilância? Tenho uma casa grande. A dona Esme toma conta dela. E a enfermeira Jéssica pode ir dar-lhe assistência.
- Se não há alternativa, é o melhor, realmente…
Depois de o colega sair, Edward aproxima-se da doente.
- Bom dia… O meu nome é Edward e sou o seu médico. Como é que se sente?
A rapariga respondeu, com um sotaque inglês. Falava devagar. Tinha uma voz grave. «Os olhos são mesmo castanhos…», pensou Edward. Os dentes eram brancos, pequenos, e muito perfeitos, e tinha sardas à volta dos olhos.
- Tem dores?
- No pé direito e no joelho… Mas pouco.
- Tem de pôr gesso no joelho. Vamos tratar disso agora. E da sua memória? Lembra-se de alguma coisa?
- Não. Nem sei o que estou a fazer em Portugal.
- Sabe o seu nome?
- Não… Não consigo lembrar-me, nem sequer do meu nome…
A rapariga começou a chorar.
- Acalme-se. Vai-se lembrar de tudo.
Edward deu-lhe um lenço. A rapariga limpou as lágrimas. Tinha um nariz perfeito, pequeno, muito afilado.
- E o apelido?
- Nada.
- E o que faz? Trabalha em quê?
- Não sei… Mas tive vontade de pintar este verde da relva e das árvores.
- Já é bom…! – Edward sorriu. – Já é alguma indicação!
- … Talvez…
- Fique calma. Vamos tratar bem de si. Olhe, eu tenho de lhe dizer isto… Pode haver um problema… É que o hospital tem poucas camas, e dentro de uma semana teremos que a mudar para outro lugar. Mas fique descansada que está tudo a ser resolvido.
- Obrigada.
A rapariga olhou-o com um sorriso triste.
- Edward? – era Jacob ao telefone.
Edward estava em casa, a gozar a folga. De jardineiras, ocupava-se de cortar a relva.
- Sim, Jacob…
- Desliga lá essa máquina que não se ouve nada…
- Sim, já está… Diz!
- Olha, eu não vou conseguir manter a rapariga no hospital por mais tempo… Pode ficar até depois de amanhã. Ela está a melhorar lentamente do joelho, mas precisa ainda de fisioterapia. Sempre queres levá-la para aí?
- Sim. Claro… Vou pedir para tratarem do quarto.
- Ela é mesmo uma rapariga muito especial. E tu estás a ser muito boa pessoa.
A rapariga era extraordinária. Nas últimas conversas, tinham falado apenas de assuntos banais, mas a sua sensibilidade, nitidamente especial, fazia com que qualquer coisa que dissesse fosse sempre cheia de beleza. Era uma pessoa serena, ainda mais tendo em conta a situação por que estava a passar.
- Já lhe falaste que a ias levar para aí, Edward?
- Disse-lhe só que tinha de mudar de lugar. Mas não disse mais nada.
- Ok. Quando vens?
- Amanhã.
- Então fala com ela… Mas há uma novidade…
- Sim?
- O motorista de táxi disse que ela atendeu uma chamada em inglês. E que ouviu o nome "Isabella". Se calhar é o nome dela.
- Óptimo, é uma boa indicação. Amanhã tento.
No dia seguinte, Edward estava sentado na cama de Bella, enquanto ela olhava pela janela. Como mostrara vontade de pintar, Edward tinha-lhe trazido um bloco e aguarelas. Pintava muito bem, embora, talvez ainda por causa do choque, as mãos lhe tremessem um pouco.
- Sente-se melhor?
- Sim…
- A arritmia está controlada, a tensão arterial também… O seu pé vai demorar algum tempo… E lembra-se de alguma coisa…
Ela voltou os olhos castanhos para Edward.
- Não.
- E o nome Isabella diz-lhe alguma coisa?
A rapariga fechou os olhos. Disse: «Isabella… Isabella…»
Depois respondeu:
- Sim. Acho que é o meu nome.
Pegou no papel e começou a escrever. Saiu uma assinatura.
- É o meu nome, sim, sei que é mesmo esse!
- E o apelido? Deixe ver a assinatura…
Mas era irreconhecível. O nome Isabella era claro, mas o seguinte era difícil de reconhecer.
- Bom, já sabemos o seu nome, Isabella!
Sorriram. Edward estava feliz. A luz do sol tocou nos olhos dela.
- E o resto? Quando é que me vou lembrar do resto?
- Bom, também já sabe que é inglesa e fala português maravilhosamente…
Bella abriu um sorriso luminoso. Edward continuou:
- O resto não deve demorar muito. Não há nenhuma justificação neurológica para que tenha perdido a memória. Deve ter sido o choque. Eu penso que daqui a muito pouco tempo se lembrará de tudo…
- Quanto tempo?
- Tem de ter calma. Se ficar nervosa, isso só piora a situação. E precisa de descansar.
A rapariga ficou séria. Olhou mais fixamente para fora.
- Mas, como eu lhe disse há dias, vai ter de sair daqui…
- Para onde?
- Oficialmente, não podemos transferi-la… Mas, se a Bella aceitar, pode ficar em minha casa. Moro numa propriedade em Santarém. A enfermeira iria lá e eu ajudo na sua recuperação. E lá pode recuperar à vontade, até ficar melhor. O que acha?
O rosto de Bella iluminou-se.
- É muito simpático da sua parte… Mas eu vou incomodar…
- Não, nada disso, tenho todo o gosto. E assim fico mais descansado… Acredite, eu sei pelo que está a passar.
Bella sorria, comovida, a pensar nas palavras de Edward.
- Aceita?
- Aceito, obrigada…
No dia seguinte, uma ambulância levou Bella e os seus desenhos para a propriedade de Edward, Água Azul. Atenta ao caminho, de olhos bem abertos, Bella viu o enorme portão de ferro, pintado a verde, com o ano ("1782") bem marcado na porta, e o percurso de centenas de metros até à entrada da casa. Com três andares, pintada de branco, eram catorze as janelas amplas, altas, e um telhado enorme, revirado em cada lado. Uma casa senhorial, linda e imponente. Árvores rodeavam os dois lados da casa. Ao fundo, vinhas até perder de vista, aumentavam a beleza desta propriedade.
À porta esperava-a Edward e uma senhora.
Olá a todos
Aqui está mais um capítulo espero que gostem.
Deixem os vossos comentários e digam o que estão a achar.
Beijinhos
Até ao próximo capítulo.
