BPOV's

Deixei meus pés balançarem preguiçosamente sobre a minha mesa abarrotada de papéis. A leitura deles estava sendo adiada o máximo possível, porque a dor nas minhas costas e cabeça estava me matando aos poucos, e eu não iria me sacrificar para ler cláusulas de fiscalização. Não que eu fosse nojenta, não que o meu estabelecimento fosse nojento, mas assinar todas as cláusulas em que eu concordava em usar detergente inodoro ao limpar os copos era ridículo demais. Droga, eu sempre usava detergente inodoro.

Olhei para a janela pequena que dava a visão para o topo da calçada lá fora. Eu estava no porão do Saloon, meu pequeno grande pub no sul do Brooklyn. O nome do negócio era sujo, como dizia minha mãe, mas atraía bastante atenção dos turistas e isso me garantia uma boa grana pra pagar os funcionários no fim do mês, afinal de contas. Estava chovendo fino lá fora e aquilo só aumentou minha vontade de espreguiçar meus músculos e largar ainda mais meus pés sobre a mesa, não me importando quando algumas folhas foram ao chão. Eu tinha coisas mais importantes para fazer… como tirar uma soneca na minha cadeira fofa e de couro.

Mas, antes que minhas pálpebras se fechassem para meu mundo sonolento, ouvi o estridente som do meu celular contra o tampo de madeira da mesa. Olhei ofendida para o aparelho, o acusando de perturbar meu momento sagrado da soneca e peguei com brutalidade o retângulo preto e barulhento.

- Alô? – Soei um pouco mal humorada, e eu esperava que quem estivesse do outro lado da linha percebesse meu humor.

- Isabella? Merda, ainda bem que te encontrei.

E meu rosto caiu em um movimento ao contrário dos meus olhos, que se arregalaram de surpresa. De um jeito idiota, eu comecei a arrumar meu cabelo confuso e minhas blusa contra meu corpo até perceber que, dã, ele não estava me vendo. Senti meu coração acelerar com a voz levemente rouca que depois de tanto tempo, voltava a soar contra meu ouvido. Aquilo era tão ruim… e bom ao mesmo tempo.

- Ah, hey – eu tentei parecer descontraída e usei a surpresa da minha primeira reação como combustível para isso. – Não estava esperando que… você… ligasse.

- Bom, nem eu – ele deu um riso. – Mas eu estou numa merda de encrenca.

- É?

- Ah, é. Eu acho que esqueci a chave do meu antigo apartamento na nos… na sua casa.

- Oh.

Um mapa mental surgiu em frente aos meus olhos enquanto eu refazia o caminho até onde estava sua chave. Eu sabia que ela estava em algum lugar entre o sótão e o porão, só não sabia exatamente onde.

- Edward… - comecei lentamente – eu acho que vai ser um pouco impossível acharmos sua chave… eu meio que andei fazendo umas faxinas.

- Você? Faxinas? – Odiei o tom que ele usou, como se aquilo fosse impossível de acontecer e ele me conhecia bem demais para saber daquilo.

- É – respondi um pouco ofendida. – É bom, sabe? Limpar coisas... Eu aprendi direito.

Isso não deixava de ser verdade. Era verdade que, depois que nós havíamos terminado, eu me senti tão desorientada que, para não voltar rastejando para ele assim que ele bateu a porta de casa e foi embora, eu mergulhei em mil e um cursos. Um deles era como prolongar a faxina usando menos produtos para limpeza. Na época me pareceu ótimo uma coisa daquelas, que manteria minha cabeça ocupada assim como minhas mãos, além de tirar o cheiro e a presença dele da minha casa.

- Hum, ok – Edward suspirou e ele parecia realmente ansioso. – Olha, Bella, eu preciso muito dessa chave, é aquela coisa de vida ou morte. Eu posso implorar para você procurá-la ou algo assim…

- Não, não. Eu… dou um jeito. Hum, você vai se mudar para lá de novo? – Enrolei o meu cabelo no meu dedo, dando um ar de despreocupação. Mas, de novo, lembrei que ele não estava vendo eu fazer essas coisas e grudei minha mão na mesa, constrangida comigo mesma.

- Não, não – ele respondeu rapidamente. – Eu preciso ir… se você achar, só ligar para esse número, ok? Até mais.

- Até… - ouvi o som da linha vazia contra meu ouvido antes mesmo de terminar minha sentença. – mais.

Tirei meus pés de cima da mesa rapidamente, numa manobra incrível para não cair da cadeira e me levantar ao mesmo tempo. Peguei meu casaco do gancho atrás da porta e logo saí, subindo os degraus até o andar de cima. Encontrei Alice falando animadamente com algum cara no balcão. Ela me olhou assim que eu passei apressada pelos dois.

- Hey, onde você vai? – Indagou com as pequenas sobrancelhas franzidas.

- Eu tenho que sair – disse.

- Bella, são 18:23… - ela consultou o relógio. – Nós já vamos abrir.

- Eu sei, eu sei. Mas eu preciso dar uma saidinha. Você é minha gerente, faça seu salário bom pra caralho valer a pena – eu sorri com a careta que ela fez e me dirigi para a calçada.

Enfiei meu cartão de qualquer jeito no parquímetro e logo estava na minha picape, rugindo pelas ruas de Nova York. Eu realmente teria que atravessar a cidade para fazer aquele pequeno favor a Edward, mas eu não me importava porque… oras, era Edward.

Edward Masen Cullen era o resumo do homem mais imbecil que um dia eu já tive o azar de conhecer. Em contra partida, eu suspeitava seriamente que ele era o homem da minha vida e que, bem, agora, ele já não fazia tão parte da minha vida assim. Nós nos conhecemos no colegial, quando ele era um desses caras inteligentes e que pegava todas as garotas que mostrassem a quantidade de seios/bunda com o pouco conteúdo no cérebro, assim ele podia se livrar facilmente delas. Infelizmente, não éramos como melhores amigos na escola, nós nos odiávamos bastante, especialmente pelo fato de nos conhecermos desde sempre, já que éramos vizinhos e nossas mães brincavam de chá das 17h desde que tinham cinco anos de idade. Nós sobrevivemos a uma convivência forçada e odiada por ambos até os dezoito anos, quando finalmente nos separamos. Bom, pelo menos eu pensei que tínhamos nos separado quando fomos para a faculdade. Mas eu só tive o crescente azar de encontrar ele no campus da faculdade. Era quase destino que nós dois tivéssemos escolhido cursos na Columbia.

Então, quando começamos a dividir a aula de Língua Inglesa Avançada, simplesmente paramos de sermos tão babacas um com o outro e, no fim, usávamos nossos sábados para ver filmes juntos enquanto tomávamos cerveja. De repente, Edward era meu melhor amigo e eu já não sabia me ver sem ele. E quando aquilo tudo cresceu, nós transamos no sofá dele. E, merda, foi incrível.

E agora parecia que tudo aquilo fora há tanto tempo. Eu e Edward já não nos falávamos há meses, e as únicas notícias que eu tinha dele era quando minha mãe tinha alguma fofoca que Esme havia contado para ela sobre alguma nova "namoradinha" de Edward. Minha mãe era meio insensível a esse ponto às vezes.

Depois de alguns semáforos vermelhos e espera no trânsito, cheguei ao Greenwich Village com o meu celular novamente berrando no bolso dos meus jeans. Era Alice.

- Onde diabos você se meteu? Eu estou enlouquecendo aqui, Bella! – Ela ralhou e eu mal pude distinguir o som da sua voz com a cacofonia que estava ao fundo.

- Eu estou em casa, só vou pegar uma coisa e já vou te ajudar, ok?

- O quê? Você se arrastou até o outro lado da cidade? Você quer me ajudar assim? – Ela parecia a beira de lágrimas. – Olha, eu preciso de você, e é agora. Tente não demorar, ok? Isso aqui tá uma bagunça…

- Ok, ok. Você nem vai perceber quando eu chegar, não vou demorar – eu acho.

(…)

- Seria tão mais fácil se você falasse… - Eu suspirei desanimada.

Certo, eu estava confusa demais, no meio do meu quarto confuso e minhas coisas confusas. Tudo tinha sido revirado pelas minhas mãos apressadas a procura da tal chave. Alice provavelmente estava mandando fabricar uma série de bonecos voodoo para me representar na futura seita de magia negra que ela faria. Eu ouvi meu celular tocar umas cinco vezes, provavelmente todas as vezes eram Alice, e eu apenas ignorei para tentar achar o objeto.

Minhas gavetas estavam jogadas ao chão, com os conteúdos todos espalhados do lado de fora e sendo analisados criticamente por mim. E eu não achei a chave. Me perguntei se Edward estaria brincando com a minha cara e a merda da chave estava com ele o tempo todo, mas não consegui ver o sentido daquilo, então só continuei procurando.

Até mesmo minha gaveta proibida estava revirada e eu tinha quase certeza que era que a chave estava. Ou devia estar. Minha gaveta proibida era restritamente proibida a mim, já que para qualquer outra pessoa aquela parte do móvel seria muito comum. Guardava apenas cartas, papéis, bilhetes e pequenos objetos de significados singelos. Claro, tudo isso era proveniente de Edward e era essa razão por aquilo ser proibido. Edward era um terreno proibido para mim.

Sentei no chão, largando minhas costas contra a cama e esticando minhas pernas em meio aos papéis, bilhetes, caixas de jóias e todas essas porcarias que eu guardava em gavetas, até mesmo camisinhas. Com sabor.

Olhei em volta, escaneando todo o cômodo em busca de algum lugar que eu ainda não tivesse procurado. E, como se alguém tivesse encaixado e acendido uma lâmpada acima da minha cabeça, eu levantei e corri para fora do quarto.

(…)

Fiquei parada em meio ao corredor, olhando para o teto e para pequena porta que tinha sido encaixada nele e que guardava a escada que me levaria ao sótão. Eu tinha quase certeza que a chave estava lá, junto com a caixa de camisas que eu costumava dormir, mas pertenciam a Edward, assim como bastante dos chocolates que ele dava para mim.

O meu problema era que o sótão era um lugar muito instável nas minhas memórias. Eu odiava esses lugares pequenos e cheios de coisa que faziam o espaço ficar ainda menor, onde tudo cheirava ou estava coberto de poeira e havia muitas aranhas. Era essa minha visão de sótãos e, merda, eu odiava aqueles lugares. Para transportar tudo o que meu sótão guardava, eu precisei da ajuda das minhas amigas e… namorado… para a tarefa depois de ser chamada de preguiçosa.

Ok, Bella, não seja maricas – resmunguei comigo mesma. Enganchei minha mão na cordinha que puxava a porta/escada para baixo e a puxei.

A escada de metal se estendeu na minha frente e eu catei a lanterna que eu tinha trazido comigo e estava no meu bolso. Assim que eu subisse lá, eu ia direto para as caixas onde eu tinha guardado as coisas de Edward, que tinham um maior volume, porém eu não tinha conseguido me desfazer completamente. Eu ia abrir caixa por caixa até achar a chave e faria isso da maneira mais rápida possível, ia descer as escadas, ligar para Edward e marcar o horário de nos encontrarmos para eu lhe devolver a chave e depois seguir para o Saloon e assistir Alice jantar meus rins.

O plano parecia bem simples quando eu subi a pequena escada e logo cheguei ao andar de cima. Tossi com a nuvem de poeira densa que pairava no ar e olhei em volta com a ajuda da lanterna acesa. Tudo parecia louco ali em cima, tão sujo e desorganizado. Eu provavelmente nunca entraria nesse lugar apenas por entrar. Dei uma volta pelo cômodo, localizando algumas caixas familiares e coisas velhas.

Havia dezenas de coisas caídas para fora das caixas e eu não podia explicar, como diabos, aquilo havia saído de dentro delas. Continuei meu pequeno passeio até ouvir um pequeno ruído.

Eu digo que foi pequeno, porém, o grito de puro pavor e o pulinho extremamente embaraçoso que eu eu dei não refletiam exatamente o adjetivo "pequeno". Era uma certeza absoluta, eu simplesmente sabia sem nem ao menos ter visto, que o ruído provinha de algo peludo, sujo e de quatro patas.

Ótimo, agora eu enfrentaria ratos no sótão. Tão clichê. E nojento.

Lentamente, busquei a porta, a chave ficaria perdida para sempre e Edward teria que apenas chamar um chaveiro... Seria bem mais simples e eu não teria que enfrentar seu rosto, ou sua voz perfeita ou algum tipo de olhar que me analisasse de cima a baixo e medisse o nível de depressão em que eu estava. Era lógico que ele sabia que eu estava mal sem ele, mesmo que ele estivesse há mais de três anos longe de mim - minha mãe conseguia desempenhar seu papel de pombo correio muito bem, para manter Esme atualizada do meu estado não-consegue-desencalhar-nem-com-a-ajuda-da-Guarda -Costeira.

Com um bufar, praticamente corri até a portinha. Bem, minha intenção era chegar lá se não houvesse um par de olhos negros e extremamente brilhantes e esbugalhados olhando em minha direção. Ele estava ali, bem parado ao meu lado e eu estava tão perto de não ter tido o azar de vê-lo.

O rato pareceu temer mais a mim do que eu a ele e deu seu primeiro passo. Isso foi o suficiente para me fazer expulsar meus pulmões para fora do meu corpo, gritando como se minha vida dependesse daquilo. O rato correu em qualquer direção para longe de mim e eu fiz o mesmo.

Foquei em chegar até a porta sem cair escadas a baixo.

Meu pé enganchou-se em sabe Deus o que durante minha corrida, fazendo meu corpo dar um solavanco antes de se chocar contra o assoalho de madeira. Eu caí. Dolorosamente caí, em um bolo de pernas, braços e gritos enquanto meu corpo rolava pelo chão, levantando nuvens de poeira.

Algo guinchou sob meu peso e eu temi ter esmagado o pobre rato com meu corpo, mas eu apenas havia acertado a porta aberta, a forçando para baixo e a fechando com um baque agudo.

- Mas... que... porra! - Gemi, estirada sobre o chão, completamente empoeirada. Meu braço inteiro doía de ter amortecido a queda e teria sido embaraçoso se alguém estivesse ali para presenciar minhas tentativas de erguer meu corpo.

Aquilo parecia uma triste paródia da minha vida. Eu estava de pé, mas ainda assim eu continuava dolorida e suja. E a pior parte era que eu apenas queria ligar para o meu ex-namorado e mandá-lo para algum lugar não muito bonito. Sim, definitivamente, aquilo parecia minha vida. Por que eu não pensava em sair dali, tomar um banho e alguns analgésicos e ir viver minha vida? Não, meu primeiro pensamento sempre rumava para Edward e minha obsessividade em colocar toda a culpa nele.

Consegui me ajoelhar de novo com grandes dificuldades, em meio a gemidos e coceira no nariz tapado de poeira.

- O quê? Não, não, não... Ah, não...

A portinha parecia estranhamente torta, com uma das pontas afundada e a outra mal encaixada. Meu corpo devia ter acertado em cheio a madeira e agora ela estava completamente emperrada. Chutei a parte já afundada até a madeira ranger em protesto, mas nunca quebrando-se. Tentei então a tática reversa, puxando a porta para cima até meus dedos ficarem vermelhos e meus braços doerem ainda mais pelo esforço.

Sim.

Trancada.

- Merda! – Grunhi nervosa, olhando para os lados a procura da lanterna que eu havia trazido junto comigo, mas agora era apenas mais uma coisa perdida no meio da minha bagunça.

EPOV's

- Isso é realmente perfeito – ela jogou seus braços em volta dos meus ombros e eu sorri para o seu sorriso.

Estávamos sentados na melhor reserva que o SoHo podia nos oferecer. Apesar de Tanya não gostar particularmente do bairro, ela havia cedido aos meus pedidos para essa noite. Ela estava se desmanchando em sorrisos desde o momento que contei sobre o sucesso da venda do meu antigo apartamento, o que lhe renderia um bom dinheiro para escolher a lua-de-mel que quisesse para nós dois. Aquilo estava me fazendo bem, não feliz, mas bem.

Assisti quando ela começou a comentar sobre todos os preparativos do casamento, sem realmente prestar atenção em alguma coisa. Me contentei em apenas sorrir e balançar a cabeça, dando pequenos gestos para encorajá-la a continuar falando. E isso era o melhor que Tanya tinha: ela simplesmente não me conhecia tão bem para reclamar do meu comportamento quase sempre evasivo, e amava suficientemente o bastante meu dinheiro para querer reclamar de mais alguma coisa. Tanya era legal, eu não podia ser muito exigente.

Mas enquanto ela falava, eu me vi lembrando da voz quase sonolenta que eu tinha ouvido no telefone há algumas horas atrás. Eu sabia que eu estava atrapalhando a soneca da tarde de Bella, e ela adorava deixava claro para todo mundo o quanto esse horário do dia era importante. Mas era uma oportunidade de falar com ela realmente falando com ela, sem que Bella tivesse que forçar os ouvidos para ouvir além do barulho do seu bar, ou gritando ordens como só ela sabia que podia fazer. E o assunto era importante, portanto, eu não iria respeitar sua soneca pela primeira vez em anos. O seu tom furioso havia se convertido a quase algo nervoso, e eu não podia me sentir bem ao pensar que aquilo era uma pequena vitória para mim. Vitórias com Isabella Swan já não significavam nada mais hoje em dia.

Consegui seu número depois de pedir para Esme perguntar discretamente a Renée sobre a filha, pedindo o celular dela para convidá-la para um brunch qualquer dia. Minha mãe era tão mentirosa. De certo modo, ela era uma arma secreta para mim.

Eu aguardava em um anseio silencioso pelo vibrar do meu celular no bolso. Bella poderia me chamar a qualquer hora para marcar algum encontro e me entregar a chave, mas provavelmente ela iria querer fazer a transição por meio de Renée - Bella fugia de mim como se eu a mantivera em cárcere privado durante todos nossos anos de namoro e agora ela conseguira sua liberdade. Mas eu insistiria, eu precisava ver como ela estava, poderíamos nos ver e eu até poderia convidar ela para o casamento. Meu casamento.

Esme me disse que Bella nunca mais namorou alguém sério depois de mim. Talvez mais uma pequena vitória aí. Mas Renée insistia que, eventualmente, algum figurão e boa pinta aparecia na sua casa como convidado da própria Bella, e ela lhe confessava que o cara estava lhe plantando a semente da dúvida. Eu sabia que porra de semente era aquela e simplesmente não era da dúvida. A semente de Bella era a do pavor. Pavor de qualquer tipo de compromissos, especialmente os que envolvessem filhos e casamento. E, se realmente ela começara a encontrar caras que começassem a mudar seu pensamento a favor do casamento, eu perseguiria o grande escolhido e lhe pediria um autógrafo, ou um manual.

Me concentrei novamente nos movimentos dos lábios finos de Tanya, que sorriam a cada segundo.

-…então, eu pensei em petúnias espalhadas pelo salão, com laços azuis. Eu acho realmente majestoso e… - voltei a perder a atenção da voz dela quando senti o meu blackberry vibrar contra a minha perna.

- Desculpa, amor, só um minutinho… - me afastei da mesa sob o olhar zangado de Tanya. Fui até o jardim de inverno do restaurante e tirei meu celular do bolso.

Era ela.

Deixei o aparelho tocar mais um pouco, apenas para que Bella não achasse que eu estava esperando ansiosamente seu telefonema. Porém, me senti um perdedor total e acionei a chamada rapidamente.

- Arrrrgh! – Fui saudado por seus sons zangados do outro lado da linha.

- Alô? – Perguntei confuso, imaginando se ela não teria apertado sem querer o meu número ou alguma dessas merdas que acontecem.

- Ah! – Eu ouviu seu gritinho de espanto e alguma coisa caindo ao fundo. – He-ey! – Bella respondeu em uma voz aguda, como se tivesse sido pega fazendo algo errado. – Edward! Hm, então, eu estou procurando sua chave…

Fechei meus olhos ao ouvir meu nome vibrando em sua voz pela segunda vez naquele dia, depois de tantos meses sem nem saber se ela continuava bem.

- Então? – franzi meu cenho.

- Edward, eu acho que a chave está no sótão.

Droga. Senti sua voz minguar um pouco quando ela mencionou o cômodo da casa que mais odiava. Bella nunca foi fã de lugares escuros, sujos e abarrotados de coisa e, quando podia, sempre evitava escalar a escada até lá. Eu já tinha feito muitas vezes aquele caminho sob pedidos dela.

- Uh. Bella, se você não quiser subir até lá, tudo bem, eu entendo. Eu posso procurar a imobiliária e pedir uma cópia – e eu podia mesmo, mas não havia uma razão lógica por não ter tomado essa medida primeiro.

Eu pretendia vender o mais depressa possível aquele apartamento que, durante um período de tempo, eu chegara a dividir com Bella por várias noites. Ele trazia algumas lembranças não tão legais como eu gostaria e, depois de comprar uma casa mais espaçosa no subúrbio, eu não via razão de manter o imóvel sob meu nome. O dinheiro ia ser bem vindo para Tanya fazer todas as vontades dela sem precisar me encher o saco ou mexer na minha conta bancária de uma maneira desagradável, como ela gostava. Mas a minha cópia havia se extraviado ao longo do caminho, provavelmente em algum acesso de fúria contra aquele apertamento e Isabella.

A saída mais simples seria ir até a imobiliária que me vendera o lugar e pedir para eles acharem a chave, pois sabia que eles tinham. Mas… Pedir para Bella soara mais interessante.

- Você pode? - Ela podia matar alguém com aquela voz. – O problema, Edward, é que eu já estou no sótão e, bem, eu estou completamente presa aqui! - Sua voz foi ficando cada vez mais fina e eu arregalei os olhos.

Imaginei Bella quase chorando e se escabelando, presa no sótão e sendo rodeada por aranhas. Aquilo era trágico, mas era o suficiente para me querer fazer rir.

Engoli minha risada. Olhei ao redor, vendo Tanya com um olhar entediado na mesa.

- Como diabos isso aconteceu? Você já chamou alguém?

- Gênio, eu estou chamando você nesse exato momento.

Talvez não fosse o certo eu sentir aquele orgulho por ser o homem por quem Isabella Swan chama quando está trancada no sótão, mas o sorriso convencido tomou conta de mim.

A acalmei, certificando-a que eu não demoraria muito para estar lá e ela desligou na minha cara. Bem, alguém estava presa e irritada.

Quando ela desligou, eu estava com um puta sorriso imbecil na minha boca. Mas assim que dei as costas pro jardim, vi Tanya me olhando animada da mesa, percebendo minha ligação encerrada. Um sentimento de culpa encheu meu peito quando eu vi que teria que abandoná-la para tirar minha ex que estava presa em casa por minha culpa. Tanya já tivera que agüentar tantas das minhas reclamações no último ano em que estivemos juntos, basicamente todas consistiam em Bella e sua negação em admitir uma relação mais séria, e o quanto eu queria uma mulher diferente dela. Bem, Tanya adotou uma postura que era totalmente o oposto de Bella, de verdade. Não sabia se aquilo era apenas seu jeito de ser ou se ela fazia aquilo para me satisfazer ao comparar suas diferenças.

- Então? Vamos pedir? – Ela indagou, sacando o menu e passando os olhos por cima.

Eu não fiz questão de me sentar quando disse que tinha que dar uma saída.

- O que foi dessa vez? – Sua voz estava voz zangada, suas sobrancelhas finas curvando-se para baixo. – Se for Emmett dizendo que não consegue transferir os arquivos de novo, eu juro que…

- Não, é outra coisa. É pessoal, Tanya, me desculpe – eu lhe cortei. Ela particularmente odiava Emmett e dessa vez eu não estava deixando ela na mão por culpa dele, o que era raro.

- Então eu vou com você – ela se prontificou, desconfiada.

- Não, não, amor, isso irá se resolver em questão de minutos. Por que você não pede alguma coisa para a viagem, huh? Eu apareço no seu apartamento mais tarde, eu prometo. Por favor - uni minhas mãos, parecendo um tolo.

- Edward, você não pode me largar aqui assim, me fazer jantar sozinha! – Ela sibilou olhando ao redor.

- Você não precisa jantar sozinha, é só me esperar para jantar, querida – sorri para ele enquanto segurava seu queixo e plantava um breve selinho em seus lábios, que se torceram em desgosto. – Eu volto em menos meia hora.