Entre o sonho e a realidade
Capítulo 02
Duo POV
Seis horas e meia. Três vezes acordando Heero na madrugada, para evitar o risco de coma. Há ainda mais uma última vez que deverei acordá-lo, antes que chegue a manhã quando Quatre levantará e eu realmente não sei o que pensar. Será que devo chamar o Quatre e falar pra ele que há algo muito errado com o Heero? Ou será que devo dizer que sou eu que devo estar ficando louco e precisando de um atendimento médico urgente?
Nas três vezes que tentei acordá-lo, felizmente, Heero retomou a consciência, demonstrando que de fato estava dormindo, e não desmaiado.
A primeira vez, havia sido bem simples. Chamando o seu nome novamente, era como se fosse uma retrospectiva do momento em que trouxemos ele para o sofá. A breve confusão, seguida pelo reconhecimento e alívio. E claro, o belo sorriso. Que me fez perder o fôlego ainda mais uma vez. Creio que o meu torpor durou mais tempo desta vez, porque aos poucos vi o sorriso perder o seu brilho.
"Porque você não está sorrindo?" Incrivelmente a pergunta não tinha sido minha, mas de Heero que passava a ter uma expressão levemente preocupada.
"O- o que?" Balbuciei inteligentemente.
Seus olhos pareciam cada vez mais pesados, e a última coisa que ouvi foi:
"Você... você sempre sorri...eu gosto... do... seu sorris...o..."
Eu não sei o que aconteceu de fato nas duas horas seguintes. Só sei que o meu coração continuou desparado, desde aquela última frase que rodava meus pensamentos tantas vezes que eu já não sabia o que mais pensar. Heero gostava do meu sorriso? Mas desde quando? Não estaria ele me confundindo com outra pessoa? O quão consciente Heero estava afinal? Pois o comportamento dele naquela noite era, no mínimo, inusitado.
Tentando ser realista e buscando com todas as forças apagar aquela esperança que a última frase fazia surgir, decidi que deveria verificar o estado de consciência de Heero. Levei a mão livre para seu ombro para acordá-lo, uma vez que já chegara o momento para a segunda checagem.
"Heero, Heero? Vamos lá, hora de acordar de novo."
Os olhos azuis se abriram novamente, mas desta vez não houve o desabrochar do sorriso. Suprimindo o súbito desapontamento , tentei fazer o que havia decidido e verificar realmente o grau de consciência de Heero.
"Heero, olhe pra mim. Você pode dizer quem s-"
Fui interrompido por um outro gesto inesperado. A mão que circulava o meu pulso, lentamente subiu ao meu rosto, aninhando-se na minha bochecha direita.
"H-Heero?" Devo admitir que senti um leve pânico, ao mesmo tempo que minhas faces ruborizavam e meu coração disparava. As coisas estavam estranhas demais, inesperadas demais, e eu perdia cada vez mais o meu controle. A mão de Heero no meu rosto era tão gentil. Tão parecido com o que eu sonhava, nos sonhos que eu nunca pude realmente suprimir.
Inconscientemente ergui minha mão para pressionar um pouco mais a sua palma no meu rosto, pendendo lentamente minha cabeça um pouco para esquerda. Tão quente e tão real... Senti o polegar de Heero fazer um leve carinho no meu rosto e quase me perdi. Tão gentil... Mas logo lembrei o estado em que Heero estava, o que eu deveria perguntar e acho que não pude esconder a dor ao perceber que eu estava quase acreditando que aquele sonho era realidade.
"O que foi..?" A voz rouca de Heero me fez olhar pra ele novamente, abrindo os olhos que eu nem havia percebido que cerrara. Heero parecia se esforçar contra o cansaço para continuar:
"Não... não f..fique triste... eu..eu...estou aqui...meu...amor..."
Senti a palma de Heero deslizar no meu rosto, assim que ele sucumbiu novamente ao sono. Sem minha mão para dar apoio, seu braço caiu novamente no sofá.
Meu amor. Meu amor? O Heero amava alguém? O choque era grande demais para digerir. Assim como a tristeza, desapontamento e culpa. Heero estava me confundindo com um ou uma amante. Uma outra pessoa. E eu...
Senti o gosto de bile na garganta ao perceber o que fiz. Eu me aproveitei do momento, do carinho que deveria ser direcionado para esse outro alguém. Tomei para mim, nem que fosse por um momento, algo que não era meu. E o pior, não sentia arrependimento, porque naquele breve instante, meu sonho havia se realizado.
Senti-me sujo e egoísta, por ter invadido a privacidade de Heero, que mostrava abertamente um lado que eu nunca tinha visto. Claro que eu sabia que Heero era muito mais humano do que demonstrava ser. Mas nunca imaginei que alguém tivesse o privilégio de vê-lo tão aberto e tão afetivo.
Suprimi com toda energia a pontada de inveja dessa pessoa desconhecida e os pensamentos depressivos, tentando enxergar pelo lado positivo. Afinal, Heero conseguiu achar alguem que amava e sua vida não era mais simplesmente a guerra e a destruição...Ele não estava mais sozinho, tinha alguém para expressar o seu lado humano e lhe dar esperanças após cada batalha. Heero poderia ser feliz...
Esse último pensamento fez surgir um calor no meu peito que finalmente conseguiu fazer com que as lágrimas parassem de derramar.
