Capítulo 1- Cartas antigas

"Old letters- Silence 4"

EPOV

Sentada em frente à enorme mesa de centro é o local onde a posso encontrar desde que chegámos à ilha.

Desde que a conheço, sempre foi uma apaixonada por História e desde os 10 anos que passamos horas nesta sala a ler. Ela lia, eu olhava para ela. Engraçado que após 15 anos de namoro, ainda me pergunto se ela está comigo por mim, ou para ter acesso a esta sala.

O meu pai encontrou nela uma aliada e uma herdeira dos seus livros e diários, já que nem eu nem a minha gémea Alice se interesssa por História. A Alice é conselheira educacional e eu, bem eu prefiro seguir a herança do meu pai na medicina.

Bem não estou a ser sincero, adoro História, sempre que ela faz brilhar os olhos da minha Bella enquanto lê relatos ou lê livros que para mim são uma seca, mas que para ela são tesouros que a prendem durante horas e horas sem parar... ou até eu obriga-la a parar.

Adoro interromper os devaneios da minha Bella quando está envolvida na compilação de factos para transformá-los na sua própria teoria, com beijos e carícias de modo a trazê-la de volta ao presente. De volta a mim.

Quando escolheu como tese o povoamento da nossa ilha não estranhei de todo, uma vez que poucos registos fidignos existem acerca dessa época. Curiosamente sempre houve um apaixonado em cada geração da minha famíla desde a sua chegada à ilha e por vezes a sala transformada em biblioteca parece um museu. Algo que eu nunca entendi, mas respeito.

Olhando fixamente para Bella, na esperança de que o meu olhar a desvie do seu trabalho aproximei-me devagar tentando não fazer barulho, ao mesmo tempo desejando que só o meu olhar a desperte e que olhe para mim.

Como quase sempre, bastou esse olhar fixo para que os seus olhos encontrassem os meus e os seus olhos que já brilhavam com a emoção do trabalho, tornaram-se dois faróis ao ver-me.

Ainda bem que ainda produzo este efeito nela.

"Bella, meu amor, está na hora de sair um pouco desta sala e apanhar ar" disse com o tom de voz mais doce que pude encontrar na esperança de tê-la só para mim um pouco de tempo antes da minha eminente partida de volta à clínica.

Olhando para mim, mas com as sombrancelhas em arqueadas como quem está a tomar uma decisão, ela baixou o livro que tinha nas mãos e suspirou.

"Amor, deixa-me só acabar de ler este documento e vamos já." Respondeu ela com um sorriso esperançoso.

Rendido, sentei-me ao lado dela tentando não a destrair de modo a evitar que se atrase na leitura. Entendiado procurei alguma coisa para ler enquanto esperava por ela.

Ao olhar para cima da confusão organizada de folhas e cadernos, um chamou-me a atenção.

Um monte de folhas presas com um laço rosa encadernado em tecido bordeaux. Algo estranho quanto a mim e a curisosidade fez-me apanhar o caderno com cuidado.

Bella olhou interrogativamente para mim, mas nada disse e os seus olhos voltaram para o seu trablho.

Na capa do caderno nada identificava o seu conteúdo, não fosse o laço cor de rosa que o prendia diria que era mais uma compilação de relatos médicos dos meus antepassados. Abrindo deparei-me com um manuscrito de uma letra desenhada na perfeição no papel amarelado pelo tempo.

Cuidadosamente cheguei o caderno mais próximo de mim com mil cuidados e com medo que se desmembrasse ao toque, pois não fazia a menor ideia de quantos anos teria.

Esta dúvida dessipou-se de imediato ao ver no topo da página naquela letra desenhada a data e curioso iniciei a leitura do manuscrito.

Ano da Graça de 1497.

Minha querida e adorada irmã Isabel,

Espero que estas linhas te encontrem com a Graça de Deus e a ajuda dos Anjos.

Escrevo-te com a saudade que me acompanha desde o dia que partimos e desejo com toda a minha alma e coração que tu e o meu amado irmão vos encontreis bem de saúde.

Certamente ainda não é chegada a hora do nascimento do novo rebento, mas ao receberdes estas minhas linhas, por certo já terás no teu seio o teu novo amor.

Por Deus, tudo daria para estar ao teu lado e ver-te abraçar o teu filho.

A mãe sempre disse que tinhas a cara de quem terá uma menina, mas eu sei que será um menino, com os olhos verdes do meu irmão e os cabelos castenhos como os teus. Não sei como, mas sinto-o como se o visse à minha frente e só essa visão me enche de alegria e satisfação ao saber que estarão bem e felizes.

A nossa chegada após estes seis meses à ilha Negra foi um choque imenso para mim. Nada havia senão negro e verde. Negro das rochas imensas que ao tocar o céu são cortadas com o verde da floresta densa e viva como se alma própria tivesse.

A nau, regressa amanhã e com a graça de Deus levar-vos à esta carta e ao nosso fiel Miguel de volta para vos apoiar, nesta altura em que bem precisam.

A mãe está extasiada com a ilha e o pai entusiasmado com as possiblidades que a ilha terá. A Rosa está, no entanto mais calada do que o normal, aborrecida diria, com a falta de gente e lugares para visitar.

Aqui ainda não há nada. Seremos nós a construir tudo.

Conhecemos na viagem a familia Whitlook, ingleses por certo com os seus filhos Jasper e Emmet.

Felizmente, falam correctamente a nossa língua, acentuando por vezes as palavras de um modo diferente do que nós, provocando risinhos em mim e na Rosa.

Os dois filhos do casal Whitlock são mui gentis e respeitosos, mas fortes em caracter e em força. A seu cargo tem a construção de todas as casas, o que eu acho ser um fardo demasiado para tão jovens homens.

As famílias Black e Ulley, também de origem inglesa, acompanham-os como lenhadores e com eles mais alguns lacaios.

Ao todo somos uma centena e desejo que na próxima vinda da nau venham mais. A miscelânea de conhecimentos fascina-me e prevejo uma ilha rica em interesse.

Aguardo minha querida irmã por notícias vossas, no regressso da Nau, aguardando ansiosamente a V. chegada um dia.

Recebe da tua irmã um abraço saudoso e cumprimentos ao meu amado irmão.

Da tua sempre

Maria Alice

Quando acabei de ler a carta, fechei cuidadosamente o caderno e sob o olhar inquisidor de Bella, sorri.

"Sabes amor, acho que vou gostar de te fazer companhia durante este período. Encontrei algo interessante que se calhar também irás gostar" apontei para o caderno e continuei "Cartas de uma Maria Alice para uma Isabel, casada com um Edward..." não precisei continuar para prender a atenção dela.

Pequeno? Mais um capítulo em breve.