Capítulo 2

A chuva torrencial caía sobre toda a Europa há dias. O homem balançava sobre o cavalo, que avançava devagar pela estrada mal calçada, coberto de lama. O portão de madeira parecia uma barreira intransponível quando o cavaleiro parou, cansado, à sua frente. Com um impulso, desmontou, cambaleando depois de tanto tempo sem pôr os pés no chão, e bateu com a grande argola. A portinha se abriu.

– Quem é?

– Lord Malfoy. Desejo falar com Bispo Snape.

– Lord? Onde está a sua corte, Milord? – perguntou o outro, desconfiado.

Uma mão de dedos brancos e longos tapou a visão do vigia ao cobrir a pequena abertura por onde olhava o visitante. Um anel grande e dourado, com um "M" trabalhado com esmeraldas em alto relevo, tomou toda a sua visão.

– Se não se incomoda, eu estou congelando aqui, servo! – a voz trêmula ressoou irritada do lado de fora.

– Sim, Milord. – o homem abriu os portões – Perdão, Milord.

Mas o cavalo passou correndo ao seu lado, espalhando lama, seguindo o mais rápido possível em direção ao mosteiro.

x.x

Quando Draco Malfoy esteve pela primeira vez no mosteiro onde o Abade Severus Snape era o líder espiritual designado por Roma, ele não guardara nenhuma lembrança. Esperava encontrar algo desinteressante. Mas quando um monge o guiou para dentro do prédio de pedra bruta, ele estacou, admirando o entorno.

Estava parado na entrada de uma enorme nave, o corpo central de uma igreja em formato de cruz. A sua volta, tudo era de madeira, mármore e ouro. Imagens esculpidas em tamanho real mostravam a Via Crucis, à sua direita, e cenas do rosário, à esquerda, separados por incontáveis bancos de madeira de lei. Os vitrais coloridos nas laterais pareciam encará-lo, assim como as imagens esculpidas nas colunas de mármore e as pintadas no teto abobadado. O altar central, posto sobre uma plataforma de mármore ao fundo, era mais alto que um homem, e a sacristia que ostentava trazia gravadas em ouro as figuras da Eucaristia. Atrás, mais imagens de anjos e santos, ajoelhados ao pé de Cristo crucificado, também esculpido em ouro e madeira, como as outras imagens, mas de certa forma mais altivo e ameaçador, visto o quão real pareciam as roupas e armas que compunham a cena, alinhados na altura dos olhos, como se a qualquer momento fossem ganhar vida.

– Lord Malfoy! – a voz de Snape ecoou pela igreja – A que devo a honra?

– Abade...

– Bispo – o homem corrigiu, dando-lhe o anel para beijar.

– Bispo. Senhor, meu pai me enviou com um pedido. – o jovem estendeu a carta em pergaminho para o religioso.

Snape leu atentamente e ponderou por alguns minutos.

– Logo você, Malfoy, que sempre se gabou tanto de sua origem nobre, decidiu renegar a guerra?

– Não tenho o dom para matanças, Senhor. Prefiro o aconchego dos livros.

Snape o olhou mais atentamente.

– Esteve estudando nos últimos anos, não?

– Sim, Senhor. Estive na França e na Espanha, na casa de parentes de minha mãe, me aprofundando nos conhecimentos de filosofia, fisiologia e alquimia.

– E agora resolveu estudar teologia.

– Desejo entrar para o clero, Senhor. Fazer os votos.

Snape o fitou mais atentamente.

– A entrega a Deus não é algo que deva ser feito em um impulso ou por pressão de pais ou como fuga, Lord Malfoy. Seu pai expressa na carta um desejo veemente de o ver sagrado, mas não consigo imaginar até que ponto esse desejo é seu também. Afinal, a vida religiosa é um caminho de penitências e provações, e você terá que renegar a muita coisa.

– Eu sei, Senhor. Mas é o que meu coração mais deseja, sinceramente. E espero que não faça objeções.

Snape o encarou por um tempo, analisando-o.

– Eu espero não me arrepender de recebê-lo, Senhor Malfoy. – disse, com um sorriso cúmplice na face – Venha comigo.

Os dois seguiram em direção ao braço direito do prédio, e atravessaram o que parecia uma área para confissões e meditação. Ao fundo, havia uma porta que levava às cozinhas e que dava em um pátio de terra.

– As refeições são feitas aqui, três vezes ao dia, às cinco da manhã, às onze e às quatro da tarde. Nós não possuímos servos dentro do mosteiro, as atividades são feitas coletivamente e determinadas por superiores. Normas, ordens e horários devem ser cumpridos. A maior parte dos monges fez voto de silêncio, então não os incomode. Deixe nesta caixa tudo o que trás consigo. Ela pode ser mantida com você, mas não use nada fora da cela, e será dada ao seu pai após a sua sagração.

Eles desceram uma escadaria que levava a um corredor frio, iluminado por archotes. Draco, molhado até os ossos, não conseguiu impedir um arrepio de correr-lhe as costas.

– Aqui são os aposentos dos monges, o meu fica no segundo andar, junto com a biblioteca e um escritório usado somente para recepcionar os visitantes. O outro braço da capela leva à sala de penitências e a uma escadaria que leva para o andar superior. O mosteiro se encontra quase lotado no momento, o que me impede de conceder-lhe um quarto individual. Mas acredito que você não vai se incomodar de precisar dividir uma cela com um seminarista da sua idade, não é? – Snape perguntou, abrindo a porta da cela para o loiro.

Draco entrou, pingando ainda, a caixa nas mãos, e a porta se fechou às suas costas.

A sua frente, um quarto de paredes de pedra e piso de terra batida, duas camas de solteiro simples, apertadas no cubículo, uma pequena mesa, com uma vela, um crucifixo e um lavatório, uma janela pequena, gradeada, e um homem ajoelhado de costas para a porta, a cabeça caída sobre a mesa, o terço correndo entre os dedos.

– Oi? – tentou, baixinho.

O homem pareceu se assustar e se levantou, deixando o terço em cima da mesa, se virando para encarar o recém chegado, deixando o capuz da batina cair.

– Oi. Chegou agora?

Draco não conseguiu responder. Seus olhos ficaram presos nos olhos do estranho. Eles eram lindos. Um verde profundo, arrebatador, que o encarava como se fosse decifrá-lo, invadir sua alma e engoli-lo. Um verde forte, único. E belo, extremamente belo.

O loiro engoliu em seco, percebendo o tempo que ficara fitando o garoto. Estranhamente, o outro parecia não se importar, o olhando com curiosidade. Para quebrar a tensão, Draco estendeu a mão.

– Malfoy.

Os olhos verdes correram dos olhos metálicos para a mão estendida, onde o anel dourado brilhava, e de volta para o rosto do loiro, que franziu a testa, não gostando daquela demora. Até que o outro finalmente resolveu apertar sua mão.

– Harry.

– Não tem sobrenome, Harry? – perguntou, vendo o outro se virar e sentar em uma das camas.

– Desculpe. É que todos por aqui só me chamam de Harry... Pelo menos os poucos que falam... Desacostumei... Potter, Harry Potter. Mas pode me chamar de Harry.

Draco o olhou, desconfiado. Ele parecia... Espontâneo... Espontâneo demais.

– Draco Malfoy.

O outro o olhou de canto de olho, se deitando, provavelmente reconhecendo o nome. Draco sabia que a fama da família Malfoy não era restrita às terras de seu pai, e, se Snape era amigo dele desde sempre, o Bispo devia comentar algo a respeito. Olhou mais atentamente o garoto deitado de olhos fechados. Não reconhecia o nome. Potter. Provavelmente não era nobre. Fez uma careta e se virou de costas, se despindo, guardando suas coisas dentro da caixa e vestindo a batina marrom que estava dobrada sobre a cama.

Deitou-se e voltou a olhar o outro. Ele era moreno, os cabelos desleixados apontando para todos os lados, o corpo franzino, como se não tivesse crescido o suficiente, mas razoavelmente forte, provavelmente por trabalhar. Não, definitivamente, não era nobre.

Draco lhe deu as costas e dormiu, deixando-se levar pelo cansaço da viagem.