Título: Gravity
Autora: Senhorita Mizuki
Categoria: Slash
Gênero: Drama
Classificação: PG
Personagens: Harry Potter e Draco Malfoy
Avisos: Spoilers do primeiro ao sexto livro, O Enigma do Príncipe. AU em relação ao sétimo livro, Deathly Hallows.
Disclaimer: Harry Potter e personagens aqui representados não me pertencem, mas sim a autora J.K.Rowlings e a Warner Bros. Foi escrito de fã para fã, sem fins lucrativos.
Gravity
Por Senhorita Kaho Mizuki
Capítulo 2
Seus olhos permaneceram presos por longos segundos, mas para Harry pareceram horas. O contato foi quebrado quando os olhos cinzentos se desviaram, olhando para cima. O garoto piscou, como se acordando de um transe. Um rapaz alto e moreno, que acabara de entrar no Caldeirão Furado, aproximou-se da mesa da mulher. Esta sorriu para ele, cumprimentando-o.
Seria sua imaginação lhe pregando peças? Ele jurava que um segundo atrás havia visto dois pares de olhos prateados e cabelos quase brancos. Mas não. A mulher – que na verdade era uma garota que aparentava ter dezoito ou dezenove anos – realmente era loira, mas o tom puxava para um castanho mel. Os olhos eram azuis, mas de um tom vivo.
Remus que até aquele instante estava entretido em comer, franziu o cenho, vendo o olhar perdido de Harry. Seguiu seu olhar e virou-se para trás, a tempo de flagrar o jovem rapaz que acabara de adentrar segurar as mãos da garota de capa verde. Ela pareceu um pouco incomodada com o gesto, em um sorriso que lhe parecia ser forçado.
O lobisomem virou-se novamente para o garoto, vendo-o ficar um pouco corado e embaraçado, baixando os olhos rapidamente. Conhecia a garota na mesa perto deles, ou simplesmente havia gostado do que vira? Sorriu malicioso, Harry ficou mais vermelho e se apressou a explicar, gaguejando um pouco.
- Não é o que está pensando! – baixou a voz e inclinou-se na mesa – É que... ela me lembrou alguém.
- Mesmo? – o imitou, achando aquilo divertido – Ela é jovem, não poderia ser alguém da escola?
Harry abriu a boca para negar e dizer quem achava que tinha visto, mas desistiu. Podia ser paranóia sua.
- Pode ser...
Balbuciou voltando a sua posição e terminando seu café-da-manhã. Mas sem evitar dar olhadas furtivas para a mesa próxima.
oOo
Em mais uma manhã, Harry vestia sua capa para sair. Na cozinha, Monstro resmungava sobre ter de preparar café para ninguém comer. O caso era que andava indo muito para o Caldeirão Furado, fazendo suas refeições por lá. Remus havia considerado aquilo um avanço, mas ainda não se aventurara a visitar o Beco Diagonal.
Tinha medo de encontrar o lugar mais vazio e abandonado que na vez que viera comprar seu material de escola no sexto ano. Como Fred e Jorge estariam se saindo com os negócios, em um tempo daqueles de guerra?
Harry olhou para a bagunça em que se encontrava a biblioteca, onde passava a maior parte do tempo na casa. Livros empilhados pelo chão, abertos, fechados, fotos que se movimentavam ocupavam a mesa.
Ele tinha um motivo para ir ao bar-hospedaria de bruxos. Pegou uma foto no meio das outras, observando a figura se mexer no pedaço de papel mágico.
Aquela garota no bar o intrigava. Não era bonita, bom, não era excepcionalmente bonita. Tinha algum encanto, mas era do tipo que você não prestaria atenção à primeira vista. Mas lhe era terrivelmente familiar, talvez fosse de Hogwarts, o rosto do rapaz também lhe parecia conhecido. Mas ela lembrava-lhe de um jeito diferente.
Passou a freqüentar o Caldeirão, percebendo que a garota loira tomava seu café-da-manhã praticamente todos os dias fora de seu quarto. E o tal rapaz moreno a acompanhava quase todos esses dias.
Harry se pegava observando os movimentos da moça, recordando os das fotos e os dele. Sua aparência poderia ser completamente diferente, mas os gestos eram diabolicamente parecidos. O sorriso de canto dos lábios, o jeito que passava os dedos pelos cabelos, o modo com que cerrava os olhos. A voz arrastada...
Pegou um punhado de pó de flu e jogou na lareira, dizendo seu destino. Novamente, naquele lugar parecia que só sobraram os velhos bruxos, que se recusavam a sair dali como se já fizessem parte da decoração sombria do bar. Duplas deles jogavam xadrez e soltavam fumaça de seus charutos.
Ao se aproximar da escada, quase trombou com alguém. Ia proferir suas desculpas, mas logo elas ficaram presas na sua garganta, sentindo suas faces corarem. A garota com sua sempre capa de veludo verde escuro o encarou de cenho franzido, uma expressão de divertimento estampada no rosto feminino. O sorriso sarcástico de canto dos lábios, aquele sorriso!
Pigarreou e piscou algumas vezes, recompondo-se.
- Bom dia.
Não respondeu de imediato, primeiro deu-lhe uma olhada analítica. Harry sentiu-se incomodado, seu olhar parou na cicatriz na testa. Deveria estar acostumado com pessoas tendo seus olhares atraídos para ela, adivinhando ser o Menino-Que-Sobreviveu. Mas não estava com aquele. Então lhe respondeu com a voz arrastada.
- Bom dia.
Com um movimento da capa, ela se afastou como se fosse nada, indo para sua costumeira mesa. Harry soltou o ar preso em seus pulmões, se dirigindo para o balcão. Não demorou a que o companheiro da moça chegasse, como se fosse algo sincronizado. A refeição e a conversa dos dois não chegavam a demorar mais que uma hora.
Tom, o dono do bar, limpava um copo, quando percebeu para onde Harry olhava. Soltou uma risada cúmplice, atraindo a atenção do garoto. Apoiou o cotovelo no balcão e se aproximou dele.
- Eu o vejo todo dia aqui, jovem Potter. Poderia ser que está interessado na mocinha? – fez um movimento discreto com a cabeça.
- Bom, um pouco... – esforçou-se para não corar, deveria tirar algumas informações dele – Está hospedada aqui?
- Sim, sim. Registrou-se pouco menos de um mês. Disse que seria mais fácil ficar perto de Gringotes. Seu nome é Sofia Andriev. Toma seu café aqui em baixo, o rapaz ali – apontou para o jovem sentado junto a ela – a visita quase sempre. Mas passa o resto do dia trancada no quarto, pede que as demais refeições sejam servidas lá. Sai algumas vezes para o Beco Diagonal, ou presumo que é lá que vai quando sai.
O homem se afastou indo atender outro cliente. Pouco tempo depois, Tonks chegou e sentou-se animada do seu lado. Arregalou os olhos, ela estava usando mesmo o cabelo comprido e preto. Mas o que o espantou mais foi ver os olhos cinza. Aquilo não fora o que ele havia sugerido. Remus então... Oh, Merlin.
Tomou um gole do suco de abóbora que havia pedido antes, tentando disfarçar sua surpresa. Em tom animado, a auror pediu sua refeição. Então se virou para ele, com um enorme sorriso.
- Muito bem, porque pediu que o encontrasse aqui? Eu iria à mansão hoje de qualquer maneira!
- Apenas observe o casal na mesa à esquerda, discretamente. – sussurrou com sua boca encostada no copo.
Tonks o fez, observando a garota loira e o rapaz alto. Seus olhos passearam rápido pelas duas figuras, a garota parecia aborrecida com alguma coisa que o outro falara. Mas não pode ouvir. Então se virou para Harry e ergueu os ombros, em uma muda pergunta do porque fazer aquilo.
- Te explico quando chegarmos em casa.
oOo
Assim que voltaram à mansão dos Black, Harry a levou até a biblioteca. A mulher assobiou, aquele lugar parecia ter sido revirado do avesso. O garoto parecia um tanto atarantado.
Ele revirou as fotos em cima da mesa e pegou uma, dando a ela. Tonks sorriu notando a figura infantil da própria mãe, Andrômeda, mas logo fez uma careta de desgosto reconhecendo as duas outras crianças junto dela. Narcisa e Bellatrix. Harry a olhou com ansiedade.
- Tonks, por um acaso sabe se Narcisa Malfoy é uma metamorfomaga, como você?
Ela franziu as sobrancelhas negras, olhando-o confusa. Onde ele queria chegar? Olhou para cima, como se fazendo uma busca mental nas suas memórias.
- Não... Não creio que ela seja. Mamãe dizia que Narcisa não era uma boa aluna de transfiguração. Por quê?
- Observou bem a garota no bar, a de capa esverdeada?
- Sim... – sua expressão era de exasperação – Acha que... Harry! Bem que Remus disse andavas muito interessado por uma garota! Mas isso?
- Tenho minhas razões para acreditar que possa ser ela.
- E porque acha que é ela? Já a viu muitas vezes para ter essa suspeita?
- Oh... – remexeu-se incomodado – Na verdade só duas vezes. – balbuciou, a mulher cruzou os braços – Mas Malfoy é muito parecido com ela!
- Bem, é um tanto difícil. A mansão dos Malfoy é vigiada dia e noite, e a mulher está péssima, Harry. Primeiro ela teve seu marido preso, e agora seu filho é procurado pelo Ministério. Dizem que a mulher parece um fantasma vivo. Seu rosto está magro e seu cabelo mal cuidado.
Cruzou os braços erguendo uma sobrancelha, o rapaz sacudiu a cabeça, sem se convencer.
- Harry, é preciso uma licença do Ministério para ser um metamorfomago, todos são registrados. Posso tentar ver se o nome dela consta.
- Como os animagos? – suspirou – Mas Sirius e meu pai não eram registrados. E se ela for o mesmo caso?
- Bom, mas não custa tentar. – ergueu ligeiramente seus ombros.
- Obrigado. Poderia investigar o nome dela e o rapaz que estava lá?
- Podem implicar comigo se me virem investigando gente assim, Harry!
- Por favor? – juntou as mãos, seus olhos suplicantes.
Tonks fez uma careta para ele, mas por fim suspirou e acenou com a cabeça. O garoto quase faltou pular e a abraçar.
oOo
Remexia-se impaciente na cadeira, olhando a cada minuto para lareira ou apurando os ouvidos. Mas só o que ouvia eram os resmungos do elfo. Os dias seguintes quem viera fora Moody, sem sinal de Remus, ou de Tonks com alguma pista.
Ouvira entediado o auror contar os velhos tempos, da guerra de anos atrás, antes de Voldemort desaparecer. Ainda que gostasse muito de ouvir sobre seus pais e Sirius, aquela conversa acabava sendo depressiva demais. E o bruxo não parecia perceber o desconforto de Potter quando contava certos detalhes.
Cruzou os braços atrás da cabeça, voltando a pensar na garota do Caldeirão Furado. Hermione diria que ele estava obcecado, assim como dissera quando acompanhava todos os movimentos de Draco Malfoy em Hogwarts no sexto ano.
Lembrava-lhe de forma assustadora. Mas não podia ser ele, havia descartado essa idéia uma vez que o sonserino era um fugitivo dos dois lados. Não se exporia assim estando no Beco Diagonal, visitando Gringotes para tirar dinheiro e se hospedar no Caldeirão Furado, onde volta e meia havia aurores se hospedando e tomando suas refeições. Mesmo usando uma poção polissuco.
Pensara então na mãe dele. Não a conhecia bem, só a havia visto duas vezes, uma em um campeonato de quadribol e outra com Draco no ano anterior, comprando as novas vestes do filho. Era tão arrogante quanto, era uma possibilidade.
Ou poderia ser peças da sua mente. Mas Ron e Mione não haviam dito o mesmo sobre sua suspeitas sobre o sonserino? E no fim ele estava certo sobre elas. Muito bem, não ia fraquejar.
A campainha tocou e a pintura da Sra Black novamente começou a gritar. Ignorou o quadro e correu para a porta, mandando a senha às favas. Monstro que estava a meio caminho de atender a porta, se virou reclamando sobre nem poder atender a porta podia.
Abriu um enorme sorriso, abrindo espaço para Tonks entrar com alguns rolos de pergaminho nas mãos. Foi até a biblioteca seguida de Harry, despejando-os na mesa.
- Não diga a Remus e a Moody que estou fazendo isso. – olhou-o séria, e o garoto acenou energicamente com a cabeça – Primeiro. Realmente, não existem registros de que Narcisa Malfoy seja uma metamorfomaga ou coisa parecida.
- O que quer dizer nada. – Harry cruzou os braços.
- Perguntei no Ministério, Harry, e acredite, eles não perdem um passo que ela dá.
- Não poderia ter trocado de aparência com alguém? Usado polissuco.
- Talvez. – franziu as sobrancelhas ainda negras como o cabelo – Mas é uma poção que dura apenas uma hora. E Narcisa raramente recebe visitas.
Harry cruzou os braços e se recostou na cadeira, bufando inconformado.
- E sobre o casal no bar. O garoto é Gary Willians, ele era estudante de Hogwarts, da casa Lufa-Lufa. Estava no último ano, não pode se formar porque fecharam a escola.
- Por isso o achei vagamente familiar, devo tê-lo visto. – coçou ligeiramente a testa, embaraçado – Eu não prestava muita atenção aos alunos de outras casas.
- E a garota é recém formada em Durmstrang. A família mora na Romênia.
- Ela não tem sotaque. – Harry constatou, franzindo o cenho.
- Porque a família morava em Londres e ela estudou até o sexto ano em Hogwarts, saiu por conta das ameaças da volta de Voldemort que surgiram, lembra? Era também uma Lufa-Lufa.
Tonks largou suas anotações, suspirando.
- Não farei mais investigações, se me pegarem eu estarei frita. Sinceramente, não acho que Narcisa tentou sair de sua propriedade ou apareceu por aqui. Harry...?
O garoto estava pensativo, recordando algo. Na época do Torneio Tribruxo ouvira Malfoy dizer que seu pai pretendia mandá-lo a Durmstrang, mas ficara em Hogwarts porque sua mãe não o queria longe.
Não podia ser, podia?
oOo
Mais uma vez Harry estava no Caldeirão Furado. O casal estava na mesa de costume, mas discutindo. Passou os olhos rapidamente por eles, sentando-se no balcão. Cumprimentou Tom e manteve os ouvidos atentos na discussão.
O rapaz, Gary segundo Tonks, estava irritado com alguma coisa. Tentava segurar a mão da garota, mas esta o empurrava, estando bastante aborrecida. Até que a voz nervosa dela se sobressaiu, com uma nota de escárnio.
- Não sou sua namorada! Meta isso em sua cabeça de uma vez por todas!
Veio o silêncio e então uma cadeira se arrastando, espiou, vendo o rapaz pegar sua capa e sair sem dizer nada. Sofia, a garota, permaneceu na mesa, apoiando os cotovelos na mesa e afundando o rosto nas mãos.
Não sabia o que lhe dera no momento, mas suas pernas o fizeram ir até lá, postando-se na frente dela. Ela entreabriu os dedos, espiando entre eles. Então tirou as mãos do rosto, olhando-o com uma sobrancelha erguida. Pendeu a cabeça para um lado.
- Então o famoso Potter resolveu falar comigo?
Sentiu suas pernas amolecerem um pouco, o que raios estava fazendo? Acenou com a cabeça brevemente. Sofia sorriu divertida e se levantou da cadeira, ajeitando a capa.
- Desculpe o trabalho de vir até aqui, mas temo que deva me retirar agora.
Deu um passo, mas parou, com os olhos ligeiramente arregalados de espanto. Harry havia postado na sua frente, teimoso, impedindo que desse mais um passo. Engoliu em seco, tomando coragem para falar. A loira esperou pacientemente com uma sobrancelha ainda erguida.
Apoiando-se no espaldar da cadeira que o outro rapaz ocupava antes, pigarreou, tomando coragem.
- Gostaria de saber se poderia me honrar com um passeio no Beco Diagonal.
"Ótimo, Potter! Acabou de convidar uma garota para um encontro, você nunca conseguiu um decente na vida! Agora se prepare para um belo fora!"
Continua...
Fevereiro/2006
