Os raios de sol aquecem os jardins, e alegram os pássaros, já há algum tempo que amanheceu, os escravos há muito que se esfalfam nas suas tarefas, a luz entra pelas frestas dos cortinados, mas Rachel afunda-se na cama e procura fugir dos raios solares que a pretendem despertar.
TOC, TOC, TOC
- Grrrrr! Vá embora Anne! Me deixe quieta…
A porta abre-se, Rachel tapa a cabeça com a almofada, e por isso não vê que em vez da velha governanta, são uns cabelos loiros que surgem na porta, não vê os olhos verdes acastanhados que a observam com carinho, não vê a sua amiga infância pendurada na porta sem saber o que fazer. Mas o dia lá fora é inspirador e loira atravessa o quarto e abre as cortinas e dirige-se para a cama da morena.
-Não é a sua governanta! – a sua voz é suave, consegue esconder a insegurança, mas porque estaria ela insegura?! Ela conheceu a morena durante toda a sua vida, ela é a sua melhor amiga, a sua confidente, a sua pessoa… Porquê é que às vezes parecem duas estranhas?
- Quinn! Que estás aqui a fazer tão cedo? – a loira respira fundo
- Ontem fiquei preocupada, de um momento para o outro, ficas indisposta e vens para casa. Abandonas-me à minha sorte, quando sabes que eu iria odiar aquele jantar.
Rachel recosta-se na cama, e olha timidamente para o colo.
- Desculpa, não me estava a sentir bem, deve ter sido do sol que apanhamos durante a tarde.
- Rachel coloca a sua mão sobre a de Quinn que estava poisada lado do joelho, encara-a e pergunta-lhe com um tom menos doloroso do que estava à espera – Como foi ontem o jantar? Está tudo arranjado com os Puckerman? Para quando a festa de noivado?
Quinn desvia o olhar – Sim. A festa de noivado é para semana. Querem que nos casemos na primavera.
O coração de Rachel fica pequeno com a dor, menos de seis meses, elas tinham menos de seis meses. Mas o coração é traiçoeiro, e uma faísca de esperança brilha, ainda tinha quase seis meses para o casamento não acontecer. E ia começar já!
- Quinn, tu sabes que não precisas de fazer isto! Não precisas de te casar com ele.
- Rachel… - a morena aproxima-se da loira e abraça-a – Tu sabes que eu preciso, o meu pai quer criar bons laços comerciais com eles e se os Puckerman serem judeus não faz diferença, nada fará!
- Não sejas infeliz para o resto da tua vida apenas porque o teu pai quer criar laços comerciais – as últimas palavras são cuspidas com desdém – Tu mereces ser feliz! Vem para cá… - a loira olha-a assustada, mas Rachel segura-a pelo pescoço delicadamente mas firme – Eu posso tomar conta de ti! Eu falo com o meu pai, ele vai apoiar-me… Nem precisamos de ficar aqui, podemos viajar, vamos para Paris!
Quinn está em pânico, por um lado quer deixar afogar-se nos braços de Rachel, mas por outro… começa a rir com secura
- O sol que apanhas ontem fez-te mesmo mal! Enlouqueceste! – o tom de voz eleva-se cada vez mais – Enlouqueceste! – o olhar quebrado de Rachel impede-a de continuar, mas ela precisa de tomar medidas, foge do abraço da morena e levanta-se – Vou-me embora.
A herdeira dos Berry corre atrás da loira e puxa-a pelo pulso para si e olhos castanhos misturam-se com os esverdeados, Rachel acaricia-lhe a bochecha.
- Pensa nisso por favor. Não desistas já!
A loira afasta-se e encolhe-se como todo o ser calor tivesse sido sugado do seu corpo.
- Eu não posso! Eu não posso! – e corre porta fora, deixando uma morena desolada para trás.
Quinn sai disparada porta principal e entra na carruagem, dá ordem para seguirem para casa.
Ela não queria chorar, ela não queria, os Fabray não choram, chorar é mostrar fraqueza e os Fabray não são fracos. Ela olha para trás, para ver a sua melhor amiga na varanda a vê-la ir embora, Rachel está embrulhada numa manta, a mesma manta que as acompanha em imensas aventuras desde miúdas, ela está linda com o vento a bater-lhe nos cabelos e a postura régia que todos dizem ela ter herdado da mãe. Todos dizem que ela, Quinn Fabray, podia ter nascido princesa, que o lugar dela é na realeza, mas aos olhos de Quinn a verdadeira nobreza está em Rachel.
Quando é que as coisas ficaram tão difíceis?! Ela só queria voltar a ser criança, a criança que não tinha responsabilidades, não tinha expectativas, a criança cuja a sua única preocupação era brincar com uma certa morena até chegar a hora de ir dormir…
