Cap. 2.
O dia inteiro se passara. E nada que os levasse ao início do caso fora descoberto até então. Sam e Dean tentavam compreender por que havia tantos sinais demoníacos na cidade que estacionaram, porém sequer tinham a mínima idéia do motivo.
– Eu acho que não há nenhum fantasminha aqui pra matar, Sammy. – Comentou o loiro, o tom de tristeza por não poder caçar.
– Não são fantasmas Dean, são demônios mesmo. – Retrucou o mais novo, enquanto fechava o notebook.
– Ah sim, professor, eu entendi. E por acaso conseguiu descobrir por que os capetinhas estão nessa cidade maluca?
– Não. Estou na mesma que você... – Disse, antes de suspirar pesadamente. – Não tenho resposta alguma. Pensei em telefonar para o Bobby... Quem sabe ele não pode nos auxiliar.
– Yeah, yeah... – Dean fez uma careta e se levantou, vestindo a jaqueta de couro que herdara do pai. – Faça isso enquanto eu dou uma voltinha por aí, tá?
– Suponho que não vai voltar hoje. – Sam torceu os lábios.
– Claro que vou. – O loiro bufou. – Tchau, Sam.
O moreno resmungou um "tchau" rapidamente, apanhando o telefone celular.
– Alô, quem é? – falou o velho Singer, assim que atendeu o aparelho. – Quem é?
– Oi Bobby. Sou eu, Sam.
– Ah, sim, não olhei para o visor antes. Mas me diga, quais são as novas, garoto?
– Estou em Pike Creeck, Delaware. Têm vários vestígios de demônios por aqui. – Informou. – Tentei descobrir o porquê, porém não obtive sucesso.
– O que diabos aconteceu? Onde o Dean está?
– Aí é que tá o problema... Não aconteceu absolutamente nada! – Exclamou. – Quando encontrei alguns demônios em uma lanchonete local, eles se afastaram. E quanto ao Dean, bem, ele tá aqui, mas não tá disponível agora.
– Hum... Entendi. Então, Sam, o que você quer, exatamente?
– Se puder ler algumas coisas, fazer pesquisas... Nunca vi demônios correrem de uma boa briga. Não sei o que eles querem aqui, mas certamente não diz respeito nem ao Dean e muito menos a mim.
– Tá legal, vou fazer o possível. E tomem cuidado, ok? – O caçador mais velho falou sério.
– Certo, certo. – O rapaz suspirou, desligando. Estava com uma sensação estranha no estômago, como se soubesse que alguma coisa ia acontecer, mas não sabia quando e nem como aquilo iria afetá-lo.
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Dean apanhou algumas moedas do bolso quando parou na frente de uma máquina de refrigerantes, colocando-as e apertando um dos botões. Esperou paciente por meio segundo, resmungando baixo por ter sido tapeado.
– Ah não... – Bufou, dando um chute no objeto e girando nos calcanhares para ir à rua novamente.
Dean caminhava lentamente pela avenida principal da cidade, à procura de um lugar que pudesse encontrar comida boa. Sempre acostumado a se alimentar inadequadamente, o loiro apenas queria ter uma refeição diferente.
Quando entrou no estabelecimento comercial, pediu à atendente um bife e um prato com batatas fritas. A comida não tardou a chegar. Enquanto se alimentava, sentiu que era observado por um garoto moreno, alto, de olhos profundamente azuis.
Virou-se para encará-lo. Tratava-se de Henry, que estava acompanhado por outras duas pessoas: Jimmy e Taylor. Para o Winchester mais velho, aquele rapaz desconhecido que o olhava era alguém intrigante.
Taylor apertou de leve a pelúcia marrom de sua bolsa, abrindo o zíper da mesma para apanhar um vidro amarelo transparente com comprimidos. E ainda tinha de avisar sua mãe que ia até a casa de um amigo para fazer um trabalho. Notou que Jimmy a observava, alternando entre ela e a janela escura do outro lado.
– Isso não é nada demais, se é o que pensou. – Ela deu um breve sorriso.
– Na verdade, eu não pensei em nada. – Retrucou o moreno. – Só entendo sua situação. Ter sido internada por várias vezes não é uma coisa fácil.
– Você também passou por esse problema? – Perguntou, curiosa pela história dele.
– Sim, diversas vezes – Novak fez uma pausa para observar Henry, que sequer tocava na comida. – Não me diga que anjos não têm fome?
– Por que quer saber? – questionou, após rir do comentário.
– Porque você nem tá tocando no hambúrguer que pediu. Está, isso sim, olhando para lá... – Apontou para Dean. – O que foi?
– Eu sei quem ele é. – Respondeu. – Aquele rapaz pode nos ajudar. – Completou.
– Ele é bonito... – Taylor comentou sem pensar. - Oh... E isso foi um comentário muito idiota. - Levou uma das mãos à testa, meneando a cabeça levemente.
Henry gargalhou. – Não foi não, ele é bonito mesmo. – Sorriu para a garota.
– Então... Nossa! Todos os garotos que eu conheço ficam de cara amarrada quando eu elogio algum outro rapaz. – Rira.
– É que eu sou uma bela exceção. – Respondeu o maior, antes de tornar a rir. – Fiquem aqui sentados, eu já volto. Vou tentar conversar com o bonitão ali... – Apontou para Dean novamente.
– Tudo bem, combinado. Mas depois você vai nos revelar quem é – pediu Jimmy, ao que o outro concordou com um aceno de cabeça, embora considerasse arriscado fazê-lo.
Pensativo, pois não conseguia encontrar a melhor maneira de iniciar o diálogo com o Winchester mais velho, ele parou ao lado da cadeira na qual o rapaz escolhera para sentar. Respirou fundo, olhou ao redor, porém idéia alguma lhe veio à mente.
– Desculpe... Você perdeu alguma coisa, cara? – Perguntou, desconfiado, Dean.
– Não, não... Só preciso de sua ajuda. – O rapaz disse de forma educada, analisando-o brevemente.
Dean revirou os olhos. – Eu tenho cara de quem ajuda os outros? - Sorrira cínico, tomando um gole de sua cerveja solitária.
– Se for o Dean Winchester que ouvi falar, sim, tem muita cara de quem ajuda os outros. – Disse Henry.
– Como diabos sabe o meu nome, garoto? – quis saber, pego de surpresa. – E o que quer?
– Ah, pelo menos obtive alguma receptividade. – Comentou, puxando uma cadeira para se acomodar à frente dele. – Sei seu nome porque costumo ter o conhecimento sobre tantas coisas...
– Então é um dos cretinos que tá nessa cidade, não é, demônio desgraçado?
– Errado, sou o cretino que tenta ajudar Jimmy Novak, o garoto que é perseguido pelos demônios. – Respondeu.
O loiro analisou, por breves instantes, a figura imponente que o encarava. Notou a tristeza em seus olhos, a melancolia na sua expressão cansada. Mas não pôde deixar de perceber quão bonito e misterioso ele era.
– Sei. E você, quem é? Por que quer auxiliar esse tal Jimmy aí?
– Sou aquele que vocês, humanos, conhecem como diabo. – Murmurou, se aproximando do Winchester mais velho, que arregalou os verdes olhos, espantado com as palavras do outro.
– E... Ahm... O que exatamente o diabo quer de mim? – Engoliu a seco, fitando-o com certo medo.
– Sua ajuda é claro. – Respondera Henry. – E bem, Jimmy na verdade é um anjo. – Por que mentiria? Pensou rapidamente. Precisava da ajuda dele. – E ele perdeu a memória. Por isso quero ajudá-lo.
– E onde ele está? – Dean quis saber.
– Na mesa de trás. – Henry deu um meio sorriso.
– Porra... Então... Você sabia que estávamos por aqui ou foi um golpe de sorte? – Dean perguntou.
– Eu contava que o seu irmão e que você viessem até essa cidade. Como sei que vocês ficam de um lado para o outro atrás de casos sobrenaturais, concluí que não seria difícil achar vocês – explicou.
– Tá... Vamos dizer que eu acredite nessa história absurda que você acaba de me relatar – o loiro ainda desconfiava do rapaz. – O que, exatamente, você quer?
– Que me ajude a cuidar dele. – Esclareceu, apontando para Novak. – Eu vou para o campo de batalha, porque querem matá-lo e eu não posso deixar...
– Peraí cara, vamos confirmar isso agora mesmo. – Dean fez um sinal para Jimmy. Mas o menino não se levantou. – Por que ele não vem até aqui?
– Porque eu pedi a ele que me aguardasse ali mesmo. Se quer uma prova, olhe para mim. – Ficou de pé e, a passos apressados, saiu para a rua.
Apreensivo com toda aquela situação inusitada, o Winchester mais velho o seguia. Como ainda não acreditava em tudo que lhe fora contado, pensava que o jovem não passava de um um psicopata qualquer. Mudou de idéia, entretanto, ao vê-lo atingir as costas com uma longa e afiada faca. O rapaz fizera dois cortes onde deveriam estar as asas dele. E, de fato, estavam. Dean as viu por poucos segundos, devido ao intenso brilho que elas emanavam. Após estralar os dedos, Henry não tinha mais nenhum ferimento.
– Que porra... – Engolira a seco, completamente chocado. – Tá legal... Então, err, eu acredito em você agora. – Respirou fundo. – Chame o garoto, vou levá-lo para o hotel onde estou com meu irmão, ok?
Henry o fitou com um breve sorriso. – Vou chamá-los, espere aí.
– Espera! São dois?
O anjo caído rolou os olhos. – Tem uma garota com ele, Taylor. Ela quis ajudar. Não vai ser problema, certo?
– Tá ok. – Resmungou o loiro, que ficou sozinho por poucos minutos. Logo o moreno, quase tão alto como Sam, retornava à rua acompanhado pelos outros dois jovens.
– Oi, sou Jimmy Novak. – O rapaz de expressão serena estendeu a mão para Dean, que o cumprimentou.
– Oi. Sou Dean. Ele me abordou lá no bar... Disse que eu posso ajudar você... Só não sei como... – Comentou.
– É, mas eu posso explicar. Vamos para algum local calmo, para que eu possa contar alguns detalhes, ok? – O caçador assentiu, enquanto a asiática o cumprimentava também.
– Então tá tudo certo. Taylor, vá com o Winchester, por favor. Eu vou com ele. – Henry apontou para Jimmy.
A menina murmurou algo que não foi compreendido pelos dois, enquanto seguia Dean até o Impala 67. Henry, por sua vez, entrava no outro carro, acompanhado pelo moreno mais baixo. Após ligar o veículo e passar a guiá-lo, Jimmy lhe perguntou, aflito com a situação:
– Eu... Vou poder rever meus pais antes de irmos embora? – O garoto já sabia que teria de seguir viagem com o outro. – Se não der, vou entender...
– Ouça, você tem outra vida, mas não se lembra de nada. Eu comentei isso antes... Sei que deve me achar um maluco...
– Com certeza. – Interrompeu-o. Henry, porém, não se aborreceu com a fala de Novak. – Creio que é um anjo, só não compreendo por que quer me auxiliar...
– Vai saber de tudo quando chegarmos ao local em que o Winchester mais novo está. Eles vão nos ajudar, confie neles, tá bem? – O menor assentiu. – E dê tempo ao tempo... Tudo será esclarecido.
– Só uma coisa. – Jimmy torceu levemente os lábios, passando a observar Henry mais atentamente. – Ainda não consegui descobrir que anjo é você.
Henry deu uma risada. – Você ficaria surpreso se soubesse, Jimmy. Mas não vou dizer, pelo menos não ainda. – Viu o garoto suspirar decepcionado. – Qual foi seu palpite?
– Eu... Realmente não tenho nenhuma idéia de quem você é. – Respondeu. Sentia-se bem ao lado de alguém que recém-conhecera. Tratava-se de um sentimento confuso, porém presente. A sensação de que convivera com Henry há tempos não o deixava em paz. – É estranho... – continuou. – Confio em você, apesar de não saber quem é – o moreno alto, e pouco mais velho do que o acompanhante, sorriu contente. Era bom saber que Jimmy o considerava assim.
– Sou seu amigo. – Henry sorriu de lado. - E para sua segurança, vamos continuar comigo sendo Henry, ok? – O rapaz concordou silenciosamente. – Eu suponho que Taylor esteja quebrando a cabeça para descobrir, certo?
Jimmy riu levemente. – Ela acha que você é Gabriel. Mas não tem muita certeza.
– Ah, Gabriel? Até que não seria má idéia, Jim. – Retrucou, o sorriso brincalhão nos lábios. – Mas continuo sendo seu amigo Henry... De qualquer forma. – Novak o olhou nos olhos, curioso, ao notar que ele dera ênfase ao termo "seu".
Jimmy decidiu ficar quieto pelo resto da viagem, ponderando sobre todos os anjos que conhecia, que não eram muitos. Gabriel, Rafael... O nome Samael passara rapidamente por sua cabeça e ele franzira as sobrancelhas, pois nunca ouvira falar dele. - Por que eu? - Perguntou baixo.
Embora não pretendesse que Henry o escutasse, o maior ouvira tal questionamento. Decidiu, porém, não lhe responder nada; o moreno alto se ateve à estrada que passava veloz, sem deixar de pensar na reação que o rapaz teria ao se lembrar de quem era.
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Chegaram ao hotel algum tempo depois. Henry estacionou o carro ao ver que Dean parara o Impala próximo ao estabelecimento. Todos desceram e acompanharam o Winchester mais velho, que ia em direção ao quarto que reservara.
– É bom você ter sido franco, ou vou matar todos os demônios que encontrar pela frente. – Disse o loiro, notando que Taylor distraíra Jimmy com o agradável tema dos RPG.
– Eu não estou brincando, rapaz. – Retrucou, o tom sério. – Você vai entender tudo quando eu explicar...
– É o que veremos. – Concluiu, enquanto abria a porta do quarto.
Jimmy torceu os lábios com nervosismo ao sentir um arrepio percorrer sua coluna. E para sua surpresa, não fora o único. – Você... Sentiu isso? - Perguntou quando Taylor ficou olhando ao redor com certa preocupação.
– É, eu senti. – Ela engoliu a seco. – Será que... Não tem algo nos seguindo?
– Eu não sei... Vou descobrir, espere aí... Não quero que ninguém se machuque por minha culpa – antes que Dean pudesse chamá-lo, Novak corria em disparada para fora do hotel.
– Mas que merda... O que foi agora garota? – quis saber o loiro, irritado com a atitude do outro.
– Nada... Nós apenas sentimos algo diferente, e ele foi verificar... – Henry bufou, contrariado. – Não fiquem chateados comigo...
– Tá tudo ok. Eu vou atrás dele – garantiu. – Entre no cômodo com Dean, por favor.
– Você vai sozinho até... – Henry o interrompeu, impaciente.
– Não, claro. Chame seu irmão... Tudo vai ficar bem. Encontrem-me lá fora – e sumiu no ar, para o espanto da asiática e do loiro.
– Hum... O cara é um anjo mesmo – murmurou, abrindo a porta e entrando rapidamente no local.
Sentado, olhos fixos na tela do notebook a pesquisar sobre características de lugares tomados por determinados grupos demoníacos, Sam só percebeu que era o irmão, pelo barulho da porta. Mas ficou alarmado ao notar a apreensão nos verdes olhos do mais velho. Ia perguntar o que aquela garota fazia ali, porém Dean não lhe permitiu iniciar a frase.
– Eu não faço idéia, antes que você pergunte. – Dean ergueu o indicador para o irmão mais novo. – Ah, essa é a Taylor. Taylor, meu irmão Sam.
A asiática acenou rapidamente para o rapaz moreno na frente do notebook.
– O que aconteceu? – Sam perguntou à garota.
– Bom... É uma longa história. Muito longa. – Taylor sacudiu levemente os ombros.
– Temos tempo. – Samuel deu um meio sorriso.
– Eu acho que não, maninho... – Falou o loiro. – Vou explicar rapidamente: fui a um bar, e lá conheci um garoto que me disse ser um anjo. Eu sei... Você vai comentar que eu não acredito nessas coisas... E de fato não. Mas depois que ele me levou à rua e que me mostrou a sombra das asas, posso dizer que creio em tudo.
– Ótimo... – Respondeu, um tanto embaraçado. – E quem é o tal ser? – Dean balançou a cabeça e fez um sinal para o mais novo, pedindo que conversassem em particular. Quando se afastaram da menina, o moreno tornou a falar: – O que foi cara?
– É que... Ele é o diabo. – Sam o olhou espantado. – E quer ajudar um rapaz... Um tal Jimmy. Os demônios estão atrás do menino... Só não sei direito o porquê. Parece que o Jimmy não é quem pensa ser...
– Calma Dean, uma coisa de cada vez, por favor. – Comentou, notando que o Winchester mais velho falava apressado. – Onde está esse tal Jimmy?
– Aí é que tá o problema... Ele foi à rua porque sentiu algo estranho. – Explicou. – E o suposto anjo foi atrás dele.
– Então vamos lá também. – Concluiu. – Se começaremos a desvendar o caso a partir desse menino, vamos falar com ele e com o provável anjo; o papai faria isso.
– É, tem razão. – Dean olhou rapidamente para a garota asiática. – Ow, menina...
– Taylor. – A garota ergueu uma sobrancelha.
– Taylor. – Dean umedeceu os lábios. – Conhece bem o garoto, o Jimmy?
A asiática franziu um pouco as sobrancelhas. – O conheci hoje, pra ser mais exata. Não sei muito.
– Que ótimo... – O tom foi irônico. – Então por que decidiu acompanhá-lo nessa história maluca? – quis saber o loiro.
– Porque já passei por coisas parecidas antes. – Esclareceu. – Claro que não se comparam as que ele enfrenta, mas quis ajudar. – completou.
– Tá, então fique aqui quieta até que meu irmão e eu voltemos com os dois rapazes, certo? ... Acha que pode fazer isso?
– Claro, Dean. – Disse, preocupada. Taylor observou os Winchesters saírem do quarto e, por alguns instantes, tentou se lembrar da conversa deles a pouco. Infelizmente não conseguira ouvir o momento em que os irmãos falaram sobre Henry e sua identidade misteriosa, mas não negava que, além de apreensiva com os novos amigos, ela estava curiosa para saber quem ele era.
Soltou um suspiro baixo e sentou numa cadeira da cozinha, tirando um MP3 com fones de ouvido da bolsa, ajeitando-os rapidamente nas orelhas e ligando o pequeno aparelho preto, dando play na última música que ouvira, sua favorita do Guns N' Roses. Sorriu de leve quando ouviu aquele solo de guitarra logo no começo de Sweet Child O' Mine.
– Então... Estamos lidando com Lúcifer? – Sam fitou o loiro de olhos arregalados, como se ele fosse verde e tivesse antenas.
– Eu... Eu... Acho que sim. – Respondeu, um tanto incrédulo ainda. – Pelo menos há fortes indícios.
– E ele, pelo que você sabe, luta ao lado de um humano? – Questionou, enquanto iam até a rua. – Como isso é possível?
– Tudo que sei, Sammy, é que Jimmy é um anjo que perdeu a memória. – O mais novo o olhou com o ar descrente. – Doido, não é? Eu também acho – quando chegaram à rua, avistaram Henry a dialogar com um demônio que, por sua vez, mantinha Novak preso em um círculo energético.
Jimmy engoliu a seco, tentando sair sem sucesso daquele círculo. Mas o que era aquela coisa? Ele não sabia. E nem queria saber, apenas queria sair de lá.
– Fica quieto aí, anjinho. – O demônio sorriu levemente. – Tenho umas coisas a tratar com seu "amigo" antes de levar você para um passeio.
Henry manteve-se impassível. – O que quer?
– Essa questão é ridícula, não acha? – O demônio falou, após rir. – Eu vou levá-lo comigo... E não adianta... Ninguém vai me impedir. – Atirou longe, antes que agissem, os Winchesters, que se chocaram contra uma parede.
– Ele não faz parte do nosso mundo. E você sabe muito bem disso, Belial – Henry chamou, para o espanto de Jimmy, a entidade maligna pelo nome.
– Eu sei, mas não vou obedecer. Perdeu a credibilidade conosco... E há vários motivos para isso... Ex-chefinho. – sorriu com desdém.
– Eu sou irredutível. – Henry deu um passo à frente. – O garoto não vai e pronto. – Preparou-se para atingir o inimigo, um velho conhecido que o ajudara tempos atrás.
Jimmy franziu ligeiramente as sobrancelhas por notar que aparentemente, Henry conhecia aquele demônio. E não demorou muito para que Belial voasse alguns metros longe dele, caindo estatelado no chão. O círculo perdera um pouco de sua força, mas não a ponto dele conseguir atravessá-lo.
– É bom que você não volte, Belial. – Disse Henry impassível. – Se voltar, não vou ser tão bondoso como fui agora.
O demônio se levantou. – Isso ainda não acabou, Estrela da Manhã.
– Com certeza, Belial. – retrucou, sarcástico, Henry, enquanto se aproximava de Novak para libertá-lo. – Segure-se firme em minha mão e procure se manter calmo. – Disse, antes de recitar alguns termos em latim, que dissiparam por completo o círculo que prendia o moreno.
Sam, por outro lado, ajudava Dean, que ficara bastante ferido, com um profundo corte na cabeça. Ainda que o loiro protestasse, o mais novo não deixou de auxiliá-lo.
– Vai ter muito o que explicar pra nós, cara – O Winchester mais novo apontou para Henry. Queria entender o porquê do enfrentamento de minutos atrás.
– Oi pra você também, Sam. – Respondeu, irônico. – Eu vou contar tudo que sei, mas precisamos entrar agora. Sei como nos proteger dos ataques.
– É bom que saiba, porque eu estou em maus lençóis. – Comentou Dean, que tentava limpar a grande quantia de sangue do machucado. – Vamos nessa, Sammy. – Os irmãos iam na frente, enquanto Henry puxava Jimmy pela mão.
– Tudo vai dar certo, fique tranqüilo. – Falava, o tom sereno. – Eu vou zelar por você. – Garantiu.
– Eu... Só... Tô... Assustado... – Balbuciou, ao mesmo tempo em que subia as escadas. – A minha vida sempre foi assim... E meus pais nunca me entenderam. – Comentou, a visível tristeza expressa em seus olhos. – E agora surge você... Mas não quero que se machuque...
– Shhhh... – Henry pôs o dedo indicador na frente dos lábios do garoto. – Tá tudo em ordem... – Pausou a fala e olhou os Winchesters. – Entrem, eu já vou.
– Nós estamos em frente ao quarto, cara. Pode entrar... – Disse Dean. – Fique a vontade.
– Eu sei, só... Entrem antes. – Repetiu, ao que os dois obedeceram. Em seguida, Henry tocou suavemente no ombro de Novak. Era estranho, porém aquele toque o aquietava. – Eu não vou me ferir gravemente. Talvez ocorra alguma coisa... Mas não vou deixar você.
O moreno o olhou intensamente. Tratava-se de uma sensação um tanto inexplicável, mas era exatamente o que ele temia: que perdesse o novo amigo que conquistara.
– Vamos entrar; aqui fora corremos perigo... Lá dentro têm linhas de sal, que protegem contra demônios. E eu farei outros símbolos para que criaturas tão indesejáveis quanto eles não apareçam – O jovem assentiu em um aceno de cabeça.
Jimmy se lembrou do momento em que Belial chamara Henry de "Estrela da Manhã". Sabia, por ler textos relacionados ao tema, que era o nome atribuído a Lúcifer. – Isso explicaria ele conhecer o demônio – concluiu em pensamento, enquanto entrava no quarto de hotel.
Dean havia se trancado no banheiro para fazer um curativo meia boca em sua cabeça por não terem muitos recursos naquele momento. E, além do mais, era apenas um cortezinho que sangrava um pouco demais, certo?
– Dean, abre a porta, eu faço o curativo. – Insistiu Sam do outro lado.
– Não precisa, eu tô bem! – Respondeu o Winchester mais velho. – Só tenho que acabar com esse monte de sangue!
– Se você desmaiar eu não posso fazer nada, já que essa porta tá fechada! – Retrucou o mais novo.
– E eu lá sou pessoa que desmaia? Me poupe! – Dean gargalhou. – Já saio, Sammy. Faça companhia pra nossa hóspede que eu não sei o nome.
Samuel revirou os olhos. – Tá, mas não demore muito aí dentro ou eu vou achar que você desmaiou.
– Tá ok, doutor Winchester. – Retrucou o mais velho, o tom brincalhão.
Sem ter alternativa, Sam se acomodou no sofá próximo à entrada da cozinha. Deu uma rápida olhada para a garota sentada perto da mesa e perguntou:
– Você está bem com isso tudo? Ou muito apreensiva? – Ela ficou surpresa com o modo gentil do rapaz.
– Estou bem, só preocupada com todos nós. – Respondeu, em uma tentativa de demonstrar confiança. – Espero que tudo dê certo.
– Vai sim. – Garantiu o caçador. – Meu irmão e eu vamos conversar com os meninos e vamos ver como ppodemos ajudar vocês.
– É... Porque não quero ser internada novamente... Já basta três vezes. Eu resolvi vir junto com Jimmy, porque não gosto de ver que pessoas são atormentadas assim. – Explicou.
– E, infelizmente, é o que mais tem por aí. – Retrucou. – Mas nós vamos dar um jeito. – O Winchester mais novo se surpreendeu ao notar que, de pé ao lado da janela do quarto, Henry fumava um cigarro e que, próximo à imponente figura do jovem, Novak sentara-se.
Jimmy não estava cansado quando se sentara, parecia refletir sobre tudo o que vira e ouvira naquele dia estranho. Ou melhor, não fora um dia estranho, fora um dia diferente do usual, algo que ele nunca pensou que fosse ver na vida a não ser em filmes. E ele se questionava se deveria ou não perguntar a Henry se o amigo era mesmo Lúcifer. Perguntar saciaria sua curiosidade.
Mas e se Henry ficasse aborrecido? Ele ia perder um bom amigo por culpa de sua curiosidade? Estava num dilema.
– Você está tão quieto. – Comentou Henry, tragando seu cigarro longamente, expirando a fumaça acinzentada para cima.
Jimmy mexeu-se incomodado. – Impressão sua. Só estou... Pensando.
– Hum... – o anjo caído o olhou no fundo dos olhos, como se quisesse absorver suas reflexões mais secretas. Permaneceu assim por um tempo que Novak não pôde precisar. O menor apenas só se deu conta do mundo à sua volta, quando Dean, que saíra do banheiro, chamou a atenção de seu novo amigo.
– Er... Será que o bonitão fumante pode nos contar tudo que sabe a respeito do garotão ali? – Apontou para Jimmy. – Eu tô curioso pra ouvir o que o anjo tem a falar.
– Não é só você. – Disseram Taylor e Sam.
– Então tá ok... Vocês, como vão me ajudar a cuidar dele, tem de saber de tudo. – Iniciou, o cenho franzido.
Atirou o restante de seu cigarro numa lata de lixo, voltando os olhos para os três. – Bem... É um pouco complexo. – Sacudiu os ombros rapidamente.
Jimmy não desgrudou os olhos de Henry nem por um milésimo de segundo. Sua curiosidade estava a mil por hora.
– Primeiro... – Olhou para Jimmy e depois para Taylor. – Meu nome é Lúcifer.
A asiática não ficou tão chocada quanto Dean achava que ela ficaria. Pelo contrário, Taylor parecia mais uma criança que tinha acabado de ver um personagem que admirava bem diante de seus olhos. – Lúcifer Estrela da Manhã?
– É um dos meus nomes. – Henry sorriu levemente. - Alguns me chamam de Samael, outros de Diabo, de Cão, o Deus Chifrudo... E por aí vai. A mitologia é bem extensa... Desde que não me chamem de Satan, pois eu detesto... – Limpou a garganta rapidamente.
– Depois você conta pra ela. – Dean interrompera.
– A sutilidade realmente não é o seu forte, rapaz. – Retrucou, o tom sarcástico. – Mas você tem toda razão. – continuou. – Há assuntos mais relevantes a tratar aqui. Resolvi revelar meu nome, porque é mais seguro. Antes eu pensava exatamente o contrário... Só que mudei de idéia. Não são só os demônios que estão atrás de você, Jim... Os anjos também.
– Nossa... Ele deve ter sido um rebelde e tanto... Para ser perseguido pelo céu e pelo inferno... – Comentou o loiro. A fala de Dean não passou despercebida; Henry o fuzilou com um olhar reprovador, ao mesmo tempo que Sam socava o irmão no braço.
– Não é hora pra piadinhas do tipo, cara. – recomendou, em baixo tom, o Winchester mais novo. – Prossiga, amigo... – Sam apontou para o anjo, que acendera outro cigarro.
– Bem... Há motivos diferentes que levam ambos os lados a vir atrás dele... O céu o quer morto. O inferno, vivo para liderá-los em uma sangrenta invasão do planeta que os humanos chamam de Terra. E, pelos dois motivos, é que estou aqui. Quando eu começar o processo de retomada das memórias do jovem, ele terá condições de se recordar de tudo... E de quem é.
– Então a coisa não é tão difícil assim... Basta ele se lembrar e podemos ir todos pra casa? – quis saber o Winchester mais velho.
– Infelizmente nem tudo são flores. – respondeu, após tragar o fumo. – A questão não é tão simples... Precisamos encontrar a graça de meu irmão.
– Mas... O que é isso? – foi a vez de Taylor questionar, curiosa ao extremo.
– É o que o tornará anjo novamente. – explicou Henry. – Não adianta apenas reviver as memórias dele, precisamos achar o que o fará regressar ao local de onde não deveria ter saído.
– E quanto a você... – iniciou Novak. – Por que pretende me auxiliar, se é o diabo? Não deveria estar ao lado dos demônios nessa guerra?
Henry estudou o rapaz rapidamente. – Bem... Isso é algo que eu não posso contar. Não agora, pelo menos. – Deu de ombros. – Bem... Você tem quantos anos, Jim? Dezessete, dezoito? – Perguntou o rapaz.
– Dezoito. – Respondeu Jimmy. – Por quê? – Quis saber.
– Precisamos procurar por algum meteoro que caiu perto do dia que você nasceu. – Explicou o rapaz.
Dean ergueu as sobrancelhas. – Um meteoro?
– Meteorito, para ser mais preciso. – Henry corrigira. – Se acharmos o lugar, achamos a graça.
Taylor coçou a sobrancelha levemente. – Quando é seu aniversário, Jimmy? – Perguntou, sorrindo levemente.
– Quinze de outubro, por quê? – A garota olhou para todos os rapazes.
– A minha mãe é de Illinois... – Explicou. – Ela me contou, há tempos, que um meteorito caíra por lá. E talvez possa ter algo a ver...
– É, eu nasci lá, se isso ajuda. – Informou Jimmy.
– Resolve parte dos nossos problemas... Mas, de onde você é, exatamente? – Perguntou Henry.
– Sou de Pontiac, Illinois. Meus pais sempre tiveram o péssimo hábito de mudar de cidade, porque meus surtos, segundo eles, prejudicavam a família.
– Que conceito ridículo. – Comentou Sam. – Você deve ter sofrido bastante, não é?
– Sim, o suficiente. E as coisas só pioraram quando começamos a mudar de estado... Agora, pra mim, tudo faz um certo sentido...
– Quer dizer que não tá surpreso com tudo que o anjo contou? – Dean quis saber, espantado com a tranqüilidade do rapaz.
– Um pouco. Bem... Você ser um anjo e nem se lembrar é um tanto complexo. Mas é uma saída pra mim... E se for verdade, quero enfrentar as coisas ao invés de resmungar.
– Viu? ... Esse é o diferencial... Você sempre resmunga, maninho. – Comentou o Winchester mais novo, ao que o loiro o acertara com um chute na canela.
– Então acho que, a partir da sua escolha, posso começar o processo... Terei de mexer em suas memórias através da hipnose. – Esclareceu Henry, após jogar o resto de cigarro no lixo.
Jimmy concordou silenciosamente. Era uma saída para todos aqueles acontecimentos que sempre o rondaram. Um escape com possíveis respostas para uma boa parte de suas perguntas mais íntimas e complexas. - Quando... Podemos começar?
– Que tal descansar agora? – Sugeriu Henry. – O dia foi longo e cansativo. E vai precisar de muita energia para que eu faça isso.
– Não estou cansado. - Disse o rapaz com euforia.
Henry suspirou baixinho, afagando o cabelo muito preto de Jimmy com a mão, alisando os fios curtos e lisos entre os dedos. – A hipnose vai consumir muito da sua energia. Precisa estar totalmente descansado para isso.
O garoto suspirou, derrotado. – Então amanhã?
– Sem falta.
Sam e Dean se entreolharam rapidamente. Era impressão deles ou... Aqueles dois se davam tão bem como irmãos? Bem, tecnicamente eles eram irmãos, mas a relação entre eles parecia ser tão... Além de qualquer coisa. – Bem... Podem dormir aí, se quiserem. Pegamos outro quarto.
– Tá bem... – Novak concordou. – Mas infelizmente eu tenho de voltar pra casa... Meus pais devem estar preocupados comigo... – Henry continuou a afagar os fios negros do cabelo do outro.
– Tem certeza de que quer ir? – Jimmy o olhou nos olhos ao ouvi-lo. – Aqui estamos seguros... Não acha?
– Sim, eu acho. Claro que não quero ir, é só que... Eles devem estar apavorados... – Jimmy refletiu, enquanto sentia a presença tão familiar do anjo caído. – Tá, eu fico. – deu-se por vencido. Já que não tinha a mínima vontade de ir embora, resolveu permanecer com os novos amigos.
– Ok. – Disse Sam. – Vou até a recepção para pedir um quarto para vocês três... Tudo bem se ficar na companhia deles, Taylor?
– Claro! Eu já estou nessa, não é? – Sorriu divertida. – Então por que não continuar? – o Winchester mais novo assentiu, enquanto abria a porta.
– Já volto. Cuide de tudo aí, Dean – Pediu, ao que o irmão concordou silenciosamente.
Taylor colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, mexendo na bolsa despreocupadamente até encontrar seu celular. – Vou avisar minha mãe que vou demorar. – Viu Jimmy rir levemente. – Quer ligar para os seus pais também?
– Sim, claro. – O rapaz sorriu, gostando daquele carinho que estava ganhando nos cabelos.
– Vocês querem assistir alguma coisa? – Dean perguntou alheio, sentindo que "sobrara". Viu Taylor explicar uma história absurda digna de um filme do Tarantino para a pessoa do outro lado da linha, notando o sorriso brincalhão de Henry enquanto observava a garota.
– Talvez... Se tiver algo de bom na televisão... – Respondeu Novak, ao mesmo tempo que a menina lhe alcançava o aparelho.
Jimmy também explicou a primeira história absurda que lhe veio à mente. A mãe concordou, um tanto aflita, que o filho permanecesse fora aquela noite. Mas pediu que ele voltasse, no dia seguinte, para casa, ao que o garoto concordou. Ele entregou o celular a Taylor, que o guardou na bolsa.
Dean, por outro lado, passava de canal em canal; parou, entretanto, em um jornal local; algo ali chamara a atenção do caçador. Uma violenta briga de bar acabara com a misteriosa morte de trinta indivíduos.
– Tem algum palpite, Lúcifer? – Quis saber o Winchester mais velho. – Por que será que aconteceu essa confusão?
O anjo franziu o cenho, sem parar de mexer no cabelo do moreno. – Os demônios e os anjos... Estão lutando... Droga. – murmurou.
– O que há? – Perguntou a asiática. – Temos de nos proteger?
– Não, mas meus irmãos estão por perto. – Explicou. – Isso significa que preciso de uma faca. – Completou.
– Uma... Faca... Tem certeza disso? – Questionou Dean, ao que o outro assentiu.
Assim que lhe alcançou o objeto pontiagudo, os três se surpreenderam ao vê-lo se aproximar da parede próxima à entrada do cômodo, enquanto fazia um longo corte em seu braço.
Jimmy correu até o amigo, tão logo viu o ferimento. – Eu vou ficar bem... – Com o próprio sangue, fez um símbolo para que os anjos não adentrassem o quarto. – Este lugar está livre de qualquer ameaça angelical. – Falou, o tom sereno.
– E é à prova de demônios também. – Dean comentou. – Coloquei sal nas janelas e na porta. – Esfregou as mãos uma na outra, torcendo os lábios. – Quer... Ahm, uma toalha pra colocar aí? – Indicou o corte no braço do anjo.
– Oh sim, obrigado. – Henry sorrira de forma delicada, apanhando a toalha de rosto de cor clara que o caçador lhe jogara, colocando-a sobre o ferimento. – Não se preocupe.
Jimmy olhava meio aflito para o braço de Henry, que ainda sangrava um pouco.
Não demorou muito para que Samuel voltasse com a chave do quarto 221, entregando-a para Novak. - Consegui o quarto ao lado, se por acaso acontecer alguma coisa... É só gritar.
– Obrigado. – Agradeceu baixinho, apreensivo com aquilo tudo. – Quer ir? Acho que os irmãos precisam descansar também. – Henry fez um sinal positivo com a cabeça. – Taylor, vamos? – A menina se levantou, despedindo-se dos Winchesters.
– Nos vemos amanhã, garota. – Falaram ambos, mais acostumados à presença dela. Jimmy e o anjo também se despediram dos rapazes e saíram para o quarto ao lado. Só então Sam percebeu o símbolo na parede.
– Que diabos é aquilo, Dean? – Quis saber.
– É um símbolo pra evitar que anjos entrem aqui. – Explicou, abrindo uma lata de cerveja. – Foi Lúcifer que o fez.
– Sério? Ele parece estar bem disposto a cuidar do anjinho... Não é? – O tom do mais novo foi um tanto malicioso.
– É, pelo jeito você também notou... Há muita coisa nessa história que nós não sabemos... – O moreno concordou silenciosamente.
– Vou ligar pro Bobby. Pra deixar ele "alerta". - Sam comentou.
– Certo... - Dean suspirou baixo. - Casa Erotica, aí vou eu...
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Embora Jimmy insistisse, Henry não ia dormir tão cedo, avisando que ficaria de guarda se caso algo tentasse perturbá-los durante o sono. – Você se preocupa demais, Jim. Eu não durmo muito. Mas vocês sim.
Novak resmungou baixo, contrariado. - E se alguma coisa tentar te matar?
– Jimmy, ele é Lúcifer. – Taylor comentara enquanto penteava os cabelos com um pente. – Nada tenta matá-lo a não ser... Uhm... Michael.
– Ela tem razão. – Henry sorriu levemente. – E duvido que meu irmão apareça. Então, pode dormir tranquilo.
– Tá... – Deu-se por vencido, ainda que não fizesse qualquer movimento em direção à cama.
A asiática, por sua vez, terminara de arrumar o cabelo e avisara aos rapazes que iria tomar um banho. Entrou no banheiro e deixou a água levar todas as preocupações do dia, enquanto refletia a respeito da relação dos dois amigos.
Henry, por outro lado, observava as feições de Jimmy. O menor estava sentado na cama, como se estivesse meditando. Mas Lúcifer sabia que, na verdade, ele se sentia assustado. Embora não soubesse do passado, o garoto tinha sensações relativas ao tempo que vivera no céu.
– O que foi? – Aproximou-se calmamente. – Não tá com sono? – O outro assentiu.
– Eu não vou dormir pra ter os mesmos pesadelos... – Balbuciou, num fio de voz. – Não agora. – Henry o abraçou.
– Sei que isso vai ser um pouco... Estranho. – Henry medira suas palavras cuidadosamente, afagando os fios curtos e negros da cabeça de Jimmy. – Mas quer que eu durma com você?
Jimmy ergueu os olhos muito azuis. – Você faria isso?
– Faria. – O rapaz sorriu de lado. – Claro que a cama é um pouco apertada, mas se quiser...
– Eu quero.
Henry assentiu brevemente, tirando o casaco e deixando-o sobre uma cadeira próxima. – Acho que a Taylor não vai ficar muito... Incomodada, vai?
– Acho que não. – Jimmy sorriu de lado.
Era impossível, para Lúcifer, não sorrir ao escutar a resposta positiva do outro. Não queria colocar, pelo menos agora que recém o reencontrara, as questões que os envolviam de um modo tão especial. Ficava, porém, cada vez mais difícil ocultar a alegria que sentia por ter, perto de si, o belo anjo que outrora mexera com seus sentimentos.
Acomodaram-se na cama, olhos nos olhos. O azul claro dos olhos do menor persclutava o rosto do amigo. Pretendia entender por que eram tão ligados, tão familiares; o azul escuro dos olhos de Henry analisava minuciosamente a expressão do garoto.
Jimmy considerava um pouco estranho se sentir tão a vontade na presença do outro. Mas procurava não pensar nisso, pois o carinho que ganhava nos cabelos lhe tirava qualquer linha de raciocínio.
Taylor deixou o banheiro já vestida, tirando o elástico que prendia seu cabelo, estendendo a toalha sobre a porta. E não pôde deixar de sorrir levemente quando vira Henry e Jimmy deitados juntos na cama de solteiro olhando-se fixamente. Eles tinham uma conexão tão... Diferente. Eram irmãos, mas ao mesmo tempo não eram. Complexo demais para se comentar, pensou ela, deitando-se na outra cama.
Apanhou seu MP3 da bolsa que estava jogada no chão, colocando um dos fones na orelha.
– Taylor? – Ouviu Henry chamar.
– Sim?
– Você não... Se incomoda, certo? É que Jimmy estava meio incerto. – Explicou.
– Não, não. – Ela sorriu. – Não me incomodo.
O moreno alto suspirou aliviado. Ainda que não admitisse, não pretendia incomodar nenhum dos dois amigos. Ele se arrumou melhor na cama, enquanto passava o braço para abraçar o garoto.
– Tudo bem? – Sussurrou. Novak não pôde deixar de perceber o tom um tanto sedutor do outro. Assentiu levemente, enquanto se acomodava.
– Tudo ok... Obrigado por ficar aqui. – Sorriu. – Eu não sei o que é, mas você me traz uma sensação tão boa...
– Se considerarmos que eu sou o diabo... Isso é um tanto contraditório, não acha? – Henry sorriu de leve.
– É. Quer dizer... Eu sabia pouca coisa desse ser maligno. E, francamente, você não se parece em nada com ele. – Retrucou. – É tão gentil e amigo... – Jimmy levou a mão à cabeça.
– O que foi? – Perguntou. – Sente algo? Quer que eu chame alguém?
– Não. Eu tenho isso com freqüência antes de dormir... Ah... – Ele gemeu baixo, ao mesmo tempo que o anjo caído colocava a mão sobre a do menor.
– Espere... Acho que posso ajudar... – Retirou, delicadamente, a mão de Novak do local dolorido e, com calma, tornou a pousar a sua mão ali.
Jimmy não pôde deixar de se sentir protegido. O toque do ser tido como diabo o aquietava. Era algo que, definitivamente, o rapaz não entendia: por que Lúcifer tinha tal conexão consigo.
Novak sorriu brevemente quando a dor passara e Henry o observara com um sorriso triunfante nos lábios. Um sorriso lindo até demais para o gosto de Jimmy. – Éramos apenas irmãos e amigos quando... Você sabe, eu era... - A palavra ainda não queria sair de sua boca. - Anjo?
– Não acho certo te contar isso. Você precisa se lembrar. – Disse Henry, bondoso. – Minha palavra não é boa o suficiente.
– Eu acreditaria. – Protestou Jimmy.
– Mas você precisa da "sua" versão dos fatos. Posso te contar a minha amanhã, talvez. Mas primeiro você precisa saber o que via, o que sentia. – Sorrira brevemente, pousando os lábios sobre a testa do menor. – Agora durma. Vou estar bem aqui.
Jimmy fechou os olhos com aquele contato tão bom. E não demorou muito para que o sono o vencesse. O anjo permaneceu ali, admirando as feições do receptáculo – tão parecido com o tirmão querido. E ficaria ali, disposto a zelar pela segurança dele.
