Capitulo II
No dia seguinte
- Kanon, aonde vai com essas malas?
- Vou passar uns tempos no Ap. de Milo.
- Se é por causa de ontem, eu...
- Não é só por isso. O Mu vai passar uns tempos na clinica, e para o Milo não ficar sozinho com a prima, pediu que ficasse lá.
- Não entendi muito bem, mas deixa pra lá...
Saga mostrou pouco interesse fazendo uma cara estranha, colocando a mão na altura no estomago.
- Você não parece bem, Saga. Está passando mal?
- É a gastrite. Estou assim desde ontem.
- Bem que eu disse para você não trabalhar tanto... anos de trabalho e preocupações fizeram isso com você. É melhor tirar o dia para fazer uma visita ao médico.
- Hoje eu não posso. Tenho que procurar uma nova secretaria, atendendo ao pedido de Saori que não gostava da Shina... Ainda bem que Shaka vai estar trabalhando hoje. Posso dar uma passada no consultório dele.
- Lá vai você ficar fazendo tudo o que ela manda. Deixa pra lá, isso é problema seu mesmo... Só que não confio nas habilidades de Shaka como clinico geral da empresa para resolver seu problema. O que você precisa mesmo é de um especialista no assunto... – pensou que esta seria a hora certa de falar sobre Helena – Esquece esse lance de procurar uma secretaria. A prima do Milo já trabalhou como secretaria de um hospital, e tem um currículo variado.
- Isso é bom... além de dar emprego a prima do amigo do meu irmão, não terei que ficar me desgastando com entrevistas cansativas.
Na mansão de Shion...
- Pai, preciso conversar com o senhor.
- Você não me parece muito bem. O que aconteceu? Está doente?
- Estou precisando de seu apoio... sua ajuda como pai.
- Claro, meu filho. Eu sempre coloquei dinheiro em sua conta, mas toda vez você devolvia, dizendo que não precisava.
- Não é esse tipo de ajuda... – mesmo com receio de magoar seu pai, e ao mesmo tempo se sentindo péssimo, conseguiu forças para falar – É que eu andei me envolvendo com coisas que estão me destruindo por dentro.
- Seja o que for, eu estou aqui para te ajudar. Afinal de contas você é meu filho.
- Filho bastardo.
- Não diga isso. Eu e a sua mãe fomos mais felizes do que quando era casado com a mãe de Saori.
- É mesmo? – não conseguiu resistir em mostrar sua descrença diante do que acabara de escutar, mesmo assim sua voz saiu demonstrando também o quanto se sentia magoado – E por que você sempre deixou que a Saori me chamasse assim?
- Tinha esperanças que um dia ela visse o mau que estava te fazendo, e tentasse reparar tudo isso. Mas eu me enganei...
- O tempo em que o senhor deveria mudar isso já passou. Ela continua mimada e arrogante... Mas não é sobre ela que eu vim falar... nem sei como terei coragem de contar... tenho medo que tenha vergonha de mim...
- Eu não tive vergonha quando o trouxe para viver comigo quando sua mãe morreu, não será agora que terei.
- Depois de tudo que Cyntia me fez, acabei me entregando ao mundo das drogas...
Shion sorriu feliz, mas não foi pela desgraça que estava acontecendo na vida de seu filho, e sim por algo que esperava a tanto tempo. Que Mu se abrisse com ele.
- Finalmente você resolveu confiar em mim... todo esses anos de silencio me fizeram pensar que você nunca falaria sobre este assunto comigo, e sendo assim, jamais poderia dizer que sabia o que estava te acontecendo, nem muito menos ainda tentar te ajudar.
- O senhor já sabia? Aposto que foi o Kanon que te contou. E é capaz de Saori já saber disso...
- Ninguém me contou. Eu e o Saga vimos você pelas ruas, andando estranho. A gente tentou falar com você, mas era como se você estivesse em outro mundo. Saga te seguiu, e viu você comprando em um beco suspeito. Ele não queria me contar, mas eu já tinha pensado nessa possibilidade, afinal de contas você teve uma infância problemática, e agora tocando em uma banda de Rock essa porta estaria próxima a você. Não estou dizendo com isso que todas as pessoas que tocam ou gostam de rock se droguem... Saga me pediu para que não contasse para Saori, e mesmo que ele não tivesse me pedido isso, eu não contaria mesmo. Depois, ele conversou com Kanon, e nós três juntos fizemos de tudo para que ninguém soubesse que você ficou internado em uma clinica de recuperação.
- Me perdoe, pai. Eu sou um idiota que não presta pra nada nesta vida.
- Não. Você é que tem que me perdoar, filho. Depois que a sua mãe morreu, eu não te dei atenção. Fui fraco. Mesmo vendo que você precisava muito de mim, me afoguei no trabalho para não ter que ficar me lembrando dela, ou de ficar escutando as reclamações da mãe da Saori. Fui fraco novamente quando deixei você se casar com aquela trapaceira que deu o golpe da barriga.
- Mas ela me amava e estava esperando uma filha minha.
- Ela nunca te amou. E aquela menina não é a sua filha.
- O que o senhor está dizendo? Quem te contou uma infâmia dessas?
- Falei mais do que devia... olha, você não deve se preocupar com a Cyntia agora. Se preocupe apenas com sua recuperação...
- Não. O senhor sabe de algo e gostaria que me dissesse. Vou insistir tanto neste assunto até que me conte o que sabe.
- Vejo que não tenho outra alternativa... Aquela mulher, quando soube que esteve se drogando, veio até mim com algo que parecia uma chantagem. Não que eu me preocupasse com o que os jornalistas dissessem, mas sim com a sua reação, e da banda também. Sei que você gosta muito de tocar com seus amigos... Paguei a ela uma quantia muito alta para que não colocasse a boca no mundo. Eu aproveitei e peguei um chumaço de cabelo da menina, e depois o filtro de um cigarro que você jogou fora. Levei até o laboratório de um conhecido e pedi para que ele fizesse o teste de DNA... a menina não é sua.
- Pai, isso que o senhor está me contando é muito sério... Isso quer dizer que estou pagando uma pensão alimentícia enorme para uma vigarista.
- Sabe por que ela não está indo mais atrás de você? Porque eu mostrei o resultado do exame, e disse que faria ela pagar em dobro tudo o que ela tirou de você, e ainda por cima entraria com um processo contra ela.
- Obrigado por ter me ajudado, pai. Para mim é uma felicidade e uma tristeza também. Tenho pena dessa menina que não deve ter um pai, pois se tivesse, ele jamais concordaria com algo desse tipo. Por outro lado, não tive tempo para me acostumar com a idéia de ser pai dela.
- E então, filho, vai querer mesmo se tratar?
- Vou hoje mesmo. Poderia me acompanhar até a clinica?
- Eu não vou só te deixar lá, como também passarei todo o tempo ao seu lado. Agora consigo reconhecer que fui um péssimo pai para você, e que agora estarei sempre ao seu lado para recompensar todos esses anos.
- Mas pai, e a empresa?
- Não se preocupe. É para isso que serve o vice-presidente... Vou ligar para Dohko agora mesmo.
Mu aproveitou para fazer o mesmo. Ligou de seu celular para o apartamento, e Milo, muito preguiçoso atendeu.
- Alo? Milo, diga para Kanon que já resolvi tudo e que vou ficar uns tempos internado. Quando voltar, não cairei nessa lama novamente.
- Que ótima noticia. Eu também quero dar uma noticia boa pra você também. Decidi que iremos de avião. Então dará para você ficar recuperado, e tocar com a gente.
- Mas e sua fobia de avião?
- Se você está determinado a se tratar pela banda, eu posso muito bem tentar vencer meu medo de voar. Kanon disse que concordava comigo, e disse que ficaria aqui no Ap. por uns tempos.
- Eu não sei o que faria sem amigos como vocês.
- Amigos são pra essas coisas. Melhore logo, meu irmão. Até mais.
Assim que desligou, viu um ar esperançoso, e feliz no rosto de seu pai.
- Seus amigos são compreensivos. Isso mostra que eles realmente se preocupam com você.
- É. Milo que não é da família me trata como irmão, coisa que a Saori...
- Não quero nem falar dela hoje. Depois de ontem, tudo o que quero é relaxar um pouco ao lado de meu filho.
- Obrigado por tudo, pai.
- Eu é que agradeço a Deus por ter você como meu filho.
No aeroporto
Kanon, Milo e Aioria esperavam impaciente que a prima de Milo desembarcasse. Logo surge uma garota magérrima, baixa e loira com os cabelos presos. Seus olhos eram azuis claros, escondidos atrás de um óculos de grau de péssimo gosto. Eles eram tão grandes que até seu rosto delicado se perdia entre eles. A roupa que ela usava era de uma tonalidade verde claro bastante opaca. Quando chegou por trás dos rapazes falando "olá" com sua voz suave chamando a atenção deles Shura disse:
- Cruz credo!
- Se eu soubesse que essa seria sua reação quando visse a minha prima, não teria te trazido.
- É que eu esperava por alguém menos... – pigarreou com escárnio e continuou – ... bonita.
- Não liga para o que ele está dizendo, senhorita. Eu sou o Kanon.
- Ah, você deve ser o companheiro de quarto de Milo. Meu nome é Helena.
- Por alguns dias ele ficará lá em casa... é que o Mu teve que viajar, então eu pedi que ele ficasse lá com a gente.
- Milo?! Não acredito que você ainda tem medo de ficar sozinho comigo.
- Tenho medo de sofrer algum acidente grave, e na sua tentativa de me ajudar piorar as coisas.
Milo disse tão baixo que só Kanon pode ouvir, deixando escapar uma pequena risada, que logo desapareceu dando espaço a um grito de dor. A moça deixou suas bagagens atrás de Kanon. E quando este deu meia volta para sair com os outros em direção ao carro caiu batendo de joelho no chão com toda força.
- Então eu estava exagerando não é?
- Só pode ser uma coincidência... Acho que vou ao hospital primeiro.
No escritório de Camus
- É serio mesmo. Não estou precisando de uma secretaria agora. Sabe muito bem que nunca precisei de uma.
- Veja bem, Camus... Eu não quero deixar a Saori irritada comigo por causa disso, mas também não posso despedir a moça sem um bom motivo. E você precisa de uma secretaria para te ajudar com essa montanha de papeis.
- E por que você não a transfere para o Carlos?
- Porque ele ficaria dando encima dela. Sabe como ele é, vive assediando as secretarias. E eu não quero que a empresa se envolva com uma ação judicial de assédio sexual.
- Tudo bem. Vou ficar com ela então. Mas já aviso logo: se a Shina me atrapalhar, não pensarei duas vezes em dar uma carta de demissão a ela.
- Concordo.
Na sala do médico...
- Bom dia, Saga.
- Bom dia, doutor.
- Já vi que você veio como paciente. Gastrite de novo?
- Isso mesmo. E hoje está pior que os outros dias, Shaka.
- Eu já te falei para maneirar na carga horária.
- Se fosse só isso... Você teria um remédio mais eficaz que aquele que me receitou?
- Chegou um remédio novo no mercado, só não sei se ele tem contra indicações nem se ele é melhor. A verdade é que você deveria tirar um dia de folga para ir a uma clinica de gastroenterologia. Eu sou apenas um clinico geral formado também em Psicologia... A propósito, como está a sua relação com Saori?
- Nem pense em me consultar como psicólogo.
- Mas esse seu mal-estar parece ter sido ocasionado por alguma discussão com ela. Acho que ela andou te cobrando um noivado novamente...
- Como você sabe disso?
- Um dia desses, ela veio se consultar comigo, depois que vocês discutiram ai no corredor. Mas acho que ela nem precisava disso, pois dava para escutar com o meu consultório fechado.
- Ela não é fácil mesmo... Espero que agora Saori se acalme mais, depois que pedi sua mão em casamento.
- Você tem certeza dessa escolha?
- O que deu em todos vocês? Primeiro o Kanon diz isso, mas no caso dele é porque tem medo que a gente se afaste novamente. Depois vem o Camus, mas este foi porque se recordou do passado de meus pais. E agora você...
- Eu só falei isso porque pensei que você tivesse feito o pedido ao se sentir pressionado por Saori. Só isso... – Shaka fez um sinal de paz com a mão e enquanto falava – Você está muito estressado, e se não tirar uns dias de folga, seu quadro vai piorar.
- Vou ver se consigo passar uns dias sem trabalhar. Tenho tantas coisas para resolver...
- É exatamente por isso que você deve esquecer um pouco do trabalho, e cuidar da sua saúde. Não estou falando como médico agora, e sim como um amigo.
Na clinica
- Pai, eu sei muito pouco sobre minha mãe. Você nunca quis falar muito nela.
- Tive vários motivos para não falar naquele tempo, Mu... – Shion sorriu ao lembrar como foi, e resolveu compartilhar as lembranças com Mu – Eu a conheci em uma loja de brinquedos, era véspera de natal.
- E o que aconteceu? – Mu parecia interessado em saber mais.
- Ela pegou um urso de pelúcia, e como aquele era o ultimo, já que as outras lojas estavam fechadas, ficamos na indecisão de quem ficaria com o urso. No final das contas, eu cedi para ela e a acompanhei até a sua casa. Era bem humilde e aconchegante. Estava curioso para conhecer a suposta filha ou filho a quem ela daria aquele urso. E quando disse isso a Beth, ela sorriu. Esse sorriso parecia que fazia o céu se abrir a nossa volta num dia de tempestades. Ela colocou o urso dentro de uma sacola cheia de brinquedos, e vestiu uma roupa de mamãe Noel. Ela disse que se tivesse uma roupa de papai Noel ela teria me feito colocar.
Shion parecia emocionado ao contar cada detalhe do dia em que conheceu a mulher que mudou sua vida. Impaciente com a demora de seu pai continuar a falar, Mu insistiu reticente:
- E Então...
- Nós fomos visitar umas crianças de um orfanato, e quando as crianças perguntavam para a mamãe Noel onde estava o papai Noel, ela dizia: "Ele está bem aqui na sua frente... liga não, é que ele cortou a barba e tingiu o cabelo para ficar mais bonito para vocês". E as crianças não queriam acreditar. Foi ai que eu coloquei duas crianças no meu colo, e peguei cada brinquedo que a sua mãe me indicava para entregar as crianças. E foi ai que as crianças acreditaram que eu era o papai Noel disfarçado.
- Deve ter sido muito legal. E depois?
- Eu e sua mãe saímos depois que as crianças dormiram, para uma lanchonete. A partir desse dia a gente se encontrou varias vezes e acabamos nos apaixonando. Eu até pensei em pedir divorcio a mãe de Saori, mas Beth disse que não seria uma boa hora porque Saori ainda era recém-nascida. Dois meses depois sua mãe descobriu que estava grávida de você, e eu quis pedir o divorcio. E mais uma vez a sua mãe disse que eu não deveria fazer isso.
- Por que ela não quis que você se separasse da mãe de Saori? Ela não te amava mais?
- Não... Quando sua mãe descobriu que estava grávida, descobriu também que estava com câncer, e que os médicos aconselharam que ela abortasse para se cuidar... que ela teria mais alguns anos de vida se fizesse isso. – lagrimas surgiram no rosto de Shion, e com a voz tremula continuou hesitante devido a emoção – Ela... ela optou por ter você.
- O senhor queria que ela tivesse feito o contraio?
- Não, nunca. Eu queria que vocês dois vivessem sempre comigo... Mesmo depois dela ter dado a luz a você, e os médicos terem me dito que mesmo ela fazendo o tratamento, não veria você fazer um ano de idade. Eu enlouqueci... usei uma fortuna em tratamentos, e outros especialistas... quase fali a empresa que tanto prosperou. Nada adiantou.
- Adiantou sim. Ela me viu fazer quatro anos. Mais tempo que os médicos estimaram. – o rosto de Mu ficou sério de repente. – Pai, a partir de agora as coisas vão ficar mais difíceis. A crise de abstinência vai começar daqui a algumas horas...
- Não tem problema, filho. Não importa o que aconteça, eu estarei sempre ao seu lado... Da outra vez você passou por tudo isso sozinho. Não permitirei que isso aconteça. Nunca mais.
Em outro lugar
Milo dirigia o carro de Kanon, que estava sentado no banco de trás, com a perna apoiada no colo de Helena. Aioria havia acompanhado o grupo ao hospital de trauma, mas escapou na primeira oportunidade que viu quando apareceram um bando de mulheres histéricas pedindo o autografo deles, e desde então não o viram mais. Quanto a Shura, este estava no banco do carona, e falava olhando para trás.
- Não teve jeito mesmo, Kanon... quero ver você tocar com essa perna engessada.
- Eu no seu lugar, não deixaria minha perna ai.
- Milo, você é muito exagerado... Hei, antes que me esqueça. Eu já falei com meu irmão. Saga disse que podia levar Helena para falar com ele assim que estivesse descansada da viagem.
- Sério mesmo? Obrigada, Kanon.
Ela o abraça toda atrapalhada, e acaba forçando um pouco o gesso. Só se ouve Kanon dizer "ai", e uma gargalhada de Shura. Milo não se conteve, e riu também dizendo:
- E eu é que sou o exagerado...
- Vai te catar, Milo... foi apenas um pequeno acidente.
- Vai pensando assim, e logo você estará fugindo dela como diabo foge da cruz.
- Desculpe. Eu não queria te machucar de novo.
Ela dizia praticamente chorando. Se Shura já a achava meio feinha, agora mesmo que ele achava Helena uma verdadeira monstrenga. Kanon passava a mão em sua cabeça tentando consolá-la:
- Viu o que fez, Milo? Será que não dá pra você tratar melhor a sua prima?
- Desculpe. Eu exagerei nas minhas brincadeiras. Não farei mais isso. Agora pare de chorar, por favor. Desse jeito não vou conseguir dirigir.
Continua...
