Santuário

Santuário

Kanon acabara de adentrar o amplo salão do templo. Tinha vindo mais cedo e trocou aquela roupa que só causou confusões e embaraços. Agora estava de volta novamente para tomar banho e trocar de roupas para jantar no refeitório. Embora tivesse avistado seu irmão durante o almoço ao lado de Shaka e Mu no canto oposto de onde estava, não dialogou com ele. Neste exato momento, estranhou o fato de já ser tardezinha e o templo estar às escuras. Mas como se Saga havia terminado o treino mais cedo e rumou em direção aos doze templos? Ascendeu o archote e fez o mesmo em todos os outros. Ao aproximar-se do último, deparou com seu irmão dormindo sentado, encostado a pilastra. Achou melhor deixar aquela tocha apagada e sair de mansinho para não acordá-lo. No entanto:

- Kanon. – o ex-general marina voltou-se para seu irmão curioso com o que ele poderia querer com aquele tom de voz seco. – O que pretendia tentando se passar por mim?

- Você está ficando paranóico, Saga. Hoje em dia isso nunca passaria por minha cabeça.

- Não estou certo disso. Por que motivo usou minha roupa então?

- Lembra-se do dia em que Saori ofereceu um coquetel e que eu não podia ir?

- Como poderia esquecer? Milo ligou pra mim dizendo que você estava em uma crise depressiva e completamente bêbado. Tive que desistir de ir ao tal coquetel e agüentar você falando o tempo todo sobre as besteiras que fez com a pobre da Tétis. Ainda por cima vomitou tudo, e eu fui obrigado a dar um banho para colocar roupas limpas em você porque estava com frio.

- Também não precisava fazer um retrato completo do ocorrido, não é Saga? Bom, naquele dia você deixou sua roupa no meu quarto e não a pegou de volta.

- O que tudo isso tem haver com o fato de usá-la hoje? Por acaso suas roupas estão todas sujas?

- Não, é claro que não. – respondeu Kanon sem se abalar pelo tom de voz irônico do irmão – Apenas acordei de uma noite mal dormida sem nenhum pingo de vontade de sair, e peguei a primeira roupa à mão. Teria usado a roupa do corpo mesmo se estivesse com uma. Sabe como é, em dias quentes gosto de ficar nu em...

- Me poupe destes detalhes desagradáveis. – cortou com secura.

- Você está irritado só pelo fato de ter usado sua roupa?

- Nã... Sim. Sugiro que não apronte outra dessas, ou acabarei esquecendo que sou seu irmão. Afinal de contas, o que June queria me mostrar? – Saga perguntou tentando mudar de assunto.

Kanon ponderou diante da relutância de Saga em responder a sua pergunta, e também se seria correto contar de uma vez por todas que a amazona deixou a máscara frouxa com a intenção de mostrar seu rosto a ele em um acidente proposital.

- Nada de mais. – "Se Saga souber que June vai se casar com o irmão errado, seria capaz de sentir-se mais culpado ainda pelo fato de nunca ter tomado uma atitude ao perceber os sentimentos dela. E nada disso estaria acontecendo." Pensou Kanon.

Minutos depois, todos os cavaleiros já estavam reunidos no refeitório para jantar, mas podiam-se ouvir os murmúrios que conflitava com os ruídos dos talheres. Sempre havia alguém mais exaltado que não consegue ser completamente discreto:

- Hei, Kanon, o que você vai fazer mais tarde?

- Não é da sua conta, Milo. – respondeu sem interesse.

- Que bicho te mordeu? Só queria saber se você vai ficar em casa. Eu estava pensando em levar as amazonas para sair um pouco. Elas estão treinando muitos e...

- Você pode levar Marin ou a Shina, mas a minha noiva, nunca. Conheço você muito bem pra saber do que seria capaz. Até o pobre do Aioria caiu em desgraça só por acompanhar você.

- Agradeceria muito se não mencionasse aquilo que aconteceu entre mim e Marin, Kanon.

Milo olhou para a cara de Aioria para ver como ele reagia ao tocarem naquele assunto que a muito ninguém ousava comentar. Voltou a olhar para Kanon e falou com desgosto:

- Então é verdade mesmo que pretende se casar com June, Kanon. Mas por quê se você não a ama? A fará infeliz...

- Como você pode falar com tanta segurança, Milo? Por acaso eu não poderia ter me apaixonado por ela assim que a vi pela primeira vez sem a máscara?

- Você? Duvido muito. Depois de toda aquela choradeira por causa da Tétis...

Kanon levantou-se deixando a bandeja ainda cheia de comida não tocada, caminhando até a porta no canto do refeitório e bateu com força, gritando pelo nome de June. Do outro lado da porta, estava as amazonas Marin, Shina e June, todas sem suas máscaras. Aquele era o lugar reservado para amazonas fazerem suas refeições, e nenhum homem podia entrar ali. June sobressaltou-se ao escutar aquela voz firme que a chamava. Shina fitou o rosto corado de vergonha da amazona de camaleão e perguntou:

- … o Saga ou o Kanon que está te chamando? Nunca consigo distinguir quem é quem.

- … o Kanon. Ah, Marin, diga qualquer coisa para ele parar de ficar me chamando assim.

Ao escutar a voz firme gritar com mais força ao mesmo tempo em que batia também com mais força a porta, Marin imaginou o que aconteceria se isso continuasse do jeito que estava.

- Olha, amiga, acho melhor você ir lá ver o que ele quer, ou Kanon vai acabar derrubando a porta.

Voltando ao lado em que Kanon estava, já estava prestes a dizer uns desaforos. Quem ela pensava que era para deixá-lo naquela situação constrangedora na frente de seus companheiros? Quando fez alusão em bater novamente na porta, esta se abriu, revelando a amazona em questão, protegida por sua máscara. Kanon segurou sua mão, e conduziu-a até o meio do refeitório. Em um gesto rápido, ele retirou sua máscara, e deu-lhe um longo beijo de tirar o fôlego de qualquer um para a surpresa de todos. Satisfeito com o feito e a impressão de todos, recolocou a máscara em seu rosto. Segurando com firmeza a mão de June, olhou para todos anunciando:

- Eu e June pretendemos nos casar no próximo domingo. Por isso, preparem seus presentes, pois faço questão que ela receba muitos. Boa noite a todos. Vou te levar em casa, June.

Todos acompanharam com o olhar perplexo o caminho que o casal pegara. Aquilo era a coisa mais inusitada que podiam imaginar. Kanon e June? Para Milo aquilo era um pesadelo. Ele nutria um sentimento secreto por June desde que a viu pela primeira vez na ilha de Andrômeda, mas sabia que nunca conseguiria nada com ela. Mas daí a imaginar os dois juntos, era impossível.

Na casa de June

June estava escorada na entrada de sua casa sem conseguir acreditar no que havia acontecido agora a pouco. Fora beijada pelo irmão errado na frente de todo mundo, e depois fora praticamente arrastada por Kanon até sua casa. O que mais poderia acontecer para surpreendê-la? Kanon retirou novamente sua máscara, olhando firmemente para os olhos chocados de June que imaginava receber outro beijo. O que veio a seguir a deixou mais pasma ainda:

- Preste bastante atenção, June, pois pretendo dizer isso uma única vez. Não te amo e sei que você ama meu irmão, porém, depois dessa confusão não tive outra alternativa senão de ser obrigado a casar-me com você. A questão é que não quero que meu irmão sofra se descobrir o que está acontecendo. Por isso, na frente de todos precisamos agir como um casal apaixonado.

- Mas você quer que eu me apaixone por você? Eu nunca...

- Você continuará amando Saga, e eu sofrerei calado um amor impossível... correção: nós dois sofreremos calados. Saga nem ninguém precisam saber deste acordo. Agora vá descansar, que amanhã cedo venho te buscar para um passeio antes do treino. Assim poderemos convencer melhor a todos. Sua interpretação de casal apaixonado deixou muito a desejar.

June nem conseguiu retrucar. Tudo o que se passava em sua mente era o rumo que tudo aquilo estava tomando. Sentiu-se a mulher mais infeliz do mundo. Amaria Saga calada, e teria que conviver pro resto de sua vida com uma pessoa que se sentia na obrigação de casar-se sem amor. Assim que Kanon rumou para sua casa, June entrou correndo e se jogando na cama, onde ficou varias horas chorando até não ter mais de onde tirar lágrimas. Pegou no sono devido a exaustão física e emocional.

Na manhã seguinte acordou com os olhos inchados da péssima noite que passou. Logo cedo Kanon chegou a sua porta se perguntando quanto tempo teria que esperar para que fosse atendido. Sem animo, June percebendo que não teria escapatória abriu a porta má vestida e sem a máscara. Kanon tentou disfarçar a expressão de susto, mas logo disse o contrario:

- Vá colocar a máscara e arrume-se. Não quero que espante as pessoas a nossa volta com essa aparência.

- Seu grosso.

Voltou para dentro da casa pisando firme, arrancando uma sonora gargalhada de Kanon. dentro do quarto, June praguejava consigo mesmo: "Aquele idiota. Quem ele pensa que é para me tratar assim? Pois bem, se não quer que espante os outros com minha aparência, quero só ver o que ele dirá disso." Pegou uma blusa branca quase transparente, e um short curto até demais. Logo após saiu vestindo aquela roupa e seu cabelo preso em um rabo de cavalo. Teria deixado a máscara de lado se não fosse usá-la para esconder a indignação descrita em seus olhos. Kanon a comeu com os olhos. Sorrindo maliciosamente, falou:

- Assim está bem melhor.

- Não dá para classificar uma coisa como você nem que a ciência avançasse mil anos.

- Recebi o primeiro elogio da minha noiva feliz. – falou com um tom de zombaria. – Lembre-se de do combinado, garota.

June pretendia retrucar, mas desistiu. O que diria? "Se minha presença não te agrada, por que me convidou pra sair então? Não vou dar esse gostinho a ele." Ao contrario do que imaginava, o passeio foi bastante agradável embora Kanon tenha ficado em silencio durante todo o percurso. Vez ou outra percebia os olhares atentos dos demais, e isso a estava incomodando muito. Teve um momento em que desejava ver a terra abrir-se sob seus pés e a tragasse para o reino de Hades quando viu quem os observava de longe, com um semblante sério e infeliz. Saga... Kanon chegou no treino muito atrasado propositalmente, pois queria que o atraso desse o que falar a todos. Ao ver o suor escorrer no corpo de seus companheiros, June fez menção em sair, no entanto Kanon foi mais rápido segurando com firmeza a sua delicada mão:

- Aonde pensa que vai, querida noiva? – perguntava com um sorriso cínico – Temos um dia inteiro de treino.

- Por favor, Kanon. Deixe-me voltar a minha casa para trocar de roupas.

- Ora, ora. Você escolheu esta roupa com o intuito de me contrariar.

- Não foi nada disso. Eu achei que estava muito quente e por isso escolhi a roupa mais fresca que tinha. – mentiu June olhando preocupada para suas próprias roupas – Não vai dar para treinar assim.

- Não seja boba, minha fofa. – o sarcasmo estava no ar e Kanon não podia deixar de implicar com June – Você está perfeita assim. Venha treinar logo comigo, ou permitirei que treino com outra pessoa. Saga por exemplo.

June foi para o meio da arena contrariada e desgostosa, se praguejando por aquela estúpida idéia da roupa. Horas mais tarde, June tentava disfarçar, mas não tinha jeito. Kanon a fez transpirar muito com um treino pesado debaixo daquele sol forte. A camisa grudava em seu corpo como uma segunda pele, dando uma transparência mais nítida no tecido fino, e deixando a mostra seu sutiã branco. June desejava que um raio caísse na sua cabeça naquele exato momento ao ver aquele sorriso estampado no rosto de Kanon. se sentia muito humilhada.

Mansão Solo

Tétis andava de um lado para o outro desde que ficou sabendo da vinda de uma pessoa a mansão. Era para essa pessoa já ter chegado. Por que a demora?, Tétis se perguntava pela trigésima vez. A porta do salão principal se abriu, e ela saiu correndo de encontro ao homem que acabara de entrar. Deu um abraço forte nele, deixando-o constrangido com aquela recepção. Sem se afastar, perguntou docemente:

- O que aconteceu, Tétis? Parece que não dorme há dias...

- Sorento, eu tive um sonho maravilhoso. Mas agora estou achando que foi um pesadelo.

- Você não está falando coisa com coisa, garota. Afinal, foi um sonho ou um pesadelo?

- Nem sei o que dizer na verdade. Primeiro pensei estar fazendo minha ronda habitual e de repente surge um vulto na escuridão que não se anunciou. Lutamos e depois algo nesse ser me fez lembrar de uma pessoa que está morta. Como poderia estar acordada se alguém que não existe mais me beijou? Será um mau pressagio, ou um aviso? Se for, o que esse aviso quer dizer?

Sorento se sentiu tonto com aquele bombardeiro de perguntas. Mal conseguia se concentrar direito no que escutava pois Tétis falou tudo isso em um só fôlego.

- Sorento, ainda bem que chegou. Tétis estava impaciente a sua espera. De cinco em cinco minutos consultava para o relógio. – Julina censurou o outro rapaz.

- Senhor Solo, desculpe-me a demora. – dizia Sorento afastando-se de Tétis com um ar de constrangimento por ser pego em flagrante numa circunstância incomum e pouco usual. – Tive algumas coisas para resolver e não deu para chegar na hora.

- Você deve pedir desculpas a Tétis, e não a mim. Ela quem mais sofreu com sua ausência. – retorquiu Julian com um sorriso travesso.

- Não estou entendendo aonde quer chegar, Senhor Solo.

- Senhor Solo para cá, Senhor Solo para lá... quando é que vocês vão perceber que tenho a mesma idade de vocês? – Julian falava gesticulando.

- Desculpe-me, sen... Julian. O que exatamente quis dizer com aquilo? – inquiriu voltando ao assunto.

- Que vocês dois não precisão ficar namorando escondidos. Não tenho nada contra a relação de vocês. A única coisa que peço é que sejam responsáveis.

Julian deu uma piscadela para Sorento, que parecia atoleimado com aquelas idéias do rapaz que outrora ostentara o nome de um deus.

- Mas nós não...

Sorento tentou esclarecer, mas Julian estava resoluto naquela versão, e o interrompeu rapidamente:

- Vocês deveriam tirar um dia de folga para ter um encontro romântico. – sugeriu com um sorriso malicioso para Sorento. Depois virou para a sereia e disse tentando se mostrar sério. – Tétis, se um homem não deseja satisfazer algumas coisas básicas de uma relação para agradar uma garota, sugiro que procure outro. Principalmente uma mulher bonita como você. Tenho certeza que não faltarão pretendentes.

- Mas eu não...

Tétis que até aquele momento escutava o dialogo tentou também esclarecer, mas Julian a interrompeu chegando perto de seu ouvido e murmurou divertido com um sorriso brincando nos lábios:

- Acho que depois de escutar este conselho, Sorneto tomará uma providencia para não te deixar angustiada com sua ausência e te perder. Está me devendo uma Tétis.

Deu um rápido beijo em sua face desejando-lhe boa sorte e saiu tão rápido quanto apareceu. Os dois estavam perplexos. Que situação mais embaraçosa. Depois daquele bombardeiro de perguntas ter que dar de frente com insinuações inverídicas completou a sua noite. Tudo o que Sorento queria era chegar na mansão para descansar um pouco e depois tomar o seu lugar na escolta de Julian, afinal ela não era mais um deus, no entanto era muito rico e poderia precisar de alguém qualificado. E quem melhor para este trabalho senão os seus ex-súditos Marinas? Vasculhou a sua mente para achar o motivo de tanta euforia da parte de Tétis, e encontrou algo que explicaria aquele comportamento:

- Kanon não falou com você, Tétis? Que estranho. Ele me disse que a procuraria...

- Kanon está vivo? Mas como? E por que ele não falou comigo?

- Como eu vou saber? Ele parecia ansioso para reencontrá-la.

Tétis avançou alguns passos segurando com suas delicadas mãos o ombro de Sorento, ao mesmo tempo em que sacudia levemente.

- Onde ele está, Sorento? Por favor, me diga...

Percebendo o desespero da jovem afastou suas mãos com gentileza, e posou sua mão no rosto dela fazendo um carinho fraternal:

- … possível que ele esteja no santuário de Athena. – respondeu com doçura ao mesmo tempo em que demonstrava preocupação estampada em seu rosto. – Tétis, tem mesmo certeza que quer ir atrás de Kanon depois de tudo o que ele lhe fez e ao mundo?

- Não estou entendendo aonde quer chegar, Sorento.

- Já utilizamos muito esta frase por hoje. – replicou com cinismo – Os marinas sabiam que você e Kanon estavam se encontrando durante a noite. Mas durante o dia, ficávamos revoltados com a forma que ele te tratava.

- Vocês sabiam? Mas como se Kanon tomava todos os cuidados?

- Não vê o quanto ele foi cafajeste com você, Tétis? Nunca se importou com seus sentimentos, e nem queria que ninguém soubesse de nada.

- Isso é um assunto que não lhe diz respeito, Sorento. Tudo o que eu quero saber é como vocês souberam.

Sorento deu de ombros.

- Você não conseguia disfarçar tão bem quanto Kanon. – Tétis fez uma cara desanimada e ele prosseguiu. – Não se sinta culpada, Tétis. Ao contrario dele, você amava-o muito para conseguir esconder a felicidade.

- Quando eu pensei que ele tinha morrido junto com os outros... Meu Deus! Eu não agüento mais esconder mais meus sentimentos. Não agüento mais esconder o que aconteceu depois daquela batalha.

Tétis afastou-se um pouco com o rosto banhado em lágrimas. Sosento se sentiu culpado por deixá-la naquele estado por causa da maneira dura em que falou do passado da jovem. Quando percebeu que não era apenas por causa de suas palavras que ela falava chorosa, preocupou-se chegando perto dela e percebendo que seu corpo tremia sem cor na face:

- Por Zeus, Tétis! O que há com você, garota? Está pálida como um fantasma. – correu até o bar no canto da sala servindo um copo de conhaque e entregando imediatamente a Tétis – Beba tudo. Lhe fará bem.

Continua...

Notas finais:

Alguém acuda esta humilde autora que pede por ajuda!! Comecei a escrever este fanfic com o final já certo na minha cabeça. Infelizmente agora fiquei na duvida, e exatamente por isso q vos peço ajuda. Vocês querem que Kanon fique com a Tétis ou com a June? Comentem para me ajudar. De uma forma ou de outra conseguirei fazer um final feliz para todos.

Beijos pessoal e até a próxima.