Bretanha - Dez anos depois

- Eu posso ver água ao longe! É o mar?

Cravou os calcanhares no flanco roliço do cavalo negro, para colocá-lo ao lado do cavalo de seu guia, Coelius. O animal irrompeu em um trote agitado e ele puxou-lhe as rédeas.

- Ah, menino Radamanthys, os seus olhos jovens são melhores do que os meus!

Respondeu o homem, que havia sido preceptor de muitos outros guerreiros antes de receber a tarefa, dada pelo seu próprio pai, o rei Uther, de escoltá-lo até as tribos ao norte da Bretanha, afim de que pudesse ser treinado para substituí-lo.

- Só consigo ver uma luz intensa! Mas acho que a nossa frente ainda não é o mar e sim as terras de verão, encharcadas pelas chuvas!

O menino aloirado, de porte altivo, embora só tivesse apenas 10 anos, empurrou para trás uma mecha de cabelo e observou a paisagem. Os campos eram entrecortados por elevações do terreno e divididas por árvores frondosas. Além delas, ele podia avistar também várias colinas onde, explicava seu guia, havia minas de chumbo, terminando numa nuvem de névoa.

- Estamos quase chegando? – o cavalo negro sacudiu-se quando o astuto rapazinho lhe puxou as rédeas para trás.

- Sim, se conseguirmos chegar ainda hoje a aldeia da gente do lago, onde pernoitaremos!

Radamanthys ergueu os olhos para ele com respeito, pois embora estivessem na estrada a cerca de 3 dias, Coelius parecia incansável.

Coelius pretendia montar, quando se aposentasse, uma escola de filosofia em Londinium.

- Alcançaremos a aldeia a tarde! – disse o guia

- Quando chegarmos lá descansaremos! – disse o menino altivo

- Pensei que estivesse ansioso por chegar as terras altas! – continuou Coelius

- Terei muito tempo para desfrutar das planícies escocesas! – respondeu – Posso esperar mais um dia!

- E começar os seu treinos mais rudes! – continuou o valoroso guerreiro – Dizem que seu primo Minos está aprendendo a antiga maneira de lutar que herdara dos parentes da mãe, os nórdicos!

- Os nórdicos são bons... – Radamanthys falou – mas as técnicas bretãs são infalíveis!

- Consola-me ao menos que você tenha toda essa ânsia de lutar pelo nosso povo!

O garoto sorriu. Sua mãe sempre lhe dissera que esta era sua maior expectativa, lutar por sua terra e defender a velha sabedoria. E ele sabia, desde sempre, que seu pai desejava mandar-lhe ao norte para completar seus treinamentos.

O fato disso ter acontecido mais cedo do que supunha, se devia a rebelião de um general que havia isolado a Bretanha do império. No sudeste, as costas estavam desprotegidas e o rei Uther achara melhor enviar seu filho por segurança e para que aprendesse a arte da guerra.

Por um instante o sorriso no infantil, mas imperiosos rosto de Radamanthys vacilou com a lembrança de seu pai, que naquele momento poderia estar em perigo. Mas sabia também que enquanto ele estivesse longe de casa, sua vida correria perigo.

A estrada conduzia agora para baixo, estendendo-se através das rochas da colina. Ao pé da encosta, as águas apresentavam-se com folhas de ouro. Continuaram a avançar enquanto o sol ia descendo no horizonte. Radamanthys pode ver os pastos dos verões anteriores completamente encharcados e mais além, os juncos que margeavam o rio.

A água mais profunda era escura e carregada de mistério. Aprendera que os pântanos eram guardados por espíritos, onde os elementos eram tão confusos e misturados, que não se podia saber com exatidão onde a terra terminava e a água começava.

A medida em que a tarde separava-se da noite, Uma bruma começou a fazer-se presente. Coelius, seguido atentamente pelo seu pequeno companheiro, avançava lentamente, deixando que os animais escolhessem o local por onde deviam passar.

Desde que nascera que Radamanthys montava cavalos, mas aquela jornada, a última etapa antes de embarcar em direção ao norte, lhe estava causando surdas dores nas pernas, mas não reclamava.

Saíram da cobertura vegetal e de repente Coelius apontou numa determinada direção. Além do emaranhado de pântanos e árvores retorcidas, elevava-se uma colina e tendo no sangue o poder que emanava dos descendentes da ilha mágica, Avalon, que teria desaparecido nas brumas, Radamanthys sabia que estava contemplando o círculo de pedras, conhecido por Anel.

- Stonehenge... – murmurou Coelius com os olhos embaciados

O aglomerado de cabanas cônicas ao sopé da montanha pertencia a uma pequena comunidade cristã. Nessa época, essa doutrina começava a espalhar-se pelas terras dos druidas.

- E lá está a aldeia do povo do lago...

Anunciou o guia, apontando para as colunas de fumaça que se elevavam além dos salgueiros. Radamanthys excitou o cavalo e avançou impacientemente.

- Nós temos barca, mas atravessar a esta hora poderia ser perigoso!

As palavras do chefe eram respeitosas, mas na sua atitude havia pouco deferência

- Ele partirá ao amanhecer! – respondeu Coelius – Enfrentamos uma longa viagem! Deixemos que o príncipe descanse por esta noite, antes de ir ao encontro de seu destino!

Radamanthys o fitou agradecido. Estava ansioso para chegar a Bretanha do Norte, mas agora que a viagem terminara, percebia com tristeza que teria de deixar sua terra durante anos a fio.

O povo do lago lhes deram as boas vindas em uma das casas redondas, assentada acima do pântano. Um barco raso estava amarrado ao lado da moradia e a palha do teto, uivava a passagem do vento.

Os aldeões eram pessoas de compleições trigueiras e delicadas, com cabelos e olhos castanhos. Aos 10 anos, Radamanthys já era quase tão alto quanto um jovem de 15 ou 16 anos e possuía cabelos e olhos claros. Observou-os com curiosidade.

Coelius e Radamanthys comeram guisado de peixe acompanhado de cerveja diluída em água. Um bolo de aveia, assado sobre pedra, também foi muito bem vindo. Depois de comerem a refeição simples, ficaram sentados juntos ao fogo, com os corpos cansados para se moverem, mas o espírito completamente desperto.

- Coelius, quando montar sua escola de filosofia, vai lembrar-se de mim?

- Como poderia esquecer o pequeno que eduquei como meu filho! Quando eu estiver duelando para enfiar hexâmetros gregos nas cabeças de meia dúzia de obtusos meninos, eu lembrarei de você! Você será um verdadeiro Apolo!

As feições exaustas do corpulento homem franziram num sorriso.

- Nesta aldeia chama-se Belenos! – consertou o menino

- Eu me referia ao deus grego, mas é tudo a mesma coisa!

- Acredita que nossos deuses sejam iguais aos deuses gregos?

Coelius levantou uma sobrancelha.

- Um único sol brilha aqui e na Grécia!

Radamanthys franziu as sobrancelhas. Coelius lhe havia dito que um certo filósofo chamado Platão, havia escrito que a idéia por trás das coisas são sempre as mesmas. Na época, sua cabecinha de 7 anos, lutara para entender estas palavras.

Mas ele pôde notar que a todo lugar que chegava tinha seu espírito próprio, tão diferentes quanto as almas humanas. Esta parte da Bretanha onde se encontrava, conhecida por Terra de verão, com seus bosques e lagos, parecia um mundo distante do de onde viera, embora ficasse a apenas 3 dias de jornada. Como os deuses poderiam ser os mesmos?

- E se eu não for aceito? – indagou Radamanthys

- A pessoa virtuosa não precisa da aprovação de ninguém! Haverá quem não queira que você suba ao trono, mas também haverá quem lhe seja fiel! Busque as pessoas que necessitarão de você e elas lhe retribuirão a graça!

Embora o tom de Coelius fosse animador, Radamanthys engoliu em seco, era um príncipe pagão, mas um dia seria também um guerreiro e rei de toda Bretanha.

o.O.o

Radamanthys despertou de um sonho com muita água piscando sob a luz do sol. Ele havia estado no que parecia ser uma clareira, deslizando silenciosamente em meio as brumas, até que elas se fenderam para revelar uma bela mulher, pálida, de longos cabelos negros. Mas em seguida a cena havia mudado, e ele estava numa galé que se aproximava de terras intermináveis, pantanosas e enevoadas.

Muitas vezes ele havia sonhado com coisas que se realizara, e ao abrir os olhos naquela manhã, perguntara se esse seria algum presságio. Levantou-se e relanceando os olhos pelo local onde havia dormido, viu, próximo a lareira, a figura de um homem que jamais vira. O desconhecido voltou-se para ele e Radamanthys pôde ver que ele possuía uma estranha figura tatuada em seu punho.

- Este é Suon – disse Coelius, batendo de leve no ombro infantil – Ele chegou exatamente ao amanhecer!

- Este é o príncipe? – perguntou o visitante

- O filho do Rei Uther de Camulodunum! – respondeu Coelius – Sua mãe, segundo falam, era de Avalon!

- Ele ainda parece jovem para se iniciar!

Coelius sorriu.

- O rei decidi quando o jovem deve iniciar-se! Além do mais, ele sabe ler e escrever em grego e em latim, também!

Suon não se mostrou muito impressionado. Radamanthys ergueu o queixo e encarou o olhar enigmático do desconhecido. Em seguida, Suon inclinou a cabeça, reverenciando-o. Pela primeira vez, ele dirigiu-se diretamente ao menino:

- É desejo seu ou do seu pai que você para a Escócia?

Radamanthys sentiu-se gelar, mas normalizou-se quando as palavras saíram com firmeza:

- Eu quero ir para o norte!

- Deixe-o comer algo e então estaremos prontos para a viagem! – disse Coelius

- Você não, só o rapaz! È proibido um estrangeiro ir as terras do norte sem ser convidado! – respondeu ríspido Suon, saindo em seguida.

Radamanthys levantou-se.

- Jamais esquecerei o que fez por mim!

o.O.o

Radamanthys apertava os dedos na amurada enquanto o barqueiro, seguido por Suon, arrumava a embarcação. Durante a noite a bruma havia ficado mais pesada, de modo que o ambiente era mais sentido que visto. O menino sentiu-se subjugado pelo impetuoso desígnio do rio e foi com expectativa que chegou a face oposta.

Durante a viagem, que se estendera por dois longos dias, Radamanthys pôde observar a profundidade, o que parecia estranho, pois as varas utilizadas pelo barqueiro pareciam tocar a terra e ele podia ver os juncos balançando abaixo da linha d'água.

Radamanthys fitou com curiosidade o homem sentado ao seu lado. Tão concentrado que mais parecia uma estátua. Para ser guerreiro, era preciso separar-se do sentimento humano e ele já havia aprendido isso. Em seguida, quando um véu de bruma soprou mais forte, acomodou-se no banco.

A névoa ficava cada vez mais espessa, estendendo-se em densas meadas, como se não só a terra, mas também o ar estivesse se dissolvendo no útero do mundo. Radamanthys respirou fundo, ficando irrequieto com a demora.

A essa altura já haviam adentrado nas costas da Escócia e o barqueiro estava remando devagar. A medida que o barco avançava, Radamanthys, pela primeira vez, sentiu uma pontada de nervosismo.

A barca flutuava silenciosamente, com as últimas ondulações alargadas por sua passagem. O rapaz sentiu uma pressão nos ouvidos e balançou a cabeça para aliviá-la. Então, por fim, Suon levantou-se, dando ordens ao velho que conduzia a embarcação num dialeto desconhecido para o jovem príncipe.

Ao aproximarem-se da margem, as brumas desvaneceram-se e Radamanthys pôde avistar as belas planícies escocesas onde, quando pequeno, correra com seu primo, descendente dos nórdicos.

O amontoado de cabanas de madeira podia ser avistada ao longe. Ele havia visto construções romanas muito maiores, mas não que fossem tão maciças, guarnecidas por colunas afuniladas. Pela primeira vez, desde o início da viagem, Suon dirigiu-se ao rapazinho.

- Bem vindo as terras altas!

- Olhe, é o filho de Uther! – os cochichos espalhavam-se

- Não pode ser! Ele é muito alto para uma criança de 10 anos!

- Puxou bem a raça bretã! – dizia outro

- Isto não o favorecerá diante do rei Siegmund! – foi a resposta de um outro

Era difícil fingir não ouvir, ainda mais caminhar com o porte altivo de um príncipe. Radamanthys não pode deixar de colher alguma impressões do ambiente. As casas construídas com pedras e cobertas de barro e círculos de pedras sustentando o teto. Através de um buraco aberto no centro, entrava uma réstia de luz solar.

O salão para onde fora encaminhado, afim de ser recebido por seu tio, era redonda e todos os guerreiros da recigãoa estavam ali. Alguns homens traziam os cabelos em tranças e símbolos pagãos, assim como ele também possuía, no corpo.

"Ignore-os" – pensou Radamanthys consigo – "Vai conviver com eles e vai freqüentar este salão diversas vezes"

Enquanto os homens afastavam-se para o lado, dando-lhe passagem e inclinando-se, pôde ver seu tio e seu primo a distância, esperando-o. O murmúrio cessou quando o rei Siegmund ergueu a mão. Todos os olhos estavam sobre ele.

Aproximando-se, Radamanthys pode ver o rosto do rei, que há muitos anos não via. Seu cabelo, que antes fora loiro, estava salpicado de grisalho. O menino deteve-se diante dele. Inclinou-se e voltou a olhá-lo nos olhos. O ar carrancudo de seu tio estava abrandado por um lampejo de divertimento.

- Então... – falou o rei – Você veio para cá. Por que? – a pergunta foi proferida num tom brusco

- Assim vai espantar seu sobrinho! – um homem mais jovem que o rei aproximou-se com intimidade

- Foi uma pergunta simples, Valentine! – continuou o rei - Sinto-me obrigado a fazer esta pergunta! Você procura a instrução de um guerreiro ou apenas um refúgio durante a guerra?

Radamanthys franziu a sobrancelha.

- Foi pela vontade de meu pai que vim, meu tio! Por causa da invasão saxônia! - respondeu de vagar, com firmeza

– Venho para preparar-me para governar a Bretanha!

Se houvesse existido alguma dúvida, aquela viagem teria dissipado. Essa era a magia que Radamanthys sentia existir ali. Naquele momento reconheceu a sua herança.

- Ser um bom rei é o meu desejo mais verdadeiro... – continuou o menino

- Tome cuidado com o que deseja, para não descobrir que de fato ele se realizou! – suspirou o rei – Entretanto você respondeu a minha pergunta e se será o rei só os deuses dirão! – Siegmund encarou o sobrinho com severidade

Houve um murmúrio por parte dos homens ali presentes. Radamanthys continuava a encarar o tio, segurando seu olhar e compreendeu que ele não o queria ali, e assim como esperara que seu irmão fracassasse, também faria de tudo para humilhá-lo.

"Mas eu não fracassarei" – pensou o rapazinho – "Treinarei com mais afinco que qualquer um!"

- Venha! – chamou o rei levantando-se

Radamanthys o seguiu, fitando o seu primo Minos, na mesma idade que a sua, que lhe deu passagem, cumprimentando-o com um aceno. Radamanthys devolveu o acolhimento com um sorriso. Neste momento o rei voltou-se:

- Deseja zombar de nós? – havia um tom subjacente em sua voz

- Não, meu tio! – o menino respondeu sem entender

- Os homens estão esperando, vá cumprimentar seus companheiros! – disse o rei

Radamanthys aproximou-se do grupo de guerreiros, acenando para cada um. No meio deles havia um garoto mais ou menos de sua idade também, com certeza seria se companheiro nos treinos, assim como seu primo.

- Este é Aiacos! – exclamou o rei

- O melhor aluno que um mestre pode querer! – o seu tom era de sarcasmo

Radamanthys e Aiacos entreolharam-se.

- Seja bem-vindo a Escócia! – disse o garoto com feições orientais.

- Obrigado!

Pelo menos alguém ali estava contente com sua chegada. Enquanto percorria a fileira de homens, alguns sorriam com sinceridade para ele e outros até tinham uma palavra de elogio. Os aprendizes o receberam com admiração, como se desde o começo ele pretendesse desafiar o rei.

Alguns, percebeu Radamanthys, com certeza haviam vindo de outras terras. Uns tinham o tom rosado dos nórdicos, outros o moreno dos latinos e a maioria trazia as feições bronzeadas dos bretãos. Só dois ou três se apreciam com os temidos germanos. Seu primo Minos era quase tão alto quanto ele, embora seu cabelo fosse mais claro.

Em seguida, a formalidade da saudação estava encerrada e a fileira solene havia se transformado num grupo de homens festivos tagarelando e bebendo. Mulheres entraram no recinto, despejando sobre a turba masculina seus encantos. Radamanthys percebeu que aqueles festejos também eram para ele, ao ver os outros garotos com muita intimidade com as concubinas.

O rei, que também bebia vinho, o observava e Radamanthys suspirou, tendo a certeza que, se antes se tio antipatizava com ele, agora o detestava, por ter conseguido um bom acolhimento por parte de sua corte. Radamanthys havia crescido entre os nobres e sabia que nenhum rei admitia ser ridicularizado em sua própria casa.

o.O.o Continua... o.O.o