Seu corpo flutuava suavemente, sem peso ao encostar na água gelada; ele permanecia com os olhos fechados, embora conseguisse sentir como era o lugar em que se encontrava. Então, pestanejou algumas vezes e deixou a luz azulada que o cercava inundar sua retina. Estava em um lago boiando. À sua volta, a água parecia não ter fim e o silêncio engolia aquele lugar no meio do nada. E ele estava ali. Sozinho. Completamente sozinho.

De repente, a sensação de felicidade foi desaparecendo e dando lugar à angústia. Uma angústia pesada e sufocante, que fez com que seu corpo perdesse a fluidez em meio à água e começasse a afundar. O imenso céu brilhante e azulado que pairava sobre ele ficou turvo sob as águas conforme descia deliberadamente; tentou puxar ar para os pulmões, mas ele não veio. Sentiu vontade de tossir. Queria poder nadar, emergir daquela água e voltar à felicidade e tranquilidade, mas aqueles eram sentimentos que agora pareciam nunca ter existido.

Estava sozinho. E estava se afogando.

Iria morrer. Não havia mais ar algum fazendo seu pulmão bombear com vida. Estava acabando...

E então, ele sentiu uma pressão quente no braço direito forçando-o a subir. A consciência que ainda sobrava nele o fez olhar para baixo e se deparar, incrédulo, com a mão branca - porém, em contraste com a sua, mais morena - e masculina que o segurava. Uma sensação boa se espalhou pelo o seu corpo e a última coisa que sentiu foi o ar frio que golpeou seu rosto ao emergir da água e puxou uma lufada deliciosa de oxigênio para os pulmões.

Sentiu o peso de um corpo pequeno movendo-se ao seu lado e abriu os olhos, a visão enturvando conforme se acostumava ao novo cenário. Seu sonho, de repente, parecia algo muito distante e sem qualquer sentido agora. Encontrava-se novamente em seu quarto, envolto nos lençóis de sua cama de dossel e com uma criança abraçando-o ao seu lado. A mecha platinada fez com que reconhecesse imediatamente quem era e, com um sorriso triste, ele deixou que seus braços envolvessem a garotinha.

- Oi, meu amor - ele disse, suavemente. - dormiu bem?

- Não - respondeu Hara, a voz embargada como se tivesse acabado de chorar. - tive um pesadelo com a mamãe. Odiei a mamãe naquele caixão, papai. Ela estava tão estranha e...

- Foi só um sonho ruim, Hara - replicou Draco, passando a mão carinhosamente no cocuruto da menina. -, e eu também não gostei da sua mãe naquele caixão. Sabe por quê? Porque não era mais a sua mãe. O espírito dela não estava mais naquele corpo, como uma roupa que você tira. A roupa não é você. Você estava apenas usando-a. Assim era o corpo da mamãe. E ela agora está em algum lugar, feliz, esperando o dia que a veremos de novo.

A garotinha apertou mais os braços em volta do pai e seu corpo começou a tremer; prevendo o início de um torrencial de lágrimas, Malfoy ergueu o rosto da garota e beijou sua testa, acariciando o lóbulo de sua orelha.

- Eu também estou triste. - disse, com um fio de voz fraca. - Mas ainda temos um ao outro. E isso agora vai bastar.

Alguém bateu à porta do seu quarto e ele murmurou brevemente para que a governanta entrasse. Uma mulher beirando a terceira idade, com cabelos brancos alinhados perfeitamente em um coque rígido no topo de sua cabeça, a pele cheia de vincos profundos e olhos muito azuis postou-se defronte à sua cama.

- Há um homem querendo falar com o senhor - disse ela, juntando as mãos em frente ao corpo, em posição submissa. -, eu insisti que não era uma boa hora, mas ele disse que é urgente. Seu nome é Harry Potter.

*-*

Minutos antes...

Harry estacionou em uma vaga vazia no meio de dois veículos conversíveis e continuou com as mãos paradas sobre o volante, estagnado. Ele então percebeu que elas tinham adquirido toneladas e que não conseguiria sair dali. Os olhos moveram nas órbitas, girando para perscrutar o espelho retrovisor. O reflexo de um adulto ansioso e um tanto amedrontado o encarou. Com muito esforço, conseguiu erguer as mãos do volante e pousou-as nas pernas. Ok, o que fazer em seguida?

Tirou a chave da ignição, desligando o carro e virou-se para olhar a casa branca e estreita do outro lado da rua. O endereço estava certo: 221B, Baker Street. Não sabia quando Draco mudara-se para ali e nem por que trocara a mansão dos Malfoy por uma casa tão comum e de subúrbio londrino. Havia quatro janelas retangulares expostas de frente para a rua e Harry pegou-se olhando ansiosamente por entre os caixilhos, procurando pelo rosto alvo e quadrado de Malfoy.

Respirando fundo, ele abriu a porta do carro e pulou para fora, caminhando a passos largos em direção a casa e enchendo-se de coragem. Ele era um grifinório e precisava ignorar aquelas borboletas que insistiam em bater suas asas dentro de seu estômago.