Capítulo II: "Quarta-feira – 19 de Dezembro"
Quando ele desceu para o café, a mesa já estava mais cheia de pessoas do que de costume. Deu um bom dia sonolento para todos, sem prestar atenção em quem eram os recém chegados. Antes que pudesse sentar-se, porém, a mulher alta de cabelos grisalhos levantou de seu lugar e foi até ele, envolvendo-o num afetuoso abraço.
- Oh, querido Milo! Como você está grande! E tão bonito. - afastou-se dele e segurou-o pelo queixo, olhando-o de cima a baixo. - Como essas crianças crescem rápido! Veja querida, seu primo não está uma graça? - olhou para a filha, que estava sentada próxima a uma das pontas da mesa. Era uma jovem já casada, porém ainda sem filhos.
Milo ficou com um sorrisinho falso estampado no rosto. Deu graças a Deus quando a tia se desvencilhou dele e deixou-o sentar-se. Estava faminto.
- Que tal um passeio comigo mais tarde? - perguntou a tia para ele, enquanto tomavam café.
Milo sabia que sairia favorecido se aceitasse. Provavelmente ela deixaria que ele escolhesse o presente que quisesse. Era uma proposta irrecusável.
- Claro tia, será um prazer.
O dia prometia ser muito bom.
ooOoo
Durante a manhã, Camus ficou limpando a entrada da casa que fora coberta pela neve. A saúde de sua mãe ficara muito debilitada após a morte do marido e mesmo o retorno para seu país não ajudara tanto quanto gostariam. Ela dependia do filho único para quase tudo, e ele era extremamente devoto a ela.
Ficou imaginando se Saga viria vê-lo. Estava acostumado com a presença dele, ainda que estivesse distante nas últimas semanas. Até estranhara o jeito como ele agira na tarde anterior. Talvez tudo voltasse ao normal. Camus não entendia porquê o retorno do irmão de Saga o deixava tão apreensivo. Havia algo que ele estava escondendo, mas Camus não ia pressioná-lo. Era reservado, sempre fora e por isso, respeitava demais o espaço dos outros.
Decidiu que se ele não aparecesse ou ligasse, à tarde iria comprar o presente dele. Ainda não tinha idéia do que seria, mas teria de decidir. Já estava em cima da hora.
Poderia não ser Natal. Poderia não existir datas como aquela. Para Camus, não faria diferença. Não mais.
ooOoo
O alvoroço que se formou na casa denunciou a chegada dele.
Saga respirou fundo e passou a mão pelos cabelos antes de sair do quarto. Tinha de ir ver Camus, mas não estava vendo jeito. Bem, ele entenderia.
Chegou na sala e foi tomado de surpresa. A viagem o fizera bem. Bem demais para ser verdade. Os cabelos loiros estavam na altura da cintura e brilhavam tanto quanto os olhos azuis esverdeados. Os pais estavam cercando-o.
- Não acredito que você não cortou esses cabelos! - exclamou a mãe, segurando as longas madeixas.
- Ah, mas você vai cortá-los amanhã mesmo! - disse o pai. - Onde já se viu, um homem do seu tamanho com esses cabelos de mulher?
Pai e filho riram.
- Admita pai, estou mais lindo do que nunca. Puxei à mamãe, claro.
O elogio deixou a mãe encantada. Foi então que ele se deu conta do irmão.
- Ora, ora... vejam quem veio me dar as boas vindas!
Ele não mudara. Saga sentia isso no tom de voz e no jeito com que proferiu aquelas palavras. Continuou parado, olhando-o, sem acreditar no que via e sentia. O irmão lançou-se contra ele, num apertado abraço.
- Senti tanto sua falta, maninho. - sussurrou, tão próximo ao ouvido de Saga quanto pôde. - Você também sentiu a minha, não sentiu?
Ele não conseguia responder. Como seus pais não viam? Estavam entretidos, comentando como a Alemanha havia feito bem ao filho! Que ele houvesse continuado lá então! Saga não fora junto apenas para não ficar perto dele. Achara que a distância ia mudar as coisas.
- Certo, não precisa dizer. Eu sei que você sentiu.
O abraço em que fora envolvido era firme e mantinha o corpo de ambos mais próximos que o necessário. Saga sentiu com um estremecimento a língua ousada de seu irmão deslizar num movimento rápido por sua orelha. Empurrou-o imediatamente.
- Kanon! Que bom que veio para o Natal. - disse, sem muito ânimo, apenas para que os pais ouvissem. - Mamãe, preciso sair.
- Ah, hoje não meu amor! Seu irmão acaba de chegar e você vai sair? Aposto que é para ver aquele seu amiguinho francês. - fez uma careta de reprovação. - Não e não! Ajude seu irmão a levar as coisas dele para o quarto.
- Claro, mamãe.
Não queria arrumar confusão com os pais justamente naquela época. Resignado, pegou uma das malas de Kanon.
- Vamos, Kan. Ainda lembra onde é o quarto, não?
- Como eu poderia esquecer? - retrucou com aquela voz insinuante.
Saga não respondeu. A idéia de que as coisas mudariam o preocupava. Mais do que isso, a idéia de que tudo voltaria a ser como antes o fazia temer.
ooOoo
A temperatura ainda não alcançara os graus positivos, mas subira um pouco. Talvez nem nevasse naquele dia, o que deixaria satisfeitas as pessoas que haviam tirado a neve dos portões de suas casas.
Milo e sua tia vestiam quentes casacos e grossas calças. Ela era uma mulher elegante e isso se realçava com a discreta maquiagem e o casaco bege de tecido que lembrava camurça que ela vestia. Caminhavam pelo centro da cidade, observando as vitrines enfeitadas com artigos de Natal. Já estavam andando há um bom tempo, mas Milo ainda não se decidira a respeito de seu presente.
Entraram em uma galeria e estavam andando pelos corredores dela quando Milo avistou a última pessoa que gostaria de ter visto. Agora aquele ruivo estaria em todo lugar? Vendo que ele observava a vitrine de uma loja de instrumentos musicais, Milo puxou a tia pela mão e parou em frente a vitrine, bem ao lado de Camus.
- Esta, titia! É uma guitarra assim que eu quero! - olhou de canto para Camus e sorriu, com ar de superioridade.
- Claro, meu bem! Tem certeza?
- Sim, absoluta.
A mulher assentiu e adentrou a loja. Milo voltou-se para o francês.
- Oi! - disse em tom de provocação.
Camus se lembrou de que cogitara a possibilidade de uma trégua com Milo. Até pensara que pudessem ser amigos. Agora a idéia parecia absurda e puramente utópica. Acenou educadamente com a cabeça e se afastou. Por mais que desejasse, não tinha dinheiro suficiente para comprar algo para Saga naquela loja. Só tentara imaginar que pudesse. Agora além de chateado, estava irritado. Aquele loiro lhe tirava a paciência, mesmo que essa fosse muita.
"Por que estou me sentindo mal por tê-lo provocado? Na verdade nem sei por quê ele me perturba!", pensou Milo com um pouco de remorso, ao ver Camus se afastar. Nunca se arrependera por irritá-lo. Talvez fosse porque desta vez, Camus não retrucara com suas belas respostas. Ele parecia triste. Milo havia pego pesado? Detestava se sentir culpado.
Quem sabe pedisse desculpas quando o visse de novo. Isso se até lá o remorso já não houvesse passado.
ooOoo
- Ei, mas que cara é essa, meu adorado maninho? Parece que não está feliz com meu retorno!
- Vai voltar para a Alemanha depois das festas?
Kanon fez uma expressão de indignação diante da pergunta.
- Está tentando fingir que me quer longe? Eu não vou voltar, Saga. Vim para ficar. Meu curso já acabou, você deveria saber.
Saga suspirou. Esperava que quando o gêmeo retornasse, as coisas houvessem mudado. Agora ele estava certo que não.
Kanon subiu na cama e deitou a cabeça no colo do irmão, que estava sentado. Fitou-o com um sorriso maroto.
- Você ainda me quer, não é? Ainda sente desejo por mim. - enfiou a mão por dentro da blusa dele, tocando-lhe o abdômen. - Eu também o desejo. Mais do que antes.
Subiu a mão e deu um leve beliscão em um dos mamilos de Saga, roubando-lhe um gemido. Continuou as carícias, notando com prazer a protuberância que se formava sob sua calça.
- Pode confessar, Saga. É entre eu e você.
ooOoo
Quando Camus retornou do centro da cidade, constatou que Saga não ia aparecer para vê-lo naquele dia. A tarde já estava dando lugar a noite, então talvez ele só viesse no dia seguinte.
Deixou o embrulho com o presente em cima da escrivaninha.
Quanto mais o Natal se aproximava, menos os dias pareciam ser bons. Ainda que estivesse contente por haver encontrado um presente para Saga, não se sentia realmente animado com a época. Sua mãe pretendia fazer um almoço típico no dia 25 e algum prato francês para comerem na véspera. Se o tempo melhorasse, iriam a missa. Do contrário, ela não poderia sair. A friagem lhe faria mal.
Tudo fora tão diferente quando o pai estava vivo. E parecia tão distante agora. Era solitário. E triste.
ooOoo
