"Uma organização criminosa especialista em desmanche de carros roubados foi desarticulada na noite do último sábado com a prisão de sete suspeitos de pertencer ao grupo. Cinco homens e duas mulheres foram encontrados amarrados em uma oficina que funcionava legalmente no setor noroeste da cidade por volta das 20 horas após policiais receberem denúncia anônima. Junto com os suspeitos foram encontradas supostas provas, como vídeos, documentos, e os próprios carros roubados. Pelas características do caso, a polícia atribui a ação aos Vigilantes, o grupo de renegados de um projeto secreto do governo que..."

A imagem da televisão desapareceu de repente. Kurt Hummel olhou para o lado e viu uma mal-humorada Rachel Berry com o controle remoto em mãos. Ela resmungou e levantou-se do sofá.

"Não quer ver o que Santana e os amigos dela aprontaram desta vez?" – Kurt provocou.

"Não!" – foi até a pia do espaço em que ficava a cozinha e começou a lavar o liquidificador que usara minutos antes para bater a vitamina de frutas para o café da manhã.

"Por quê?"

"Apenas não quero."

Sentia-se frustrada por ser deixada de fora. Definitivamente o objetivo dela não era vestir uma máscara e sair pulando de prédio em prédio, como Santana fazia quase que diariamente, ou se envolver nas grandes investigações. Queria simplesmente ser incluída. Em outras palavras: saber tudo que se passa entre os Vigilantes. Por mais que conhecesse o grupo, freqüentasse a cabana, e treinasse para domar os poderes, a parte heróica era mantida em segredo. Sabia que Santana e Matt eram os principais responsáveis pelo trabalho pesado, que Artie e Mercedes (que nem tinha poderes) se ocupavam com as principais investigações. Até mesmo Quinn tinha o seu papel ao ser uma espécie de ponte de comunicação. Rachel nunca entendeu como isso funciona, mas ela sabia que Quinn também não era especialista alguma em tecnologia, ainda assim, era parte ativa do grupo. Pensava que até mesmo Beth sabia mais.

"Problemas no paraíso?" – Kurt insistiu – "Algo que tenha acontecido naquele dia em que você voltou ensopada para casa após fazer a sua sessão semanal de tai chi?" – tomou um gole de café. O tom era de relativo ciúmes. Não tinha problemas em dividir o tempo livre da melhor amiga com outra pessoa, ou pessoas, mas Rachel costumava contar-lhe tudo. Não mais depois que descobriu ter poderes e começou a se envolver com Santana, que ele sabia ser parte ativa dos Vigilantes. Rachel passou a ser evasiva e superficial ao contar sobre as manhãs de sábado que as duas passavam juntas supostamente fazendo tai chi.

O que Kurt sabia: que a melhor amiga era uma pessoa especial com poderes sobrenaturais que se manifestaram tardiamente, em teoria por causa do trauma que sofreu com o estupro quase-consumado. Pelo menos foi o que Santana disse no dia em que ela se dispôs visitar Kurt semanas depois do incidente da explosão do apartamento. Sim, ela era a vigilante que ganhou notoriedade no Youtube ao segurar uma caminhonete que estava prestes a despencar de uma ponte, algo que impressionou muito ao jovem rapaz. Presumidamente, Santana buscava Rachel quase todo sábado de manhã para fazer tai chi num parque, mas não era permitido a ele acompanhar ou saber o que se passava nas tais aulas. O que era verdade. Antes de treinar ou interagir com os demais integrantes do grupo, Rachel e Santana faziam tai chi juntas e às vezes até tinham companhia de Quinn e Matt.

O que Kurt não sabia: da identidade dos demais vigilantes, para onde Rachel ia quase todos os sábados pela manhã, o que ela realmente fazia por lá.

De qualquer forma, Kurt sabia que era fundamental manter o segredo para garantir a segurança da melhor amiga.

"Vamos acabar nos atrasando hoje" – Rachel mudou de assunto enquanto pegava a massa de panquecas.

"Você vai se atrasar hoje. Eu já estou tomando o meu café, querida."

"Não vai me dar carona?"

Kurt olhou para a expressão de cachorrinho abandonado e fingiu não se importar.

"Não me atrase, Rachel Berry. Hoje é dia de avaliação."

...

Ao contrário de Rachel, as notícias da manhã deixaram Quinn Fabray particularmente satisfeita. Porque foi a própria quem iniciou a investigação dos vigilantes após achar curioso o fato de ela viu num documento que um dos clientes da firma de advocacia Fish, onde passou a trabalhar como secretária, tinha uma renda declarada modesta demais para possuir uma coleção invejável de carros de luxo. O tal cliente era um sócio-fantasma da oficina de desmanche e chefe da quadrilha. As investigações levaram quase dois meses e quando eles conseguiram reunir provas irrefutáveis, Santana e Matt agiram para pegar os integrantes da quadrilha, inclusive o chefe.

Quinn não patrulhava nas ruas. Não fazia o estilo, até porque não era tão boa assim com socos e pontapés. Tão pouco isso lhe atraía. Mas estava ficando boa no papel de central de comunicações, ou watcher, como Artie definiu uma vez. Nos dias de missões coordenadas, ela tinha ouvido muito bom para acompanhar o movimento da polícia pelo rádio e informar os outros vigilantes, era esperta suficiente para auxiliar Artie com o computador pela rapidez em que aprendia a usar os softwares.

"Beth" – alertou a filha assim que desligou a televisão – "escove os dentes que precisamos ir à escola, docinho. Matt já deve estar nos esperando lá embaixo."

A menininha enfiou todo o biscoito na boca antes de correr para o banheiro escovar os dentes. Quinn deixava se higienizar sozinha para criar independência desde cedo. Apenas auxiliava no banho e escovava os dentes da filha à noite antes de dormir para garantir uma limpeza de qualidade. No mais, Quinn deixava a filha à vontade para escolher as próprias roupas, por exemplo, e assim, deixava desenvolver a própria personalidade.

"Beth!" – chamou mais uma vez a filha quando percebeu a demora. Ao entrar no banheiro, foi surpreendida com o espelho desenhado com pasta de dente enquanto a filha estava pendurada na pia. Correu para apanhá-la antes que acontecesse um acidente – "Quantas vezes já lhe disse que não pode subir na pia?" – bronqueou.

"Não gostou do desenho?" – a menina disse chorosa enquanto Quinn se apressou a limpá-la propriamente.

"Você sabe que os desenhos só ficam bonitos nos locais apropriados. O espelho do banheiro não é um deles."

"Mas mamãe..."

"Nada disso, Elizabeth Kohan" – Quinn queria se chutar sempre quando dizia o sobrenome da filha. Odiava o fato de Beth ter o sobrenome do pai em vez do Fabray. Deu alguns tapinhas no bumbum da filha – "Vá colocar um casaco. Matt está nos esperando."

Olhou para o espelho e suspirou por aquela arte ter tempo de vida prolongado. Pelo menos até meados da tarde quando chegava do trabalho e se aprontava rapidamente para as aulas noturnas na faculdade comunitária. Pegou um casaco que estava em cima da cadeira que mantinha dentro do quarto e correu para pegar o elevador junto com Beth. Ali, em cima da mesmíssima cadeira, por de baixo do casaco retirado, estava a máscara negra de vigilante. Assessório que raramente usava, mas que tinha satisfação em possuir.

...

"Se alguém tocar ou esbarrar no meu prédio, eu juro que mato!" – Santana advertiu aos colegas. Tomava café da manhã ao lado da maquete do edifício que desenhou para uma das classes do curso de Arquitetura.

"Onde pretende colocar esse arranha-céu?" – Tina sorriu para os colegas de universidade e tomou um pouco do achocolatado. Ela ainda se considerava amiga próxima de todos eles, apesar da debandada do grupo teatral que levou, inclusive, Rachel Berry, uma dos integrantes originais.

"Por enquanto, na mesa do professor" – Santana disse com a habitual confiança – "Não é exatamente um arranha-céu. É um prédio projetado para ter 32 andares, que considero o tamanho limite ideal de um edifício imponente para que ele não polua tanto assim o visual de uma cidade."

"Poluir?"

"Você tem idéia da quantidade absurda de recursos que um prédio desses de cem andares consome? Sou uma arquiteta, baby, mas tenho obrigação de olhar minhas obras para o lado social."

"Quem diria que Satan pode ser ecologicamente correta?" – Artie gargalhou e olhou para o relógio – "Muito bem, ladies, vou nessa."

Santana não ouviu as notícias do início do dia. Não fazia questão. Deixava tal hábito para Mercedes Jones, afinal, ela era a jornalista do grupo: aquela que era viciada em informações. Sim, Santana desconfiava que a colega era viciada em notícias, daquelas que ficava nervosa quando corria os olhos nos principais sites e não via manchetes novas depois de 15 minutos. Talvez fosse uma síndrome entre as inúmeras que surgiram por causa da rede. De um jeito ou de outro, a vigilante não ligava muito para tais coisas. Mercedes disse o destaque que deram no noticiário sobre a ação mais recente do grupo. Então era isso mesmo. Não ficava alegre ou envaidecida. Não sobre tal trabalho, que para ela era pura obrigação. Vaidade mesmo ela sentia quando fazia um bom projeto. Aí sim gostava de ser elogiada.

Terminou o café da manhã no refeitório e pegou a maquete do edifício.

...

Quinn chegou ao trabalho com o habitual atraso de dez minutos. Nada que comprometesse o ponto uma vez que os advogados em si chegavam sempre uma hora depois do início do expediente. O senhor Fish, sócio majoritário, por exemplo, só aparecia no escritório pela tarde exceto quando tinha um grande caso em andamento. Neste caso, Quinn aprendeu desde a primeira semana, todos precisam madrugar. O que ela não esperava era que a prisão de Bennedick Bronson, o sócio da oficina de desmanche de carros roubados, fosse provocar tanto agito.

"Dra. Powell já chegou?" – perguntou à colega. A advogada a quem ela costumava se reportar, tal como aos assistentes dela, era uma das que só aparecia pouco antes de meio dia. Daí o espanto.

"E não está muito feliz" – Rose, a chefe das secretárias, sussurrou – "Se eu fosse você, agilizava a agenda dela para ontem."

"Sim senhora!" – Quinn fez um gesto como se cumprimentasse um capitão e sentou-se à mesa para trabalhar.

Quinn tratou de se concentrar no serviço. Não estava disposta a ficar além do horário e ter de pedir para Matt tomar conta de Beth no período da tarde quando ele próprio tinha muito que fazer na obra em que trabalhava no momento. Apesar de Matt sempre afirmar que ajuda Quinn a cuidar de Beth de bom grado, e também ser uma pessoa confiável, ele era um homem adulto e não era o pai dela.

Apesar da movimentação, o dia seguia sem grandes crises ou gritarias. Dra. Powell recebeu uma pessoa antes de sair do escritório para se encontrar com clientes, entre eles o próprio réu. Mal imaginava que o maior inimigo estava sentado à mesa na ante-sala do escritório fazendo trabalho de secretária. Muito menos imaginaria que a jovem bonita que ali estava, que estudava três vezes na semana à noite na faculdade comunitária e que chegou em algumas ocasiões a levar a filha ao escritório, era na verdade uma vigilante.

Holly Martinez, por outro lado, conhecia Quinn Fabray. Foi uma surpresa quando a ex-promotora pública entrou no escritório com seus óculos hipsters e sorriu para a secretária, ignorando os olhares desconfiados por ser a esposa do assassino condenado de Grant Fish, o filho do dono daquela firma.

"Ora, ora, há quanto tempo, Quinn" – ficou de frente para a secretária, que levou um susto a princípio, mas procurou recobrar a postura rapidamente.

"Olá Holly. Em que posso ajudá-la?" – estranhou por não ter visto a presença da ex-promotora agendada. As secretárias tinham acesso a planilha da internet com todas as agendas do dia e era ali que poderia verificar.

"Vim falar com uma pessoa e fiquei surpresa em te encontrar por aqui. Só vim te dizer olá."

"Olá!" – forçou um sorriso.

Quinn não estava certa das intenções de Holly Martinez. Não quando o marido dela estava numa ala especial de uma penitenciária que foi reformada especialmente para abrigar pessoas com dons especiais. Martinez era um condenado. Fato. Ele matou Grant Fish e foi uma das pessoas desmascaradas no caso do escândalo do programa secreto com pessoas especiais revelado meses atrás. Pelo que se lembrava das anotações que foram posteriormente destruídas, Martinez nunca revelou a parte em que foi o líder dos vigilantes. Mas Holly era uma mulher inteligente e sabia somar dois mais dois.

"Como vai a pequena Beth?"

"Muito bem. Está espoleta como sempre."

"Fico feliz, Quinn. Foi bom revê-la."

"Se tiver alguma coisa em que possa ajudar..."

"Não tenha o trabalho. Minha passagem aqui será breve."

Não estava mentindo. Quinn ficou de olho na movimentação de Holly e, de fato, ela ficou exatos 10 minutos dentro do escritório do dr. Zappa, um dos sócios minoritários da firma. Então foi embora. Holly não era uma pessoa que o dr. Fish, o dono da firma, gostaria de ver por ali, o que tornava a visita dela ainda mais intrigante.

"Não sabia que a conhecia" – Rose comentou.

"Apenas de vista..." – pela expressão que fazia, Rose não comprou a explicação – "Meu namorado conhecia Martinez. A gente se encontrou em algumas ocasiões, mas eu nunca parei para conversar com ela."

"Claro, como poderia esquecer. Seu namorado testemunhou acusando o marido da senhora Martinez."

"É..."

"Então o alô foi de intimidação?"

"Não sei qual a agenda dela" – Quinn disse frustrada – "E claramente ela não veio aqui para me ver."

Rose acenou. Quinn continuou o trabalho, mas deixou uma nota mental para não esquecer de comentar o ocorrido com os vigilantes. Tinha forte intuição que eles deveriam ficar de olho.

...

"Não sei de é razão para tanto alarde, Ice Q" – Mercedes disse ao telefone – "Já falou com Satan à respeito?"

"Ela disse que vai mandar uma mensagem pro oráculo, mas que não deve ser nada demais. Só que eu te garanto, há alguma coisa errada" – Quinn reclamou do outro lado da linha.

Oráculo era ninguém menos que Edward Hemon. O engenheiro optou por não voltar mais à cidade. Tinha medo. Mas ele continuou a ajudar os vigilantes no monitoramento de informações. Apenas Artie e Santana sabiam como falar com ele por linhas seguras.

"Então você fez o que tinha de fazer, querida. Não tente se envolver tanto. Ainda temos nossas vidas para tocar em frente, ok?"

"Mas..."

"Relaxa. Vá namorar. Brinque com sua filha. Acabamos de fechar algo grande, Ice. Temos direito aos nossos dois dias de folga."

Mercedes desligou o celular e mirou o olhar para o namorado, David, que a aguardava para almoçarem juntos. Passava por um período feliz. Começou a estagiar no principal jornal da cidade na editoria de notícias locais. Não se incomodava em cobrir briga de vizinhos por enquanto porque tinha um plano para conquistar o próprio espaço fazendo o menor número possível de inimigos e rivais, algo que sobrava dentro de uma redação. Para completar, ainda mantinha contato com Sue Sylvester, a jornalista mais conceituada da metrópole. Para completar, ainda fazia parte dos vigilantes. Por tudo isso, pensava que a vida era boa demais.

...

Rachel ainda fazia cara de poucos amigos enquanto sentava na lanchonete em frente à faculdade e comia um sanduíche vegetariano. A questão dos vigilantes não a aborrecia tanto assim. Não àquela altura do dia. Não quando o professor de teatro disse que daria a outra pessoa a chance de protagonizar a próxima produção. Justo a última que Rachel teria a chance de participar antes de se graduar. O curso era de apenas três anos e era tradição que um olheiro da Companhia de Teatro Profissional selecionava um ou dois alunos para fazer audições no grupo. Tratava-se de uma companhia fechada que costumava excursionar com as peças pelo estado, inclusive na metrópole. Era uma chance única e Rachel acreditava que se não conseguisse o papel principal, as chances que tinha em ser chamada seriam menores. Era o caminho mais fácil para um novato entrar na Companhia Profissional. O outro modo era passar pelas audições anuais que eram muito concorridas. Era isso ou ser um ator famoso chamado para brilhar em uma das produções. Teatro amador? A Companhia Profissional não olhava para eles.

"Rachel?"

A estudante olhou para cima e surpreendeu-se com o rosto familiar que não via a pouco mais de um mês.

"Senhor Schue! Que surpresa! O que faz aqui?"

"Estou aqui na redondeza pregando alguns cartazes para a estreia de Tropicália."

"Oh... Kurt mencionou que vocês conseguiram remontar tudo com novas pessoas."

"Posso me sentar?" – Rachel acenou ao antigo mentor, que agradeceu à gentileza – "Então... foi um baque quando metade do elenco saiu por causa daquela votação estúpida para expulsar Santana Lopez. Claro que o baque maior foi quando você saiu. Nunca imaginei..."

"Achei que esse fosse um assunto encerrado entre nós, senhor Schue" – Rachel interrompeu.

Até a metade que restava do sanduíche deixou de ser tão apetitosa devido ao estresse que era voltar sempre ao mesmo assunto toda vez em que cruzava com alguns dos amigos mais antigos, como Puck e Tina. Kurt era o único que parecia ter superado. Mas pudera: os dois moravam juntos e voltar sempre ao mesmo tema seria desgastante para a relação deles.

"Kurt mencionou que os novatos do elenco são menos bélicos do que a turma universitária de antes" – Rachel continuou o assunto, mas de outra maneira.

"Sim, sim... eles são... promissores. Marley é uma boa menina e está fazendo o seu papel com muita raça. Mas nós sabemos, sabe... que ela não é você" – diante do silêncio de Rachel, Schuester pegou um pequeno panfleto e o entregou para a ex-aluna – "Sei que Kurt deve ter te avisado, mas aqui está o dia e a hora da nossa estreia. Seria uma honra, Rachel Berry" – levantou-se da mesa – "Se me dá licença..."

"Senhor Schue" – disse rapidamente antes que ele virasse as costas e fosse embora de vez – "A honra seria minha. Eu estarei lá."

O diretor do teatro amador acenou e foi embora. Rachel olhou para o panfleto e suspirou. Tinha saudades do grupo e, principalmente, do poder que exercia nele. Era um lugar que, não importa como, ela sempre poderia ser a protagonista. A questão era: o teatro amador é um local apropriado para o crescimento? Nem tanto. Desde que começou a participar das montagens da faculdade comunitária que entrou em contato com um esquema mais próximo do profissional. Um bem mais intenso.

Sem mais, terminou o almoço e foi trabalhar. Era auxiliar da professora de música da escola de ensino fundamental e tinha duas turmas de crianças a ensinar a cantar.

...

Artie estava se habituando ao barulho pós-repercussão, como ele mesmo gostava de dizer. Era sempre assim: os vigilantes agiam, mostravam os resultados e nos dias posteriores a cidade entrava em polvorosa. Mesmo com algumas respostas dadas, o desmanche da oficina de carros roubados estava na boca do povo. O chefe da polícia parou, inclusive, para reclamar porque quando os agentes fazem o mesmo, não ganham a mesma atenção no noticiário. Artie tinha nada com isso e gostava da discrição, e esse era um ponto que ele concordava com o ex-chefe, Martinez. Por outro lado, nenhum vigilante ligava para a imprensa para noticiar o feito. Eles simplesmente agiam e deixavam as coisas acontecerem.

"Dizem que a menina que faz parte desses vigilantes é aquela que faz esculturas de gelo para casamentos com uma serra elétrica" – Artie olhou de relance para Tom, o colega de empresa que trabalha no departamento de engenharia mecânica. O sujeito ficou famoso por ser um prodígio que se formou aos 16 anos, montou a própria em presa nesse período, e faliu miseravelmente aos 23 por má administração e afogado em dívidas. Aos 25 começou a trabalhar na empresa para poder pagar o aluguel.

"Você diz isso..."

"Não é o que está lendo?" – o homem apontou para a tela do tablet de Artie.

"Sim. É a notícia do dia."

"Então?"

"Então o quê?"

"Qual a sua teoria?"

"Não tenho opinião formada" – Artie tentou encerrar o assunto. Desligou o computador e se preparou para começar o dia no trabalho.

"Imagine ela de armadura ou roupa de couro, como aquele uniforme maneiros do filme dos X-Men?" – Tom continuou a divagar. Ele, um geek típico, apesar de ser um adulto, ainda apreciava o universo de quadrinhos e super-heróis. Ficou particularmente empolgado com a existência de seres com poderes extra-humanos e daria de tudo para conhecer um deles. Mal sabia que o estagiário com quem conversava era um.

"Não acho que esses vigilantes usariam um uniforme. Tirando aquela da ponte no ano passado, ninguém realmente conseguiu filmar ou fotografar direito mais algum outro. Tem as testemunhas, as aparições e umas fotos borradas. Por isso não acho que eles sejam do tipo que querem mídia e um uniforme bonito."

"Eu faria um uniforme. E talvez alguns equipamentos. Talvez faria como em Kick-Ass."

"Ainda bem que Kick-Ass é ficção. Dá para imaginar a carnificina que seria? E a quantidade absurda de cores berrantes? Imagine o carnaval e os nomes ridículos."

"Não gosta?"

"Essas coisas são legais no gibi e nos filmes, onde ninguém se machuca ou morre de verdade. É onde você pode ver o Homem-Aranha correr com uma baleada e conseguir dar um alto espetacular de um prédio. Não dói e verdade, não incomoda, e ainda é legal de se ver. Mas na vida real, cara, um corte de papel na pele é um incômodo e ninguém consegue andar direito com dor nos rins."

Tom e Artie se encararam. O homem mais velho sabia que o estagiário tinha razão, mas o lado da fantasia era forte. Além disso, a dor dos vigilantes não era sentida no próprio corpo. Não sabia que Santana passou dois dias inteiros sofrendo dores horríveis pelo corpo e sem conseguir se movimentar direito por segurar uma caminhonete. Também não tinha idéia do quanto Artie ficava fadigado com o trabalho de investigação, como ele ficava com os braços doloridos sempre que precisava carregar um vigilante num voo. Assim como Brittany fica exausta toda vez que precisa curar, ou das dores de cabeça que Matt sente quando tenta ir além dos próprios limites. O que Tom diria sobre o que o medo de manifestar os poderes fez na vida de Quinn, ou mesmo que a explosão inicial dos poderes de Rachel, numa manifestação tardia, a traumatizou e fez com que o melhor amigo dela fosse parar na mesa de cirurgia. Isso tudo e mais os dramas particulares de quando cada um entrou na puberdade e ganharam, além de pêlos, espinhas e hormônios malucos, poderes que não compreendiam.

Tom não sabia. Como poderia? Mas se soubesse, será que ele teria outra visão do que é ser um super-herói? Artie forçou um sorriso antes de colocar a mão na roda da cadeira para se deslocar até ao departamento onde trabalhava.

"Artie" – Tom o interrompeu – "Esse assunto quase me fez esquecer sobre o que eu realmente queria falar contigo."

"E o que é?"

"Lembra daquele dia em que você me disse que seria bom se a sua cadeira de rodas tivesse direção hidráulica por causa do peso dela e tudo mais?"

"Sim..." – Artie lembrava vagamente do diálogo.

"Eu trabalhei num projeto na minha casa e queria saber se você toparia dar uma passada lá depois do expediente para dar uma olhada."

"Você montou uma cadeira para mim?"

"Um protótipo."

Artie estava genuinamente surpreso com o colega.

"Claro. Será um prazer."

...

Depois do trabalho, Rachel decidiu ser um pouco impulsiva e foi direto ao pequeno teatro onde o grupo amado ensaiava. Sentou-se nas últimas poltronas e observou rostos amigos e outros novos tocar a peça. No lugar dela estava uma menina alta e magra, com voz bonita, mas sem-graça e pouco talentosa para as artes dramáticas. Recalque? Um conhecido poderia dizer que sim, mas um crítico diria que ela estava certa. Mercedes foi substituída por um transsexual, Blaine foi substituído por um menino de queixo expressivo, Quinn foi substituída por uma loira com voz de chipmunk, Matt por um menino mestiço que fazia passos de balé nos intervalos e Tina assumiu o papel que era de Santana.

A peça estrearia naquele fim de semana e Rachel tinha emoções divididas. Por um lado, era lamentável a queda da qualidade com a inclusão dos novos atores. Além disso, vendo a peça do lado de fora pela primeira vez, percebeu no quanto ela era ruim, apesar do grande repertório. Por outro lado, havia a saudade e o sentimento do exílio. Era uma das fundadoras daquele grupo, mas agora não passava de uma expectadora de luxo.

Rachel deixou as críticas de lado quando se aproximou para cumprimentar os amigos. Fazia um bom tempo que não via Tina e a abraçou calorosamente. Recebeu um abraço mais frio de Puck, o que foi compreensível porque ele ficou ao lado de Finn quando terminaram o namoro. Falando do ex-namorado, Rachel ficou tímida e sorriu sem jeito para o mecânico alto que a encarava com expressão amena. Ele se aproximou e deu um beijo no rosto dela.

"Você está bem, Rach."

"Obrigada. Você também, Finn."

Os dois se encararam. Fazia dois meses que não se viam. Por causa do rompimento do namoro, Finn não aparecia mais no apartamento. Kurt reclamava, inclusive, porque os dois só se viam na casa dos pais em almoços especiais e nos eventos que Burt convocava a família. De qualquer forma, era assim que Kurt transmitia notícias de Finn para Rachel e vice-versa.

"Sentiu saudades dos velhos amigos?" – ele perguntou enquanto as pessoas em volta se afastavam discretamente.

"Pode dizer que sim. Eu esbarrei com o senhor Schue e ele me deu um panfleto. Fico feliz pela peça finalmente estrear."

"Eu também. Foi uma luta."

"Posso imaginar."

Houve um momento de silêncio. Finn encarou a ex-namorada e deu o típico meio sorriso para o lado direito do rosto. Ainda não esqueceu Rachel. Tinha saudades e a amava. Percebeu que o sentimento ainda era forte apesar do afastamento entre eles, apesar de ele ter se envolvido num namoro casual que já findou. Rachel também não estava imune e indiferente à saudade. Havia ainda o amor de quatro anos de relação que dois três meses não conseguiria apagar por completo.

"Seria estranho se eu te convidar a tomar um café?" – Finn perguntou e surpreendeu a ex-namorada.

"Eu não sei..."

"Tem algum compromisso?"

"Não é isso... foi um dia cheio e eu gostaria que ele terminasse bem entediante. Seria uma benção."

"Problemas na escola ou no trabalho? Quer dizer, se for ok perguntar essas coisas."

"Não é problema algum. Eu só não quero falar sobre isso."

"Bom, seja lá o que for, saiba que você é incrível, Rach. Você é capaz de fazer qualquer coisa."

Rachel encarou o ex-namorado e acenou. As palavras dele entraram forte e ela foi para casa acompanhada de Kurt com aquele incentivo ressonando. Ela sabia que era capaz de fazer qualquer coisa. Ela podia ser uma vigilante se quisesse. Estava treinando e sabia que era capaz. Tal como ela sabia que poderia ter uma vaga na Companhia de Teatro Profissional mesmo desempenhando um papel secundário na última montagem. Ela era capaz. Foi dormir confiante.

...

Artie pegou carona com Tom ao final do expediente e os dois foram em direção à residência do gênio falido. Trajeto relativamente curto uma vez que Tom morava a apenas cinco minutos da empresa e costumava ir trabalhar de bicicleta. Mas não naquele dia. Excepcionalmente, decidiu ir de carro devido às fisgadas na coxa conseqüência de uma partida de futebol no fim de semana. A casa era simples, térrea. Tom desceu do carro para abrir o portão e estacionou o carro na garagem que ficava no quintal. Cumprimentou o cachorro, um beagle, e ajudou Artie a descer.

"Não repare a bagunça" – disse gentilmente ao cadeirante – "Sabe como é solteiro."

Artie limitou-se a acenar. O quintal de Tom tinha peças espalhadas num canto. Alguns dos objetos pareciam ser simples sucatas. Mas, de maneira geral, o espaço estava longe de ser um ferro-velho.

"Meu escritório é ali naquele barraquinho. É lá onde está a cadeira."

Artie acenou e acompanhou o colega, apesar da desconfiança. Tom abriu a porta e revelou um lugar simples, com uma bancada que corria por toda a extensão do quarto. E nessa bancada havia um computador e inúmeros aparelhos. A cadeira em questão estava no centro do cômodo. Artie levou um susto. Parecia uma cadeira de rodas comum com um motor debaixo do banco. A impressão era de que movimentá-la devia ser horrivelmente penoso, sem falar da falta de praticidade no transporte.

"É só um protótipo" – Tom disse sem-jeito. Não era uma invenção bonita – "Quer experimentar?"

Ajudou Artie a sair de uma cadeira para outra. O acento era duro, meio desconfortável, mas havia coisas ali que chamaram a atenção de imediato, como uma barra móvel que tinha um painel e um joystick antigo, como um manche. Destravou as rodas e movimentou um pouco para frente e para trás. Surpreendentemente a movimentação era leve. Decidiu girar de um lado para outro, e a cadeira respondia muito bem.

"Que tal estar no gramado?" – Tom sugeriu ansioso.

"Vamos tentar."

Artie caminhou com a cadeira estranha até a saída daquele quartinho e andou pelo gramado no quintal com surpreendentemente desenvoltura. Podia até correr atrás do cachorro, que latia para ele.

"Nem sinto o peso dessa cadeira. Como pode?" – Artie perguntou maravilhado.

"A barra que você movimenta é independente da roda. As duas são ligadas com por uma solda, mas por um sistema semelhante ao da corrente de bicicleta."

"E esse motor?"

"Ah, é a parte mais legal" – Tom sorriu – "Essa é uma cadeira elétrica também. Está vendo esse painel? Ergueu a barra que atravessava o colo de artie como um mecanismo de segurança de uma montanha russa comum – "Na medida em que você anda nessa cadeira, a bateria acumula energia e gera carga para você andar por, mais ou menos, dez minutos."

"Como uma bicicleta elétrica?"

"Exatamente como uma bicicleta elétrica. Você pode controlar a direção e velocidade nesse manche. Eu consegui andar numa velocidade de 15 km/h na subida."

"Tom... isso... isso é fantástico. Eu já vi todo tipo de cadeira: motorizada, de corrida, com pedal, com rodas mais grossas para terrenos irregulares. Mas eu nunca tinha visto uma assim. Ela é horrorosa, mas a idéia é genial."

"A gente pode dar uma pinturinha depois e eu preciso fazer alguns pequenos ajustes. Talvez trocar esse banco. Então ela será toda sua."

"Sério?"

"Eu prometi que faria uma cadeira para você, Artie. E realmente quis dizer isso."

"Nem sei como agradecer, Tom. De verdade. Isso é incrível!"

"Obrigado. Legal que você gostou. Está afim de um sanduíche? Garanto que a cozinha daqui de casa é muito mais limpinha do que aquele quarto de trecarias."

"Claro."

Artie decidiu acompanhar o colega no protótipo da cadeira. A casa principal era simples e pequena, mas arrumada se considerar que um sujeito solteiro a ocupava. Tom pegou uma bandeja de queijo e presunto e também o pão de forma. Para beber: refrigerante.

"E todas essas coisas? Onde você pega?" – Artie puxou assunto.

"Desmonto algumas peças, reaproveito outras. Tem muita coisa da empresa que pego e aproveito. Coisas que iriam para o lixo, sabe?"

"E todos aqueles aparelhos que estão na bancada?"

"Montei a maioria. Gosto de inventar. Desde moleque. Meus professores fizeram uma avaliação e eu fui considerado superdotado. Daí, entrei na faculdade. Engenharia mecânica e fiz um pouco de elétrica também. Tinha tanta grana em prêmios de jovem cientista e da universidade que decidi montar o meu próprio negócio. Só que eu não sei lidar com capital. Fali bonito. Foi assim que terminei funcionário em vez de ser dono do meu próprio negócio. Simplesmente não nasci para administrar."

Artie conhecia a história. Todos da empresa a recitavam nas costas de Tom. Mesmo assim, ele acenou como se tivesse ouvido aquilo pela primeira vez e ficou pensativo.

"Que tido de aparelhos são aqueles?"

"Coisas que tento criar com o material que tenho em mãos. Tenho protótipo de rádio que dá para se comunicar à distância sem interceptações. Uma luminária que controla a intensidade da luz conforme a luminosidade natural do ambiente. Alguns instrumentos de defesa..."

"Instrumentos de defesa?"

"Oh, nada de armas de fogo ou lâminas se é o que está pensando. Olhe para mim, sou um sujeito de pernas finas. Um dispositivo de choque no celular caso alguém o roube. Trancas, alarmes, coisas assim. O que a minha imaginação guiar eu tento desenvolver."

Artie olhou para o colega com admiração. O pirado, nerd e fracassado que trabalhava na empresa tinha doçura e vontade de criar. E o fazia tudo desde criança. Era incrível. Decidiu que seria bom conhecer um pouco melhor aquele pirado. Talvez pudesse aprender algumas coisas.

...

O dia anterior foi uma tranqüilidade para Santana. E uma raridade. Era um acordo estabelecido entre os vigilantes: sempre que uma grande ação era executada (e noticiado), a regra é se afastar das ruas por alguns dias, a não ser em casos de emergência. O policiamento sempre era reforçado nessas ocasiões e o chefe de polícia ainda tinha a ambição de prender um deles para mostrar à sociedade quem manda na cidade. Sendo assim, Santana relaxou. E deus sabe como precisava após semanas intensas em que precisava se reestruturar emocionalmente após a morte de Grant e se acostumar com o novo papel que desempenhava frente aos vigilantes. E tinha Rachel, que dava muito trabalho.

Santana assistiu às aulas, apresentou trabalho, escutou as teorias de Quinn e, por fim, decidiu desligar o telefone. Estudou, comeu, dormiu. Delícia. Era como estar de férias. Gostou tanto de ser uma pessoa normal por um dia que pensou em repetir a dose. Só pensou. Querer não era necessariamente poder. No fim da manhã, após sair de uma das classes, deparou-se com um corre-corre.

"O que foi?" – perguntou a um colega.

"Parece que houve um acidente no dormitório Schaffer."

Era o prédio que morava a ex-namorada Jenny, que já havia se formado e ido embora da cidade para trabalhar em outro estado. Dos dormitórios, era o mais alto (tinha oito andares) e mais luxuoso. Segurou a alça da mochila para não ficar saltando nas costas dela e correu até lá. A situação era caótica. O prédio estava sendo pintado nas laterais. Aparentemente o andaime arrebentou e deixou os dois operários pendurados. Um estava desacordado, mas seguro no cinto de segurança. Mas o outro se agarrava à cintura do colega e era nisso que dependia a própria vida. Os bombeiros foram chamados, mas aquele homem não agüentaria até lá. Santana contou até dez na esperança de ver um vigilante voador para segurar aquele homem. Nada. Ela decidiu correr ao interior do prédio. Usou as escadas. Deixou a mochila no quarto andar e de lá retirou a máscara que sempre levava consigo. Vestia camisa roxa com estampa do Mickey e a exposição poderia fazer com que ela fosse reconhecida. Tirou a camiseta e ficou só com o sutiã esportivo que vestia. Ainda usava short.

Subiu o restante dos lances de escada até ao telhado. Havia um grupo de pessoas por lá que mais discutiam do que agiam. A vigilante os ignorou. Empurrou alguns deles e foi até à única corda que sustentava aquele andaime. Rezou para tudo dar certo quando começou a puxar a corda para cima, levando consigo o andaime quebrado e os dois homens. A corda era de alpinismo e, independente em ser adequada ou não, o atrito machucava sua mãos. Mas rapidamente ela trouxe o andaime para cima. O pessoal que estava no telhado ajudou a resgatar primeiro o operário que segurava o companheiro, depois o homem desacordado. Só então ouviram as sirenes dos bombeiros se aproximando.

Foi a deixa para a vigilante correr. Voltou para as escadas e desceu apressada. Colocou a mochila nas costas no processo e terminou o trajeto. Optou por sair pela área de serviço, na esperança de ter menos gente, esbarrou em algumas delas e correu para fora do campus. No primeiro bosque que entrou, retirou a máscara e a enfiou na mochila. Então vestiu novamente a camiseta roxa. Estava suando e com a boca seca. Atuar à noite era outra história. Ela sabia os caminhos, os atalhos, as regras. Fazer uma ação de dia e por impulso sempre a apavorava, embora nunca se arrependesse. Era uma vida a ser salva.

Saiu daquele bosque e passou a andar rápido. Andou por algumas ruas até achar seguro parar e sentar numa praça. Olhou para as pessoas que passavam por ali. Estava ansiosa. Pegou o celular e ligou para Mercedes.

"San!" – Mercedes respondeu imediatamente – "Onde está?"

"Numa praça, acho que na rua 32. Devo ficar aqui ou é seguro voltar?"

"Volte para o nosso dormitório."

"Cedes?"

"Sim?"

"Arruma uma pomada para as minhas mãos? Não é que esteja muito ruim, mas agora que o sangue esfriou..."

"Eu vou arrumar alguma coisa."

Santana suspirou e fez o caminho de volta. Mantinha as mãos fechadas, com medo das pessoas verem os pequenos ferimentos causados pela corda. Quando chegou de volta ao campus, tudo parecia virado. As pessoas comentavam sobre o extraordinário aparecimento do vigilante no campus. Alguns alunos ainda maliciavam sobre o belo corpo da heroína. Santana passou reto pelos grupos de estudantes e entrou direto no dormitório onde Mercedes e Artie a esperavam.

"Onde estava?" – perguntou ao colega cadeirante.

"Em sala de aula..." – Artie perguntou confuso com o tom agressivo da líder.

"Ok..." – Santana desviou o olhar feliz que o colega não foi omisso. Não poderia se ele não estava presente no momento da comoção – "Preciso me livrar dessa mochila e dessas roupas. O que é um saco porque adoro essa bota."

"Acho que está sendo paranóica, San. Esse short e essa bota são bem comuns. Teria de ser alguém com olhar clínico para relacionar você com as vestimentas da vigilante. Ao menos você não usou a camiseta roxa, porque aí sim teríamos um problema" – Mercedes observou.

"Certo... certo..."

"O que deu na sua cabeça para fazer isso? Os bombeiros estavam chegando pelo que ouvi dizer..." – Artie perguntou e recebeu novamente o olhar julgador da líder, que o fez silenciar.

"Quem te garante que aquele homem segurando no companheiro iria agüentar por mais tempo? Eu sei que o chefe dizia para evitarmos exposição e vocês sabem que a discrição é importante. Mas os tempos mudaram, ok? A filosofia aqui mudou. Quando vemos uma situação assim em que sabemos que podemos fazer alguma coisa e nos omitimos por pudores idiotas, então erramos. Então perdemos o nosso sentido, nossa razão de ser. Não é só por temos poderes, mas porque é o nosso dever como seres humanos. Será que não entende isso? Ou você é como aquele fotógrafo que preferiu registrar a morte de um mendigo do que tentar salvá-lo? Ou salvar aquele homem era mera obrigação do corpo de bombeiros?"

Artie silenciou e abaixou a cabeça.

"Acho melhor você tomar um banho, San. Está fedendo. Então vamos tratar essas mãos, ok?" – Mercedes ponderou e recebeu um aceno da líder.

Assim que Santana retirou-se para o vestiário feminino do andar. Quando a líder se foi, Mercedes voltou-se para o melhor amigo e o encarou. Artie mentiu. Ele estava em meio à multidão junto com Mercedes e Tina acompanhando o drama quando Santana ainda nem havia aparecido no telhado.

"Bem que você disse que ela iria me cobrar" – o cadeirante lamentou.

"A escolha foi sua, Artie. Ela não entenderia que você amarelou, mas eu respeito" – Mercedes encerrou o assunto.

...

"Você viu o que Santana aprontou hoje?" – Kurt perguntou a Rachel assim que ela colocou os pés em casa.

"Não. O que aconteceu?"

"Ela salvou dois operários de um andaime quebrado num prédio do campus da universidade."

"Sem a máscara?"

"Como vigilante... colocaram o vídeo no Youtube. Não foi tão impressionante como aquele episódio da ponte, mas foi bem legal. As pessoas estão falando bem."

Rachel olhou o vídeo e suspirou. Tinha vontade de fazer coisas assim, ser importante, ganhar uma identidade secreta. Uma pena que os vigilantes não permitiam. Por outro lado, as palavras encorajadoras de Finn perpetuavam na mente dela: que ela seria capaz de fazer qualquer coisa.

Pensou consigo mesma que todos teriam uma surpresa. Rachel Berry, a vigilante, estava para agir.

NO PRÓXIMO EPISÓDIO:

(Rachel centric) – Rachel Berry começa a executar o plano para provar que pode ser uma vigilante melhor do que os demais. Ela vai ser bem-sucedida ou vai trocar os pés pelas mãos?