Au clair de la lune

Por Padfoot


"Car la vie est ailleurs et ton amour subsiste pour un sourire, un songe qui feront qu'il existe."

Apagou a luz e trancou a porta de madeira branca. Suspirou, ainda segurando a maçaneta e coçando a ponte do nariz onde os óculos marcaram. Estava exausta e esperava que, ao trancar todas as preocupações dentro daquele ateliê (as contas, os tecidos por aprovar, os croquis por fazer, as modelos por escolher), jamais precisasse reviver o dia perturbado que a consumira. Mas era tolice: sua primeira coleção estava com a data de estreia marcada.

Encostou a testa na madeira fria, inclinando-se quase que por completo para frente e apoiando seu peso nesse toque. Seu suspiro foi muito mais intenso e profundo que o anterior, externando seu desespero e ansiedade por ter seus sonhos realizados. Tentou se lembrar das comemorações deliciosas com os parentes, amigos e empregados que teve quando recebeu a notícia de que havia conseguido se inserir no mundo da moda, como o planejado durante todos os seus anos de curso.

Um sorriso cansado, porém indubitavelmente feliz, surgiu nos seus lábios já com a marca desgastada do batom que passara ainda pela manhã. Ela tinha escolhido, como vários outros jovens bruxos, viver entre os muggles. Era divertidíssimo vê-los em seu cotidiano monótono, como existia em seu próprio mundo monocromático. Fazer parte de dois mundos, mesmo que seu sangue jamais tivesse se cruzado a este destino, era uma experiência indispensável e maravilhosa, a qual ela jamais deixaria ter. Até porque moda, Victoire descobriu logo que entrou no curso (com a ajuda de alguma mágica para alterar mentes e informações sobre sua escolaridade), era sua verdadeira paixão.

Abriu os olhos anis, afastando-se do ateliê a passos arrastados, espreguiçando-se e apagando as luzes do corredor. Logo chegou às escadas e, ao pegar no corrimão, ouviu o barulho do metal encontrando-se com o ouro de seu dedo anelar. Fitou-o com uma sensação incômoda preenchendo o seu peito e inundando sua garganta de mágoa e dúvida. Seus olhos lacrimejaram e ela teve de suspirar para calar a vontade de chorar que surgira para expurgar a verdade: estava ganhando e perdendo ao mesmo tempo.

Não vira quando seus passos desceram os degraus sem pressa, guiaram-na até o carro (quem diria, tirara a carteira depois de quatro tentativas falhas) e a levaram em segurança até sua casa. Não era muito ostensiva e ficava no limiar entre o trabalho, a casa dos tios Harry e Ginny Potter, e dos tios Ron e Hermione Weasley. Também não se afastava muito da casa dos avós paternos e da tia de seu marido, a qual fora a única a perceber o que acontecia entre o recém-casal Lupin: dois meses e já se comportavam feito dois velhos acostumados com o tédio do trabalho, o qual estava sempre entre eles. E não era assim que as coisas deveriam ser, certo?

Entrou em casa e encontrou tudo apagado. Perguntou-se se estaria sozinha, se seu marido continuava trabalhando no Ministério da Magia (pois eles precisavam se sustentar nos dois mundos, é claro), e, principalmente, se deveria enviar-lhe uma carta via Flu perguntando se voltaria logo. Mas logo tudo se dissipou de sua mente enquanto subia as escadas, pois escutou a música de uma das suas bandas favoritas a convidando a entrar em seu quarto. Coeur de Pirate sempre embalara suas noites de amor com Teddy, isso quando os dois ainda namoravam e ficavam sozinhos na casa de seus pais.

Viu a luz acesa e girou a maçaneta com esperança da noite ser apaixonante. Abriu a porta e seu interior se encheu de amor, paixão e carinho para com aquele seu metamorfomago que trocara os votos e alianças. O sorriso extasiado de prazer estampado à face teve como resposta a respiração profunda de Teddy, adormecido entre os lençóis, ainda vestido com a roupa do trabalho e os sapatos nos pés.

"Car la vie est ailleurs, dans un âge lyrique. Et, seule sans prières, tu renonces et abdiques, car la vie est ailleurs: Dans un âge lyrique. Et tu gardes tes prières pour des pensées magiques."