Disclaimer: Tudo meu. Mas fica a vontade pra usar se quiser.

Categoria: Romance, Yaoi (Slash)

Classificação: Livre

Sinopse: Quando eu realizei que nunca havia sido a principal personagem se qualquer história...resolvi escrever como nasceu uma dessas histórias. Metalinguística

Notas: Escrevi isso a "fuck long time ago" porque minha irmã comentou que todo mundo começa escrevendo sobre si mesmo, e eu já escrevia fazia um tempinho e nunca tinha feito nenhuma história comigo nela. Então é isso, curta, incompleta, mas eu gosto.

Livros, sonhos e folhas em branco

Os travesseiros a induziam ao sono mais profundo enquanto as cobertas faziam questão de manter seus braços e pernas muito aquecidos e muito presos a cama, naquele dia friozinho de primavera. A cama e a garota eram quase um só, amantes noturnos tão apaixonados que quase nada no mundo poderia separa-los.

Exceto, é claro, o maldito despertador avisando que era hora da escola. Com um olho no sonho e outro no inferno da vida real, ela resmungou e virou pro outro lado. Mas se a garota e a cama eram amantes inseparáveis, o aparelho era o filho mais novo, com seus incessante choro de pipipi. Ela ergueu o corpo abruptamente, olhando com raiva para aquela peste eletrônica, desejando mais uma vez poder joga-lo na parede oposta e voltar a dormir. Encarou o 'bicho' por vários minutos, antes de se conformar com a idéia que ele não iria entrar em auto combustão, e então o desligou...calmamente.

Mais tarde a faxineira iria encontrar o mesmo caído atrás do criado mudo, sem pilhas e com um botão faltando.

Somente quando encarou a cara sonolenta no espelho é que lhe ocorreu que realmente sonhara, e no sonho havia algo. Não entenda mal, em todos os sonhos de todos os povos sempre há algo, mas ela, aquela garota, em seus sonhos só procurava idéias. Sim, sempre correndo atrás das idéias, mesmo quando somente o subconsciente cooperava. E naquele sonho havia algo.

Mas infelizmente o 'algo' lhe escapava como a água fria pelos dedos quentes. Conformou-se outra vez, suas musas costumavam ser geniosas e difíceis, e o tempo lhe ensinara a não contraria-las.

Só sentada tediosamente na carteira da escola pode voltar a pensar no assunto, já que mais nada lhe restava a fazer além de ouvir a mais sonolenta das explicações sobre algo envolvendo cátions. O rosto pendia apoiado numa mão, olhando o vazio além do verde-negro do quadro. Olhos vazios e mente cheia. O olhar baixou para a folha em branco do caderno, a mão recomeçou o tique irritante de ficar apertando o botão da caneta preta, um lampejo de segundos a fez lembrar da letra de uma musica. Talvez fosse o sonho.

Sendo ou não sendo, pousou a caneta no papel e deixou que meia dúzia de palavras escorressem para ele, sem muito nexo, sem nenhum compromisso. Leu mentalmente.

"Prostituição, yaoi, um garoto de NY e um médico de intensos olhos azuis. Há irmãos, e mortes, álcool, loucura talvez, temas difíceis. Desafio. Um boné enterrado nos olhos, o vidro negro de um carrão mais negro descendo e revelando algo."

E era só o que tinha. Não gostava de trabalhar a caneta, preferia como toda boa adolescente, as teclas de um PC. E não teria tempo de desenvolver a trama, porque naquele instante a atenção foi desviada por uma coisa boba chamada Química, que quebrou sua mal formada linha de raciocínio.

Não pensou mais nisso até muito depois, quando finalmente pode sentar esparramada em frente a tela branca do computador, sozinha e protegida pela lua que entrava pela janela. Pegou o caderno outra vez, relendo as linhas rabiscadas, recordando das cenas mentais que as haviam originado.

Estava tudo pronto, um arquivo novinho do Microsoft Word aberto, coca cola borbulhando num copo ao lado, rascunho a vista, dedos pousados quase ansiosamente sobre o teclado certos de que a idéia viria logo.

Não veio.

Bebeu um pouco de coca, o líquido negro do capitalismo e que ainda por cima causava celulite e osteoporose, mas que tinha a reputação de atrair musas. Olhou para os lados, ajeitou-se na cadeira, brincou um pouco de passar ar de uma bochecha para outra...

Estalo.

Um começo depressivo surgiu na tela. Ela não tinha idéia de onde aquilo poderia levar, e tampouco isso importava no momento. A única coisa realmente importante era continuar escrevendo. Alguém entrou no quarto sem bater, falou com ela em tom ríspido e monótono, e saiu. Ela não saberia dizer quem havia sido nem qual o conteúdo da frase, embora apostasse que era sua mãe com uma bronca qualquer. Dispensou pensando nisso apenas um segundo, que lhe custou uma súbita falta de palavras.

Suprimindo a falta de palavras por um intenso esforço mental de continuar, logo os dedos corriam numa velocidade dolorida sobre as teclas outra vez.

E novamente foi interrompida, desta vez por uma voz mimada e infantil desejando atenção. Dispensou a dona da voz com meia dúzia de silvados irritados, e voltou a tela, desta vez sem fazer nem uma breve pausa para pensar.

Foi interrompida mais algumas vezes naquela noite, antes que notassem finalmente que ela queria paz e brigaria como selvagem se fosse forçada a largar aquele veio rico de idéias mais uma vez. Os dedos realmente doloridos corriam rápidos, rápidos, rápidos...

E pararam.

Ela suspirou, e olhou no relógio. Duas horas e trinta e sete minutos escrevendo sem parar, e ela sabia que não extrairia mais nada da mente exausta e vazia aquela noite. De fato a exaustão era tão física que ela se sentiu tentada a simplesmente se debruçar sobre as teclas negras e desgastadas e dormir por ali mesmo. Mas algo masoquista em sua mente dolorida a fez ainda salvar o arquivo, lê-lo aos tropeços e considerar que estava horrível e precisava ser lapidado no dia seguinte, para ficar perfeito.

É possível que um dia chegue a perfeição? Não, ela não acreditava nisso. Não era chegar a perfeição que importava, era continuar buscando. A arte, o vício, a delícia perigosa de entregar-se aquela magia tão antiga e incompreendida de criação...havia aquelas perguntas: o que você levaria para uma ilha deserta? Com o que você não consegue viver sem? As respostas, sempre as mesmas, sempre veladamente obcecadas. Livros, papel e caneta. E, para completar seu pequeno e solitário paraíso...talvez um pouco de sonhos.

oOo

É isso ae, pra quem já leu minha Fic Original "Céu de Primavera", talvez reconheça as primeiras idéias escritas naquela folha, a quase um ano agora. No fim a idéia original quase que se perdeu no melodrama de Henri e Gregory, mas o que vale é a intenção. Né? XD