Capítulo 2 – Nova vida.

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-Hermafrodita, você diz?

-Sim, mas... Ouça Nagi, isso não significa que você vai ter de mudar toda sua vida, a maioria dos hermafroditas continua a viver como se nada houvesse acontecido. O que eu quero dizer é que você não precisa mudar todos os seus... Você sabe, hábitos só porque...

-Sensei – eu o interrompi – Qual o meu lado mais desenvolvido? Digo, de qual sexo eu deveria ser?

-Bom, Nagi... Fisicamente, você é uma garota.

GAROTA!?! Reprimi um grito. Eu tinha ordenado a mim mesmo que aceitaria o que quer que o destino me reservasse quando acordei num hospital. Só não esperava... Bem, isso.

-Bem, então é isso.

-Sim. Mas lembre-se Nagi: você não precisa mudar de sexo só porque...

-Eu vou me tornar uma garota.

-HEIN!?!

-Você ouviu, sensei – Me levantei da cama, resoluto – A partir de hoje eu vou ser o filho perfeito, a mulher perfeita. Yamato... Nadeshiko.¹

-Bom... – Ele recolocou os óculos, parecendo cansado – Se essa é a melhor solução que você encontrou...

-Sim, é. – embora me assustasse um pouco, admiti para mim mesmo – Mesmo porque, Okaa-sama sempre quis ter uma filha mulher, a fim de continuar as tradições de família. Eu sou um fardo para ela. E Otoo-sama... Bem, ele sempre pareceu muito ocupado com negócios pra se preocupar com meus assuntos. Então, eu me transformo em garota, e todo mundo fica feliz – Ponto final.

-E você Nagi? Você ficaria feliz!? Sabe o tanto de coisas que terá de abdicar??

-Contanto que Okaa-sama fique feliz... O resto eu posso administrar.

-E o basquete, Nagi? Você gosta tanto...

-Sei disso, mas não se preocupe; o basquete será a única coisa da minha "vida de garoto" da qual não abrirei mão. Mesmo Okaa-sama não gostando disso.

Ele sorriu; um sorriso fraco, como se ainda não concordasse.

-E também... Ser capaz de mudar de sexo para melhorar suas relações familiares, abdicando de todo resto, é uma coisa que só um homem de verdade faria, não acha? – sorri.

-Nagiiiiiii!! – Meu médico favorito começou a chorar.

-Hahaha, não precisa chorar, Umeda-sensei!! Eu vou continuar a te visitar e tudo... Não se preocupe, eu ficarei bem.

-Não é isso, é que – snif – Eu estava tão ansioso pra ver que tipo maravilhoso de homem você ia se tornar, Nagi... Você sabe, eu, eu... buááááá.

Uma curiosidade sobre Haruto Umeda: ele era gay.

-Umeda-sensei... – Bati afetuosamente em seu ombro – Você sabe, eu nunca vou gostar de garotos, então esse seu amor platônico nunca daria certo.

-Nunca vai gostar...? – ele se recuperou rapidamente – Vamos ver se daqui a uma semana você não vai aparecer no meu consultório apaixonado... Apaixonada, por algum garotinho fofinho e pequenininho da sua classe. Só que quando esse dia chegar... Eu já vou ter perdido o interesse em você, porque aí você vai estar todo delicadinho e usando saias. – ele deu um suspiro teatral.

-SENSEI!! – eu o repreendi; mas estava sorrindo – Eu nunca vou ser assim! Não sei de onde tirou essa ideia – corei.

-Veremos, jovem Nagi. Veremos. – ele deu de ombros – Bem, a culpa disso tudo é sua, por não ter nascido mais cedo – ele me mostrou a língua – Nós seríamos tão felizes juntos...

-Umeda-sensei, seu tarado. – nós rimos. Umeda-sensei vivia flertando comigo, desde que eu fizera 13 anos. Mas, apesar de "dar corda" às besteiras dele, nós dos sabíamos que era tudo uma grande brincadeira; ele era muito confiável.

-Bom, mas... E sobre a Amu-chan? – seu tom se tornou sério – Você gosta dela, certo?

-Gosto, mas... – dei de ombros – não é como se eu tivesse alguma chance. Ela gosta de uma outra pessoa também, então... Então é melhor desistir.

-Nagiii! – voz chorosa de novo – Você é uma gracinha, não tenho dúvida.

-Seu bobo.

-Não sou bobo. Agora saia daqui pirralho, antes que meu nariz comece a sangrar. – Ele tentou dizer isso o mais sério possível, mas havia piscado.

-Hai! – respondi com um sorriso, antes de acenar e sair de sua sala.

Minha nova vida começava agora... E eu me esforçaria muito a cada segundo, sem olhar para trás.

* * *

-Amu-chan, não adianta, eu não vou vestir essa saia!!!

-Mas faz parte da sua decisão, Nagi! Como você pretende ir á escola então? Pelada!?!

-Urg, pelada não, né?

-Então...

Um mês havia se passado.

Depois da minha "cena" no colégio – o desmaio dentro do refeitório – tudo aconteceu muito rápido: Meu velho eu, Nagihiko, foi estudar e se tratar no exterior. Sua doença, repentina e misteriosa.

Entra em ação meu novo eu, Nadeshiko, a suposta irmã gêmea que morava nos Estados Unidos com uma tia distante e veio morar no Japão a fim de ocupar o cargo no conselho estudantil que antes fora de seu irmão e para dar seguimento aos costumes da tradicional família Fujisaki.

Mesmo assim, minha "estréia" ainda não havia acontecido. Nesse último mês eu me dediquei inteiramente à minha nova vida de garota: Aprendi a falar e me comportar como uma dama de alta classe, fiz algumas visitas importantes a fim de me "apresentar" à alta sociedade – minha família era muito influente no mundo dos negócios – e o principal; passei a praticar a tradicional dança japonesa, especialidade de nossa família. Okaa-sama estava radiante... Treinávamos todos os dias.

Os únicos que sabiam sobre a minha atual situação além de minha família eram Amuc-chan, Kukai, e...

Bom, Tadase Hotori.

Não me pergunte como ele descobriu. O que chegou ao meu conhecimento foi que, aparentemente, meu médico particular, também era o médico "particular" dele. Ou seja, Umeda-sensei deu com a língua nos dentes.

A Yaya sabia tanto quanto os outros do colégio. Nada contra, mas eu tenho a impressão de que ela estragaria todo o meu plano com aquele jeitinho dela. Então achei melhor lhe omitir certos fatos.

Hoje seria meu primeiro dia no colégio, excitação e medo me dominavam. No entando, eu estava bem resoluto, ops, resoluta quanto a isso: Eu não ia para escola de saia. De jeito nenhum.

-Nagiiii! Você tem que vestir isso se quiser ir pro colégio, sabia?!

-Disso eu sei... – Coloquei minha mão na testa, cansada – Amu-chan, poderia me dar um minuto?

-Claro. – Ela sorriu resignada e saiu do quarto.

Sentei-me na cama.

Sei que escolhi isso, e que esse seria um caminho sem volta; mas eu não sabia como encararia todo mundo. Entendo que, exceto meus amigos próximos e família, ninguém sequer desconfiaria que, dentro da refinada "mulher perfeita" Fujisaki, residia o velho Nagihiko. O Nagihiko "príncipe", quieto e inteligente. Mesmo assim, eu estava nervosa... Não sei bem o motivo, mas só de lembrar que Hotori... Que o Tadase Hotori, o perfeitinho, sabia meu segredo...

Me irritava, me paralisava. Era como se...

-NADESHIKOOOOOO!!!!!!!!!

-Okaa-sama!?! – Levantei em um pulo com o susto.

Minha "adorável" mãe abriu a porta do meu quarto com toda força. Seus olhos brilhavam – mas era de raiva.

Dei um passo para trás.

-Okaa-sama...?

-NADESHIKOO! Diga-me, porque você ainda está em trajes menores faltando só DEZ MINUTOS para as aulas começarem!?!?!

Eu estava apenas de meias, pantufas, camiseta e...

Urg, calcinha.

-Demo, Okaa-samaaaa! A Amu-chan... A Amu-chan quer que eu vista uma SAIA!!!!

-NADESHIKOOO, você é uma GAROTA agora. É ÓBVIO que você tem que vestir uma saia... NADESHIKO!!!

-Okaa-samaaaaaaa!! Mas, mas... Mas eu já estou usando uma calcinha!!!! E tem um ursinho nela, olha! – Virei de costas para ela ver. Aquilo era degradante.

-Tem razão, e é um ursinho fofo e cor-de-ro.... Hm? MAS ISSO NÃO TEM NADA A VER COM A HISTÓRIA, NADESHIKOOO!!!! Você não tinha decidido se tornar uma garota?! Agora tem de aguentar as consequências!!! Não sabe que você sempre...

-... Você sempre colhe o que planta – Repeti com ela, exausta. Meu cabelo –– presonum rabo de cavalo, do jeito que eu passei a usar desde que comecei minha nova vida –– sacudiu junto com minha cabeça, em desaprovação; - Já sei disso, Okaa-sama. A senhora vive repetindo isso, desde que nasci. – Suspirei.

-Já que você sabe disso, está na hora de levar isso a sério. – Seu tom estava calmo agora, porém sério – Não trate filosofias importantes o jeito que você trata coisas de menor valor. Você não decidiu mudar? Mude. Não envergonhe sua preciosa família. Nadeshiko.

-Mas... – resmunguei, por teimosia. Eu já havia entendido o que ela queria dizer.

Engraçado, eu havia dito as mesmas coisas há um mês, à Amu. A vida dá voltas.

-Nada de 'mas'. Você não deveria fazer tanto escândalo ao usar uma saia. E os diversos eventos sociais que fomos? E o quimono que você usa para praticar sua dança? Francamente, Nadeshiko. Você está agindo como uma garota mimada.

-Nagi... Não, Nadeshiko. Se lembra quando você me disse que eu deveria ser mais confiante? Então, agora é a sua vez. Eu não consigo achar forças pra fazer nada direito, não sem você. Vamos passar por isso, mas vamos passar juntas, OK?

-Promete? – Eu estava me segurando para não chorar. Chorar?

O-ou, hormônios femininos (?) em ação.

-Hai, eu prometo.

Sorrimos.

-Certo, agora que tudo foi resolvido... – minha mãe interrompeu – TRATE LOGO DE PÔR ESSA SAIA, MOCINHA, E IR LOGO PRA ESCOLA!!!

-Há-Haaaai! – estremeci, Tratei de engolir o que me restara de orgulho masculino, e colocar aquela maldita saia de uma vez por todas.

* * *

Nada parecia diferente de um mês atrás – nesse tempo que estive fora, Amu-chan sempre me visitava e levava as tarefas. Foi explicada minha 'situação' a alguns professores, então, já estava tudo organizado. Era a hora de Nadeshiko Fujisaki, meu novo eu, mostrar a que veio. Ou quase.

O burburinho a cerca de mim e Amu-chan continuava – com algumas pequenas alterações – mas a isso eu já estava acostumada. A única coisa que me deixou incomodada foi o fato de todo garoto que olhava para mim, corar.

Ugh, só podia ser por causa daquela saia minúscula! Por que eu tinha de usar aquilo mesmo?

Ah é, eu era uma garota.

-Amu-chan, Fujisaki-san.

De todas as pessoas que eu não queria encontrar naquele momento, Tadase Hotori estava no topo da lista.

-Hotori-kun – cumprimentei-o polidamente, como manda a etiqueta. O que eu queria mesmo era dar um soco nele.

Por que, de todas as pessoas, tinha de ser ele que sabia do meu segredo!?! Eu não podia acreditar que o Umeda-sensei havia me traído daquela forma. Tudo bem, aposto que foi pra me auxiliar em minha nova vida, porque a família Hotori era tão influente quanto a minha e assim seria muito mais fácil abafar o caso de que, de fato, meu "irmão gêmeo" não existia e... MENTIRA! Aposto que o umeda-sensei me traiu por causa daquele jeitinho que o filho único dos Hotori possuía: Seu jeitinho meigo, aqueles cabelos loiros tão lisos e aqueles olhos... Aqueles olhos castanho-avermelhados que fazia qualquer garota sair do sério...

O QUE RAIOS EU ESTOU PENSANDO!?!?!

Eu sou um garoto! OK, eu não sou mais um garoto, mas ainda assim!!! Eu quero dizer, eu não deveria estar pensando em como o cabelo do Tadase é bonitinho, nem como os olhos dele parecem me hipnotizar de uma forma esquisita, e não, eu certamente não deveria estar pensando em como o Tadase, O Tadase Hotori, que assistiu minha transformação passo a passo, que me deu os melhores conselhos de como se portar, e que me mandou biscoitinhos feitos pela avó dele aquelas quatro semanas como forma de encorajamento tinha os lábios mais delicados e bei... bei.....

-Fujisaki-san, você está bem? Você parece um pouco pálida...

-KYAAAAAAAAAAAAAA!!! – Gritei. Eu não pensei em mais nada, só mandei minhas pernas correrem o mais rápido possível para minha sala, meu porto eguro. Um lugar onde Tadase Hotori não assombraria meus pensamentos... Nem confundisse minhas convicções.

Convicções? Que convicções?! Eu... Eu sou uma garota agora, certo? É suposto eu gostar de garotos, logo...

NÃO, NÃO E NÃO!! Eu não ia deixar o ção ser meu primeiro amor, de jeito nenhum!!! Eu, Nadeshiko Fujisaki, não permitiria isso!

* * *

-Nadeshiko... Você tá fazendo uma cara muito esquisita.

-A-Amu-chan!?! – Eu estava sentado (erm, sentada) na minha cadeira de sempre, ao lado de Amu. Ela me cumprimentou com um sorriso torto. Congelei.

-Erm, hm... Há quanto tempo você está me observando, Amu-chan?

-Ah, bem – ela colocou a mão no queixo, pensativa – Não faz muito tempo, mas você estava fazendo caretas engraçadas. No que estava pensando?

Tadase Hotori.

-Em como está fazendo calor hoje ~^' – disfarcei.

-Sério? EU acho que hoje o tempo está até bom... De qualquer forma, - ela mudou seu tom de distraído para malicioso. Senti um arrepio – Não parece mais fresquinho aí embaixo quando se está de saia, Na-de-shi-ko?

-AMU-CHAN! – corei como uma garotinha... Erm, eu sou uma garotinha.

-Hahahahaha, brincadeirinha, boba!

-Aposto que é muito mais divertido ter uma garota como melhor amiga – choraminguei.

-Nagii!!! Você sabe que não é verdade...! Eu...

-Shhhh! Eu não sou 'Nagi'. Não estrague tudo, sua doida.

-Gomen, força do hábito – ela sorriu, constrangida.

-Sei... E você sabe que estou com um short por baixo, não provoque. – Sim. Bati o pé, mas pra vir de saia, mas coloquei um short pequeno e preto por baixo, só por precaução.

-Bom – ela deu de ombros – mas ainda está de saias.

-É... Nadeshiko Fujisaki-san?

-Pois não? – Era o Miyazawa-sensei, professor de matemática. Ele não sabia.

-Sinto muito lhe informar, mas sua sala é a turma "B".

-Turma B?

-Exato. Sei que você e a Hinamori devem ser batante amigas, mas queira se dirigir a sua turma para que possamos iniciar as aulas, sim?

Ouvi risadinhas vindo do fundo da sala. Tentei controlar o nervosismo; num momento complicado de minha vida, me separariam de minha melhor amiga.

-Está certo, sensei. Perdoe-me o incômodo. – Fiz uma leve mesura para ele e me virei à Amu-chan:

-Nos vemos no intervalo, Amu-chan – sorri.

-Hai. – acenou. Ela também parecia bastante insegura.

Peguei minhas coisas e tomei meu caminho à Turma B, que não era muito distante. Ouvi alguns assovios ao abrir a porta e me apresentar, mas preferi ignorar.

Já estava nervosa o suficiente.

Porque, se eu e a Amu-chan estávamos numa turma, e só havia mais outras duas...

Bem, havia 50% de chance de ele estar lá. Meu coração saltitou dentro do peito.

-Hajimemashite, eu sou Fujisaki Nadeshiko, irmã gêmea do Nagihiko-kun. Espero me dar bem com vocês.

Os assovios aumentaram, seguido de gritinhos e grande agitação do público masculino. Suspirei.

-Bem, vejamos... – Era o Hikari-sensei, professor de ciências... Ele sabia. Percebi pela olhadela que me deu – Tem um lugar vago bem ali, atrás do Hotori-kun. Poderia, por favor, se sentar? E vocês parem com isso...! – Sua última frase se referia àquele bando de gorilas assanhados. Ainda bem que eu estava com um short por baixo...

Espere um momento, "Hotori-kun"!?! Então eu ia ter de sentar... Bem atrás do Tadase!?!?!?

Eu não podia acreditar... Que tipo de sorte é essa que eu tenho?

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¹ Yamato Nadeshiko é como os japoneses se referem a uma mulher com atributos que são considerados tradicionalmente desejáveis na perspectiva dos homens da sociedade; geralmente atribuído a pessoas com educação tradicional. É um assunto vasto, mas com uma complicada estética japonesa. Acredita-se que o nome originou-se do salgueiro Dianthus ou da flor Nadeshiko.

Fonte: Wikipédia -^^-

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Gentem, muito obrigada pelas reviews!! A Tenshi tá tão flitz que vcs gostaram, é ;-; q eu vou até soltar fogos agora (?) #lie , enfim, muito obrigada, domo arigato gozaimasu, continuem acompanhando! ^_^ adoro os comments de vcs, alem de me divertir, incentivam essa anja preguiçosa a escrever mais e mais XP é isso o/

Até a próxima!! Ja na! : DD