Capítulo 2

Após eu lembrar Jesse de que Paul ainda podia estar no celeiro, ele correu em direção ao prédio em chamas. Vi Jesse avisar os dois homens que libertavam os animais e os três se aproximarem do prédio tanto quanto podiam e chamar por Paul.
Talvez pela minha agitação, por quase ter virado churrasco de mediadora, não percebi imediatamente que Paul havia se deslocado. Não foi isso que ele me disse para fazer ainda dentro do celeiro? Como se eu fosse deixar Jes...
- Tem alguém lá dentro? - A senhora O'Neil interrompeu meus pensamentos.
- Não, - respondi de imediato - não há ninguém vivo, pelo menos. O único que ainda está lá é o corpo de Felix Diego.
- O corpo de Felix Diego? Mas como? Você disse ao senhor de Silva que Paul...
- Eu estava confusa! Eu estou... - e sem maiores explicações a senhora O'Neil me adiantei para onde Jesse e os outros dois homens estavam.
- Se afaste Suzannah - Jesse disse - é perigoso.
- Não adianta Jesse, ele não está mais lá. - Algo em minha expressão o deve ter convencido, pois com um último olhar penetrante na minha direção, Jesse se virou para os dois homens.
- Os senhores ouviram a senhorita. Não há mais ninguém lá dentro. Ninguém exceto o corpo do traficante de escravos Felix Diego.
- Mas o que diabos o corpo de Felix Die... - começou o senhor mais velho, que eu supunha ser o senhor O'Neil, quando Jesse o interrompeu com educação.

- Com licença senhor O'Neil, mas eu e Suzannah já ficamos muito tempo em contato com essa fumaça, e além do mais não há mais nada que possamos fazer. Prometo ao senhor que amanhã bem cedo,antes de ir procurar o xerife, lhe conto tudo o que houve aqui.

E sem esperar a resposta do senhor O'Neil que, reparei, parecia estar muito interessado nas minhas roupas, Jesse se virou e me levou pelo braço para a pensão.

Jesse permaneceu calado por todo o percurso, inclusive quando abriu a porta da pensão e começou a subir as escadas, segurando brandamente o meu braço. Não pude deixar de me perguntar no que ele estava pensando, embora eu saiba que encontrar uma garota vinda do futuro no celeiro da pensão onde estava hospedado, e essa mesma garota lhe alertar que a noiva havia mandado o amante para dar cabo dele, lutar com o dito amante e ter que enfrentar um incêndio eram coisas suficientes para deixar um cara bem pensativo. Mas mesmo tendo passado por todas essas
situaçoes supracitadas Jesse parecia muito bem. É claro que ele tinha um pouco de fuligem pelo corpo e estava um pouco suado, mas não parecia uma pessoa que estivessa a beira de um ataque de nervos, nem que fosse precisar de seus sais ou algo assim. Mas Maria precisaria. Total. E ok, posso parecer uma pessoa vingativa, mas não pude deixar de me sentir bem por Maria ter que sofrer um pouco agora. Imagine a senhorita de Silva ao saber que seu amado Felix Diego havia virado cinzas. Seus planos de dar um fim em Jesse haviam se virado contra ela. E depois de tudo isso duvido muito que Jesse ainda consinta em se casar com ela. Quer dizer, ele não é nenhum maluco nem nada do tipo. Além do mais, agora ele sabe do que ela é capaz.

- Suzannah- havíamos parado em frente ao meu antigo quarto, mas agora que eu havia começado com meu devaneio seria difícil parar. Bem, Jesse provavelmente não se casaria com Maria de Silva, mas teria que se casar com outra mulher. Tinha toda aquela coisa machista de ele ser o último de Silva. E além do mais Jesse era o Jesse. Qualquer garota que pudesse enxergar o peitoril definido, os olhos negros e úmidos, o cabelo, as mãos de Jesse saberia do que eu estou falando.- Eu não sei como você sabia que aquele garoto não estava mais dentro do celeiro, mas você parece saber bem mais sobre as coisas do que eu - ele continuou com um pequeno sorriso. E como meu peito ardia de fúria só de pensar em outra mulher ao lado de Jesse. Meu Deus, meu Deus, como eu vou conseguir viver sem ele? Sinceramente não consigo acreditar que simplesmente vou esquecê-lo quando me deslocar. - Mas eu sei que está cansada então é melhor você ir repousar e amanhã conversamos. Tudo bem? -Jesse me olhava com uma pequena expectativa agora. Céus como eu me sentia desesperada agora que o momento de nunca mais o ver estava se aproximando. Certo, eu queria ficar até a manhã. Na verdade eu ficaria onde Jesse estivesse, fosse aonde fosse.

Certo, eu poderia inventar uma desculpa para minha mãe por não estar em casa amanhã cedo. Poderia desde que isso significasse mais tempo com o Jesse.
E por isso respondi com um pequeno sorriso um tanto tristonho. - Sim, amanhã cedo conversamos.

Ele pareceu notar a minha evidente infelicidade pois perguntou com a expressão nublada como se algo o incomodasse. - Você vai ir embora agora?

-Não,- prometi- vou amanhã, depois que as coisas estiverem mais calmas.

Isso pareceu tranquilizar Jesse um pouco, quando ele deu um passo para trás e com um pequeno sorriso sincero me deu boa noite. - Boa noite Jesse- respondi e depois que entrei no quarto, ao fechar a porta e me recostar nela, senti meu coração mais pesado do que nunca.