CAPÍTULO 2 – "CARTAS NA MESA"

Trilha sonora: "WHEN YOU SAY NOTHING AT ALL", Ronan Keating.

Jack sentia-se num filme em câmera lenta, seu corpo demorando a processar as informações que recebia, e reagir de maneira correta. Zeke e dois homens, tão maltrapilhos e ameaçadores quanto ele, encaravam-no firmemente, sem deixar escapar nenhum detalhe de seus movimentos.

"Pensamos que vocês iriam embora ainda ontem à noite. Vejo que o doutor é insistente..."

Jack sentia a língua grossa dentro da boca, só pensava em Kate ali, adormecida, e o que aconteceria se ela acordasse. No mesmo instante, como que lendo seus pensamentos, ele ouviu a folhagem a seu lado estalar, e com o canto dos olhos percebeu que Kate acordava, logo se pondo em pé, como ele, assim que avistou os três Outros parados a sua frente.

"Jack!" Kate estava aflita e olhava Jack de cima a baixo, procurando por algum sinal de sangue ou um machucado, esperava pelo pior. "O que está acontecendo?" Perguntou sem fôlego; não sabia desde quando eles estavam ali a observá-los e se havia acontecido alguma coisa no tempo em que estivera adomercida.

"O amor não é lindo, meus caros? Adoro essa preocupação, que poderia ter sido evitada se o doutor aqui não insistisse em atravessar a linha". Zeke dava uma risada sarcástica, sem deixar seu olhar se desviar de Jack por um momento.

" 1... 2... 3... 4... 5...". Jack pensou em silêncio.

"Então, Jack? Perdeu a língua? Vai deixar a moça falar por você". Zeke insistia no olhar fixo sobre Jack.

"Não. Você usou a surpresa a seu favor, mas agora eu posso reverter esse jogo". Jack estava calmo, e sabia que usar a força não adiantaria de muito na situação em que estava, na verdade não viera até ali para medir força com Zeke e seus comparsas.

Kate estudava friamente os homens que acompanhavam Zeke, como uma leoa, que observa cada movimento de sua presa. Para qualquer ação que eles tomassem, ela estava preparada. Durante milésimos de segundos, voltou-lhe a mente a noite em que abriram a escotilha com Locke e Hurley. Ela havia feito uma promessa a Jack, que estaria com ele, pro que viesse e neste momento, ela estava mais certa do que nunca de que cumpriria a promessa, em todo e qualquer momento que Jack precisasse.

"Nós temos algo que vocês querem, vocês tem algo que nós queremos. Vim propor uma troca". Jack falava calmamente, avaliando as reações de seus interlocutores. Como da outra vez em que haviam se encontrado apenas Zeke falava:

"Nós escutamos seus gritos Jack, e acabamos por pensar no assunto, de maneira superficial, claro. Não imaginamos que você seria tão persistente".

Jack não se sentiu surpreso com a revelação. Tinha certeza que havia sido observado durante o dia anterior, só não imaginava que os Outros tinham chegado a cogitar seu pedido.

"Então, se sabem porque vim, e que sou insistente, vamos negociar". Jack sentia a adrenalina percorrer seu corpo a toda velocidade, o pânico inicial sendo substituído por uma sensação de calma, até quem sabe, uma ponta de confiança.

"Não tão rápido doutor, não tão rápido. Seu amigo Michael causou estragos na minha comunidade, e isso deve ser reparado antes de negociarmos qualquer coisa".

Estragos? Que tipo de estragos Michael, sozinho, poderia ter causado? A pergunta que inquietava Jack também inquietava Kate, que sentia a vigilância atenta de um dos outros sobre ela. No entanto, sentia-se estranhamente segura. Depois do terror de ver três Outros ali, parados em frente a eles, e o estranhamento por ver Jack paralisado diante deles, desde que ele começara a falar, o medo tinha ido embora.

Surgia de dentro dela uma esperança, não sabia de onde vinha, nem o porque...só sabia que a sensação estava ali, e não parecia ser falsa ou passageira. Se ela estivesse com ele, Jack resolveria, senão tudo, pelo menos boa parte dos problemas...ela ajudaria com o que restasse.

Sua atenção desviou-se de novo para a conversa entre Jack e Zeke. Queria saber o que Michael havia feito, e porque era importante para os outros.

"Seu amigo realmente mostrou-se um pai zeloso, mas imprudente. Matou 3 dos meus, feriu gravemente mais dois, antes de conseguirmos colocá-lo fora de combate". O sorriso no rosto de Zeke não deixava entrever nada de seus pensamentos.

Jack não acreditava.

"Vocês o mataram?"

"Não, doutor, não. Mas ele sofreu as conseqüências de seus atos impensados, e acredito que aprendeu a lição".

A cabeça de Jack rodava num turbilhão de imagens, misturando Michael e "Henry" numa só realidade. Eles também haviam torturado o Outro capturado. Será que haviam se tornado como aqueles a quem odiavam (e temiam ao mesmo tempo)?

"Se vocês já deram a ele uma lição, como você diz, então porque mantê-lo? Ele só foi buscar o filho. Um pai desesperado é capaz de tudo, e Walt nunca entenderia se soubesse que Michael não tivesse tentado buscá-lo. Isso destruiria a relação deles".

Neste momento Jack sentiu que Zeke afrouxava. Seria impressão ou teria visto mesmo aqueles ombros altivos arriarem um pouco, o sorriso se desmanchar no canto da boca? Porque falar da relação entre pai e filho poderia mexer tanto com aquele homem cruel?

Jack resolveu insistir.

"Eu e meu pai não pudemos nos entender durante muitos anos, e quando eu pensei que poderia consertar as coisas entre nós, não havia mais tempo. Não gostaria de ver Michael e Walt passarem pelo mesmo que passei com meu pai. Eu o amava, mas não pude dizer a ele".

Agora já não era sensação, e Kate também percebeu. Zeke parecia preste a explodir ou desmoronar a qualquer momento, bem ali, no meio da floresta.

"Não venha me contar suas histórias paternas Jack, pois elas não me interessam". O momento tinha passado, escapou como grãos de areia entre os dedos, e Zeke era de novo o mesmo que se havia mostrado da outra vez: frio, cruel e extremamente perigoso.

Dando as costas a Kate e Jack, falou simplesmente.

"Estejam aqui hoje, ao pôr-do-sol, com ele. Apenas vocês três, sem armas, sem planos. Trarei os dois e poderemos negociar. Agora, voltem para a praia, as pessoas estão se perguntando onde vocês estão".

E sumiu dentro da floresta, com os outros dois em seu encalço, tão misteriosa e silenciosamente como havia chegado.

Kate e Jack desabaram ao lado das cinzas da fogueira, respirando apressadamente. Estavam atônitos. O que tinha sido aquele encontro? O que havia acabado de acontecer?

"Kate, você está bem?".

"Agora sim, Jack, mas o que foi tudo isso? Será que ele realmente vai negociar conosco?"

Jack não sabia, mas tinha ficado intrigado com duas coisas: porque quando falou de seu pai Zeke tinha se mostrado vulnerável? E como eles sabiam que na praia as pessoas estavam preocupadas com eles?

Tudo era muito estranho, mas não havia tempo a perder. Tinham que chegar a praia, preparar todos no acampamento para um possível ataque dos Outros, caso a negociação fosse apenas uma farsa, e retirar Henry com segurança da escotilha. Começou a arrumar suas coisas e enterrar os restos da fogueira, e Kate acompanhou-o nestes preparativos. Não tinham ânimo para conversar, e partiram da clareira em silêncio.

Kate parecia calma, mas sua mente não parava de funcionar um só instante. Não apenas pelo medo de se ver acuada pelos Outros em pleno território "inimigo", mas também por todos os acontecimentos que haviam antecedido aquele momento: a rede, a chuva, sua frase, a resposta de Jack, o beijo.

"Estou enlouquecendo, e ver aquele cavalo na floresta foi apenas um sinal. Como pensar no Jack nessa hora, em que tudo está tão perigoso e incerto". Inconscientemente, ela balançou levemente a cabeça.

Jack, que vinha caminhando pouco atrás dela, percebeu aquele gesto, e não pode reprimir um pensamento curioso: o que aquela cabecinha estaria planejando?

"Teve alguma idéia Kate?"

"Idéia? Não, nenhuma, por quê?".

"Você estava tão compenetrada pensando, e de repente balançou a cabeça...achei que era alguma idéia querendo fugir!"

Ela sorriu e aproveitou para fazer uma pausa, virando-se para ele.

"Estava apenas pensando...o que fazer nessa ilha senão pensar, afinal temos muito tempo pra isso."

"Eu sei, mas de repente parece que tudo desmorona sobre nós, e aí não sobra tempo para nada..." Um pensamento passou pela cabeça de Jack e sumiu no mesmo instante: o que ele e Kate poderiam fazer com algum tempo livre, se pudessem confiar mais um no outro?

"Nem tempo para ficarmos aqui parados, a praia não está longe e há muito que fazer lá antes do pôr-do-sol". Kate ficou arredia, e recomeçou a andar, apressada.

Jack ficou confuso e partiu atrás dela. Será que seu rosto tinha denunciado sua mente?

A caminhada até a praia mostrou-se rápida e silenciosa. Ouviam apenas os sons da floresta, já familiares, e os pés movendo-se ligeiros sobre as folhas. Kate fechou-se num mutismo teimoso, bem característico seu, e Jack resolveu respeitar, aproveitando para fazer uma lista mental das tarefas a serem executadas no acampamento quando chegassem.

A luz tornou-se mais intensa e a brisa soprou mais quente no rosto deles, sinal que a praia estava próxima. Sentir aquela areia fofa sob os pés e o cheiro de maresia era como estar de volta ao lar, de certa maneira.

Ao pisarem na praia, no entanto, a calma transformou-se em pânico, e eles se viram cercados. O que significava aquilo?

Continua.