As vezes, tudo se alinha perfeitamente; o universo falando através de discretos sinais, uma narrativa sutil e levemente obscura.

E foi assim que Sasuke se sentiu ao parar a frente daquela antiga casa de fazenda naquela quarta-feira a tarde. Ele voltava de uma reunião com a Associação de Comerciantes e Produtores de Konoha quando visualizou a antiga casa.

Ele já devia ter passado por aquela estrada umas duas vezes em seis meses e se consideraria um ninja muito ruim se não tivesse notado a velha casa antes. Mas, ele nunca tinha olhado para a casa daquele jeito. Claro que os arbustos quase a cobriam por completo e ela parecia sustentada por orações, mas algo nela prendeu o seu olhar. Talvez fosse a iluminação do dia. Estava anoitecendo, a luz do sol diminuíra significantemente e agora tudo era um jogo entre escuridão e luz. Caminhou para mais perto do imóvel abandonado, obtendo uma vista que chegou a atordoá-lo. Havia plantações de arroz que se estendiam desde o vale até os arbustos. Hectares e hectares de terra que se estendiam até o que deveria ser uma fronteira. O sol se abaixava no horizonte, dando um brilho dourado ao pitoresco cenário. A direita dele havia um caminho de pedras que sumia, escondido por um bambuzal. Sasuke seguiu o caminho emoldurado por cerejeiras e ameixeiras. A luz do sol manchava as folhas, dando um tom de sonho ao que via. Ele ficou ligeiramente surpreso em ver que estava no complexo Hyuuga. Caminhou até os portões ocidentais.

Sasuke foi escoltado até o pátio do equilíbrio e soube instantaneamente porque o chamavam assim. O chão era feito de pedras brancas, até o centro, onde havia um grande símbolo ying e yang. Era difícil andar naquele branco abundante. Em volta do pátio, um canal de água cristalina que circulava, entoando musicalmente o som tranquilizante das águas. Nas águas, poucas plantas aquáticas, mas algumas flores levadas pela correnteza. Glicínias brancas que caíam das videiras que se estendiam por todo o muro circular. Hinata estava ali, bem no centro do pátio, treinando, quando ele se aproximou. Sua escolta o deixou e ele notou que não foi anunciado. Nada surpreendente, vindo do clã Hyuuga. Ela devia tê-lo visto quando ele estava perto da casa de fazenda. Por outro lado, era impossível não percebê-la. A mulher terminava de realizar um kaiten. Não usava a yukata lilás aberta por cima de suas vestes curtas como costumava usar, desde que assumira o clã.

- Está sempre treinando nesse horário da tarde? - Ele perguntou, sorridente, enquanto entrava no campo de treinamento. Enquanto secava o rosto molhado de suor, ela o encarou.

- Eu tenho de me manter em forma, Uchiha. - Ela disse, a toalha ainda em mãos.

- E não tem tempo para fazer isso durante o dia?

- Claro, vou colocar isso na minha agenda, logo depois de administrar o maior clã de Konoha. - Ela rolou os olhos. Sasuke se lembrava de como ela era mais explosiva na adolescência. E de como ele adorava aquilo nela. Deu um sorriso.

- Eu normalmente me esqueço que você é a cabeça do seu clã.

Hinata ergueu uma sobrancelha. Sasuke não teve certeza do que aquilo causara na Hyuuga, só sentiu a súbita vontade de se explicar.

- Normalmente te vejo treinando por aí e você ainda vai em missões... - Ele tentou começar. Hinata não deixou que desenvolvesse suas justificativas.

- Hanabi me substitui, não tenho o desejo de ficar naquele escritório o resto da minha vida. - A maneira que ela disse aquilo foi abrupta e irritada. Algo em lembrá-la que ela não era mais apenas uma kunoichi da folha parecia irritá-la. Sasuke não era mais o idiota que apreciava as explosões da morena, então tentou ir direto ao ponto e mudar de assunto.

- Diga, Hina, você sabe quem é o dono da casa abandonada a duzentos metros da sua casa?

- Os Hyuuga. - Ele deveria saber. Agora, tentar não irritá-la era crucial. - Que história é essa de Hina?

- Velhos hábitos, Hinata. - Ele sorriu. Gostava de chamá-la assim, mas agora não era apropriado. - A casa está a venda?

- Está interessado, Uchiha?

- Pensando nisso, sim.

- Por quê?

- Eu pensei no que me disse. - Hinata se surpreendeu. Uchiha Sasuke ouvira o conselho sobre construir um lar. Um conselho vindo de uma moça divorciada aos vinte e cinco anos de idade.

- Ah, claro. Se quiser, posso te levar pra conhecer a propriedade. Qualquer compromisso pra sair daquele inferno. - Mais uma vez, o rancor com o posto foi sentido. Incrível como ela era cada vez menos sutil com Sasuke. Parecia o tempo da academia, tudo de novo.

- É um prazer ajudá-la com isso. - Ele riu, preferiu não comentar o que percebia. - Então... Está a venda?

- Se quiser comprá-la, os Hyuuga venderão. - Aquelas eram as palavras de uma líder e ele sabia. Hinata podia não gostar de ser a cabeça do clã, mas ela agia e falava como uma. Por um segundo, ele se perguntou sobre os jogos de poder dentro do clã Hyuuga, se lembrando do seu próprio finado clã. Afastou da cabeça os pensamentos.

- Certo. Bem, acho que já vou. Obrigado. - Ele se virou para deixar o pátio, sem se importar que ela o levasse até a saída. Era Hinata, afinal de contas. Ele não soube porque olhou para trás. Aparentemente, ela estava deixando o pátio também, alguns passos atrás dele. Quando ele virou, o vento bagunçava o cabelo dela, com mechas entrando em sua boca. E, emoldurado pelo cenário atrás de si, Sasuke se encontrou assistindo-a. Ela olhou para ele em confusão. Ele tentou se forçar a parar de encará-la, mas simplesmente não pôde. Em seu desejo de escapar do estranho constrangimento que se formava entre eles através dos olhares, Hinata fez exatamente o contrário do que queria.

- Quer ficar para um pouco de sakê? - Não precisava chamá-lo para estender sua visita. Ainda mais para tomar sakê. Conhecia o Uchiha e sabia que um convite para álcool com ele nunca terminava em aperto de mãos. Fazia muito tempo que ela não se sentia desconfortável ao ponto de dizer algo que não queria dizer.

- O quê?

- Está surdo?

Deuses! Ela deveria ter a absoluta certeza de que ele era um idiota, naquele momento. Ele nunca, jamais havia reagido assim quando uma garota bonita o chamava para beber. Inferno, ele nem sabia o que estava sentindo direito. Só sabia que estava desconsertado.

- Não, só não esperava que me convidasse. - Era a verdade. Esse era o choque.

- Então...?

Naquele momento, já estava escuro. Os olhos dela refletiam a luz da lua. Ela parecia um gato, ele pensava inutilmente.

- É... Eu tenho de ir. - Ele se virou e foi embora, sem olhar para trás, como se sua vida dependesse disso. Graças a isso, perdeu o suspiro aliviado de Hinata.

Sasuke era estranho, ela pensou. Estranho e idiota.