Cap. 2 - O descendente de Ermenegilda Cinderela

- Que cara é essa, Stephen?

- Cara de quê?

- De quem comeu e não gostou... – comentou Anne, a mãe do garoto, ao vê-lo chegar cabisbaixo do colégio.

Stephen então desabafou com ela. Estava com pena de Jared. Padarelo era uma ótima pessoa e não merecia ser maltratado assim... Se ele pudesse, trocaria de lugar com o amigo por um dia, para que ele fosse à festa no seu lugar... Afinal, Jared gostava de Jensen. E aquilo não era justo...

Anne, sensibilizada com a história, prometeu ajudar. Ela conhecia uma ótima costureira, e pediu que ela ajustasse uma das calças e uma boa camisa de Stephen para que coubessem em Padarelo. Uma semana antes do grande evento, o louro levou as roupas limpinhas e bem passadas e entregou ao amigo, que nem pôde acreditar.

- Meu Deus, Stephen! Muito obrigado! Você é um amigão! - comemorou o rapaz, sentindo-se extremamente agradecido. Padarelo havia encontrado um sapato velho de seu pai perdido pela casa. Estava apertado e um pouco gasto, mas mesmo assim, era melhor que qualquer um de seus calçados. Agora, com a calça e camisa de Stephen, tinha um traje completo para usar na festa. Só precisava convencer sua maldosa madrasta a deixá-lo ir.


No dia da festa, Jensen não estava muito animado, ao contrário de seus melhores amigos Mark e Misha. Os dois não falavam de outra coisa há dias. Imagina uma festa com todas as meninas da cidade? Tudo bem que todos os meninos também estariam lá, mas, mesmo assim, era uma excelente oportunidade para conhecer belas garotas. Além disso, sendo os melhores amigos de Jensen, eles ainda ganhavam destaque... A atenção estaria voltada para o louro, e, consequentemente, também um pouco para eles.

Jensen passou o dia sendo paparicado por cabeleireiros e costureiros, que ajeitaram seu cabelo e vestiram-no de forma pomposa. O rapaz, que era bonito de qualquer maneira, ficou um verdadeiro príncipe. Donna ainda queria que o filho chegasse à festa montado em um cavalo branco, para chamar ainda mais a atenção dos convidados.

- Não, mãe, está louca? Vão rir da minha cara pro resto da vida se eu chegar montado em um cavalo. Não vê o quanto isso é ridículo?

- Você nunca fica ridículo, Jensen... Você é lindo, meu filho. Só vai deixar as meninas ainda mais apaixonadas.

O louro fechou a cara e se negou veementemente. Já estava tendo boa vontade em aceitar a festa. Se o obrigassem a montar um cavalo ele iria embora no lombo do bicho para bem longe dali... Com medo que o filho fizesse exatamente o que disse, a mãe acabou por concordar em abandonar a ideia.


Enquanto isso, na casa de Padarelo, as irmãs Danneel e Genevieve já começavam a se arrumar, com horas de antecedência. Seus vestidos novos eram lindos, e iam até os pés. Elas não podiam estar mais contentes.

- Eu posso ir à festa também? - pediu Jared à madrasta – Eu consegui umas roupas emprestadas...

Madame Tremaine olhou para o rapaz dos pés à cabeça e sorriu maldosamente. Ela tinha outros planos para o garoto aquela noite.

- Não pode, Jared... Porque eu e as meninas vamos sair. Eu vou deixá-las na festa e depois vou a uma peça de teatro, fazer hora para buscá-las mais tarde. A mansão dos Ackles fica bem longe daqui... E você precisa lavar a louça do jantar e limpar a cozinha... Tem muitas tarefas para cumprir.

O rapaz engoliu em seco. Que mulherzinha nojenta! Ele a odiava com todas as suas forças. Padarelo olhou a cozinha. Estava suja, mas não imunda... Se ele se apressasse talvez tivesse tempo de terminar a tempo de ir com elas.

- E se eu limpar tudo? Posso ir à festa?

A madrasta bufou. Que garoto insistente...

- Tudo bem, Padarelo. Se deixar a cozinha brilhando você pode sair... Faça como quiser. Agora pare de me importunar que eu tenho que terminar de me arrumar.


Jared ficou feliz. Talvez tivesse uma chance no fim das contas! O moreno correu para o quarto e pegou as roupas que tinha recebido de Stephen. Experimentou-as e sorriu, ao ver que cabiam nele como uma luva. Aliás, o menino as havia experimentado tantas vezes, sonhando com aquele grande dia, que notou que tinham ficado ligeiramente amarrotadas. Padarelo então levou-as consigo para passá-las antes de se arrumar. Faria isso assim que terminasse a limpeza.

Jared então começou a lavar a enorme pilha de louças, apressado.

- Não lave de qualquer jeito, garoto. Esse copo ainda está sujo! - reclamou a madrasta, pegando e examinando o objeto com as mãos. Se Padarelo quisesse trabalhar com afinco para sair, tudo bem... Mas precisava fazer tudo com perfeição. Madame Tremaine detestava sujeira.

Para seu desespero, Jared viu a mulher colocar de volta na pia metade das coisas que ele havia limpado. Para piorar, Danneel e Genevieve pegaram pratos e copos limpos para "fazer uma boquinha" antes da festa. Desgraçadas... O menino tinha certeza que elas faziam tudo de propósito para atrapalhar seus planos.

- Será que você consegue lavar tudo isso, Jared? É muita coisa... - ironizou Danneel, aumentando a pilha ainda mais, com um prato sujo de sobremesa.

Em seguida a menina deixou a travessa de doce escapulir de suas mãos, e espatifar-se no chão. Foi doce e vidro para todos os lados.

- Danneel, minha filha! Você se sujou? - preocupou-se a mãe.

Mas Danneel conseguira proteger a roupa. Genevieve, se fazendo de assustada, derramou todo o suco de uva que tomava. Mas não em seu lindo vestido. O que o suco atingiu foram as roupas de Padarelo que esperavam para serem passadas...

- Minhas roupas! – berrou Jared, em desespero. Ele queria matar Genevieve. - Você me paga, sua desgraçada! Você fez de propósito! Como vou poder ir para à festa agora!?

A garota se fez de ofendida e foi choramingar para a mãe.

- Padarelo está me ameaçando... - reclamou ela.

Madame Tremaine então brigou com Jared, que, com os olhos cheios d'água, viu a madrasta atiçar fogo nas roupas que Stephen lhe emprestara. Quem mandou gritar com uma de suas meninas?

- Vamos embora, queridas... - chamou Madame Tremaine, largando Jared sozinho.

O pobre Padarelo estava inconsolável. As megeras saíram largando-o só com sua tristeza, o cheiro de fumaça, e a enorme sujeira da cozinha – que ele teria que limpar. Tentando conter o choro, o menino ligou para Stephen e contou o ocorrido. Eles não se encontrariam na festa àquela noite...


As lágrimas rolavam pelo rosto do jovem rapaz agora. Desde que seu pai morrera, o menino Padarelo não sentira mais o gosto da felicidade. Fora alguns momentos de alegria na escola, ele apenas sofria, humilhado por Madame Tremaine e suas filhas malvadas. Trabalhava dia e noite fazendo tarefas para as três, botando a mesa, lavando louças, roupas, lavando o chão e as privadas... O coitado vivia dolorido, e nem mesmo tinha tempo suficiente para estudar. Suas notas apenas despencavam...

Jared já estava acostumado com a dor e a humilhação, mas, naquele dia, sentia-se ainda mais triste e desesperançado. Seu coração doía em pensar que perderia aquela festa linda. A festa do seu príncipe... Enquanto isso, as irmãs Harris-Cortese, que tanto o maltratavam, teriam mais uma noite de alegria e diversão.

O menino esboçou um sorriso em meio aos seus pensamentos, enquanto catava os últimos cacos de vidro do chão. A vantagem de se chegar ao fundo do poço era a impossibilidade de que as coisas piorassem ainda mais. Era apenas isso que lhe dava forças.

- Venha o que vier, nada mais me abala nessa vida... – Disse o menino em voz alta, externando os seus pensamentos.

Foi nessa hora que ele sentiu um ventinho, movimentando seus cabelos crescidos. Padarelo olhou para trás, e lá estava ela: velha, enrugada, bem baixinha, com um chapéu pontudo, trajes esvoaçantes e duas pequenas asas. Imediatamente Jared retirou o que disse. As coisas ainda podiam piorar sim. E piorar muito...

- Aiiiiiii! Sai daqui, assombração! – Berrou ele, dando com uma colher de pau na cabeça da criatura, que guinchou com indignação.

- Para com isso, menino!

- Socorro! Sai daqui! Sai! Vai embora, seu espírito do mal!

Jared Padarelo fez o maior escândalo. Não queria morrer, vítima de uma alma penada qualquer. Ainda era muito jovem e tinha planos de ser feliz depois que se livrasse das megeras que atormentavam sua existência.

- Para como esse escândalo! – ralhou a velhinha. – Eu sou Haggquist, sua fada madrinha, e estou aqui para ajudar! Acalme-se...

Em seguida a fada pegou água com açúcar e ofereceu ao afilhado, que ainda estava muito ofegante e com o coração acelerado. Até aquele momento, ele achava que fadas madrinhas eram coisas de contos de fadas. Apenas ficção...

- Acontece que você é o tatara-tatara-tatara-tatara, e mais alguns tataras, tataraneto de Cinderela. E eu sou sua madrinha – assim como fui madrinha dela.

- Meu Deus, arregalou-se Jared. Quantos anos você tem?

- E isso é coisa que se pergunte a uma dama? – retrucou Haggquist, ofendida. Ela era velha, isso era verdade. Mais ainda podia fazer um ótimo trabalho. Ainda não estava gagá. Bem, pelo menos não muito...

Jared olhou para a mulher com assombro. Seus olhos estavam tão arregalados que parecia que sairiam de sua órbita. Nunca imaginou que Cinderela pudesse ser uma história real.

- Mas... Dona fada... – gaguejou Jared – Me diga...

- Dona Fada, não... Já disse que me chamo Haggquist! – interrompeu a velha.

- Hogwarts?

- Não. É Haggquist! Mas deixa para lá... - respondeu a fada, já perdendo a paciência - O que ia me perguntar, afinal?

- Cinderela existiu de verdade? Como na história? – Padarelo não conseguia acreditar.

- Sim, é real! É claro que com o passar dos anos, muitos detalhes foram esquecidos. Outras coisas, acrescentadas. "Quem conta um conto, aumenta um ponto". Nunca ouviu falar nesse ditado?

Jared assentiu.

- O nome dela era Ermenegilda Cinderela... Mas a menina não gostava do "Ermenegilda". Com razão, né? Exigia ser chamada pelo sobrenome... Aí, lá pelas tantas, uma descendente se casou com um polonês, de sobrenome Padalecki. Fundiram os sobrenomes, dando origem à família Padarela. Anos depois, outro descendente modificou para Paderelo, que soava mais masculino...

- Certo... – respondeu Jared, trêmulo. Era muito difícil acreditar naquilo tudo, mas ele não tinha opção. A velhinha voejava pela cozinha deixando-o ainda mais nervoso. Quem sabe pelo menos ela pudesse ajudá-lo como fez com sua afilhada Cinderela, há muitos anos atrás? Seria a sua sorte virando? – Você vai me ajudar a ir à festa do Jensen Ackles? – perguntou por fim, tomando coragem.

- Claro, meu querido. – respondeu a mulher, bondosamente. – Vamos primeiro cuidar dessa bagunça, e arrumar uma roupa bem bonita para você...