Absinto – Capítulo 1
Shaka desceu do taxi em frente a um portal muito decorado. As esfinges de mármore de cada um dos lados pareciam assustadoramente verdadeiras. Ao erguer o olhar, o cavaleiro notou a frase gravada no frontão, em um grego claro... A frase tão conhecida a marcar as entradas dos oráculos: "Conhece-te a ti mesmo; e conhecerá os segredos do Universo".
A frase parecia ameaçá-lo por suas dúvidas. Quase imaginava as esfinges se enchendo de vida e o atacando por tentar entrar com tantas dúvidas no coração. Respirando bem fundo, Shaka atravessa o portal, subindo as escadarias de mármore tão silenciosamente que parecia estar com medo de ofender algo em um lugar tão puro.
No alto da escadaria, uma moça de, no máximo 15 anos o aguardava com um meio sorriso enigmático no rosto. Ela lhe fez uma reverência e um sinal para que ele a seguisse, sem dizer palavra.
Se Shaka não morasse no Santuário há tantos anos, se assustaria com a suntuosidade sóbria do Templo. Diversas câmaras se abriam à esquerda e à direita, estátuas aqui e ali quebravam a monotonia das colunas de mais de 30 metros. A menina vira subitamente e entra em um cômodo anexo, se virando para o cavalheiro.
- Me desculpe, Cavaleiro de Atena, mas não poderá ir além deste ponto. É reservado às Sacerdotisas. Em um momento você será atendido. Aguarde aqui. – Ela fez outra profunda reverência e saiu sem esperar resposta.
Shaka observa o aposento, tentando absorver as informações que oferecia sobre o lugar e quem o habitava, mas descobriu que não havia muito. Se dirigiu à janela que dava para um suntuoso jardim, aonde seu olhar se perdeu, observando o fim da tarde se aproximar com luzes de todas as cores.
O barulho de passos o despertou e, olhando em direção à porta, vê que uma sacerdotisa acabara de entrar. De túnica branca que caía-lhe até os pés, cinto, braceletes e brincos prateados, os cabelos negros, longos e sedosos, presos em um rabo de cavalo com um prendedor prateado, ela sorriu, se aproximando.
- Você deve ser o Cavaleiro de Virgem, Shaka. – disse, estendendo a mão para um aperto. – Atena me disse que viria. Eu sou Sophia. Por favor, sente-se.
Shaka deixou-se cair em uma poltrona rigidamente. – Atenas me pediu para vir pessoalmente lhe entregar esse pacote. – Sophia o recebeu com um sorriso.
- Eu acredito que sei do que se trata. E foi muita consideração da Saori todo esse trabalho. Nos conhecemos há muito tempo, sabe? – Sophia sorriu ao perceber o desconforto de Shaka.
Ela abriu o pacote, tirando uma carta, que leu em silêncio.
- Como eu imaginava... Desculpe-me o incomodo, Cavaleiro, mas parece que devo voltar com você para o Santuário o quanto antes. Saori disse que lhe mandou para que pudesse me acompanhar, apesar de eu achar que não preciso de muita proteção. – riu-se.
- Voltar comigo? Algum problema?
- Ah, não! Problema algum. Apenas um favor a uma grande amiga... Ela disse que precisa de alguém para treinar as novas Cavaleiras.
- Você é Cavaleira? – disse Shaka apressadamente – Ah, me desculpe! Não quis parecer indelicado!
- De forma alguma! Eu sou... bom... pode-se dizer que eu tive certo treinamento. Mas não sou uma Cavaleira no senso estrito. Eu não tenho nada a proteger, a não ser a criação da nossa deusa. – Disse, se levantando. – Bom, vamos indo? Já tinha preparado minha partida. A vantagem de se ser uma sacerdotisa é que se têm poucos pertences. Só peço que me espere trocar para roupas comuns.
Shaka assente com a cabeça.
Sophia volta cinco minutos depois, vestida com uma blusa de manga 3/4 e uma saia de linho na altura do joelho, os cabelos soltos. Espera Shaka se levantar, parecendo ainda um pouco confuso, e se dirigem para a porta, onde estão duas malas e uma caixa de armadura. Sophia levanta uma sobrancelha sorrindo enquanto coloca a armadura nas costas e tenta pegar uma das malas, sendo impedida por Shaka, que pega as duas malas.
Enquanto se dirigem para a porta do Templo, Sophia tenta conversar.
- Você é bastante sério, não? Quase não falou desde que entrou no Templo.
Shaka ponderou um pouco sobre a estranha pergunta antes de responder.
- Pode-se dizer que sim. Mas tudo aconteceu tão rápido! E ainda mais tenho outras coisas passando por minha cabeça no momento.
Sophia acenou a cabeça em compreensão e não perguntou mais nada.
A viagem de volta foi rápida e tranqüila. Shaka tentou continuar a pensar sobre as dúvidas que povoavam sua cabeça, mas a presença da sacerdotisa dificultava um pouco as coisas. Ou melhor, a curiosidade do cavaleiro dificultava um pouco as coisas.
Sophia continuava com uma expressão leve, lendo um livro tão grosso quanto um tijolo, olhando pela janela de quando em quando. Mas Shaka, não caracteristicamente, mal conseguia manter-se sentado. Umas duas ou três vezes Sophia conteve uma risadinha ao ver o cavaleiro esticando o olho para ver o que estava lendo. Decididamente, ele parecia um peixe fora d'água.
Sua curiosidade vencendo, depois de uma grande batalha interna, Shaka pigarreia antes de perguntar.
- O que exatamente faz uma sacerdotisa de Ártemis?
- O que fazemos? – riu Sophia. – Bem, nós protegemos, como vocês, cavaleiros, certas coisas que valem a pena serem protegidas.
- Protegem coisas?
- Sim, protegemos... Durante os tempos difíceis, certas coisas devem ser resguardadas. Ou achava que só vocês protegem o 'mundo'? Protegemos coisas diferentes e de formas diferentes, é verdade... mas todos doamos a nossa vida à isso, não?
- É verdade... – respondeu Shaka reticente, sua mente entrando novamente em parafuso.
Se sua função havia sido proteger a Terra, porque Atena havia ressuscitado ele depois do final da Guerra Sagrada? Já havia cumprido sua função como cavaleiro. Havia doado sua vida pelo que acreditava. Sentia-se feliz em fazê-lo. Sentia-se feliz em morrer!
Estava tão certo de que tinha continuado a viver para poder descer aos Infernos e morrer com seus amigos, destruindo àquele muro... Quando se viu de volta à Casa de Virgem, como se nada tivesse algum dia acontecido, seu primeiro pensamento foi 'o que fiz de errado?'. E a sua falta de coragem de expressar essa imensa dúvida à Atena ainda o corroia. Seria um castigo de ter que experimentar de uma vida sem propósito? Não haveria superado o medo da morte, como acreditava ter feito?
Demorou um tempo para que, Shaka, de olhos fechados, percebesse que Sophia o observava. Entreabriu os olhos para perceber um rosto com uma ponta de preocupação olhando-o de volta.
- Você está bem?
- Ah, sim! Claro! Estou.
A expressão de Sophia suavisou. – Não há mesmo como escapar, não é?
- Escapar...?
- Da angústia de se ser um cavaleiro.
Shaka a olhou espantado.
- Se não se incomoda em ouvir, posso te falar exatamente o que há de diferente entre um guerreiro e uma guerreira. – Sophia continua em resposta à expressão de Shaka – Os guerreiros lutam para defender a vida e a liberdade... As guerreiras lutam por amor. Para poupar sofrimento àqueles que ama... Mas mesmo com essas motivações diferentes, ambos lutam pela Justiça. Não a Justiça dos homens. A Justiça dos Deuses. Aquela que transcende até o nosso mais alto pensamento. E talvez por isso mesmo que sejamos sempre angustiados: lutamos por uma coisa a qual não compreendemos profundamente. Há grandes mistérios para nós...
- Eu achava que já havia desvendado esses mistérios... – Shaka murmurou para si mesmo.
- Me desculpe, o quê?
- Não é nada!
E passaram o resto da viagem em silêncio.
Decidi condensar um pouco os Capítulos... vi que eram muitos e, muitas vezes, curtos demais. Desse jeito, quando a história acabasse, estaria com 60 capítulos. Mas o conteúdo continua o mesmo.
E, por favor, pessoal! Comentem! Só assim para saber se vcs estão gostando, se o português está minimamente descente, etc, etc, etc... :D
