Capítulo 2
Parte de mim queria não se importar com isso e simplesmente deixá-la lá fora, mas o meu lado de médico me impedia de ver alguém naquele estado e não fazer nada, sabendo que ela poderia adoecer. Ou talvez eu apenas estivesse tentando me enganar quanto a achar que queria o pior para ela, quando claramente ainda me preocupava.
Tornei a pegar o meu casaco e saí da casa antes de pensar muito a respeito daquilo, porque eu sabia que, no fim, faria a mesma coisa.
— O que está fazendo aí fora? — perguntei, parado em frente à casa, falando num tom alto para que ela me ouvisse através do vento forte, em dúvida se me aproximava ou não.
Bella obviamente se assustou, pulando de onde estava. Meio desastrada, ela ficou em pé, tendo que se apoiar no meu carro quando seu corpo trêmulo de frio se recusou a se firmar.
— Esperando um táxi — ela respondeu apenas.
— Não há táxis nessa região e com-
— Eu liguei para uma empresa. Eles falaram que pode demorar um pouco.
— E com essa tempestade — continuei como se não tivesse sido interrompido — você não vai conseguir táxi em lugar algum. Talvez na orla, com muita sorte.
Bufando irritada, Bella lançou alguns olhares para a rua deserta, como se esperasse que um táxi surgisse do nada, mas logo desistiu quando viu que era uma esperança sem fundamento.
— Será que você poderia me dizer para que lado fica o Flagstone?
— Flagstone? — exclamei, esquecendo completamente de manter a postura distante que tanto me esforcei para exibir, apenas por ouvir aquele nome. — Você está no Flagstone?
— Estou — Bella respondeu recuando um passo quando me aproximei de forma involuntária.
— Aquilo é um motel, Isabella. — Mas então, antes mesmo que as palavras terminassem de sair da minha boca, algo me ocorreu. Algo que eu preferia nem pensar a respeito. — Você veio com alguém?
Só então, ao parar perto de Bella, pude ver melhor seu rosto que a rua escura cobria de sombras. E foi com um aperto no peito que me dei conta de que ela estivera chorando. Não havia lágrimas no seu rosto, mas seus olhos vermelhos e inchados deixavam isso óbvio. Saber que aquilo tinha sido por minha causa, por mais que a desprezasse no momento, me fez sentir o pior dos homens.
— Sinto muito — murmurei, sem saber exatamente o que falar. Mas antes que pedisse desculpas por ter feito-a chorar, voltei à mim a tempo de não deixá-la perceber o quanto ainda me afetava, recobrando a postura firme e distante. — Isso não é da minha conta — completei, me referindo à pergunta feita anteriormente.
Já ia me afastando novamente quando sua voz me deteve.
— Eu não vim com ninguém — ela se apressou a falar, fazendo com que eu me voltasse na sua direção mais uma vez. — Eu só... O Flagstone foi o único que encontrei que não precisava reservar antes.
Eu não queria sua explicação. A vida daquela pessoa não me dizia mais respeito algum. Ainda assim, saber que ela estava sozinha me fez sentir um pouco melhor. Embora isso não significasse exatamente que ela estava solteira. Apenas que tinha vindo sozinha.
Mas, levando em consideração que ela havia me enviado aquela fatídica carta há cerca de três semanas, duvidava muito que ela estivesse namorando. Por outro lado, vindo de Bella eu esperava qualquer coisa.
— O Flagstone fica a cerca de três quilômetros daqui — respondi por fim. — E além do caminho ser perigoso para ser feito a essa hora, aquele lugar não é para você. Acho que você deveria mesmo aceitar o convite de Bianca e ficar aqui.
— Eu não quero atrapalhar — ela comentou, lançando um olhar para a casa às minhas costas. — A mãe de Bianca está toda preocupada com a filha, obviamente, e uma visita em casa agora não vai ajudar. Ela nem mesmo me deixou ajudar a dar banho em Bi quando me ofereci mais cedo.
— Ana não é muito de aceitar ajuda.
— Por isso prefiro ficar num hotel — Bella concluiu, dando de ombros. — Se não posso ajudar, então é melhor ficar fora do caminho para não atrapalhar.
Lancei um olhar para a casa atrás de mim, pensando no que deveria fazer. Ou melhor, pensando no que queria fazer, mas sabia que seria um erro. E pensando no que era certo fazer, mas que estava longe de ser o que eu queria fazer.
Por um lado, tudo que eu mais queria era ir embora dali e só aparecer novamente para visitar Bianca quando tivesse certeza de que Bella estava bem longe. O meu outro lado, no entanto, sabia que deixar Bella ir andando sozinha até o Flagstone – um motel com péssima reputação – seria egoísta e errado.
Então, tudo que fiz foi tornar a entrar na casa sem falar nada, deixando Bella sozinha lá fora, mas apenas por tempo suficiente para subir as escadas e avisar a Ana que estava indo embora e levaria Bella para o hotel em que estava hospedada.
— Entre — pedi, quase ordenando, segurando a porta do meu carro aberta para que ela entrasse. — Vou levar você.
— Não precisa. Eu não quero te tirar do seu cami-
— Apenas entre de uma vez, Bella — pedi impaciente, levando uma mão aos cabelos.
Não sei se por ter visto algo na minha expressão ou por ter começado a chover naquele instante, mas Bella rapidamente entrou no carro e se acomodou no banco do passageiro, colocando logo o cinto de segurança. Dei a volta ao carro e entrei também, batendo a porta com mais força do que era necessário, logo ligando o motor.
O caminho inteiro foi feito em completo silêncio, enquanto eu tentava imaginar o que ela poderia estar pensando. Ao mesmo tempo fazia de conta que Bella não estava sentada logo ao meu lado dentro do meu carro, me obrigando a não pensar na última vez que isso tinha acontecido; na forma como ela tinha me provocado com seus pés no caminho entre Port Angeles e Forks, e em como eu tinha sido fraco e tivera que parar o carro, puxando seu corpo pequeno contra o meu. E me obrigava, principalmente, a não pensar na imagem dela sentado no meu colo, presa entre meu corpo e o volante, seu quadril ondulando contra o meu, me deixando completamente louco de desejo enquanto ela buscava pelo próprio prazer.
Os nós dos meus dedos estavam brancos com a força com que eu apertava a direção, me odiando por ser tão fraco a ponto de sentir meu corpo reagir apenas por aquelas lembranças. Um calor intenso se concentrava na altura do meu quadril e eu me forcei a pensar em outras coisas. Como no que Bella tinha feito no final de tudo, por exemplo.
Sua mentira, sua atitude infantil, foi mais que suficiente para me deixar controlado, embora não mais calmo.
Diminuí a velocidade enquanto entrava no estacionamento no Flagstone, mas pisei no freio antes de parar em uma vaga. Bella, no entanto, deve ter pensado que ali era o ponto final da carona, porque levou uma mão à maçaneta da porta, pronta para sair do carro.
— Espere! — pedi, mais uma vez num tom mais rude do que pretendia. — Você não pode ficar aqui.
— Por que não? — ela perguntou, seu tom claramente soando como um desafio.
Sentia que ela estava me observando, mas minha atenção estava completamente voltada para um ponto mais à frente, onde um casal, sem se preocupar em estar em lugar público e sabendo que qualquer pessoa poderia ver aquilo, transava debaixo da escadaria que levava ao andar superior, os dois em pé, a mulher prensada contra a parede.
— Eu... Eu não vou para aquele lado — Bella falou depois acompanhar a direção do meu olhar, soltando uma pequena exclamação de surpresa. — Meu quarto é aquele ali — ela continuou, apontando para uma porta com tinta vermelha descascada, não muito longe de onde eu tinha parado.
De fato o seu quarto não ficava perto das escadas, mas foi só olhar ao redor para ver que aquele lugar definitivamente não era para alguém como Bella. Além de toda a construção estar em péssimo estado, qualquer pessoa poderia forçar entrada nos quartos, uma vez que o estacionamento ficava em frente a eles, sem qualquer supervisão ou controle de hóspedes. E quando um homem enorme, de barba e aspecto sujo e violento, passou ali por perto e olhou para dentro do meu carro, dando uma atenção especial ao analisar Bella, eu fiquei ainda mais decidido a tirá-la dali.
— Você não vai ficar aqui.
Sem esperar por uma resposta sua, estacionei na primeira vaga que encontrei e desci do carro às pressas, dando a volta no veículo para abrir a porta para ela. Bella desceu confusa, mas me acompanhou quando andei até a frente do seu quarto.
— Pegue suas coisas. Vou levar você para outro lugar.
— Eu não preciso da sua ajuda, Carlisle — ela devolveu em tom de desafio, enquanto procurava as chaves na sua bolsa. — Obrigada pela carona, mas vou ficar por aqui mesmo.
— Esse não é o momento para ser orgulhosa, Isabella. Arrume suas coisas enquanto eu vou encerrar sua conta.
Mais uma vez lhe dei as costas sem esperar por resposta, mas novamente sua voz me impediu de ir muito longe.
— Eu sou a orgulhosa aqui? Por acaso sou eu que estou deixando o orgulho falar mais alto e estou evitando conversar sobre o que aconteceu entre nós?
Aquelas palavras me pegaram mais de surpresa do que eu queria admitir. Eu, definitivamente não estava preparado para falar sobre aquele assunto ainda. E foi apenas por isso que não consegui controlar meu tom ao lhe responder, falando com ela quase aos gritos.
— "Nós" nunca existiu, Isabella! Na minha mente, talvez, enquanto você me enganava com seu joguinho sujo e egoísta. Mas nunca houve "nós" de verdade. Não para você! — Enquanto ela me encarava com o olhar arregalado, eu me obriguei a respirar fundo, sentindo minhas mãos tremerem de raiva, quando tudo que eu mais queria naquele momento era despejar nela tudo que tanto queria falar. Mas sabia que aquele não era o lugar nem o momento. Eu não sabia sequer se queria falar sobre aquilo algum dia. — Se você for um pouco esperta, vai evitar tocar nesse assunto novamente, e vai aceitar a minha oferta de sair desse lugar imundo.
Simplesmente lhe dei as costas mais uma vez e andei decidido até a recepção desorganizada, onde um atendente dormia apoiado no balcão. Levei apenas cinco minutos ali dentro, pagando mais do que era cobrado para que ele me deixasse encerrar a conta que estava em outro nome, e dei graças a Deus quando Bella chegou carregando uma pequena mala e lhe entregou as chaves no seu quarto.
Voltamos para o carro em silêncio e saímos depois de guardar sua única bagagem no banco de trás.
— Por que você está fazendo isso? — Bella perguntou depois de um tempo, falando rápido como se tivesse receio de desistir. — Por que você está fazendo isso quando claramente não se importa comigo?
— Porque, diferente de você, Isabella, eu não faço as coisas pensando apenas em mim — respondi antes de sequer pensar um pouco sobre aquela pergunta. Talvez, se eu tivesse pensado mais, aquela resposta não teria sido a mesma. Ou talvez tivesse, mas não de forma tão direta e ríspida. — Você poderia ser uma completa desconhecida para mim, mas ainda assim estaria fazendo a mesma coisa.
O resto do percurso foi feito em silêncio, dessa vez um pouco mais pesado que o anterior, a tensão quase podendo ser tocada dentro daquele carro.
Bella só tornou a falar quando parei o carro em frente ao hotel Queen Victoria, que não era exatamente o melhor de Port Angeles, mas era bom o suficiente a ponto de ter estacionamento privativo, manobrista e carregador de bagagem.
— Você nunca vai me perdoar, não é? — ela perguntou num sussurro, quando parei o carro.
Vendo que ninguém descia, o manobrista que estava ao meu lado se afastou um pouco, como se soubesse que precisava dar um tempo para as pessoas dentro daquele carro.
Respirei fundo olhando apenas para as minhas mãos que continuavam no volante, dessa vez pensando antes de responder, mas apenas porque não sabia o que dizer naquele momento. Mentir e dizer que não? Que eu nunca seria capaz de perdoá-la? Ou mentir igualmente ao dizer que eu poderia fazer isso um dia? O problema era exatamente esse. Eu não fazia ideia.
— Não sei. Na ocasião eu teria dito não, sem titubear, mas dizer que eu sei que vou te perdoar também não seria verdade. Não sei se eu quero te perdoar.
— Ou se eu mereço isso? — ela completou com a voz ainda mais baixa.
Eu não deveria ter olhado na sua direção naquele instante, porque a sua voz pastosa deixava claro que ela estava prestes a chorar. Mas ver seus olhos cheios de lágrimas me impediu de responder a sua pergunta, e tudo que eu fiz foi voltar a olhar para a frente, sem enxergar nada de verdade.
Não, eu não achava que ela merecia perdão algum.
— Tudo que escrevi naquela carta era verdade — Bella comentou depois de mais um tempo em silêncio, seu tom ainda trêmulo. — Eu realmente sinto muito pelo que fiz. E por ter te afastado de Edward. Eu sei que a relação de vocês nunca foi boa, mas eu não tinha o direito de piorar tudo. Eu também não menti quando disse que meu maior arrependimento foi ter te enganado e te envolvido naquela vingança idiota. Eu posso ter mentido muito para você naqueles dias, mas tudo naquela carta era verdade.
Aquelas palavras revelavam mais do que eu gostaria de ouvir. Bella não apenas estava se desculpando pelo que fizera, como também estava dizendo de forma indireta que o que ela sentia por mim não havia mudado. Porque a ênfase no "tudo" deixava claro ao que ela se referia.
— Eu nunca tive um relacionamento fácil com o meu filho, e ele ter deixado de falar comigo por esse motivo foi apenas uma desculpa que encontrou para me evitar como vinha tentando fazer há anos. Também não menti naquela carta. Não culpo você por ter me afastado de Edward.
Antes que ela pudesse processar as minhas palavras, saí do carro e entreguei as chaves ao manobrista, enquanto ia até a recepção.
Sim, eu tinha falado o mesmo que Bella. Tinha deixado claro que tudo que havia naquela carta era verdade. Inclusive a parte em que tinha me apaixonado por ela.
